ㅤㅤ my sweet child, my gentle-hearted loverboy… you were never meant to survive this cruel place. you walked through fire with bare feet, still offering warmth to those who burned you. even your silence was tender, how could the world not devour you?
﹙ ⎯⎯ ⋆ 𝑫𝒀𝑰𝑵𝑮 𝑩𝒀 𝑻𝑯𝑬 ℂ𝕌ℙ𝕀𝔻'𝕊 𝔹𝕆𝕎⠀ ⠀⸺⠀ ⠀)⠀ ⠀aquele é grigori ivanovich pavlenko, de vinte e quatro anos. ele é bolsista no instituto valentinov e está cursando o último período do curso de letras clássicas. além disso, você pode encontrá-lo nas aulas de música clássica ou no clube de fotografia, em seu tempo livre. o que poucos sabem é que é um dos membros de decapolis, atendendo pelo codinome dente-de-leão.
﹙ ⎯⎯ ⋆ 𝑷𝑬𝑹𝑺𝑶𝑵𝑨𝑳𝑰𝑻𝒀⠀ ⠀⸺⠀ ⠀Grigori é um rapaz doce e afetuoso, guiado por uma empatia natural que o aproxima das pessoas com delicadeza e gentileza. Há algo de genuinamente acolhedor no modo como se doa: nos gestos , nas palavras bem escolhidas, no cuidado com quem está ao redor. Ele é sensível por natureza, mas aprendeu cedo a guardar essa sensibilidade como forma de proteção. Por isso, apesar do brilho que recusa deixar seu olhar, há camadas de dor e amargura se escondendo atrás dele.
Obediente e observador, tem facilidade para aprender e uma postura naturalmente aplicada. Lê bem os ambientes, capta nuances, sabe quando se calar e quando oferecer apoio. Tem um olhar que tudo percebe, mesmo quando não comenta, e uma fidelidade firme às figuras que escolhe admirar. Sua dedicação se prova na constância, no esforço, no zelo com que cumpre o que lhe é confiado. E, ainda que nem todos gostem disso, há em Grigori um coração firme e luminoso, que pulsa com ternura mesmo nos dias mais duros e sob as provas mais difíceis.
﹙ ⎯⎯ ⋆ 𝑩𝑰𝑶𝑮𝑹𝑨𝑷𝑯𝒀⠀ ⠀⸺⠀ ⠀Grigori nasceu em um lar onde o afeto era escasso e as expectativas, esmagadoras. O pai, rígido e controlador, trabalhava na linha de operação de uma fábrica de automóveis, e a mãe dividia seu tempo entre o trabalho como empregada doméstica e as demandas da casa. A irmã mais velha, problemática e cheia de conflitos, atraía a maior parte dos problemas familiares, fazendo com que todas as esperanças recaíssem sobre os ombros do caçula.
Mas os pais não compreendiam sua sensibilidade, e tampouco tinham paciência para ela. Tudo nele parecia errado aos olhos da família: sua voz baixa, seu jeito introspectivo, o modo como preferia livros a pessoas. Era como se, desde o início, já estivesse condenado a ser um erro a ser corrigido.
Desde muito jovem, Grigori encontrou nos estudos seu refúgio mais seguro. Antes mesmo de ingressar no Instituto Valentinov, já sofria com o bullying constante dos colegas, mas suas notas impecáveis o mantinham distante do caos ao seu redor. O estudo era sua forma de se proteger, de escapar tanto de casa quanto das pessoas que perturbavam sua paz. Graças a esse esforço, conquistou uma bolsa no Instituto e por um breve instante, acreditou ter encontrado seu lugar no mundo. Mas não foi bem assim.
O Instituto, com toda sua pompa e rigor, ofereceu novas formas de solidão e pressão. Foi nesse cenário que acabou envolto na teia perigosa e bem tecida de Volkov. Fragilizado por sua história, confundiu aquele tratamento abusivo com cuidado e afeto, tornando-se submisso e dependente. Passou a enxergar o professor como um salvador, o único que via valor nele e, por isso, o corrigia tanto.
Após a morte teatral de Volkov, a culpa retornou, avassaladora. Apesar de ter sido vítima, Grigori sente-se responsável de certa maneira, sufocado pela lembrança da relação tóxica que teve com o professor, e pela ausência de respostas que cerca sua partida misteriosa.
Hoje, convive com medo do futuro, acreditando que falhou em atender a qualquer expectativa; a da família, de Volkov, a sua própria. Mas ainda guarda uma tênue esperança de que um dia encontrará um lugar onde possa existir sem precisar sangrar para ser aceito.
﹙ ⎯⎯ ⋆ 𝑯𝑬𝑨𝑫𝑪𝑨𝑵𝑶𝑵𝑺⠀ ⠀⸺⠀ ⠀
Nascido em 4 de novembro, é de escorpião, embora não entenda muito de astrologia e raramente se lembre do próprio mapa astral. Costuma rir quando dizem que tem “cara de escorpiano”, sem saber exatamente o que isso quer dizer.
Fuma desde os treze anos, hábito que pegou cedo e nunca largou, apesar das tentativas ocasionais. Não tem o costume de usar drogas e bebe apenas de vez em quando, geralmente em situações sociais ou quando o silêncio pesa demais.
