ă â âł â O fim do amor Ă© doloroso, muito mais do que o prĂłprio fim de duas pessoas. Miranda e HadrĂan haviam chego ao fim hĂĄ um ano, quando o silĂȘncio ficou ensurdecedor e a comunicação, ou falta dela, fora os afastando cada vez mais. A garota sofreu como qualquer outra faria em seu lugar, afinal, coisas que sequer conseguiram começar, haviam se acabado. PorĂ©m, fora o fim apenas de duas pessoas que nĂŁo conseguiam mais ficar juntas, que nĂŁo conseguiam ficar lado a lado, e nĂŁo o fim do sentimento. Mesmo depois de tudo, havia restado carinho, que apĂłs as cicatrizes serem curadas, saiu de onde havia ficado escondido por um tempo. E entĂŁo eles foram se aproximando gradativamente, como amigos. A vida os empurrando para frente enquanto o carinho os fazia voltar para trĂĄs. NĂŁo de forma verdadeira, visto que jamais haviam voltado a se envolver, mas a nostalgia se fazia sempre presente nos encontros dos dois. Mas a vida Ă© para frente, certo? E naquela noite Miranda havia sido empurrada abruptamente para diante. Descobrir que o outro em breve se tornaria pai, pareceu a libertar de qualquer sentimento passado que houvesse lhe tocado antes. Na verdade, a informação havia sido uma literal libertação para De Vil, que mesmo sentindo a tĂŁo humana pontada de ciĂșmes, desejou os mais sinceros parabĂ©ns. NĂŁo sĂł para ele como para Aletheia tambĂ©m. E embora esperasse ser consumida pela dor do fim do amor, nĂŁo a sentia. Imaginando estar entorpecida demais para o fazer, havia se sentado afastada de todos, como se esperasse a ficha cair, como se estivesse se entregando como alvo para a tormenta. NĂŁo que desejasse estar em pĂșblico quando caĂsse sem ter nada para se segurar, apenas nĂŁo tinha vontade alguma de voltar ao seu quarto. Mesmo tendo o desejado desde seu chegar Ă festividade. Lembrou-se entĂŁo como havia chego atĂ© ali, como todo o seu dia parecia gravitar para que aquilo acontecesse. Desde o encontro com Brigitte Ă rendição em relação ao pedido de Theia. Tudo parecia conspirar Ă favor daquilo. AtĂ© mesmo o fato de servir como barbie para Rejane, que a havia vestido cuidadosamente. Miranda precisava passar por aquilo, assim como algumas coisas parecem precisar acontecer. Puro capricho do destino. O esgotamento mental das Ășltimas semanas, unido com o esgotamento psĂquico da Ășltima hora, fazia com que agisse quase de forma automĂĄtica. Tornou-se monossilĂĄbica enquanto tentava entender tudo o que acontecia, oferecendo pequenos sorrisos atĂ© ele chegar. Que com o poder que parecia ter sobre Miranda, renovou suas energias. De Vil o observou de maneira cuidadosa, mesmo estando Ă alguma distĂąncia dele. Os olhos capturando as micro expressĂ”es do moreno, como se precisasse decorar cada mĂnimo detalhe de seu rosto. Notara a hesitação do rapaz, como se ele houvesse ouvido um chamado silencioso. Se o flautista olhasse para ela, acenaria, seu braço esquerdo levantando sutilmente como se estivesse se preparando para o cumprimento. PorĂ©m, ele nĂŁo olhou, apenas continuando seu caminho. E os olhos da filha de Cruella o seguiram concentrados antes de o perder de vista, e entĂŁo, a prole da vilĂŁ ser vista em pĂ©. Saltos ecoando pelo salĂŁo enquanto fazia seu caminho o seguindo.
Assim como outrora dito sobre o fim do amor, o começo tambĂ©m Ă© confuso. NĂŁo doloroso, mas difĂcil. Ă certo que o amor começa no inexplicĂĄvel, que rompe a membrana tĂȘnue que separa as coisas da vida corriqueira e seus acontecimentos rasteiros. Porque o amor pertence Ă insuspeitada categoria das coisas imprevisĂveis. A statera jĂĄ havia aceitado que sentia algo diferente pelo amigo, algo que ia alĂ©m da amizade. Mas se via impedida de demonstrar explicitamente, ainda mais considerando que existia o risco de nĂŁo ser correspondida, o que implicaria diretamente na amizade deles, caso seus sentimentos fossem revelados e nĂŁo fossem recĂprocos. Ademais, nunca havia sentido algo semelhante, nem mesmo enquanto namorada com HadrĂan. Assim sendo, nĂŁo sabia dizer o que era aquilo, sequer conseguia ela mesma entender o que acontecia consigo, explicar para outra pessoa seria ainda mais trabalhoso. O coração parecia desejar sair por sua garganta, as mĂŁos suavam frio e por mais agitada e ansiosa que estivesse, sentia-se calma. Ela sĂł estava indo verificar o estado do amigo, perguntar como ele estava se sentindo apĂłs os Ășltimos eventos, apĂłs a saĂda de Lance da academia, que mal tinha nisso? O estĂŽmago se agitou em uma sensação estranha, porĂ©m agradĂĄvel, que a fazia se sentir atĂ© mesmo mais leve. Asas de borboleta. Lembrou-se de Autumn tentando explicar aquela estranha sensação para ela dias antes, como um adulto explicaria para uma criança, sendo inevitĂĄvel nĂŁo lembrar-se de Rowenna no momento. Conseguia visualizar perfeitamente as feiçÔes infantis e curiosas da criança ao ouvir que nĂŁo eram borboletas literais que voavam no estĂŽmago dos apaixonados, e mesmo nĂŁo tendo experimentado a sensação real, diziam se assemelhar com aquilo. Miranda respirou fundo ao virar no corredor que a levaria atĂ© o quarto masculino, os batimentos do coração ecoando por seus ouvidos enquanto percorria os Ășltimos metros que os separavam. E entĂŁo, falanges atingiram a madeira em leves batidas. JĂĄ diante da porta masculina, se balançou para frente e para trĂĄs nos prĂłprios pĂ©s, enquanto aguardava que ele a atendesse. Tudo parecendo estar se passando em cĂąmera lenta bem diante de seus olhos. LĂĄbio inferior foi capturado entre os dentes, buscando controlar a prĂłpria respiração enquanto aguardava, ansiosa. Ainda lembrava da sensação que os envolveu duas vezes. Do silĂȘncio que a fazia querer flutuar, mas principalmente, unir-se Ă ele em um beijo. Ou talvez, aquilo tudo estivera apenas em sua cabeça, que tentava lhe pregar uma peça ao fazĂȘ-la acreditar que aquilo era sentido pelos dois, e nĂŁo apenas por Miranda. A porta se abrindo arrancou a garota de devaneios, e ela bateu pestanas docilmente antes de observĂĄ-lo. Toda ansiedade se esvaindo de seu corpo quando os olhos esverdeados encontraram-se com os dele, o sorriso se formando em seus lĂĄbios de modo involuntĂĄrio, como se fosse impossĂvel nĂŁo reagir daquela forma Ă Domhnall.
