Passava das três da manhã quando o celular emitiu um curto bipe, fazendo com Lorcan despertasse de imediato da pequena soneca que tirara em cima dos livros. Após apertar os olhos e colocar os óculos — que ele usava estritamente em situações de estudo — o estoniano viu que a mensagem era de Isla, a frase objetiva deixando evidente a praticidade da princesa. O moreno abriu um sorriso de canto ao visualizar aquilo, fechando o livro que lhe servia de travesseiro e desistindo por completo da matéria, ao menos por aquela madrugada. Não era um aluno relapso, desde que não o convidassem para festas. O fraco do bastardo era de conhecimento geral, e contrastava com os outros hobbies que possuía. Havia sido exatamente dessa forma, afinal, que se aproximara de Isla, ainda que em Avalon fossem colegas na maior parte das cadeiras do Curso. Eram, de certo modo, bem diferentes, mas a relação se estabelecera sem que percebessem o vínculo que se criava, e era por isso que Lorcan estava indo encontrá-la depois de um rápido banho que o deixou mais desperto, ignorando o fato de que estava nevando do lado de fora, e que provavelmente passaria frio até chegar à área da piscina térmica.
A maior preocupação do bastardo era com o toque de recolher, entretanto, reclamando mentalmente com Freyr por não possuir poderes de teletransporte que permitissem que passasse despercebido pelos guardas. Nesryn também não poderia ser facilmente ocultada, e não era como se Lorcan pudesse se desfazer dela, ainda que não fosse a situação própria para levar a serpente alada. Estava visivelmente irritada por ter de sair no meio da noite, e possivelmente com ciúmes de seu scion. Ela não gostava de compartilhá-lo com outras mulheres, porém, era orgulhosa demais para admitir, emitindo grunhidos, apenas, sempre que alguma se aproximava.
Não fosse a má vontade do daemon em se deslocar até as dependências do clube de natação — que diminuíra a velocidade a ritmo torturante, fazendo com que o protegido de Freyr parasse por mais de uma vez — eles não teriam sido abordados por um dos guardas de Avalon. Villem direcionou um olhar cheio de promessas à serpente alada, que encarou o lado oposto, sem se incomodar com ameaças implícitas. Apesar disso, era ameaçadora o suficiente para que o guarda lhe dispensasse mais que dois olhares de esguelha, como se esperasse que aqueles dentes se cravassem nele a qualquer momento. “Já passa da hora do toque de recolher, senhor. Conhece as regras da Academia” –– disse ele, utilizando-se do tom profissional que todos os soldados usavam quando queriam soar autoritários. Ainda assim, Lorcan tinha sangue azul correndo em suas veias, ainda que ele se misturasse a sangue plebeu, e havia certo tato no tratamento do oficial para com ele. Pensar numa desculpa qualquer era sempre mais difícil sem a ajuda de Nesryn, mas ele manteve a postura confiante de sempre quando falou, uma das mãos confortavelmente tocando o ombro do homem. ❝ É claro… Ninguém aqui está querendo desrespeitar nada, não é mesmo, Nes? ❞ – disse, olhando na direção da serpente alada, e daqueles espinhos venenosos que trazia junto à cauda. ❝ Só estávamos pensando que é um pouco exagerada essa regra da diretoria… E talvez não se aplique a todos os alunos, me entende? ❞ — frisou, deixando claro onde queria chegar com aquilo. Direcionou um sorriso cúmplice ao homem, e uma piscadela, enquanto colocava uma quantidade exagerada de libras esterlinas no bolso da farda do oficial, sabendo que não reagiria – não apenas pelo dinheiro, mas pela ameaça que o animal ao lado de Lorcan representava. “Mas—” o outro ainda tentou dizer sem muita convicção, sendo interrompido pelo moreno: ❝ Gostei de você, soldado… ❞, falou, enquanto se afastava, de costas, ousando fazer uma reverência militar antes de se virar completamente e seguir na direção que pretendia. Ele praticamente correu até a piscina, então, fazendo com que Nesryn fosse obrigada a acompanhar seu ritmo – não estava com paciência para os dramas da serpente alada.