O contato com a família é raro. Mantém uma distância segura por escolha e por cansaço, mas ainda tenta, do jeito dele, manter um olho na irmã, não por obrigação, mas porque se importa. Mesmo que não saiba muito bem como demonstrar.
É bissexual, mas não sente necessidade de rotular sua sexualidade para os outros. Para ele, o que importa é a conexão e a sinceridade, independentemente do gênero da pessoa.
they say in chess you've got to kill the queen and then you've made it. oh, do you? a funny thing, a king who gets himself assassinated... hey now, every time i lose altitude.
﹙ ⎯⎯ ⋆ 𝑶 𝑱𝑼𝑳𝑮𝑨𝑴𝑬𝑵𝑻𝑶⠀ ⠀⸺⠀ ⠀)⠀ ⠀INTERROGATÓRIO .
Dente-de-Leão foi o próximo.
A luz branca da sala de interrogatório refletia em seus cabelos e os olhos estreitados não conseguiam se acostumar com tanto brilho. Grigori entrou sem ser conduzido, mas com o corpo inteiro denunciando um desconforto que ele se esforçava para camuflar. Sentou-se à cadeira de madeira da sala de interrogatório improvisada e manteve os braços cruzados no colo. Tentava parecer calmo, mas seus dedos apertavam os punhos fechados um contra o outro.
Sentado de frente para os dois investigadores — um homem corpulento e careca e uma mulher de expressão dura, ambos com pranchetas sobre a mesa —, Grigori ergueu o queixo com alguma rigidez, como se aquilo fosse suficiente para manter a compostura.
— Nome completo?
" Grigori Ivanovich Pavlenko. " Falou de uma vez, direto, como quem quisesse atravessar a parte burocrática o mais rápido possível e escapar daquele foco esmagador sobre si.
— Idade?
" Vinte e quatro. " A fala ficou no ar por um segundo mais do que deveria. Pensou em como soava estranho dizer aquilo em voz alta, como se os últimos anos tivessem passado rápido demais. Ou devagar demais.
— Aluno regular do Instituto Valentinov?
" Sim. " Respondeu após um breve silêncio, o olhar desviando por um instante para o reflexo borrado no espelho da sala. Não havia orgulho na resposta, apenas cansaço.
— Você conhecia o professor Gavriil Volkov?
A pergunta veio com o peso que já esperava, mas mesmo assim atingiu fundo, como um prego pressionado contra uma ferida aberta. Grigori desviou o olhar por um instante, como se o teto da sala de interrogatório pudesse lhe oferecer algum tipo de escudo. O nome de Volkov ainda carregava camadas demais em sua mente para ser encarado de frente sem cautela.
" Sim. "
Não havia maneira de negar. Mas também não havia como dizer tudo que aquela resposta guardava.
— Qual era sua relação com ele?
Sentiu o ar se prender brevemente nos pulmões. Era difícil explicar o inexplicável e fácil demais cair em contradição. Ainda assim, a resposta saiu limpa, quase ensaiada:
" Volkov me tratava como tratava todos: com a dedicação de um mestre. E eu o tratava como qualquer aluno, com admiração. "
O que vinha depois dessa admiração, no entanto, ninguém precisava saber.
— Você o via fora das aulas?
Os olhos de Grigori se estreitaram, como se buscasse alguma armadilha na pergunta. " Somente em atividades ligadas ao Instituto. Ele supervisionava alguns projetos e clubes. "
A resposta saiu firme, mas por dentro ele sentiu o estômago revirar. Não parecia prudente assumir, mas não via outra escolha. Dizer que eram indiferentes a presença um do outro fora da sala de aula também era um risco alto demais. Precisava manter a narrativa limpa e controlada.
— Onde você estava na noite em que ele foi morto?
Seu corpo se enrijeceu, como se a pergunta tivesse sido disparada como uma flecha certeira. Grigori já esperava por isso e ainda assim teve que tomar fôlego antes de responder: " Estava no laboratório de fotografia. Fiquei até tarde revelando algumas imagens para um projeto. Era algo pessoal, mas dentro do clube. " Pigarreou discretamente. " Tem registro da minha entrada e saída. "
— Você estava sozinho?
" Sim. " Disse sem vacilar, embora tivesse passado a noite se perguntando se alguém o tinha visto mesmo. Era difícil confiar em qualquer coisa ultimamente, até na própria memória.
— Você viu ou ouviu algo estranho naquela noite?
A lembrança do corredor em silêncio, da tensão no ar, atravessou seus pensamentos como uma corrente fria. Mas não podia dizer isso.
" Não. O laboratório é isolado. Só ouvi meus próprios passos. "
— Sabe se alguém estava insatisfeito com o professor? Qualquer conflito recente?
Grigori hesitou. Havia tantas pequenas fraturas invisíveis naquela estrutura. Mas ali, diante de pessoas que nunca entenderiam, optou por um meio-termo: " Ele era exigente. Rigoroso. Mas sempre teve o respeito da maioria dos alunos. "
— Você se sentia próximo dele?
A pergunta ficou suspensa no ar por alguns segundos. Grigori encarou a parede atrás dos investigadores antes de responder: " Ele era meu professor. E eu o respeitava muito. "
Era verdade e também uma omissão.
