Abigail foi pega de surpresa pela pergunta repentina, mas ainda assim sua resposta foi um claro e sonoro “não”. Todo o conceito de liberdade lhe era um tanto desconhecido, um tanto novo. Mesmo estando numa cidade nova, longe dos olhos julgadores de seus pais, ela ainda tinha medo de fazer coisas tão bobas quanto beber alguns drinks ou entrar no mar. Naquela noite estava fazendo o que nunca tinha coragem: viver pequenos momentos que costumava fantasiar quando estava sozinha com seus próprios pensamentos. Ela não era alguém com sonhos muito grandes ou aspiração para fazer coisas mirabolantes, mas bem ali, com a areia da praia sob os pés e o colega de trabalho ao lado, ela percebeu que vivia pelo frio na barriga de fazer coisas que lhe trouxessem alegria. O fato de Hajoon ter acompanhado-a na cantoria fez com que ela deixasse escapar uma risada alta e contente, como se o sorriso dele fosse uma espécie de prêmio que tivesse acabado de conquistar com suas brincadeiras bobas. Ela se sentia feito uma criança descobrindo a água salgada, percebendo que o mundo era um lugar enorme e cheio de aventuras. Ainda com os olhos fechados, ela automaticamente devolveu o aperto mais forte na mão alheia e obedeceu ao conselho, respirando fundo e permitindo que seus pulmões se enchessem com a brisa marítima, exatamente como ele dissera. Estranhamente aquilo realmente a acalmou e ela pôde pensar com mais calma e clareza, como se sua mente tivesse finalmente encontrado o equilíbrio entre o estado embriagado e a sobriedade, deixando-a ainda mais solta do que o normal, mas não mais tão tonta. Finalmente ela abriu as pálpebras, permitindo que a escuridão do oceano a frente invadisse seus olhos, fazendo-a se sentir como uma pequena parte dele. O pensamento a fez rir alegremente, a realização de que estava vencendo aquele medo lhe trazendo uma onda de felicidade. “Eu não acreditava muito nisso, mas agora acho que é real.” respondeu, dando mais alguns passos dentro d'água e achando graça da forma com que a gravidade parecia agir diferente ali. Mais uma vez ela foi surpreendida pela ação do rapaz, soltando um gritinho agudo quando sentiu os pingos a atingirem. “Ei!” gritou, tentando parecer revoltada, embora a vontade de continuar rindo fosse maior. “Vai ter volta!” fez bico, fazendo uma pequena onda com a mão livre para atingi-lo, quase perdendo o equilíbrio com a movimentação, mas não se importando muito. “Obrigada. De verdade.” sorriu, milagrosamente um tantinho mais séria. Não sabia porquê o coreano tinha tanta simpatia consigo, mas era algo que ela apreciava. Os dois eram um duo esquisito e não pareciam ter nada em comum, mas estranhamente se davam muito bem e, talvez por conta de ele sempre deixá-la em casa, a tailandesa tinha passado a vê-lo como alguém com quem estaria segura sem nem notar. “Meu momento não teria acontecido sem sua ajuda.” completou, mencionando fazer uma pequena mesura, mas sendo interrompida pela ondulação da água que a fez perder o jeito e cair sentada. Antes que tivesse tempo de se preocupar, o riso fácil veio outra vez e ela considerou que não havia mal em se molhar. Podia sentir a temperatura fria, as penas de sua fantasia ficando mais pesadas, o ar gelado. Continuava querendo que tudo aquilo durasse para sempre, mas como não podia aproveitaria enquanto estava ali. “Eu quero mergulhar…” constatou “Continua segurando a minha mão? Pode soltar quando eu estiver dentro d'água…” prosseguiu. Mesmo distraída, ela não tinha deixado passar o fato de que ele havia notado seu medo, ainda que ela não tivesse expressado explicitamente. Também estava agradecida por isso, já que falar sobre as coisas que temia não era uma coisa que ela considerava fácil. “É só que… Eu sou um pouco medrosa.”
A resposta que foi dada à sua pergunta não o surpreendeu, mas ainda assim foi capaz de explicar muitas coisas naquela noite. Hajoon não sabia o que levara Abby a jogar tudo pra cima e reunir coragem para fazer o que sentisse vontade sem se reprimir daquela forma, mas ele sabia que, seja lá o que fosse, haviam muitos frutos bons e aprendizagem para serem recolhidos daquela experiência. "Fico feliz que esteja se permitindo fazer tantas coisas que sente vontade." A fala era extremamente sincera e o rapaz acabou se perdendo um pouco em observá-la aproveitar cada instante daquela ação tão pequena mas que significava tanta coisa. Não se lembrava a partir de qual momento a colega de trabalho havia ocupado um espaço de importância em sua vida, e nem sabia se ela de fato tinha um espaço assim agora, mas tinha certeza que ela conquistou um pouco mais do que sua simpatia; ela tinha sua admiração, afinal percebia que não era fácil a tarefa que ela exercia todos os dias de lhe arrancar uma risada. A risada alta emitida pela mais baixa o fez perceber o quanto aquele momento estava sendo, de certo modo, importante para ela, e ele quase riu também. A esperou seguir seus conselhos, um sorriso adornando seus lábios quando ela o respondeu. "Eu também não acreditava em muitas coisas. Mas a gente sempre aprende um pouquinho mais se arriscando." A água que o atingiu devido a ela o fez relaxar um pouco mais, percebendo que havia conseguido fazê-la sentir mais segurança. Mais uma vez o sorriso de lado veio e ele acenou com a cabeça ao ouvi-la agradecer. "Disponha." Estava pronto para dizer o quanto ficava satisfeito em ver que conseguira a ajudar de alguma forma quando sua atenção foi tomada com a queda alheia, o riso vindo de modo automático ao que viu ela rir também. A frase que se seguiu dela no entanto o fez ficar mais sério novamente, a preocupação voltando a surgir. "Você tem certeza?" Perguntou, mesmo que no fundo soubesse que ela ia acabar fazendo aquilo mesmo, da mesma forma que fez todo o resto. "Quer fazer isso sozinha?" O questionamento veio e prontamente Hajoon se agachou na água, sentindo seus jeans pesarem ainda mais. "Eu particularmente acho que você é muito corajosa. Não é todo mundo que tem coragem de fazer tudo o que está fazendo hoje." Comentou. "Estarei segurando sua mão até que você decida soltar."