Por meses, eu assisti Nalu definhar na minha frente todas as manhãs, todas as tardes e todas as noites. Foi um processo lento e gradual, que me entorpeceu e treinou em mim uma certa apatia por seu sofrimento. Insensível, não senti nada quando ela se foi por completo, nada mesmo. Talvez eu estivesse, passivamente, em negação; a morte mexe com as pessoas.
Pelas minhas contas, ela morreu há cinco meses e, ainda assim, eu entrei oficialmente de luto semana passada. Às quinze horas da segunda, eu acordei de ressaca e percebi que ela não estava mais aqui. Seja para me preparar um café com leite, comprar aspirina ou dizer que foi só uma recaída, ela não está mais aqui. E isso acabou comigo, porque não lembro da última vez que ela fez alguma dessas coisas.
Chorar no banho parecia a coisa certa a se fazer depois da monstruosa percepção. Enquanto meu corpo nu era ungido por minhas lágrimas e pela água mal tratada do chuveiro, avistei o xampu e o condicionador caros de Nalu, que ela só usava uma vez por semana. Despejei um pouco do primeiro na mão e comecei a massagear meu couro cabeludo, na esperança de que meu cabelo se transformasse nas suas mechas um dia macias. Em vez disso, meus fios não paravam de se enroscar na minha mão e cair da minha cabeça. Tive vontade de arrancá-los todos de uma vez, mas sei que ela odiaria isso: houve uma época em que ela cortava o meu cabelo para economizar no salão.
Desliguei a água e confiei apenas nas lágrimas para limpar os meus pesares de mim. Mas, conforme o meu choro cessou, sua trilha secou pelo meu corpo, aprisionando para sempre a culpa em minha pele. Até tentei esfregar com uma bucha vegetal largada a meses na prateleira do box, mas ela provavelmente só me deu uma micose. Tudo continuava lá.
“Se eu realmente tivesse me esforçado para parar de beber, ela ainda estaria aqui” estampado na bochecha direita, seguido por “ou se eu nunca tivesse começado a beber” na esquerda.
“Se eu tivesse só olhado nos olhos dela a tempo, eu teria visto sua alma indo embora” decorava minha clavícula.
“você” no topo do abdômen.
“quer” na altura da cintura.
“enganar?” logo abaixo do meu umbigo.
E espalhado pelas minhas pernas: “Você foi incapaz de impedir”.
Não consegui formular uma resposta, por mais que me esforçasse. Então, dei três gritos, altos e feios, até a vizinha de baixo interfonar preocupada com meu estado mental.
Na falta do que fazer, abri uma garrafa de vodka. Era o único jeito de esquecer.
Só que hoje eu lembrei. Chorei novamente, dessa vez sentada no chão da cozinha. Me assustei com uma aranha e dei um grito; todavia, dessa vez eu não consegui parar. Eles vinham cada vez mais altos e cada vez mais feios, numa voz que eu não reconhecia como minha ou de ninguém.
Depois de incontáveis toques do interfone, batidas na porta e possivelmente uma denúncia à polícia, eu recuperei o controle de minhas cordas vocais e parei. Mas não para me explicar à vizinhança — até porque não acho que entenderiam —, mas porque percebi que os gritos não iam calar as vozes da minha cabeça. Eles vão no máximo me calar, me deixando rouca por dois dias ou três.
Para que o sofrimento possa ir embora, ele deve ter forma: um corpo próprio, capaz de se deslocar para longe de mim e dos meus inocentes vizinhos. Então, decidi eu mesma transformá-lo em matéria. Foi aqui que eu peguei uma caneta e um caderno velhos e comecei a escrever. Quando acabar, eu vou fazer um avião de papel e jogá-lo pela janela.
Já não sei mais o que escrever — o que me aborrece, pois Nalu saberia. Tento relembrar a sua voz, para que seus pensamentos derramados voltem para me inspirar. Eu lembro que ela às vezes me irritava, então talvez fosse estridente. Nunca ninguém reclamou, então não sei. Lembro de suas palavras, mas elas parecem sem sentido agora. Repito-as baixinho em diferentes tons, em uma tentativa de recriar o dela, mas minha garganta machucada dificulta significativamente o processo.
Conforme os meus esforços se provam cada vez mais inúteis, voltam as batidas em minha porta.
— Polícia Militar, abra porta.
Não abro, sigo escrevendo. Posso ouvir, também abafado pela porta, os murmúrios dos meus vizinhos.
A porta é derrubada por um dos PM’s, o estrondo que me fez borrar a última frase.
— Este é o apartamento de Ana Luiza Duarte Fonseca?
— Morta. — Os meus vizinhos, reunidos atrás dos policiais, fazem uma careta coletiva. Eu sabia que não entenderiam.
— E você, quem é? — Perguntou enquanto me apontava sua pistola.