A postura intacta, inabalável e quase perfeita para o cargo que representa, esconde uma mulher completamente diferente em seu Ăntimo. Quem vĂŞ Victorie Hawkins fazendo o seu trabalho, andando nas ruas com um ar sĂ©rio e superior, sacando uma arma com agilidade e sem exitar ou atĂ© mesmo entrando em uma cena de crime como se já soubesse quem Ă© o culpado e que nada daquilo fosse realmente preciso, nĂŁo imagina que misturar sua vida pessoal com a profissional poderia lhe abalar. Por mais fácil que fosse manter aquela máscara que criou com o decorrer dos anos e com a experiĂŞncia adquirida, trabalhar em um caso junto Ă Alice poderia significar que a qualquer momento seu mundo viria a desmoronar e colocaria em risco a sua capacidade de concentração, fazendo desse um dos casos mais difĂceis e instáveis depois do antigo caso de assassinato da sua mĂŁe que jamais pĂ´de deixar guardado por muito tempo.
A loira conheceu a legista quando ambas ainda eram recĂ©m-chegadas em Las Vegas, assim como na polĂcia da cidade. Uma relação profissional que começou com as idas e vindas de Hawkins ao necrotĂ©rio onde estava a mais velha e em pouco tempo se tornou uma relação complicada com a vĂsivel atração entre as duas. Victorie era nova, uma jovem que beirava os vinte anos e com muito pouco Ă perder se alguma coisa desse errado, entĂŁo pĂ´s muita insistĂŞncia e dedicação no seu desejo de ter a oriental para si. Alice era dez anos mais velha, uma mulher madura o suficiente para saber que aquilo era consideravelmente errado, mesmo a outra já tendo completado a maioridade, mas talvez por sorte, foi o que fez do sentimento algo verdadeiro, irresistĂvel e duradouro. AtĂ© mesmo o coração frio e inatingivel - para outros - nĂŁo foi forte o suficiente para resistir Ă sensibilidade e determinação da mais nova. Como prova disso, anos depois casaram-se.
A histĂłria que acompanhava aquela relação já deixava bem claro quem perderia mais e quem era a mais provável Ă cometer um erro. Victorie Hawkins era o nome da pessoa que veio a destruir o casamento de dez anos, casamento esse que hoje era a base de uma famĂlia. Mesmo com o matrimĂ´nio fragilizado, acordar no quarto de outra, na cama de outra e pior ainda, nos braços de uma desconhecida e nem ao menos se lembrar o que aconteceu na noite anterior, fez Vic criar um sentimento de repulsa pelos seus prĂłprios atos, assim compreendendo e atĂ© mesmo incentivando as reações de sua esposa ao descobrir o ocorrido. Precisava se culpar e precisava ser culpada, mas um ano depois do divĂłrcio, agora o que ela precisava era ter de volta tudo o que perdeu.
Tudo isso explica seu receio em trabalhar no seu primeiro caso com a ex-esposa. Uma coisa era saber que ela seguia em frente ou observá-la fazendo seu trabalho, outra coisa era tĂŞ-la Ă poucos centĂmetros do seu corpo e dirigindo-lhe a palavra, sem ao menos ter o direito de perguntar como estava ou o que faria depois.
Não existia alguém no mundo que pudesse conhecer Alice melhor que Victorie, talvez um dia seria desbancada pela própria filha, mas até lá não havia ninguém mais capacitada que ela para perceber a mudança de atitude da mesma quando ouviu sua voz, nem que fosse por alguns segundos, e o fato dela ter disfarçado o incomodo era sinônimo de que mais uma vez ignorava seus sentimentos, assunto que machucava a loira e que também se transformou em inúmeras discusões à cada tentativa da mais nova de fazer a ex demonstrar seus desejos. Nesse momento teve a resposta para sua curiosidade sobre como a mais velha estava lidando com o divórcio e sua mente foi tomada por lembranças do passado que logo se desfizeram com a voz da legista que surgiu ao fundo fazendo-a retomar a atenção no caso. De um lado mais profissional, ter a Doutora Yuen ao seu lado era um desejo de praticamente todos os detetives, já que ela era uma das melhores na profissão de legista, outro nome respeitado por todos.
