O irlandês não tinha ideia do motivo que o levavam a agir com tanta malicia perto de Manon, talvez fosse o fato da personalidade estoica da loira, a qual ele considerava um desafio driblar para então encontrar uma Manon mais humana, como aquela dos sonhos. Ah, o sonho. Aquilo ainda o perseguia todas as noites que resolvia tentar dormir e não seguir por sonhos alheios, sempre se pegava tentado a invadir os sonhos da loira novamente em busca daquele sonho, mas sabia que não encontraria. Acreditava que desde a noite em questão, Manon sequer dormia direito com medo de sonhar. ❛Eu vi o suficiente. Sua camisola era bastante transparente.❜ Respondeu de forma despojada. Ele deu de ombros quanto a próxima acusação, virando o rosto momentaneamente para encará-la enquanto ela se despia. ❛E qualquer pessoa que não tenha pudor é considerada pervertida por você?❜ Questionou com seriedade, estavam começando a entrar em mais uma discussão, já que Manon sempre agia como se Ronan fosse um depravado sexual, até mesmo quando a única coisa que ele queria era não morrer congelado.
Voltou a encarar a parede e então sentiu as peles se moverem e ele se afastou mais para o lado dando lugar a búlgara, que permaneceu com as peças íntimas. O irlandês se moveu e colocou um bocado de pele entre ele e a loira, impedindo assim que eles se tocassem ou algo mais, afinal, qualquer toque — por mais inocente que fosse — seria considerado um abuso sexual por parte da outra. ❛Bonita lingerie, aliás.❜ Comentou enquanto voltava a deitar-se de frente, ignorando o fato que Manon queria que ele mantivesse os olhos na parede. ❛Tão bonita quanto a da outra noite.❜ E lá estava, o sonho novamente permeando a conversa dos dois. Ronan suspirou exasperado cansado daquele jogo idiota com a loira, virando-se para ela e utilizando seu braço como apoio. ❛Realmente vai continuar nesse joguinho? Você sabe que sonhos são a manifestação dos desejos, Manon, não seria um pecado capital assumir que está atraída por mim.❜ Mais um suspiro exasperado enquanto ele voltava a se afastar e tentava se acalmar.
Sabia que seria uma ousadia para a atual situação, mas lentamente tirou os cabelos que cobriam o pescoço de Manon, a loira poderia se virar e arrancar seu membro no mesmo instante, mas Ronan não a temia. Com a ponta de seus dedos ele tocou a região que horas antes ele tinha depositado um beijo, afastando os dígitos logo em seguida. ❛Eu te beijei para saber como era a sensação de sua pele na realidade.❜ Mais uma vez as mãos de Ronan se moveram, dessa vez os dígitos tocaram de leve a pele das coxas desnudas da loira, as mesmas coxas as quais ele tinha tocado tão firmemente na outra noite. ❛Para ter certeza que não era apenas outro sonho.❜ Mencionou com os lábios próximos ao ouvido da loira, enquanto deslizava sutilmente os dedos pelo local, subindo até tocar o tecido da lingerie e então recuando.
A proximidade fazia com que as imagens do mundo onírico retornassem à mente da protegida de Nox, lembrando-se ela claramente do contato com Ronan na ocasião. Não sabia por que sua mente se recusava a apagar as imagens, quando coisas por ela consideradas mais importantes sumiam rapidamente. Supôs que tivesse a ver com os poderes de Morfeu, se negando a admitir que as memórias nutrissem relação com os próprios desejos. O loiro também insistia em reavivar as lembranças com suas provocações, e Manon decidiu que aquilo não seria motivo de constrangimento para ela, quando claramente não era para o príncipe. ❛ Nossos conceitos de transparência são bem diferentes, alteza. Garanto que não tenho nada assim em meu guarda-roupa ❜, rebateu, não se dando conta de que estava falando acerca de suas roupas íntimas com Ronan. ❛ E não seriam? ❜, disse, respondendo a pergunta com outra, a sobrancelha se arqueando em desafio, enquanto ela deixava bem claro seu ponto de vista. Um sorriso mínimo surgiu nos lábios da princesa ao perceber que o O’Keeffe estava desconfortável com o fato de ela pensar que ele era um pervertido. ❛ Ora, se não gosta da nomenclatura não deveria agir como um ❜, provocou, percebendo tarde demais que havia dado voz a seus pensamentos. Gorluin estava envergonhado pela deselegância de sua scion, decidindo que era melhor deitar-se em frente ao calor da lareira.