— Tem ideia do que pode ter acontecido com ele?
Grigori piscou devagar, hesitando por um instante. A pergunta reverberou em sua mente mais do que gostaria. Sentiu um leve nó no estômago, não por medo, mas pelo peso que carregava nas costas. Pensou nas noites em claro, nos rituais, nos olhares exigentes de Volkov e em como ele moldava cada um deles com mãos firmes e frias. Pensou na pressão constante, no cansaço emocional, nos limites ultrapassados em nome de um ideal que nem sempre compreendia. Pensou em todos os momentos em que foi reduzido a quase nada diante dos outros. E em como, mesmo assim, ainda o admirava.
Os dedos se entrelaçaram com mais força sobre a mesa antes que respondesse, em um tom mais baixo, mas ainda firme: " Não. "
o pensamento queimava, cru e inevitável: depois de tudo o que Volkov fez com eles; o quanto os pressionou, os feriu, os moldou à força, talvez aquele fim tenha sido uma consequência. Um destino cultivado em silêncio.
No fim, ninguém podia dizer que ele não fez por merecer.
" Mas… Talvez ele fosse mais sozinho do que deixava parecer. "
Os dois investigadores se entreolharam brevemente, trocando um olhar rápido que não passou despercebido por Grigori, antes que a mulher anotasse algo em sua prancheta com movimentos firmes e meticulosos. O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que qualquer acusação direta. Como se aquela simples frase tivesse levantado novas possibilidades que eles ainda não estavam prontos para verbalizar.
— Você lamenta a morte dele?
A pergunta foi direta, quase cruel. Grigori manteve os olhos nos próprios dedos por alguns segundos. A dor era um poço sem fundo que ele aprendera a não nomear.
" Sim. " Só isso. Mais uma vez. Com sorte, interpretariam seu nervosismo como apenas isso, lamentação.
— Se souber de qualquer informação nova, deve nos procurar imediatamente.
" Claro. " Respondeu com uma leveza que não sentia.
Quando a sala caiu no silêncio final, Grigori se permitiu piscar mais lentamente. Seus ombros estavam tensos. A boca seca. A mente acelerada. Não sabia se havia se saído bem ou se havia deixado escapar mais do que devia. Mas sabia de uma coisa: aquele interrogatório não parecia ser só sobre Volkov.
A noiva o encarou mais diretamente, um sorrisinho de desdém nos lábios, o cenho levemente franzido ao ouvi-lo sugerir que ela não sabia o que Vox estava passando. Logo ela. "Ele é nosso guia a partir de agora e nosso papel é segui-lo e ajudá-lo a continuar" murmurou com ênfase, ainda que a mensagem fosse óbvia. "Todos nós estamos em um momento delicado, Pavlenko. Não foi isso que o fez vir lamentar pelos cantos?" alfinetou pelo hábito, erguendo uma das mãos até o rosto dele e afastando uma das lágrimas restantes. A suavidade no toque foi mais inesperado do que o próprio. "Ora, é o que nós queremos. Manter nosso compromisso, nossas promessas, principalmente agora" era o que Celestine realmente acreditava. Após a conversa com Vox, continuar passou a não ser mais apenas uma dívida e um seguimento de ordens, mas uma missão pessoal. "Nossas diferenças o preocupam? Acredito que elas são parte da nossa força" opinou sincera, ainda que houvessem momentos de diferentes intragáveis, sabia que a sensibilidade extrema de Grigori seria útil em um momento como aquele.
Grigori não desviou quando ela afastou a lágrima, mas seus olhos escureceram ligeiramente. O toque foi suave demais para quem passava tanto tempo o tratando como alguém fraco. A ironia daquilo o fez rir pelo nariz, sem humor. " Eu sei que todos estão passando por um momento difícil. " A voz veio contida, mas firme. " Só que é diferente pra cada um. "
Desviou o olhar por um instante, como se tentasse manter o controle de si. " Você fala como se o que estou sentindo fosse um capricho. Como se eu estivesse lamentando por gosto ou porque não tenho o que fazer. Toda vez. " Voltou a encará-la, o olhar afiado. " Você não precisa me entender, Celestine. Mas seria bom se parasse de agir como se soubesse tudo só porque consegue seguir em frente mais rápido que os outros. Nem todo mundo reage como você acha que deveria. "
O comentário sobre as diferenças o fez suspirar, dessa vez com um toque de cansaço verdadeiro. " Não me preocupa que sejamos diferentes. Me preocupa o quanto essas diferenças vão pesar sem ele por perto. " Confessou, desviando o olhar antes de mais um trago longo no cigarro. " Eu não sou forte como você, mas talvez esse seja meu papel aqui. Lembrar vocês de que temos que converter o que sentimentos agora. Para uns vai ser continuação, mas outros precisam lembrar por que começaram. Só que nesse meio tempo, Alexei precisa de um tempo. " Tinha prometido a Alexei que cuidaria dele e estava disposto a isso. Precisavam ter pressa, claro. Tinham muito do que cuidar, mas precisavam pelo menos de um tempo para respirar fundo primeiro.
