Só mesmo rejeita bem conhecida receita quem, não sem dores, aceita que tudo deve mudar
Semana prestes a acabar, e eu cheia de ideias (ou seriam paranoias?) embaralhadas na minha cabeça. Então olho pra essa tela em branco, sem saber nem por onde começar e tento passar a limpo... Meus dedos quase não conseguem acompanhar a velocidade dos meus pensamentos, e eu me desespero, a fim de captar e transcrever esse turbilhão aqui dentro, que quer se dissipar. Não passará. rs
Eu tenho um frila pra terminar, mas sinto que preciso fazer isso antes, antes que aquele material sugue minha energia e roube minhas ideias...
Queria escrever sobre diversas coisas, mas aí urge uma ideia aqui: Por que não escrever sobre a autossabotagem? Sobre como tenho me sabotado de várias maneiras, em diversos momentos. Sobre como as minhas palavras e atitudes muitas vezes vão tão na contramão dos meus sentimentos.
Eu confio muito mais no meu corpo do que no que digo. Tenho certeza absoluta de que meu corpo fala muito mais que as minhas palavras. E é um grande esforço tentar extrair o meu sentimento até mesmo nesse momento sem me autossabotar. Então eu deixo meus pensamentos e o texto fluírem, sem pensar muito no que escrevo aqui. Na verdade, sem censura (na medida do possível), me desnudo nesse texto e receio relê-lo muitas vezes e editá-lo. (Ossos do ofício... edito textos há mais de 12 anos.)
Talvez eu escreva muitas groselhas, dando muitas voltas no mesmo lugar, em mim mesma, pra conseguir, de fato, passar a limpo o que me perturba... Se alguém for ler isso (e assim quiser fazê-lo), então seja paciente. (Eu mesma estou sendo paciente para continuar e não deixar esse texto pela metade nem sem desfecho.)
Falei sobre “dizer uma coisa e agir na contramão” nessa semana com uma amiga em particular. Sobre como falamos coisas pras pessoas, sobretudo as que mais queremos por perto, e, no fundo, inconscientemente nos arrependemos do que dizemos, por percebermos o quanto nossas ações nadam contra essa correnteza. Eu me pergunto, nesse momento: Por que obstruímos nossos desejos, nossos sentimentos, nos sentimos tão confusos e receosos de sermos tão sinceros sobre o que pensamos, sentimos, com o que o nosso corpo diz/grita/anseia e todo nosso ser? Por que não sabemos o que queremos? Por acharmos que queremos uma coisa quando, na verdade, queremos outra? Pelo medo de sermos censurados, julgados, criticados, rejeitados? E se formos rejeitados pelos sinais contraditórios que emitimos? Eu mesma me sinto um lixo quando sinto que, além de não ter sido verdadeira com tudo aqui dentro de mim, eu ainda passei justamente a impressão/mensagem errada, no sentido de ela ser o oposto do que eu sou, penso, ajo, sinto, transbordo. Poxa, isso me mata aos poucos, vai me entorpecendo, envenenando... silenciando e drenando vagarosamente minha energia vital. É destrutivo...
É como querer alguém perto e, ao mesmo tempo, fazer de tudo pra afastar essa pessoa. Quantas e quantas vezes não fazemos isso? Como somos capazes de querer alguém perto e dizer e fazer coisas que nos afastam cada vez mais? Que nos repelem... nos distanciam... nos separam? Até o ponto de nos desconhecermos... um ao outro e até a si próprio? Por que fazemos isso? Por que nos desconectamos e nos afastamos, afinal, de nós mesmos? Por que colocamos em xeque o que acreditamos, desejamos, amamos, queremos tão perto?
Com a terapia e lendo um pouco sobre psicanálise, eu entendi o quão importante é se conectar consigo próprio, se perceber/sentir e ser generoso consigo mesmo. Também tenho compreendido aos poucos o quanto nossas experiências pessoais nos assombram, e o quanto reproduzimos comportamentos destrutivos e vamos gerando e cultivando um padrão nocivo...
Assim, achando que estamos nos preservando e nos protegendo para que outros não nos magoem, nós nos poupamos... no mínimo, de uma possível dor, e, no máximo, de quebrar a cara, partir o coração, ficar em frangalhos... E mesmo nos poupando, não há garantia alguma de que também não nos machuquemos (no processo e a nós mesmos). Que loucura isso!
Eu mesma tenho a impressão de que, agindo conforme meu modus operandi, posso evitar algum ou todo sofrimento, mas, em contrapartida, também posso agravá-lo, não é mesmo? Na medida em que me poupar também possa significar me privar de me aproximar do que quero perto de mim, de ter o que talvez eu possa conquistar, que possa ser meu... Então, contraditoriamente, na verdade eu não me protejo, mas agrido a mim mesma, me mutilo. Consequentemente, eu sangro... Às vezes, o dobro (caso eu fosse, de fato, sofrer). Ou também pode ser que eu sangre desnecessariamente ao me poupar (caso eu não fosse sofrer). Mas, tendo me poupado, nunca saberei... assim, já tendo me poupado, de qualquer modo, sangrarei...
No fundo, consideramos que nos sentimos acuados com medo de viver algo semelhante e nos “quebrar” novamente... mas, então, tenho a impressão de que esse medo seja o de lidar com algo novo, desconhecido, diferente do padrão de frustração que conhecemos. Porque penso que o que mais nos assombra é sempre o novo, e não o velho. É que o passado (o “velho” conhecido) vem à tona quando nos deparamos com o novo... Nós sentimos falta da familiaridade, dos nossos conhecidos padrões de frustração. Que, de certo modo (tão avesso), parece que nos acolhe.
Temos medo do novo, da mudança, do diferente. Temos dificuldade em sair do mesmo lugar, em nos mover, em nos arriscar. É como se tivéssemos pavor de experimentar algo novo e, mais do que isso, de gostar, de mudar, de nadar contra (aquilo que pensamos ser) a nossa maré. Nos autossabotamos diante da possibilidade de arriscar tudo em que acreditamos e confiamos e dar certo e, depois disso, já sofrendo por antecipação, de pensarmos que não saberemos lidar com os novos desafios, de nos ressignificarmos.