⋆.˚ ★ A precisão dos passos e o silêncio cortante no olhar denunciam que ZVEZDANA MIKHAILOVNA SOKOLOVA não está no Instituto Valentinov por acaso. Sendo OBSERVADORA e RANCOROSA, foi escolhida — ou amaldiçoada — como um dos observados de Volkov, selado entre sombras e expectativas antigas. Aos 24 anos, cursa o ÚLTIMO PERÍODO DE SUA GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA POLÍTICA, movendo-se entre os corredores como parte do cenário. Filha de uma origem elitista oligarcas empresariais falidos, sua reputação circula com mais força que seu nome e dizem que sua semelhança com Nastya Kusakina já virou lenda entre os estudantes do dormitório. Seus amigos mais íntimos a chamam de Sombra, você pode encontra-la em alguma aula de Latim ou no Clube de Música Clássica.
nav: dossier | povs | extras | face
Sobre:
TW: casamento arranjado, age gap
Zvezdana conheceu a riqueza quando nasceu. Sua família se beneficiou da liberalização econômica pós-soviética, e seu pai, Mikhail Vladimirovitch Koslov tornou-se imensamente rico e influente, passando a integrar, inclusive, o circulo do presidente da Russia. Mesmo após a renúncia, conseguiu se aliar ao próximo circulo de poder político, mantendo assim o status da família. Isto é, até a Grande Recessão.
Sendo a mais nova dos três filhos do casal, era tratada como uma princesa e sempre muito mimada. Mas as mudanças vieram ainda durante sua infância, quando ficou claro que nem mesmo a proteção política salvaria sua família. Zvezdana sofreu, sem entender o motivo de terem que vender a mansão e morar em um lugar menor, sem o luxo de antes. Não entendeu o motivo de sair do colégio de prestígio para um outro que ela odiava, e sofreu quando percebeu que não teria mais as antigas regalias. Adeus para os tutores, as atividades extras, os presentes, os passeios... tudo se esvaiu.
A família vendeu propriedades, a mãe passou a ser professora, e o pai voltou a advogar. Ainda tinham certo prestígio, mas nada comparado à vida que tiveram anteriormente. Foi quando, em uma tentativa desesperada de recuperar o nome da família, Mikhail propôs um casamento arranjado com Boris Sokolov, um político poderoso e ainda ligado ao presidente. Percebendo que o negócio beneficiaria mais a família Sokolov do que eles mesmos, Boris ofereceu o filho do meio: Vasily. Dos três filhos homem de Boris, Vasily era visto como o filho problemático. Mas a proposta era simples: uniriam as famílias e Mikhail prestaria favores ilegais à Boris, que pretendia que a filha tivesse o futuro que merecia.
Zvezdana casou-se aos 19 com Vasily, oito anos mais velho. Eram negócios, e os dois compreenderam a necessidade da união. Assim como os Sokolov, Zvezdana foi enviada para o Instituto Valentinov imediatamente após o casamento, devendo receber a educação que uma jovem filha da elite receberia. Aceitou de bom grado, e mudou-se para o Instituto. Tudo o que sabia era que conhecimento significava poder, e que não deveria depender apenas da família do marido para chegar onde queria. Andou pelos corredores como uma presença invisível, observando aqueles de quem ela foi parte um dia, tentando se tornar parte deles mais uma vez. Observava, ouvia. Até ser vista por Volkov.
Do lado de fora, sentia-se também como um fantasma. A mudança na situação da família fez com que todos tivessem menos tempo para a mais nova, que foi obrigada a se virar sozinha. A decisão do casamento não foi sua e, apesar de a aceitar, sentiu que não teria opção realmente. Entre os Sokolov também não era vista, já que fora recebida na família a favor. Com Volkov, no entanto, tinha sua função. Era útil para algo. Sempre compreendeu que estava sendo manipulada por ele, não era burra, mas o que poderia se tornar sob sua influência era suficiente para fazê-la ficar.