Sombra observava cada mínima reação de Dente-de-Leão. Sentia que podia ouvir cada girar de pensamentos na cabeça do colega, mas não esperava que ele fosse abrir a boca agora que ela havia perguntado diretamente. Manteve-se com a mesma expressão e pegou o cigarro, ainda próxima demais, ainda como se quisesse enxergar dentro dos olhos dele. "Não sei. Não é como se todos tivéssemos tido a oportunidade de ver Volkov antes de morrer. Você o viu?" Tragou o cigarro, e então o devolveu.
"Talvez." Deu um passo para trás. "Se Vox é o sucessor, a decisão é dele se as coisas acabam ou continuam. Não acha?" Enfiou as mãos geladas nos bolsos, se virando para o outro lado. Zvezdana não falava tanto, não compartilhava. Não sabia se Vox iria preencher o papel de Volkov, se saberia guiá-los da mesma forma. E, no fim do dia, ele ofereceria o que Volkov poderia oferecê-los? Havia respeito por ele, havia certa confiança, mas também haviam incertezas sobre o futuro da Decápolis. "Falou com Vox sobre isso?"
Sabia que estava sendo observado com mais atenção agora, mas tentou não dar importância a isso. Preferia manter o olhar longe dela sempre que possível, focando em manter a expressão o mais neutra possível. Sabia que era naturalmente expressivo demais e não queria ser mal interpretado. " Não. " Respondeu com um suspiro. " Ia vê-lo depois da reunião. Queria mostrar umas fotos que tirei para um projeto do Clube de Fotografia. " Deu de ombros, como quem tentava minimizar a própria expectativa. " Você o viu naquele dia? "
Grigori enxergava a situação por outra perspectiva. " Ele não tem escolha. " Para ele, se Alexei havia sido preparado para aquele papel, se havia sido escolhido, então era porque estava à altura. Porque sabia o que tinha que fazer e como fazer. Todos aqueles anos ao lado de Volkov deveriam ter ensinado o suficiente, não? " Existe um propósito maior do que as escolhas pessoais. E o nosso dever é apoiá-lo. " Sem Volkov, parecia que era isso que lhes restava: unir forças e seguir em frente. " Ainda não... Não está sendo fácil para alguns de nós. " Sabia que nem todos compartilhavam da mesma visão que ele e Alexei tinham sobre o professor. " Mas quero fazer isso, com calma. "
Alexei soltou um riso baixo quando sentiu Grigori tomar controle. Era estranho ser conduzido por alguém que conhecia há tanto tempo de um jeito tão diferente, mas ele não resistiu. Não queria resistir. Com os sentidos entorpecidos, tudo parecia mais vivo o toque, o calor, a forma como Grigori falava com aquele tom carregado de ousadia e desejo. "Você fala bonito, Grisha…" Murmurou, a voz mais rouca, mais grave. As mãos apertaram as coxas dele com firmeza, subindo devagar até parar na cintura. "…mas vamos ver se entrega o que promete."
Quando a língua de Grigori passou por seus lábios e os dentes puxaram o inferior, Alexei mordeu de volta com um sorriso sujo no rosto. Ele deixou, mas também respondeu sua boca quente e exigente capturando a do outro de volta, sem delicadeza agora, só vontade. Ele estava chapado, e isso tirava qualquer filtro. Queria explorar, sentir, provocar. "Senta direito, porra." Murmurou contra os lábios dele, puxando Grigori mais firme em seu colo, fazendo com que ele sentisse exatamente o quanto o tinha deixado excitado. "Continua assim e eu vou acabar te fodendo aqui mesmo." Alexei queria tocar tudo, apertar, ouvir os sons que ele fazia quando era provocado daquele jeito. Não era só o tesão — era também o efeito de ver Grigori daquele jeito, tão entregue e tão diferente do que estava acostumado.
"Eu gosto de você, tá?" Alexei soltou de uma vez, cuspindo as palavras como se estivessem entaladas na garganta, no meio do calor que já fazia o sangue ferver. Não era plano dizer, muito menos daquele jeito, mas era verdade, Grigori era seu melhor amigo . "Mas agora eu só quero te sentir…" Puxou Grigori pela nuca com força e o beijou de novo, sem nenhuma doçura. Aquilo não era sobre romance ou delicadeza era desejo, era necessidade presa demais pra sair de outro jeito. O beijo era urgente, faminto, como se quisesse arrancar dele tudo que não teve coragem de tocar enquanto sóbrio. A mão de Alexei desceu, apertando a bunda de Grigori com força, puxando seu corpo contra o próprio quadril. Sentia o calor, o atrito, o maldito prazer crescendo como uma explosão prestes a acontecer. A voz saiu mais baixa, carregada de ameaça e fome. Só que ali, naquele instante, ele não estava brincando. Sem soltar o outro, Alexei se levantou da cadeira com Grigori ainda no colo e o empurrou contra a parede por alguns segundos, só pra dar mais um beijo mais sujo, mais pressionado. Então puxou o garoto pela mão e o arrastou por um dos corredores escuros daquele lugar abandonado. "Vem.." Murmurou com um meio sorriso torto, os olhos brilhando sob a penumbra. "Não quero aqueles idiotas interrompendo isso."
