Rasga-Mortaia (Mortalha)
Mortalha é o nome da roupa que se veste em uma pessoa morta para ser velada e enterrada. Há um tempo, na década de 70 do século passado, ainda acreditávamos em muitas superstições. E continuamos, de certo modo, acreditando. Elas renovam a cada cem anos, modernizam-se. Pois bem, naquele período, eu estava no início da vida, era criança, morava na roça com meus pais e não tinha irmãos. Por lá as pessoas simples misturavam fé religiosa com outras crendices, talvez reflexos do medo causado pelos mistérios da vida, da morte e dos sofrimentos. Meu pai era um pouco mais cético, sempre apresentava uma raciocínio que anulava ou convencia que não havia perigo nas crenças supersticiosas. Além do disso, ele era caçador e tinha uma das melhores miras da região. Isso nos supria da lenda da necessidade de comer carne para não morrer de fraqueza e aliviava e do medo dos seres do além. Eu e minha mãe sentíamos protegidos e seguros com ele sempre junto. Dessa forma a vida seguia em paz até o dia em meu pai ia para cidade fazer feira. Nesses dias os perigos das crenças adormecidas viam à tona e as assombrações apreciam sempre maiores que agente imaginava. Geralmente na sexta o trem de ferro passava indo para a cidade de Montes Claros, partia da estação de Canaci por volta das 13h e parava na parada de peri- peri as 13 h e 15 min. Mal o trem passava na linha em frente de casinha de adobe a saudade já batia. Mas lembrar que no dia seguinte ás 11 horas da manhã teria balas e pirulitos já consolava. Naquela sexta não foi diferente. Meu pai partiu com a cesta no ombro em direção à parada de trem e pareceu que os pássaros silenciaram, o vento parou de soprar e calor aumentou. Minha mãe pegou os baldes de carregar água e dois anzóis pequeno, me chamou e fomos até a empoeira, uma pequena lagoa que ficava ha uns duzentos metros da casa. Fomos pescar para distrairmos e salvarmos a janta. Na volta ela trouxe um balde de água na cabeça e outro na mão, eu, os anzóis e dois ou três peixes pequenos. A tarde caiu e antes do sol se por já estávamos em casa, era de costume jantarmos logo após o por do sol. Já apreensivos com a ausência de meu pai apressamos em deitar. Nessas noites dormíamos eu e minha mãe debaixo da mesma coberta num no pequeno quarto da casa, do lado direito da cama de molas com colchão de junco, havia uma pequena janela de madeira maciça pintada de vermelho escuro já fosco e descorado, aquilo já era um perigo. Mas, minha mãe dormia desse lado da cama. Do lado esquerdo uma pequena mesa de cabeceira também de madeira maciça sem pintura, nela ficava a candeia ou lamparina a querosene. Meu pai cuidava para sempre ter o querosene, quando faltava era pior, tínhamos que usar azeite de mamona, óleo extraído da mamona que era usado como lubrificante de peças e para iluminar. Este produzia chamas bem pequenas e clareava muito pouco. Minha mãe bem que tentava segurar, mas, não conseguia e deixava seu medo escapar aos poucos. Nessa noite logo ao entrarmos no quarto ouvimos cantar distante uma mãe-da-lua. Seu cantar penoso e triste lembra o lamento de quem sofre muito, por isso era associada as almas penadas que pediam socorro. Era um mal sinal. Seria naquela noite que uma alma penada visitaria nossa casa?Minha mãe sozinha não ia dar conta de proteger as duas portas e eu ia tentar segurar a janela. Me perguntava quase que implorando a Deus se aquela ave agourenta não podia para de cantar? Antes de dar o alívio Deus aumentou o suspense. Junto com a mãe-da-lua começou cantar também uma acauã. Também com um cantar, que naquela época , para mim, lembrava tristeza. Passados vários minutos as aves silenciaram. O querosene diminuiu dentro do bojo da candeia e com ele a chama também. Depois de um sono leve minha mãe levantou foi até o filtro de barro que fica na sala, tomou água e levou para mim que estava