a posição implacável de Celestine não condizia com a turbulência em sua mente. ao fim da reunião, o corpo estava frio, as mãos trêmulas, mas seu olhar ainda era firme para os colegas, como se quisesse garantir que a discussão havia se encerrado - ao menos por hora. caminhou lentamente pelos corredores, o interrogatório ainda passando pela mente seguido pela constatação de que nem todos pareciam prontos para sustentar a escolha que fizeram sobre o professor. cogitar a ruína da decápolis a tocava em um local sensível, que havia ficado cada vez mais exposto durante os anos, mas principalmente dias antes da morte de Volkov. foi ao que viu sombra seguindo o caminho do instituto novamente, fazendo-a se aproximar em passos rápidos - pouco comuns quando se tratava da Noiva - como se quisesse se assegurar que manteria o controle por mais um tempo. "você realmente acha que deveríamos expulsá-lo?" perguntou num tom baixo, se referindo a Espenho, apreensiva com a resposta, mas decidida a ouví-la. "não seria... aceitar o fim de tudo?" pressionou os lábios, inquieta, um nó se formando na garganta. temia que, caso um deles fossem embora, seria questão de tempo para que todos também seguissem o mesmo caminho.
Caminhava devagar, com os braços cruzados e o olhar distante. Já conhecia aquele caminho como a palma da mão, e fazê-lo enquanto pensava sobre outras coisas não era difícil. Revivia as palavras ditas pelos outros, a confissão de Viktor, ter enfrentado Sergei para proteger Khanin, tudo reverberava em sua mente. Ouviu os passos em sua direção e, apesar de desacelerar, não olhou para trás até notar que era Celestine. Odiava o fato de que, nas últimas semanas, sempre que a via, só conseguia lembrar de sua expressão naquela última reunião. Quando Volkov a colocou em uma cama. "Espelho traiu Liliya. Traiu Grigori. Traiu todos nós." Suas palavras soavam duras, mas também se questionava se essa seria a solução. Sabia que Espelho poderia ser mentiroso e que isso representava algum perigo, mas não imaginava que suas preocupações seriam provadas daquela forma. "Mas ele está certo sobre nos unirmos. Pelo menos até tudo isso passar." Aceitava o fato de que se um deles abrisse a boca, como ele havia feito, todos estavam em perigo. "Por enquanto, acho que precisamos nos acalmar." Assentiu mais uma vez. "Você está bem?"
Nyx deu um passo hesitante para o lado, buscando fugir daquele turbilhão de vozes ainda reverberando na estufa. Respirou fundo, tentando organizar os pensamentos que insistiam em girar sem parar. Encontrar Ziggy ali, perto da saída, foi um alívio silencioso. Queria falar, precisava falar, mas não sabia exatamente por onde começar. “Ziggy.” A voz saiu baixa, carregada de um cansaço que ela mal conseguia disfarçar. “Você viu como... tudo desmoronou ali dentro? Nunca pensei que a gente pudesse chegar a esse ponto.”
Nyx desviou o olhar para as mãos, apertando os dedos. “Não sei o que fazer agora. Sinto que estamos no limite, e... e talvez a gente não volte a ser o mesmo grupo de antes.” Ela levantou a cabeça, encontrando o olhar da amiga, buscando alguma faísca de esperança ou força ali. “A gente precisa se proteger, mas... como? Se parece que nós mesmo estamos cavando a nossa própria cova.” Nyx respirou fundo mais uma vez, tentando dar voz ao medo que teimava em crescer no peito. “Eu só tô querendo entender como vamos seguir em frente sem a gente se destruir no processo.”
Ainda estava parada perto da porta, observando os outros como se esperasse que a briga recomeçasse a qualquer momento. Ela ouviu Nyx a chamar, e o olhar se suavizou. Deixou um leve suspiro escapar dos lábios e assentiu. "As coisas jamais voltarão a ser como eram antes, Nyx." Não costumava mentir por mentir, para dar falsas esperanças. "Volkov mantinha o controle," ela deu um passo para perto, "ninguém aqui vai fazer nada do que ele fez." Sussurrou. Não era uma reclamação, esperava que jamais se tornassem como ele. "Mas precisamos pensar. Agora que Espelho," ela fechou os olhos por um segundo, o gosto amargo na boca do estômago ao imaginar Liliya sendo acusada por algo que ela jamais faria, "agora que Espelho abriu a boca, precisaremos pensar. Mas não hoje." Fez que não, caminhando para mais longe da saída, esperando que fosse seguida. "Precisamos pensar com calma, decidir o que vem agora. Liliya não fez nada, mas e Grigori? Ela disse que o viu com Volkov, e Espelho também. Viktor mentiria. Mas Liliya não. Especialmente não sobre Grigori."