Havia algo profundamente prazeroso na natureza secreta daquilo, como se o sigilo apenas tornasse tudo mais urgente, mais carregado de excitação. Entregar-se sem reservas, sem pensar no que viria depois, era tão intenso quanto viciante. E o melhor de tudo era ver seu melhor amigo completamente entregue só para si. Prova disso era o sorriso que crescia nos lábios de Grigori, se recusando a sumir mesmo quando mal conseguia respirar entre os beijos. A forma como Alexei o tocava, como falava entre um arfar e outro, fazia com que ele gemesse baixo, abafado, tomado por aquela mistura de desejo e euforia.
Mas era uma via de mão dupla, Grigori também estava entregue, querendo mais, buscando mais. Um arrepio percorreu sua espinha quando foi puxado com força para o colo, o quadril encaixando contra o dele de maneira provocativa e precisa. A ereção pressionada contra seu corpo arrancou-lhe um gemido abafado, e ele rebolava devagar, explorando aquela fricção gostosa, carregada de intenção. “ É uma promessa? ” Sussurrou com malícia, deixando o nariz roçar na bochecha de Alexei antes de voltar à sua boca.
A confissão o atingiu como uma brisa fresca no meio do caos. Grigori sorriu, os olhos suavizados por um instante. “ Eu sei… ” Respondeu baixo, com carinho, os dedos acariciando o rosto do outro brevemente antes que voltasse a beijá-lo com fome, decidido a mergulhar naquela vontade sem freios. Ele só queria senti-lo; queria mais dos toques, dos sons, da maneira crua e honesta com que Alexei o queria de volta.
Quando foi erguido no colo, riu entre um arfar e outro, os braços enlaçando o pescoço dele. O impacto contra a parede arrancou um suspiro pesado, mas seus olhos brilhavam com provocação. Grigori devolveu o beijo como se pudesse devorá-lo ali mesmo, puxando Alexei contra si como se ainda houvesse espaço entre os dois.
E quando foi conduzido pelo corredor escuro, os dedos entrelaçados aos dele e o sorriso ainda curvado nos lábios, não havia hesitação. Mesmo com as pernas trêmulas, ele apenas seguia. Reconheceu rapidamente que o corredor escuro levava a um tipo de arquivo litúrgico, esquecido pelo tempo e, em qualquer outra circunstância, adoraria explorá-lo com calma. Mas naquele instante, mal conseguia se concentrar em muita coisa.
Daquela vez, era ele quem tinha Alexei contra a parede. As mãos de Grigori desceram pela lateral do corpo do outro com uma lentidão que beirava a devoção, como se quisesse decorar cada linha, cada curva, cada arrepio provocado por seu toque, até sentir os próprios joelhos contra o chão frio.
Os dedos, trêmulos de antecipação, desfizeram as barreiras de tecido com precisão. O olhar de Grigori subiu, faminto, como quem implora e promete ao mesmo tempo. E então veio o toque lento, ritmado, um convite descarado à rendição. A língua desenhou caminhos ao longo da pele quente, explorando cada centímetro com ousadia e reverência. A boca quente envolvia sem pressa, saboreando o momento. As mãos firmes nas coxas de Alexei o mantinham preso ali, onde queria.
A respiração de Grigori tornava-se mais rápida, o som abafado da devoção transformada em desejo preenchendo o espaço. A intensidade não estava só no gesto em si, mas na forma como se movia, no jeito como olhava para cima em busca de qualquer reação, como se cada mínimo som de prazer fosse um prêmio. Não havia nada mais importante naquele instante do que ver Alexei se desmanchar por ele.
O tom sincero da voz dele fez o coração de Nyx hesitar por um instante, não por dúvida, mas por lembrança. Havia um espaço delicado entre eles, cheio de afeto, mas também carregado da sombra do nome que ainda ecoava em sua mente: Alexei. Um sorriso pequeno deslizou pelo rosto dela, suave e contido, como quem guarda um segredo que não pode ser dito em voz alta. Gostava de Grigori, sim, de um jeito especial e raro, mas no fundo sabia que ele nunca poderia substituir aquele que sempre habitou seus pensamentos mais profundos. Uma aflição apertou em seu peito, a mistura agridoce de um amor deixado para trás e um carinho pelo presente que ainda não se atrevia a florescer.
Ok, ela foi pega de surpresa por essa pergunta, precisou de um tempo para analisar e escolher as palavras, preciso separar Nyx de Ágata. "É se olhar no espelho e ver tudo o que sobrou quando o mundo terminou de lhe arrancar o que podia. É ser a noite que ninguém entende, talvez até vazia. Não é bonito, nem seguro, mas é real. Ágata sorri, obedece e cumpre ordens. A Nyx observa, decide e sente e não pede desculpas por existir." Ela respirou fundo e parou no meio do caminho ficando para trás. "Golpe baixo, Grigori."
Mesmo sem uma resposta verbal, Grigori tinha a impressão de saber exatamente o que se passou na mente dela. Ou melhor, quem. E, sendo honesto consigo mesmo, sabia que não havia competição e tudo bem. Por isso, só esboçou um novo sorriso pequeno, carregado de compreensão. Também não diria nada. Não queria que o assunto escorregasse até Alexei. Não naquela noite.
