Convenções sociais de gêneros e feminismo
Tantas vezes já ouvi que o feminismo é só uma “modinha passageira”. Que o feminismo não tinha nem pelo que lutar. Que o feminismo é inútil nos dias de hoje, que as mulheres já conquistaram tudo que podiam, que não precisam mais “invadir o lugar dos homens”.
E a cada dia chego ainda mais à conclusão de que o feminismo voltou à tona na hora certa. Sempre me considerei feminista, desde bem antes de começarem as manifestações e campanhas em redes sociais.
E o quanto já ouvi chamarem feminista de puta, vadia, biscate, feminazi... Ou gente dizendo que toda feminista é lésbica, que não se cuida, que quer ser homem, que não se depila e que não usa maquiagem.
Pois bem, amigo. Você está impondo regras para aquilo que justamente busca abolir as convenções sociais. Feminismo não está aí para te dizer o que a mulher deve ou não fazer com seu próprio corpo. Está aí apenas para dizer que ela deve fazer aquilo que a deixa feliz, confortável consigo mesma.
Feminismo não é mostrar os peitos na rua. Isso não é regra. Feminismo não é lutar por coisas “ridículas e sem nexo”, como muitos pensam. E também não tem nada a ver com esquerda ou direita, com capitalismo ou comunismo.
Por conta desse movimento, anos atrás a mulher adquiriu o direito ao voto (olha só a hipocrisia da mulher que fala de política o dia todo, é uma grande militante, mas diz que o feminismo é uma “doença”, algo que precisa “ser curado”, o que soa tão ridículo quanto a “cura gay”).
Mas seria uma pena se eu te dissesse que o machismo ainda afeta muito as pessoas nos dias de hoje, não? E não digo só às mulheres. Afeta também aos homens. Os homens, se não agem como “machos”, são chamados de “viadinhos”, “mulherzinhas”, “sitzpinkler (entendedores entenderão)”... enfim, qualquer coisa que afete sua masculinidade de algum jeito, como se parecer com uma mulher fosse a pior coisa do universo. Se sofrem, não lhes é permitido socialmente chorar, expressar seus sentimentos, pois isso “é coisa de mulher”, “homens são racionais e mulheres são emocionais”. Mesmo sabendo que a lei Maria da Penha vale para qualquer tipo de violência decorrida de um relacionamento abusivo, homens não denunciam, pois enraizaram um tal de “medo de parecer fraco”. Por que? As mesmas convenções sociais que ainda perpetuam que “rosa é cor de menina e azul cor de menino”. Que “menina tem que brincar de boneca e menino de carrinho”.
Pois é... Essas convenções sociais não soam tão ridículas? Cores não possuem gênero, são apenas cores. E, se tratando de brinquedo, pergunte uma coisa a si mesmo: O brinquedo usa as genitais? Se sim... definitivamente não é brinquedo para criança. Se não... Serve para ambos, sem distinção. Uma garota que brinca de carrinho não “vira lésbica”, e um garoto que brinca de boneca ou casinha não “vira gay”.
O que realmente precisa mudar? As convenções sociais. É. Não adianta nada “achar bonito” quando se trata dos filhos dos outros e agir completamente diferente quando se trata de seu próprio. O mundo já está cheio de gente dizendo que as coisas estão erradas, mas que não movem um dedo para mudar qualquer coisa.
Todavia quem mais sofre com o machismo são, obviamente, as mulheres. Índices altos de violência, seja psicológica, seja física. São desvalorizadas em seus trabalhos. Recebem cerca de 30% menos que um homem na mesma função (o que varia de acordo com o emprego que ela possui). Se são bem sucedidas e conseguem um cargo alto: Pronto! Dormiu com o chefe. Ou então: “Isso só aconteceu porque ela era bonita”, como se a inteligência da mulher não tivesse mérito nenhum nisso.
Além disso tudo e de diversas outras coisas que eu poderia passar linhas e linhas citando, andei me deparando com alguns projetos de lei, ou novas leis, que me fizeram pensar: Por favor, alguém me diz que isso é coisa do Sensacionalista.
É, isso mesmo. Em primeiro lugar, em relação ao projeto de proibição da pílula do dia seguinte. Eduardo Cunha fez esse projeto porque isso ia contra a sua religião. E depois ainda dizem que o Brasil é laico, não? Bom, vamos lá: Segundo nosso querido amigo já citado (sintam o sarcasmo), a partir do momento da concepção, já haveria ali uma vida que não poderia ser tirada a partir desse “método abortivo”. Seria uma pena se valorizassem mais um pequeno emaranhado de células do que a criança a nascer depois, muitas vezes sem cuidado, deixada à mercê do mundo, por falta de condições. A esta criança, depois, nosso querido amigo jamais ajudaria. Ele via uma alma nas células, mas o pobre menino marginalizado que nasceu não possuía alma nenhuma aos olhos dele.
Em segundo lugar: a proibição da amamentação em locais públicos, deixando a mulher que o fizer sujeita à multa e até à prisão, mas que foi revogada com a criação da lei que proíbe a proibição da amamentação em público. Engraçado... parece que nossos queridos deputados não têm mais o que fazer além de ficar criando leis sem nexo. Como se fossem um bando de crianças que resolvem fazer uma brincadeira, mas depois percebem que vão se dar mal e vão brincar de outra coisa, mesmo com os pais sabendo o que eles fizeram... Nem comento o nível da palhaçada...
E agora? As mulheres realmente não têm pelo que lutar? Não há como mudar tudo de uma hora para outra, é questão de tempo. Mas esse tempo depende da consciência de cada um: Abrirão suas mentes ou continuarão na eterna exigência dos padrões de gêneros? Entenderão que o amor e o respeito são mais importantes que o sexo biológico ou a sexualidade de alguém ou continuarão com o incrível preconceito que nos leva à discórdia? São pequenos gestos na criação das crianças e no tratamento para com as pessoas que poderá mudar algo. Não adianta querer que o mundo mude e não ser capaz de mudar seus próprios pensamentos e atitudes.