O silĂȘncio instaurado entre eles nĂŁo era incĂŽmodo ou constrangedor, muito pelo contrĂĄrio. Era aquele silĂȘncio capaz de fazer Miranda sentir-se nas nuvens. Ainda mais quando combinado com o olhar do garoto para si, que este sim, lhe trazia um rubor Ă face. No entanto, nĂŁo sentia-se envergonhada por estar vestida como estava, na verdade, sentia-se orgulhosa, como se tivesse conseguido alcançar seu objetivo. De toda forma, era incapaz de ignorar as roupas do outro. Suspeitava, no entanto, que qualquer peça que o cobrisse ficaria boa nele, mas a vestimenta formal fizera seu coração pular uma batida. Domhnall parecia um verdadeiro prĂncipe, e a garota viu-se incapaz de impedir-se de lhe dar esse tĂtulo mentalmente. Havia o visto no baile daquela noite algumas vezes, o reconhecendo mesmo mascarado. Afinal, ela sempre o reconheceria, sempre seria atraĂda para ele, independente da situação. A recepção singela, porĂ©m calorosa, que o outro lhe oferecia, dava Ă Miranda a sensação de estar em casa, de estar em seu lar. Uma sensação de que havia encontrado seu lugar, e tornava-se inevitĂĄvel nĂŁo comprar aquele sentimento com a vontade de estar nos braços do flautista. Era incrĂvel como as menores coisas que ele fazia, pareciam as mais importantes para Miranda. Como a forma que ele lhe sorria no momento, ou como suas maçãs estavam ligeiramente coradas. TambĂ©m notara afinal, os olhos sutilmente avermelhados, franzindo sobrancelhas por um instante. PorĂ©m, qualquer raciocĂnio da garota fora fragmentado quando ele respondeu ao seu cumprimento. Domhnall a chamara de anjo desde a infĂąncia, e mesmo assim, Miranda era preenchida pela mesma sensação como se aquela fosse a primeira vez que o outro usava o apelido. Mas tudo isso era guardado para si, em seu coração, enquanto sorria para ele, meneando levemente a cabeça para os lados e apoiando-se no lado oposto Ă ele na porta. Dedos brincando com as fitas de sua mĂĄscara, como se buscasse alguma distração.  â Na verdade, eu vim saber como estĂĄ. AlĂ©m de, novamente, te agradecer pelo cabelo, muitas pessoas perguntaram se eu havia ido em algum salĂŁo ou que tipo de mĂĄgica havia usado. â Riu baixinho, meneando a cabeça para os lados ao recordar-se do breve encontro com Narciso. Os elogios recebidos pelo outro haviam feito com que Miranda rolasse os olhos internamente, antes de, de forma educada, se esquivar dele. Acompanhou o olhar do outro para dentro de seu quarto, um pouco curiosa. Havia um tempo que nĂŁo entrava ali e passava horas conversando ou simplesmente em silĂȘncio ao lado dele, e a curiosidade a instigava quase tanto quanto a brincadeira que viria em seguida. Miranda mordeu levemente os lĂĄbios, segurando o riso que ameaçava escapar. Depositando o peso do corpo em uma perna, chutara levemente a perna do amigo para chamar sua atenção, apontando com a cabeça para o quarto. â O senhor Flutbreeze estĂĄ acompanhado ou irĂĄ convidar sua velha amiga para entrar? â Questionou com um arquear de sobrancelha, as bochechas corando pelo fato de, implicitamente, estar pedindo para entrar no quarto dele. Fora impossĂvel nĂŁo comparar a atitude com os eventuais sumiços de Autumn durante eventos, quando estava solteira, principalmente. E tal comparação fora a responsĂĄvel pelo tom vermelho manifestado em suas bochechas. Embora sua suposição fosse apenas uma brincadeira, uma que Miranda possuĂa quase total certeza de que era falsa, esperava atĂ© mesmo com alguma ansiedade o garoto dizer que estava sozinho. ă