Escutou cada palavra com atenção, observando suas expressões, notando as pequenas mudanças em seu rosto. Quando ela terminou, ele assentiu devagar, soltando uma risada baixa antes de perguntar, com a voz suave: " Por que é golpe baixo? " Virou-se de frente para ela, buscando por seu olhar.
" Mesmo que doa olhar para o que sobra quando o mundo arranca tudo da gente, não é fraqueza. Não tem nada de errado nisso. " Suspirou, os ombros relaxando um pouco. " Acho que às vezes esquecemos que somos humanos... Que algumas feridas abrem fundo, mais fundo do que esperávamos. Mas... Uma hora ou outra, elas viram cicatrizes. De um jeito ou de outro. "
Talvez essa fosse sua maior lição desde que entrou para a Decápolis: aprender a conviver com as cicatrizes. " Por mais que Volkov espere algo quase divino de nós, por trás dos rituais e das reuniões, ainda somos só... Pessoas. E, no fim, acho que isso também tem o seu valor. "
Ela soltou um suspiro de descrença com a resposta, mas então começou a rir também. "Você também é esquisito." Confessou. Havia tanto em Grigori que ela não compreendia mas que em seu estado normal, jamais seria capaz de perguntar. Achava intrusivo demais, talvez rude, mas ainda assim, não o compreendia.
A simplicidade na resposta de Grigori a fez ter um sentimento quase maternal de cuidado. O viu como uma criança que pede para a mãe para não ir à escola, e por alguns segundos sentiu vontade de chorar com o afeto que sentiu por ele. Os olhos marejaram, mas as lágrimas não caíram. Era um sentimento de cuidado e pureza com o qual ela não estava acostumada. "Talvez alguns deles nem tanto." Ela sussurrou, contendo a risada, quando passaram ao lado de Espelho.
Ela se permitiu se apoiar nele, tanto pelo frio quanto pela necessidade de contato que sentia após a experiência, como se quisesse se sentir real. Viva. O que era irônico, considerando tudo o que havia acontecido durante o ritual. Ela olhou para Grigori com a pergunta, e os pensamentos se dividiram em dois: na possibilidade de se livrar de Volkov naquele mundo só deles, onde tudo era puro e sensível, sem as crueldades pelas quais passavam; e também pela necessidade que tinham de serem liderados por ele. "Talvez Volkov já tenha se purificado de outras formas, não acha? Já que é ele quem nos ensinou tudo isso. Talvez ele já esteja nesse mundo e tenha nos alcançado no outro pra nos trazer pra cá."
Grigori riu de novo quando ela repetiu suas palavras, como se gostasse da ideia. " É, acho que somos dois esquisitos então. Mas talvez seja por isso que estamos aqui, né? Só sobra espaço nesse mundo novo pra quem não se encaixa direito no outro. "
A fala da mulher sobre Volkov o fez franzir um pouco o cenho, como quem tenta decifrar um quebra-cabeça e depois só aceita que ele não tem solução. " Talvez ele seja uma daquelas entidades que vive entre os mundos, sabe? " Continuou, meio sonhador. " Tipo um... espírito guia. Só que mais cínico. "
Deixou a cabeça tombar um pouco contra a dela enquanto caminhavam, sentindo a proximidade como algo sagrado, algo que ancorava. " Ou talvez ele só esteja esperando a gente chegar onde ele já chegou faz tempo. " Fez uma pausa, e então, com uma sinceridade desarmada, completou: " Mesmo que às vezes pareça que ele gosta de assistir a gente se debatendo. "
A sensação do cigarro tocando seus lábios foi o que trouxe Viktor de volta para a realidade. Ele tragou com vontade, apreciando a forma como a fumaça queimava sua garganta em uma sensação estranhamente reconfortante. Só então levou o olhar até Grigori, como se quisesse confirmar a identidade de quem o acompanhava. Soltou a fumaça com uma risada desleixada e um certo alívio ao notar que se tratava de um rosto familiar. "Não devemos estar muito longe," encorajou a ideia, ainda que não soubesse ao certo onde realmente estavam. Ele estreitou os olhos, num esforço inútil de reconhecer qualquer coisa que pudesse fazê-lo se localizar, mas a sugestão de Grigori o fez virar o rosto novamente. "Nunca," admitiu, achando estranho que alguém pudesse se divertir compartilhando segredos, mesmo que de brincadeira. "E você? Tem algo a confessar?" Perguntou em um tom instigador. Em outras circunstâncias, talvez Viktor tivesse apenas desconversado, mas a ideia parecia divertida o suficiente naquele momento. Desde que, é claro, não fosse ele a começar.
Grigori também não fazia ideia de onde estava, nem por quanto tempo haviam andado ou sequer para onde podiam ir. O corpo estava exausto do esforço daquele dia, e a noite congelava até os ossos. Só o fato de ainda ter ânimo para caminhar já deveria ser surpreendente, mas não conseguia se prender a isso. Estava ocupado demais aproveitando a sensação. Ou melhor, todas as sensações que o atravessavam até então. Muito mais intensas do que costumava experimentar.
