As vezes, quando Astra concentra-se em uma tarefa, não costuma prestar muita atenção em seus arredores. Portanto, conforme tagarelava sobre seus conhecimentos acerca da cultura indiana, sua cultura ancestral, perdeu-se em suas próprias palavras e histórias até que percebeu terminar o que tinha para dizer e ver o grupo de pessoas mover-se para as outras atrações do stand. Com certeza a mimosa (nome fictício dado naquele exato momento para a vaca sagrada levada ao evento) chamaria mais atenção deles do que sua tagarelice sobre a religião hinduísta, ainda que essa fosse extremamente rica e cheia de nuances, tantas que nem a própria Astra sabia cem por cento, por não seguí-la e não ter a fé de um seguidor da religião. Assim que seu campo de visão expandiu-se, pode observar de forma generalizada o que ocorria em cada canto, mas sua atenção foi tomada quando repousou sobre a figura de vermelho e preto que parecia encará-la com deslumbre. A morena quase sentiu suas bochechas se enrubescerem, não fosse a intimidade que já tinha construída com Angélique e reconhecer a expressão na face da outra mulher com carinho. Ela aproximou-se, com o tilintar de suas pulseiras praticamente como um guizo indicando que ela se movia, o que não era de fato algo que Astra aprovava, por mais que realmente achasse lindo as vestes típicas de seu país. Angel, no entanto, parecia uma guerreira que havia saído realmente de um filme de ficção coreano de época, com espada presa à cintura, completa.
Reconheceria de longe o hanbok vermelho da Coreia do Norte, uma vez que ambas já haviam há muito trocado conversas sobre suas ancestralidades não-européias e cheias de riqueza cultural. O pequeno silêncio não foi desconfortável, foi até mesmo uma forma de carinho, ambas pareciam embebidas uma na outra. Não tardou, porém, para que Angel iniciasse a conversação, um tanto típico já que Astra era mais introvertida que a coreana, de fato. ❝ — Certamente, após lutar contra demônios, reis malignos e espíritos malévolos, eu não aceitaria nada menos que um Holi. Além de comida e bebida especiais e gostosas, os pós coloridos são um show de entretenimento. E as vezes usam até arminhas de água pra refrescar o calor e ajudar na fixação das cores… ❞ Astra permitiu-se exibir um pequeno riso, lembrando-se das enrascadas que se metera quando mais nova em um dos holis com Atlas e sua mãe. Era memória agridoce, pois ao mesmo tempo trazia uma dorzinha pungente em si pela perda da matriarca. ❝ — Com certeza… Cada uma dessas cores significa alguma coisa. Por exemplo… ❞ Enquanto falava, se moveu em direção aos sacos de pó colorido, mergulhando os dedos da destra no que continha a tinta da cor vermelha, pintando-os e aproximou-se de maneira incisiva de Angel, tocando a testa da mesma com seu polegar cheio do pó colorido vermelho deixando uma marca em forma de um bindi. ❝ — Vermelho significa amor, generalizando. Mas também significa o desejo de um feliz holi aos deuses, significa fertilidade e casamento. ❞ Ela sorriu, enquanto repousou a mão na bochecha de Angel e por consequência pintando-a com a cor vermelha também.
Ao escutar o pedido, praticamente uma demanda, Astra permitiu-se rir, uma risada livre cuja qual não ocorria com muita frequência. Normalmente, apenas a coreana possuía aquele efeito de deixá-la tão livre de seu próprio fardo que a levava ao bom humor. Em parte talvez fosse o efeito do bhang que havia ingerido momentos anteriores, mas não se tratava só da substância psicotrópica. ❝ — Como dizer não quando você me pede desse jeito? Felizmente, também é uma das minhas histórias favoritas. ❞ Segurou Angel pela mão enquanto puxava-a para um cantinho do stand indiano onde poderiam sentar em meio a almofadas temáticas, convidando-a para sentar-se consigo e se aninhar ao seu lado. ❝ — Krishna é o deva da beleza e do amor, ele era o mais belo de todos. Ele costumava tocar flauta em um vilarejo, de um jeito tão doce e cativante que tudo e todos paravam o que estavam fazendo para ouví-lo tocar, inclusive as gopis, que eram mulheres do pastoreio, paravam para dançar ao som da flauta de Krishna, e davam seu amor à ele. Uma delas, era Radha, que era mais bela até mesmo que Krishna e tinha um coração puro, segundo a história. Eles dois se apaixonaram, tornaram-se almas gêmeas e ela o cativou de forma que nenhuma outra mulher jamais o fez, mas havia um problema aí: os dois eram casados. ❞ Astra fez uma pequena pausa dramática na história, enquanto seus olhos escuros pousavam na figura de Angélique com certa animação.
❝ — Ela tentou submergir seus sentimentos por Krishna, mas… não deu nada certo. Então ela simplesmente aceitou seu amor e devoção por ele, mas isso nunca deu realmente certo. Krishna além de uma divindade, era um rei, casado, portanto ele e Radha nunca puderem de fato se casar, pois ela era casada, camponesa e humana. No entanto, isso não significou, nunca, nessa história que eles não se amavam completamente de corpo e alma e integralmente: eles continuaram a se amar, mesmo sem se casarem. Um tinha o outro para si, independentemente de ser oficializado ou não. O amor deles era transcendental à qualquer união matrimonial por se dizer assim. E por tanto amar Krishna, Radha elevou-se em uma posição divina, por seu amor que também era divino e etéreo, tornando-se também uma deusa. E no hinduísmo eles não existem sozinhos, é sempre e eternamente Radha e Krishna. ❞ Quando terminou de contar-lhe a história, fixou seus olhos em Angel por alguns segundos, percebendo que por mais que não houvesse qualquer oficialização, isso não era capaz de invalidar o que sentia pela mulher ali, que sempre esteve ao seu lado. Raramente pensava nisso, mas permitiu-se nesse momento sentir e sentia o suficiente para querer sair dali e levá-la consigo para onde pudessem ficar somente as duas, sem mais nada para atrapalhá-las.