Não foi difícil encontrar o local, considerando a luminosidade provinda dele. Isla devia ter acendido as luzes sem se importar em chamar atenção, algo que o Lantsov pensou em corrigir assim que entrou. Foi interrompido, contudo, pela visão da princesa panamenha de lingerie, emitindo um baixo assovio assim que capturou a atenção dela. ❝ Sabe… Quando vi a mensagem pensei que se tratasse de uma emergência, e realmente é uma emergência. Você não está pegando fogo ou algo assim? Porque eu definitivamente estou ❞ — um sorriso bobo acompanhou a fala completamente sincera, o que acontecia com frequência na presença da Gutiérrez. O bastardo se aproximou dela, enquanto Nesryn emitia um de seus grunhidos característicos e se encaminhava para a área dos vestiários, não querendo visualizar a cena. Lorcan pegou a garrafa ainda fechada que a morena segurava, considerando-a dispensável na presença de Isla, se o propósito era deixá-los excitados. ❝ Hm, tequila? Só porque eu estava tentando parar de beber ❞, brincou, negando com a cabeça ao encarar a garrafa. ❝ Foi pra isso que me chamou? ❞, perguntou, encarando o corpo semi exposto, incluindo-o no questionamento.
Uma canção animada, com um ritmo que podia muito bem fazer parte de uma casa de salsa nos clubes de Miami, vibravam na cabeça da panamenha, que por sua vez cantarolava-a apenas o seu ritmo, mexendo os quadris enquanto dançava em volta da piscina. A morena estava na pontas dos pés, se equilibrando com os braços estendidos, desafiando sua sorte ao girar em calcanhares e rodopiar, com certa frivolidade, da mesma maneira que ela imaginava que as garotas que ela costumava zombar fariam se elas estivessem em seu lugar. Mas elas não estavam. Se fosse ser sincera, Isla diria que sentia inveja de garotas que podiam se dar ao luxo de aproveitar apenas o momento, sem sentir uma onda de sentimentos negros que a arrastavam para baixo e mantinham seu humor sombrio o suficiente para saber que não era bem vinda na maioria das rodas de conversa. No entanto, sua vida não era uma completa ruína, se fosse pensar bem. Graças ao seu patrono, Isla podia estar ali, apenas com o tecido fino e transparente da lingerie negra, no meio do inverno e não sentir frio algum. Definitivamente, uma garota de sorte. Pensou ela, soltando um sorriso ácido para a própria desgraça.
Sua falta de sentidos era uma recompensa quase insignificante para todo o sofrimento que Jormungand a causara, mas Isla estava tão acostumada com sua falta de sorte e perspectiva que o fato a divertia. Levando a garrafa aos lábios, sorveu uma boa quantidade de álcool --- enviando-o diretamente para seu sistema ---, para logo em seguida chutar a água, respingando alguns centímetros da larga piscina. Comemorando a ação com um “Dale” alongado, carregado do sotaque de sua terra natal, Isla encontrava-se tão distraída que perdeu completamente o barulho das portas se abrindo, apenas reparando que o amigo havia chegado quando ouviu sua voz. Os olhos castanhos focalizaram o mais velho, analisando-o por alguns segundos antes de chamá-lo com o indicador para mais perto, sem nunca tirar o sorriso dos lábios. “Eu sei…” Foi a resposta pretensiosa da scion. “Foi por isso que escolhi uma piscina, mi amor.” A resposta espertinha fez a morena rir conforme ele se aproximava, tocando-lhe o ombro ao lhe ceder a garrafa sem oferecer nenhuma resistência.
Gostava de como as coisas funcionavam com o Lantsov. Simples, fácil e sem necessidade de maiores explicações do que o simples ‘querer’ para que os dois atravessassem o campus para se verem. Apesar disso, não havia uma vez sequer, que Isla não sentisse um arrepio forte em sua coluna ao sentir seu cheiro e vislumbrar seu sorriso bobo ao vê-la. Estavam longe de serem apenas amigos, assim como nunca era apenas algo meramente carnal. Aproveitando a pequena distância que tinham entre si, Isla impulsionou o corpo para cima, encaixando as pernas em volta do torso do moreno, sem maiores avisos. “Você sabe exatamente o porque te chamei aqui.” Ela maneou a cabeça para o lado, lhe lançando um olhar incisivo antes de provocar os lábios dele com os seus, mordiscando-o ao puxá-lo para si.