Se desconcentrou novamente ao ver a oriental se abaixar muito prĂłximo de onde estava, prĂłximo o suficiente para baixar tambĂ©m o tom de voz. Acompanhou com os olhos os movimentos alheios e rapidamente já estava observando o corpo, vendo a doutora mostrar os ferimentos quando em uma reação automática levou uma mĂŁo ao punho da mesma e de forma calma segurou-o de leve. — Obrigada. Eu já vi o sufuciente. — Ao notar o que fez, ligeiramente retirou sua mĂŁo e a trouxe para si, olhando rapidamente para a ex-esposa. Olhou para baixo e piscou seguidas vezes como reação Ă sua demonstração do que parecia ser repulsa, mas que na verdade era apenas falta de controle emocional Ă cenas que lhe faziam lembrar da violĂŞncia que um dia sua mĂŁe havia sofrido. Essa era a Ăşnica parte a qual a capitĂŁ ainda nĂŁo havia se acostumado, mesmo fazendo mais de quinze anos, e provavelmente nunca se acostumaria. — Alguma marca nos joelhos que indique essa suposição? — Questionou ao olhar os joelhos da vĂtima, mantendo sua postura inatingĂvel que fazia de forma inconsciente para retrucar a falta de qualquer demonstração de sentimentos de Alice.
Em horário de atendimento? — Hawkins ficou surpresa ao ouvir o suposto horário da morte mas nem teve tempo de dialogar sobre quando um fotĂłgrafo se pĂ´s a tirar fotos no local, lhe incomodando assim como parecia incomodar a mais velha. A loira levantou-se dirigindo diretamente a palavra para o rapaz com a câmera na mĂŁo. — Desculpa, mas se vocĂŞ nĂŁo for perito nesse caso eu peço que se retire. — Suas palavras eram claras e levavam de dois Ă trĂŞs sentidos, quem a conhecia sabia de sua intolerância para com a mĂdia que nem ao menos respeitava as famĂlias, largando fotos de vĂtimas em qualquer canto possĂvel. A capitĂŁ era conhecida por tirar filmes e cartões de memĂłria de câmeras que eram seguradas por fotĂłgrafos da imprensa.
Como se já nĂŁo bastasse cada flash anterior, ainda teria que lidar com policiais inexperientes e ansiosos, com blocos de anotações e perguntas sem contexto, mas apenas a resposta da legista que lhe fez tomar uma atitude, agora se direcionando ao jovem policial. — Com licença. E vocĂŞ, eu quero que se dedique estritamente ao seu trabalho, que nĂŁo condiz fazer perguntas baseadas em suposições. — O encarou antes de continuar a falar. — AlguĂ©m acompanhou a segunda vĂtima em sua ida ao hospital? Pelo menos sabem para qual hospital a levaram? NĂŁo? EntĂŁo preciso que vocĂŞ descubra isso agora porque ela Ă© minha principal testemunha e possĂvel suspeita. — Ao terminar a frase apenas viu o rapaz quase sair correndo do local e com sua adrenalina em alta, já teve a coragem de encarar Alice. — Of course. Eu vou conseguir a lista de funcionários do estabelecimento. Posso lhe enviar por e-mail? — Ao perguntar, permanaceu a olhar a outra.
Quase tudo sobre aquela situação era desconcertantemente familiar. As luzes das viaturas piscando do lado de fora, o burburinho de repórteres, peritos passando de um lado para o outro. Ela e Victorie trabalhando juntas. A dinâmica profissional entre elas ainda funcionava bem, porém o relacionamento das duas havia mudado completamente. Por mais que a morena tivesse pensado que voltar a trabalhar com a ex-esposa fosse apenas um acontecimento natural dada a carreira de ambas, Alice não estava preparada para o quanto a proximidade com Victorie a afetaria.
Em teoria, Alice supĂ´s que teria tudo sob controle quando eventualmente viesse a conduzir um caso com Victorie mais uma vez. Chegaria na cena do crime, examinaria o corpo, daria sua avaliação profissional e seguiria para o necrotĂ©rio a fim de realizar a autĂłpsia. Simples. Conciso. Sem complicações. A oriental nĂŁo contava, entretanto, era com a prĂłpria reação ao ver Vic. Com o quĂŁo difĂcil seria estar na presença da loira e ser tratada apenas como mais uma colega de trabalho. NĂŁo que estivessem acostumadas a tratar uma a outra com afeto durante o expediente, longe disso. Contudo, ao final de um longo dia lidando com tragĂ©dias e os horrores dos quais um ser humano era capaz, havia um certo conforto em voltar para casa e encontrar a presença de uma pessoa amada. Em encontrar nĂŁo a estoica CapitĂŁ Hawkins, mas sim Victorie. A sua Victorie. A mulher que, apesar de incansável defensora da lei, mostrava para com a famĂlia um lado sensĂvel e emocional. Que corava de vergonha ao ver cenas “indecentes” quando assistiam televisĂŁo e se exaltava a cada possibilidade da filha ter um novo - ou uma nova - pretendente. PorĂ©m, toda essa intimidade havia se perdido. Restavam agora apenas lembranças e cĂ´modos solitários.
