An Archive of Our Own, a project of the
Organization for Transformative Works
colocando aqui caso alguém não queria ler o ao3:
Arrasta os pés para fora da cama e boceja cansado. Não sente um pingo de sono e fica olhando para o teto do quarto, o que não o ajudaria a dormir. Então, decide ir para a sala assistir à televisão. Coloca no canal mais colorido possível para distrair a mente.
Seu corpo ainda não se acostumou com o fato de não precisar mais ficar horas da madrugada consertando um portal problemático, muito menos com o fato de que não precisa mais se sobrecarregar de trabalho.
Sua mente está relaxada o suficiente, pelo menos, mas seu corpo já está habituado a uma rotina esmagadora, assim como sua mente ainda está perfeitamente treinada para assumir outra identidade a qualquer momento.
Suspira, jogando a cabeça para trás. Essa calmaria com certeza não faz o estilo dele. Ficar sentado sem sentir aquele medo esmagador do que pode acontecer? Tsc, que sem graça. Cadê os sentimentos que o faziam desmoronar a qualquer minuto, as fugas da polícia?! Parecia até estar se tornando legalmente correto. Um ultraje! É isso o que acontece depois dos 60.
Wendy disse que ele estava tendo uma crise de meia-idade. A ideia parecia ridícula. Vamos lá, ele só está... claramente tendo uma crise existencial porque está velho, parou de fazer o que sempre fez nos últimos 30 anos e não sabe mais o que fazer sem ser isso. Tudo que descreveu parecia realmente uma maldita crise de meia-idade.
Ok, ok, talvez ele estivesse com dificuldades em seguir a vida e deixar tudo para trás. E talvez precisasse ouvir os conselhos das pessoas ao redor e arranjar algum hobby, algo para se distrair enquanto passasse um tempo indeterminado na cidade.
Levanta da poltrona, seguindo para o escritório no subsolo que seu irmão havia feito. Lá, estavam suas engenhocas e seus planos em geral. Havia também algumas coisas que foram deixadas sob seus cuidados especiais (por isso não as guardou no andar de cima), como os materiais artísticos de Mabel.
Pega um dos rolos de linha dela junto com as agulhas. Talvez pudesse aprimorar sua costura e bordar novos chapéus de pesca para os gêmeos, para que, quando eles o visitassem, pudessem usá-los no "Stan de guerra". Dá uma olhada na sala para ver se está tudo como sempre.
Sobe para a sala um pouco receoso sobre a ideia que acabou de ter. Liga o abajur ao lado de sua poltrona e começa a desfazer o que havia feito nos chapéus antigos. Todos ficaram péssimos, as letras até caíam.As crianças precisariam de algo decente para navegar em alto mar, não poderiam ser chapéus decadentes. Isso o motiva a se esforçar mais, tentando fazer um bom acabamento.
A televisão se torna um ruído de fundo, que ele usava para descansar a mente do esforço que estava fazendo. Ele deve ter reiniciado o bordado umas dez vezes só nas primeiras iniciais, e se perguntava como Mabel conseguia fazer isso todos os dias.
Sua mente captava alguns barulhos preocupantes vindos lá de cima, mas ele não conseguia associá-los a algo urgente, enquanto mantinha todo o seu foco no novo hobby. No entanto, ele fica alerta o suficiente para perceber quando Bill desce as escadas logo em seguida.
“Quer?” — pergunta, referindo-se ao bordado, pensando consigo mesmo que o outro provavelmente também não voltaria a dormir tão cedo. Só então percebe que sua presença não havia sido notada, quando sente a voz de Bill guinchar em susto.
“Que diabos?” — Bill resmunga com a voz irritada, mas se aproxima, mesmo que seja apenas para zombar. “Você está confeccionando para aquelas crianças?” — a pergunta vem com certo desdém, enquanto ele pega um dos chapéus com a ponta dos dedos.
“Uhum” — Stan murmura, batendo na mão de Bill para que soltasse a peça.
“Com certeza não” — Bill recusa, dirigindo-se à cozinha, apoiando-se nas paredes. Momentos depois, volta com um pote de sorvete na mão e se senta no chão ao lado da cadeira de Stan. “Sabe, uns olhos humanos ficariam legais” — sugere a ideia, que é rapidamente cortada com um "só se forem os seus". Mesmo assim, ele não desiste e continua sugerindo as ideias mais absurdas possíveis, para o desgosto de Stan.
Em algum momento, Stan se cansa, e por um instante Bill pensa que haveria uma gritaria e que seria expulso para o quarto, mas Stan apenas larga as linhas de lado e se senta ao lado de Bill no chão, pegando o pote de sorvete para compartilharem. O silêncio é estridente, mas não parece incomodar o humano; já para o ex-triângulo, é como uma pulga atrás da orelha. Então, ele começa a tagarelar, sem realmente saber se está sendo ouvido. Mesmo assim, continua falando, deixando o sorvete de lado. Em algum momento, as bobagens se transformam em devaneios sobre sua vida e reflexões estranhas.
Stan estava sobrecarregado após tentar focar tanto em algo que simplesmente não fazia seu tipo. Sua vontade de se comunicar esvaiu-se para que pudesse se recuperar. Ele apenas escuta as frases de Bill pela metade e dá breves acenos com a cabeça quando aqueles olhos o encaram.
Eles acabam com o pote de sorvete, que realmente deveria ter durado mais...