Talvez por isso se sentisse confortável. Confiante, até. Confiante o suficiente para propor aquele tipo de brincadeira, coisa que jamais faria em um dia comum. Mas havia algo naquela leve embriaguez da mente e do corpo que o fazia acreditar que podia tudo. Que as consequências, especialmente as morais, não o alcançariam. " Quase morri uma vez, tentando salvar minha irmã. " Falar da família nunca era fácil. Era um território cheio de feridas mal cicatrizadas. Mas, naquele instante, o peso parecia menor. Como se a confissão fosse só mais uma entre tantas. " Nós subimos no telhado da casa da minha avó pra fumar escondido. E ela chegou perto demais da beira. " Ele fez uma pausa. Ainda tentava acreditar que aquilo não tinha sido de propósito. Que sua irmã não queria mesmo cair. Que só estava testando os limites, como ele fazia agora. " Eu tinha... 13 anos, acho. "
A manhã seguinte ao ritual foi como um golpe em Celestine. Toda a exaustão pareceu tomá-la, podia jurar que havia tido uma febre forte. Parecia ter uma sinfonia desafinada dentro da cabeça. A luz e os sons pareciam mais intensos. Diante disso, preferiu ficar na suíte até que conseguisse chegar até o banheiro sem cambalear.
Ao descer até o saguão, já trajava uma roupa perfeitamente alinhada, o cabelo preso em um coque baixo e uma maquiagem delicada no rosto que disfarçava apenas parte dos sintomas. Sabia que sua ausência geraria especulação. Ela havia sido o centro de tudo. Havia se sentido poderosa, vista, amada por toda a intensidade que já desejara. Mas se deparar com a fragilidade do corpo humano a fez duvidar de sua posição, afinal ela não deveria continuar se sentindo como A Noiva após a cerimônia?
As palavras de Grigori a esboçar um meio sorriso de canto, seguido por um risinho baixo. "É um contraste intrigante, não acha?" devolveu levemente rouca, erguendo uma das sobrancelhas ao se aproximar. Ela gostava de provocar aquela sensação de dúvida nas pessoas. "Por acaso você chegou a ouvir algo parecido com isso ontem?"
De fato, era um contraste intrigante. E, se pensasse nisso a fundo, começaria se questionar o que Volkov tinha visto para colocá-la na posição que se encontrava no grupo. Porque, do seu ponto de vista, parecia que só teria mais dúvidas do que respostas. A começar por aquele risinho.
Grigori até tentou se refugiar nas páginas abertas do livro, fingindo atenção, como se pudesse escapar pela leitura. Mas a concentração não durava, cada palavra se dissolvia antes de fazer sentido. A verdade era que ela o desconcertava. Talvez por parecer sempre tão à vontade no papel que lhe foi dado, enquanto ele vivia tentando entender se o lugar que ocupava era mesmo dele.
A pergunta seguinte veio como um empurrão e ele mal conseguiu esconder o rubor que subia pelo rosto. As lembranças da noite anterior estavam embaralhadas, cheias de recortes e sombras, mas certas imagens resistiam como brasas sob a pele. Era difícil fingir que não estavam ali. " Seu ego já foi bastante massageado ontem, não acha? " Murmurou, sem conseguir encará-la por muito tempo.
Ele não a invejava de verdade. Não no sentido literal. Mas sentia aquela pontada incômoda toda vez que percebia o quanto ela parecia já ter vencido uma guerra enquanto ele ainda estava tentando provar que merecia estar ali, talvez até para si mesmo. E naquele momento, ela era o reflexo perfeito do que ele ainda não sabia como ser. " Como está se sentindo? " Perguntou baixinho, para que só ela ouvisse. " Você precisa se alimentar bem hoje e... Repor as energias. " Parecia óbvio dizer aquilo, mas tirando pela sua própria vontade de não fazer mais que o mínimo naquele dia, parecia importante lembrar do mínimo.
⏾⋆.˚ Os dígitos pontilhavam a região da testa — que ainda acumulava algumas das gotículas de suor geradas pelo calor do sono agitado e mal dormido — massageando a pele com a intensidade de quem desejava penetrar a carne, atravessar o crânio, para finalmente tocar o cérebro que parecia latejar. A dor era pulsante, alcançando a área dos olhos, pescoço e grande parte da nuca. Quantos males havia carregado dentro de sua essência para estar pagando tão caro por sua purificação? De nada adiantava desperdiçar energia com questionamentos como aquele, restando somente lidar com as consequências e aprender com as mesmas.
O silêncio do quarto foi rompido pela voz de Grigori, cuja companhia era um conforto durante o período de ressaca moral e reflexão profunda. Por meio de uma risada rouca, admitiu se sentir da mesma forma. ── Quem dera você tivesse essa sorte. ── A travessura tentava atravessar as palavras, mas ainda continuava fraca, como se parte de sua energia vital tivesse sido drenada. Inúmeras vezes interpretara a morte como um merecido livramento, um descanso eterno para a mente tão poluída e exausta. Com o inevitável questionamento a respeito de Volkov, ela suspirou. ── Acho que até o orgulho é capaz de deixá-lo ainda mais puto. Não há a menor chance de ficar satisfeito ao descobrir que agimos por suas costas. ── Ofereceu sinceridade, na expectativa de receber o mesmo em retorno. Sempre havia considerado a opinião do rapaz, mesmo quando seus pontos de vista divergiam. ── Ao menos poderá canalizar toda essa revolta em seu sucessor. Afinal, quem é que nos lidera quando ele está ausente?