Alice prendeu a respiração momentaneamente quando sentiu a mão de Victorie em seu pulso. Ainda que aparentemente involuntário e apenas uma reação automática de repulsa à cena que estava diante delas, o toque de Victorie em sua pele exposta foi o suficiente para desencadear inúmeros sentimentos simultaneamente: Falta. Saudades. Raiva. Indignação consigo mesma por estar sentindo tudo aquilo. Olhou de relance para a mais nova, a qual parecia ter repudiado a própria ação. A oriental trancou os dentes e procurou voltar o foco para o trabalho.
A CapitĂŁ voltou a falar, uma pergunta pertinente para diferenciar se o agressor era de fato mais alto ou se a vĂtima estava de joelhos. Alice curvou-se sobre o corpo mais vez. De maneira respeitosa, mas analĂtica, examinou para possĂveis confirmações da hipĂłtese. — NĂŁo vejo contusões recentes nos joelhos. Existem leves marcas de abrasões antigas, consistentes com padrões vistos em pessoas que passam muito tempo limpando a casa de joelhos ou rezando. — Concluiu, levantando-se novamente. — Saberei mais durante a autĂłpsia. PorĂ©m, no momento, seu suspeito parece ser alguĂ©m com mais de 1,80m. — Comentou, enquanto tirava as luvas e dispensava-as no contĂŞiner adequado.
Fez um sinal afirmativo com a cabeça quando questionada se a hora da morte coincidia com o horário comercial da loja e estava prestes a verbalizar o quão estranho era tamanha violência ter ocorrido num momento que clientes e outras pessoas poderiam estar presentes, porém refreou-se quando viu Victorie repreendendo o fotógrafo enxerido. Observou a cena com uma certa satisfação por não precisar mais aguentar os flashes, mas também com interesse. Sabia o quanto Hawkins desgostava da imprensa e não ficaria surpresa ao ver a Capitã confiscando câmeras ou cartões de memória.
O jovem e ansioso policial tambĂ©m nĂŁo escapou da sequĂŞncia de broncas. Alice viu todos ao redor retomando seus afazeres com urgĂŞncia e seguindo as ordens de Hawkins. Nada como uma CapitĂŁ decidida e exigente para colocar a investigação no caminho certo. Aquilo agradava a Alice mais do que a oriental chegaria a admitir. NĂŁo apenas a competĂŞncia, mas o fato de Victorie agir cheia de autoridade e domĂnio em certas ocasiões, entretanto tambĂ©m poder se mostrar... submissa, em outras situações, era algo que a fascinava.
O sotaque na voz da outra foi como um golpe um final. Victorie tinha vindo para os Estados Unidos muito nova, portanto o sotaque havia se tornado quase imperceptĂvel ao longo dos anos. Mas nĂŁo demorou para a entĂŁo policial na Ă©poca descobrir o efeito que a pronĂşncia britânica causava na legista. Alice encarou Victorie, apenas para encontrar os olhos azuis da loira já fixados nos seus. NĂŁo sabia se Hawkins estava fazendo aquilo de propĂłsito, mas usar o sotaque intencionalmente era… uma provocação inesperada. A doutora pigarreou para a limpar a garganta antes de falar. — Seria melhor se vocĂŞ me entregasse em mĂŁos. — Respondeu, pensando em alguma razĂŁo para ter dito aquilo que nĂŁo fosse apenas para ver Victorie novamente — Ou mandasse entregar. — Completou indiferente, uma vez que percebeu estar criando algo que se assemelhava a esperança.
— Precisarei do nome e endereço do hospital em que está a segunda vĂtima. Gostaria de acompanhar como está e de comparar o padrĂŁo de ferimentos. — Daquela forma, poderia determinar com mais precisĂŁo a arma do crime, alĂ©m de averiguar se a mesma força e determinação havia sido colocada no ataque Ă outra vĂtima ou se o objetivo era apenas desacordá-la ou tirá-la do caminho. — E em casos como este de tamanha violĂŞncia e em que há sobreviventes… Existe a possibilidade do assassino se sentir tentado a terminar o trabalho, caso o alvo nĂŁo tenha sido apenas a primeira vĂtima. — Reproduziu o discurso que muitas vezes ouvira Alita falar em casos daquele tipo. As estatĂsticas tambĂ©m nĂŁo mentiam. Fosse outro investigador-chefe Alice faria questĂŁo de deixar claro que policiais deveriam ficar na porta do quarto da vĂtima 24 horas, mas sabia que com Victorie nĂŁo seria necessário. — VocĂŞ poderia me acompanhar ao hospital. Eu examino a vĂtima enquanto vocĂŞ faz as perguntas. Seria mais eficiente do que ficarmos trocando relatĂłrios. — Sugeriu, prendendo-se a explicação racional para tal proposta.