A búlgara não esboçou reação enquanto o outro colocava uma camada extra de peles entre eles, no entanto, sentiu-se grata, internamente, pela gentileza. Se fosse ela a fazer aquilo, provavelmente Ronan a chamaria de puritana, título que adquiria ares de pejorativo quando saía da boca do irlandês. Manon pensou que ele se manteria em silêncio, aproveitando o tempo para dormir, mas o loiro não tardou a falar, o que fez com que o estômago da garota se contorcesse com algo que não sabia identificar. ❛ Hm. Não deve fazer muita diferença para você. É só mais uma das tantas que já viu ❜ –– disse, mantendo-se virada para a porta, por saber que ele não encarava a parede. Nem percebeu que ele a observara apenas com as peças íntimas, tão entretida estava com o diálogo, ou talvez porque estivesse estranhamente à vontade com Ronan. Sentiu a movimentação na cama, antecipando o que viria. Pensou que o O’Keeffe não havia percebido coisa alguma até aquele momento – a atração idiota que sentia por ele – mas era mais perceptivo do que ela imaginava. ❛ E se eu estiver? ❜, perguntou, sem se virar para encarar seu rosto, pois não se sentia muito corajosa, e porque não queria passar por outra humilhação. ❛ Quem gosta de jogos é você, Ronan. Me sentir atraída não muda nada ❜ – admitiu, porque não havia muito a negar, mas sem muita firmeza na fala. Ele mesmo vira o que se passara no sonho, e ela havia o evitado nos dias subsequentes justamente porque não queria conversar sobre aquilo.
Não estava esperando pelo toque alheio, estremecendo de leve enquanto seus cabelos eram afastados da clavícula, porém não de maneira brusca. Ela sabia que tinha de revidar naquele momento, mas estava anestesiada pela sensação dos dedos de Ronan em sua pele, sentindo o formigamento em seu pescoço no exato ponto em que ele havia encostado. Manon não esperava aquela resposta específica, também; o príncipe parecia tão alheio a qualquer proximidade, que era estranho ouvir algo que não fosse uma provocação ou reclamação saindo de sua boca. Ela sentiu-se tentada a virar-se nesse instante, apenas para conferir se as feições dele conferiam com as palavras, entretanto, sabia que se virasse poderia se meter em problemas. Não deveria tomar aquilo como algo repleto de significado, porque bem poderia ser mera necessidade de ordem sexual. ❛ E descobriu? ❜ – se viu perguntando, curiosa demais para saber até que ponto o desejo dele ia – se era tão intenso quanto o dela. Em resposta, os dígitos do irlandês voltaram a dedilha-la, quase como se seu corpo fosse um instrumento musical. A Rabadzhieva queria se render àquelas mãos, involuntariamente indo um pouco para trás. O’Keeffe estava muito perto agora, sua respiração acertando a orelha de Manon enquanto falava, incitando-a a coisas que não deveria fazer. Não com ele.
Virou-se para encará-lo, cansada de ser submetida àquela tortura. Não, ela não era frígida como Ronan pensava, apenas não queria se deixar levar para algo que ocuparia sua cabeça, tirando seu foco dos problemas que enfrentava na Bulgária. Mas pensar na coroa, em Nikolai e na morte dos pais era tudo o que ela vinha fazendo nos últimos sete anos, sem descanso, eventualmente se desviando por alguma influência das amigas, o que estava longe de aplacar toda a angústia que lhe corroía. ❛ Me distraia ❜, disse subitamente, enquanto encarava a boca do irlandês; aquela mesma boca que encarar no quarto dele no palácio de Cardiff. Respiravam o mesmo ar quente naquele momento, esquecendo-se do frio do lado de fora. ❛ Ninguém precisa ficar sabendo disso, O’Keeffe, e sabemos que não vai passar disso. Então, por favor, para de fazer joguinhos comigo e faça aquilo que quer fazer ❜