O comentário da mulher lhe arrancou uma risada que fez sua cabeça latejar, imediatamente seguida por um gemido baixo de protesto. Aquilo era perturbador. Já tinha ficado bêbado antes, já tinha enfrentado ressacas, mas não daquela forma. Não era possível que apenas vinho tivesse deixado um rastro tão devastador. Então lhe ocorreu que talvez o estrago não fosse só físico. Talvez fosse a culpa, colada no corpo como suor frio, que tornava tudo mais difícil de suportar. Um gosto amargo preencheu sua boca e ele se obrigou a se sentar, indo atrás da garrafa d'água no móvel ao lado da cama. Bebeu em silêncio, entre mais um ou dois gemidos pelo esforço.
“ Depois de tudo que passei por essa tal de purificação, não quero morrer tão cedo mesmo. ” Murmurou, tentando não pensar que possivelmente já tinha jogado a tal purificação pela janela na noite anterior mesmo. Suas bochechas coraram violentamente só de lembrar de Alexei, mas respirou fundo, tentando empurrar o pensamento de volta para o canto mais silencioso da mente.
Quando ouviu a resposta de Sofiya, mordeu o lábio inferior, pensativo. Concordava com ela. Também não achava que sairiam com um tapinha nas costas depois de tudo. Mas havia um pensamento que o inquietava mais do que qualquer outro, algo que não teria coragem de dizer em voz alta a mais ninguém. “ O que acha que teria acontecido se tivéssemos feito o ritual no Instituto? ” Perguntou de repente, a voz soando baixa, como se temesse ser ouvido mesmo ali. As palavras saíram hesitantes, tropeçando na própria incerteza. “ Acha que ele... ” Grigori não terminou. Teve que cobrir a boca com a mão para conter uma risada nervosa, que morreu logo depois, substituída por algo mais sério, mais preocupado. “ Ele não vai poder ser tão duro com o Alexei, né? ” Insistiu, e agora seus olhos buscavam nos de Sofiya alguma confirmação. “ O ritual deu certo. Está completo. Ele pode ficar bravo porque fizemos, mas não pode... Castigá-lo por isso. Não é? ”
Se sentia incrível. Em qualquer outro dia, a realidade desconfortável do que tinham feito iria assombrar seus pensamentos, mas tudo parecia perfeito. Sua cabeça estava desorganizada, não conseguindo se focar em uma coisa apenas, mas tudo pareceu se clarear quando seus olhos encontraram Grigori. Eram coisas que não se permitia pensar, mas ele nunca tinha parecido tão belo como naquele momento. O procurou, andando na sua direção, pegando apenas algo para se cobrir no caminho, algum do seu bom senso ainda presente. Parecia-lhe destino, por muito que não acreditasse nisso, que eles estavam os dois juntos em Decápolis. Como explicar uma criatura tão perfeito num lugar tão cruel de outro jeito?
Tocou seu braço, deixando-se sentir a pele quente do outro, como se tudo o que precisasse fosse contato com ele. Havia uma urgência, como se não quisesse retirar sua mão. Queria mais, é claro. Mas não o queria assustar, como se Grigori fosse algo divino e qualquer coisa que fizesse poderia fazê-lo perder o privilégio de estar junto dele. ❛ — Como você se sente? — ❜ perguntou, genuíno, um nível de afeto em sua voz que em outra ocasião estaria ausente de seu tom.
Era comum que Grigori se afastasse depois das reuniões ou rituais. Procurava sempre um canto onde pudesse respirar e colocar os pensamentos em ordem. Ou pelo menos tentar. Era o único modo de lidar com tudo: empurrando para um canto da mente, trancando em compartimentos que esperava nunca mais precisar abrir. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria assombrado por cada sensação. Mas naquele dia havia algo diferente. Seu corpo estava exausto; a respiração lenta, o suor secando na pele, a calça jeans vestida às pressas ainda desabotoada. Mas a mente, essa parecia estranhamente leve. Ainda inquieta, ainda fervendo sob a superfície, mas de um jeito mais solto. Menos sombrio.
Sentado em um dos degraus do altar, observava as velas apagadas, jurando que ainda podia ver as chamas tremeluzirem, mesmo que já não houvesse fogo algum. O toque no braço o fez erguer os olhos desse pequeno devaneio. A pergunta de Sergei puxou um sorriso frouxo, satisfeito, dos cantos de sua boca. " Como um deus. " Respondeu com uma risada breve e preguiçosa, cheia daquela confiança que ele raramente existia. Naquele instante, era como se estivesse acima de tudo. Como se nada mais importasse. " E você? " Devolveu, estudando as feições do mais velho com curiosidade mansa.
Então tirou a mão de Sergei de seu braço, mas não para afastá-la, só para segurá-la. Levou os dedos dele até seus lábios e os beijou com um cuidado quase teatral. " Pronto para fazer de novo? " Sussurrou, brincando. Parte sua esperava não quer que fazer nada parecido novamente, pelo menos não tão cedo, apesar de tudo.