é exaustivo o momento exato em que a fantasia desaba e a realidade bate no peito com o peso de uma tonelada. hoje foi um daqueles dias cinzentos e chuvosos em que a ficha finalmente caiu. olhei para a tela e percebi que, enquanto eu passo os dias tentando decifrar sinais, construindo um "nós dois" que só existe na minha cabeça, a outra pessoa está apenas vivendo. em outra órbita, em outro ritmo, acumulando histórias e me usando como o confessionário perfeito para as suas aventuras.
dói demais admitir o quanto eu me enganei. a verdade é que eu estava disposto a ignorar os abismos entre as nossas vivências e as nossas idades só para sustentar a ilusão de que, talvez, o próximo capítulo seria sobre mim. a gente se molda, a gente aceita migalhas, a gente se convence de que "agora vai" só para ter um gostinho de estar perto de quem a gente deseja. a gente se diminui para caber na moldura do outro.
mas cansei de ser a plateia deslumbrada de um filme que eu não dirijo e onde eu nem sequer faço parte do elenco. cansei de abrir o peito esperando um afeto e receber um relato de terceira mão sobre como a vida dele é movimentada e cheia de opções.
é uma mistura sufocante de tristeza com um alívio esquisito. dói colocar um ponto final na expectativa, dói aceitar que esse foi o romance mais próximo que eu cheguei de experimentar e que, no fundo, ele nunca foi real. mas dói ainda mais continuar aceitando o papel de telespectador da felicidade alheia.
hoje eu escolhi saber o meu lugar. recolhi o meu sentimento, dei um passo para trás com a cabeça erguida e fechei a porta. a chuva está caindo lá fora e aqui dentro ainda está bagunçado, mas pela primeira vez em muito tempo, eu não vou tentar me convencer de uma mentira bonita para fugir de uma verdade que liberta. vai passar. sempre passa.