❝ — É a história de amor menos convencional que poderia existir, claramente. Demonstra que independente de qualquer barreira que possa existir, o amor verdadeiro sempre prevalece, transcende. ❞ Ela só não tinha coragem de admitir para si mesma o que sentia e não conseguia nomear, mas causava as típicas borboletas em seu estômago e ainda não havia superado esse sentimento.
o sorriso emulou o de astra, sentindo uma felicidade por tabela, justamente pois ela sentia. ‘ eu faria a questão que você fosse adorada. ’ disse tentando não colocar muita força na declaração, afinal ria alto com os próprios trejeitos. tal declaração porém, poderia possuir conotação muito mais obstinada se estivessem em outro meio ‘ com arminhas de água e tudo mais ’ completou feliz, imaginando a festa real. o lugar ali, apesar de distante, pensou, lhe dava certa ideia de como tudo era, assim como a ternura clara da voz de astra. imaginou as cores borrando as manhãs indianas, as músicas, o cheiro de almíscar e, agora, guerra de arminhas de água. a abstração rápida foi interrompida, ao perceber a explicação de astra. imóvel em resposta ao movimento da mesma, angélique tentava prestar atenção nas palavras, ainda que cada vez mais difícil de se concentrar. a garota sorriu, um pouco atordoada com a próxima ação de astra, como se atingida por um golpe muito, muito, forte, prendia os olhos apenas naqueles castanhos, servindo de âncora a si. queria tocar testa onde astra manchou de vermelho, mas então, sentiu a cabeça pendendo ao calor da mão adornada de astra, procurando a quentura terna da mesma em um movimento automático e conhecido, enquanto sentia os dígitos da morena, tendendo a somente esses, não como sustentação, mas apoio, abriu um último sorriso pequeno, com os olhos brilhando aos detalhes astra ( era impossível se desprender das feições ), antes de enrijecer o movimento, já que percebeu o ímpeto da própria mão em tocar a outra, impedindo a devida vontade antes que essa se manifestasse. a sensação agridoce que já se disse disposta a pagar lhe atingiu a barriga. ‘ amor. ’ repetiu cuidado deixando o sotaque parisiense dançar de seus lábios. era um pouco irônico como astra a manchava de carinho assim.
deixou-se ser levada para um local mais íntimo do estande indiano, guiada pela palma da mão tão conhecida, não soltando aquela mesmo quando já sentada. era familiar, era mais natural continuar do que soltar as mão, como se esse fosse o estado estabelecido entre os membros, tão orgânico quanto conversar, aquela era uma das linguagens estabelecidas ‘ por favor como se fosse eu a capaz de persuadir sua teimosia. ’ falou aproveitando-se do humor de astra, mais em um elogio do que qualquer coisa, soltando da mão da morena apenas para se fazer mais confortável e poder absorver as palavras com o cuidado igual ao que eram proferidas. apesar de já conhecer a história, angélique seguiu o fluxo do conto como se a ouvisse pela primeira vez, os olhos atentos em pausas de mistérios e sorrisos pequenos nas anedotas felizes que astra comentava, e por um momento, ainda que rápido, conseguiu relaxar. gostaria de falar que era o ritmo conhecido e adorado do conto, mas também sabia que aquela não era a única razão ‘ vishnu e lakshmi, rama e sita, krishna e radha, never one without the other. ’ disse sem pensar muito, embebida pela voz de astra enquanto desenrolava a história. angélique trouxe os joelhos para si enquanto agora refletia de forma mais analítica sobre as encarnações das entidades. a face do amor representada na companhia, além da vida, encravado na religiosidade indiana. conseguia entender aquilo, apreciar. também lembrou de sua família, majoritariamente budista, e a grande diferença do hinduísmo, onde vishnu não era o buda ( ainda que sendo um claro avatar do deus no hinduísmo ) e krishna, na religião de sua família, também representava algo diferente. ‘ jacheongbi andou sobre facas em um incêndio pelo seu marido, o que talvez tenha sido um pouco exagerado de sua parte, eu admito ’ comentou casual, citando uma das deusas mitológicas coreanas ‘ mas ela é uma deusa do amor, então acredito que all is fair. ’ completou rindo. a verdade era qual os contos de amor de seu lado não eram tão interessantes ‘ sabe, histórias menos convencionais só são boas depois do final feliz, nunca antes, astra. ’ sabia que havia soado um pouco amarga, e apesar de não gostar de sentimento em si, as adversidades da vida lhe moldaram assim, de certa forma, o acúmulo de tudo o que viveu lhe fazia extremamente realista, sem floreios através de dificuldades.
‘ de qualquer maneira. ’ disse sacudindo qualquer sentimento ruim que lhe rondasse ‘ como está sendo até agora? ’ pergunto, profundamente interessada ‘ tu as l'air sympa ¹ , e eu consigo ver a fila para ver a mimosa la do outro lado do ginásio, coitada. ’