Era extremamente estranho para Gloria toda aquela situação. Ela não se arrependia de tudo que tivera de fazer afinal foram suas escolhas. Por uma primeira vez ela havia escolhido não fazer o que esperavam dela. Afinal, do que adiantava ter seguido o que haviam lhe pedido toda uma vida quando nunca tivera um retorno? Já estava farta daquela situação. Sem contar que ela já havia mentido o suficiente por aquelas pessoas. Pessoas que nunca souberam apreciar o que ela fazia por aquele pequeno grupo. Tudo que fazia era o que seu pai pedia. Os nomes que apagava, os casos que sumiam. Se seu chefe ao menos desconfiasse que ela estava fazendo. Gloria havia passado por inúmeros casos complicados. Muitas vezes havia se arrependido por estar seguindo aquele caminho. Por uma primeira vez ela não tinha mais medo de suas ações. Sua consciência estava limpa quanto aquilo. Não havia nada pesando na sua consciência sobre suas atuais decisões. Tirando o risco que estava trazendo para sua melhor amiga, e ao mesmo tempo tudo que estava fazendo era para protegê-la. Anya queria que ela fosse uma mulher melhor? Ela estava sendo.
Por muitas vezes a mulher pensou em simplesmente falar que estava doente, e voltar como se nada tivesse acontecido. Porém ela sabia que quanto mais mentia mais se tornava como eles. Ela não queria estar mais envolvida naquilo. Já sentia-se suja o suficiente. Ter que se esconder em um lugar como aquele ainda era um luxo que ela estava se dando. Não havia durado por muito tempo, mas o que ela poderia ter pensado? Não iria durar para sempre. Para melhorar sua noite ainda tinha mais um problema para lidar. Um problema que agora a encarava, e que Gloria estava realmente querendo saber como lidar. Ao mesmo tempo que ela queria sacar sua varinha azará-lo para esquecer tudo aquilo sabia que não poderia fazer isso. Assim como também tinha que segurar a vontade de socá-lo toda vez que sugeria coisas como aquela. “Nem em seus sonhos, Stirling. Pode tentar com as garçonetes. Elas tem o hábito de serem seduzidas por caras que possuem rosto bonito e cabeças vazias. Vai ter muita chance com elas.” Ela estava tentando permanecer séria, mas não deixou que Drew ficasse sem sua adora resposta, e logo após um sorriso cínico tomou conta de seus lábios enquanto se acomodavam em um lugar mais afastado de ouvidos curiosos. Já não bastava ser chantageada por Alex. As coisas ainda poderiam piorar.
A pergunta do mesmo a deixou sem palavras. Por mais que soubesse que Drew não era uma pessoa ruim, não esperava aquele tipo de comportamento. Um que ela certamente não merecia. Sem contar que não fazia muito sentido ser tratada com tanta cortesia, ainda mais vindo de alguém que ela tratava mal. Claro, Drew possuía seu ódio por todas as publicações e interferências em seus casos, mas no final do dia ele só estava fazendo seu trabalho. Terminou pegando a jarra de vinho e despejando em seu copo. Tivera que tomar dois copos para poder levantar seu rosto e encarar Drew. Levou mais um para começar a cogitar a ideia. Não poderia fazer isso com ele. Não poderia arriscá-lo a ajudá-la. Por mais que ela não gostasse dele e de seus amigos aquela não era a luta deles. Mesmo sendo culpa dele ela estar naquela nova situação. Gloria tentara encarar o rosto de Drew. Pensando se teria alguma pegadinha ou se de alguma forma ele estava querendo tirar sarro dela. Afinal ela também sabia ler as pessoas para entender como agiam. Aquele ato vira apenas como uma grande onda de surpresa. “Você quer me ajudar? Como? Sem ofensas, mas não é como se você pudesse colocar em sua revista que eu estou procurando por algum lugar para me esconder.” Sabia que havia sido um pouco mais grossa do que deveria, e logo depois revirou os olhos e tomou outro copo. Não sabia quando teria a chance de beber de novo. Observando ainda o Stirling e vendo o como ele ainda mantinha-se sério percebeu que realmente estava fazendo uma oferta. “Desculpe. Você está falando sério. Qual seria sua ajuda? Parece que não tenho tantas opções assim.” Terminou comentando, e novamente fugindo dos olhos do homem a sua frente enquanto agarrava o jarro para encher o copo mais uma vez. Aquela conversa estava definitivamente indo para um caminho inesperado por ela.
Por mais que Drew não fosse o irmão mais velho, e sim o segundo irmão mais velho, não deixava de se importar com suas irmãs mais novas. Na verdade, o Stirling sempre teve um pouco de rebeldia e nunca foi o filho perfeito, como Eric, mas quando se tratava de Felicity ou April, principalmente de Felicity, o ex-ravenclaw sempre se preocupava, e isso foi desde que tomou para si a responsabilidade de cuidar delas, logo quando seus pais as adotaram. Tudo bem que ele não era o irmão mais presente na vida de April, mas tentava ser na da Felicity, uma vez que sabia bem que Aaron em qualquer circunstância poderia ficar de olho em April. E sempre que acontecia qualquer coisa com elas, ele se preocupava, muito mais do que se fosse com seus irmãos, já que para Drew, Felicity e April sempre seriam suas irmãzinhas.
Ver Gloria ali, sem um amparo, sem uma família para cuidar dela, abriu um buraco no peito do Stirling, por mais que ele não gostasse tanto assim dela, sabia que no fundo a morena não era má, não era. Não importava quantas discussões eles tinham tido, ou quantas ele mesmo começou, aquela ali na sua frente de longe queria começar algo assim. Dava para ver o cansaço nos olhos da ex-slytherin, e também o medo. Drew nunca vira medo nos olhos dela, nunca, e ali, conseguia muito bem notar que até mesmo o barulho da porta se abrindo, deixava a Rosier tensa a ponto de cada vez mais se afundar na cadeira. Poderia não conviver ou conversar com ela direito, mas tinha em sua mente, que se isso algum dia acontecesse com April e Felicity, desejava que alguém as amparasse, que elas se sentissem seguras quando alguém lhe oferecessem ajuda, e por isso estava preparado para ajudar. Era certo? Drew não sabia, mas não custava nem um pouco tentar, não ia cair o mundo por conta disso.
Quando viu o semblante da mulher mudar de medo para surpresa, soube perfeitamente bem que causara um grande impacto. Talvez Gloria jamais tinha imaginado que alguém como ele, como o que ela conhecia, faria um proposta como essa, de ajudá-la. Mas Drew não mudaria sua palavra, iria com aquilo até o fim, se ele sabia que isso acontecia com ela, e ela viesse a sofrer, ou até mesmo morrer, por conta disso, o Stirling não saberia lidar, uma vez que tivera a chance de ajudá-la e não ajudou. — Não vou colocar um anuncio na minha revista, não preciso disso — disse em tom sério, ao perceber que a mulher parecia receosa quanto a proposta dele, mas era claro que não esperava outra coisa, era claro que esperava. — Tudo bem, você está com medo, medo do que pode acontecer se te encontrarem aqui, e eu não sou um cara lá muito confiável. Mas eu quero ajudar, Gloria. Eu quero — se arrumou na cadeira, permanecendo com o corpo ereto, enquanto encarava os grandes olhos verdes da mulher, e tentando em nenhum momento perder aquela postura. — Venha comigo para minha casa, tenho um quarto vazio lá. Você pode ficar lá o tempo que quiser até a poeira abaixar — sabia que tinha falado muito tranquilo, mas precisava ser assim, precisava ser assim com ela para que ela aceitasse sua proposta.