sentado na cama. Bebi a água e pus o copo de aluminium na mesinha e rapidamente entrei debaixo da coberta. Antes de minha mãe deitar escutamos o mais horrendo e apavorante som. Foi pertinho. Quase na cumeeira da casa. Era um som que começava agudo e abria, lembrava um tecido rasgando pela força das mãos a puxar; mais ou menos assim: “chiiaaaaaapp”. Vala minha nossa senha aparecida!!! Gritou minha mãe. Que isso meu Deus!! exclamei. É uma rasga-mortaia, ela passou ou assentou na cumeeira da casa. Afirmou mãe. O pior tinha acontecido naquele momento. Tudo podia ocorrer, menos aquele bicho passar ali e cantar. Sabíamos que quando uma ave dessas passava cantando baixo ou pousasse no telhado de uma casa é que alguém daquela família morreria ou teria uma doença grave. Quem poderia ser? minha mãe? eu? Meu pai!!. Ele quem estava fora. Poderia acontecer alguma coisa muito ruim. Um acidente talvez. Não podíamos fazer mais nada. A praga ou anúncio do mal já tinha sido feito. A ave em si não fazia o mal ela apenas anuncia que algo de ruim aconteceria nos próximos dias. Sabia disso porque era ela quem rasgava as mortalhas dos defuntos para que as almas saíssem e os corpos apodrecessem. Tinha contato com o mundo dos mortos e os espíritos deles contavam a ela o que estava por vir. No momento de desespero a única coisa que podíamos fazer era apelar para Deus. Minha mãe chamou dizendo que tinha fé e que nada aconteceria, pois iríamos rezar. Pusemos-nos de joelhos no chão, cotovelos na cama e começamos a orar. Depois de mais de uma hora de reza deitamos novamente. Mesmo confiando em Deus, eu não via a hora de encontrar meu pai no dia seguinte para vê-lo vivo. Mesmo tendo orado eu chorava de pavor do que viria a acontecer e eu não podia fazer nada para evitar. O sentimento era como o de uma doença fatal. É só esperar a hora. O dia amanheceu, o suspense e angustia continuava. Eu queira acelerar o tempo para dar a hora de meu pai chagar. Finalmente o sol subiu e pela posição da sombra da porta no chão calculamos que estava próximo da hora do trem passar. Não tínhamos relógio e o pequeno rádio vermelho estava sem pilhas. Naquela época o calculo das hora era feito pela posição do sol. Chegada a hora corri para a linha férrea, ouvi de longe o barulho e a buzina da locomotiva partindo da parada de peri-peri. Sai correndo descalço no caminho de terra que passava ao lado das britas do talude dos trilhos. Não deu tempo de dar atenção aos passageiros que sempre acenavam das janelas dos vagões azul e branco. Minha atenção estava nos pontos que movimentavam a cerca de dois quilômetros na linha. Queria correr mais rápido, mas, as pernas não conseguiam. Logo reconheci meu pai, seu jeito de carregar a pesada cesta de mantimentos nos ombros. Logo encontrei ele. Era um alivio mesmo que temporário, pois ainda teria uma semana de apreensão pela frente. Meu pai estando ali já me aliviava o coração. Nem perguntei a ele se tinha comprado balas, fui logo contar o fato. Calmamente, sem para o passo, ele tentou me convencer que tudo aquilo era invenção do povo. Não exista bicho que adivinhava ou previa nada que iria acontecer na vida de ninguém. Mesmo assim fiquei atento durante toda semana. O anúncio da rasga-mortaia era falso. O que aconteceu de ruim com a nossa família foi o medo e desespero que eu e minha mãe passamos naquela noite. O tempo passa e aquelas superstições perdem o sentido. Não são mais capazes de nos assustar. O medo humano continua. Então novas superstições vão sendo criadas e povoam nossas mentes. Muitas delas são usada até como modo de dominação política ou religiosa, como no caso das que foram criadas usando a vacina contra o covid 19. Certamente quem as criam para dominação nunca levará em conta as consequências e traumas que elas geram, principalmente nas pequenas crianças. Por: Dione Afonso dos Anjos