Ela se sentou, postura perfeitamente alinhada, em frente à mesa de Volkov. Esperou que ele se sentasse enquanto calculava suas palavras. As mãos estavam no colo, girando a aliança devagar. Sabia que Volkov havia contado para Eremita sobre seu casamento, mas até então pensava, ingenuamente, que os assuntos de Valentinov estivessem fora dos limites de Volkov. Percebeu como havia sido tola.
"A direção foi expressamente proibida de revelar a qualquer dos alunos sobre a minha situação." Ela começou. "E houve uma doação muito alta para garantir a proteção dessa informação." Não o tratava de igual para igual, sabia de sua posição hierárquica, mas jamais fora capaz de o tratar como os outros. Não o chamava de mestre, não o olhava como se fosse um deus, não se ajoelhava a seus pés. Havia respeito (ganhado a força), medo, e talvez dependência. Mas jamais uma devoção cega. "O que acha que acontece se Eremita contar para os outros?"
Volkov não se sentou. Ficou de pé por longos segundos, observando Sombra com um silêncio que não era vazio era um aviso. Os olhos escuros, impenetráveis, percorriam cada gesto dela com lentidão, desde a postura perfeitamente ereta até o giro nervoso da aliança no dedo. Quando ela terminou de falar, ele deu a volta na mesa com calma ensaiada, como um animal que sabe o exato momento de avançar. “Você me procura para cobrar limites?” Sua voz era baixa, carregada de desdém. “Logo você.”
Antes que ela pudesse responder, Volkov se aproximou de um modo quase íntimo cruelmente íntimo. Levantou sua mão e segurou o rosto dela com força, o polegar pressionando a base do queixo, obrigando-a a encará-lo. “Escute com atenção.” Sussurrou, o hálito cortante como o inverno de São Petersburgo. “Eu estou acima da direção deste instituto. Acima das regras que você acredita manipular com dinheiro e acordos de bastidores.” Aumentou ligeiramente a pressão dos dedos contra sua mandíbula, apenas o suficiente para incomodar.
“Você acha mesmo que a proteção que comprou com uma doação basta para te manter segura aqui dentro? Para manter seus segredos intactos?” Ele soltou uma risada seca. “Você não faz ideia do tipo de segredos que eu já enterrei.” Soltou o rosto dela de súbito, como se estivesse largando algo inútil, e deu um passo para trás, agora voltando ao tom calmo mas mais ameaçador ainda.
“Você não é especial. Só está aqui porque eu permiti. Porque havia utilidade em te manter por perto.” Voltou a se afastar devagar, os passos precisos. “Mas se começar a confundir presença com privilégio, eu mesmo vou te despir até os ossos na frente de todos. E ninguém absolutamente ninguém vai mover um dedo pra te ajudar.” Encostou-se na beirada da mesa, braços cruzados, como quem aprecia ver um animal encolhido no canto da sala. “Agora, pare de brincar.” Ele cuspiu. “Se quer continuar aqui, aprenda a engolir as consequências das escolhas que fez. Ou então, saia. Vá viver sua vidinha de casada com alguém que nunca vai entender nem a metade do que você é ou com sua família, lembra quão bom eles são?” Um último olhar. “Mas se ficar, abaixe a cabeça. E pare de fingir que não sabe quem manda aqui.”
“Você está aqui. Sentada nesta cadeira. Porque mesmo com essa aliança no dedo, decidiu continuar.” Ele apontou brevemente com os olhos para a mão dela. “Então aceite o que isso exige.” por fim, como quem termina uma sentença. “Ou me peça para tirá-la daqui.”
O quarto de Alexei Dragunov não era apenas um cômodo era uma extensão cuidadosamente projetada de sua própria mente. As paredes eram cobertas por um papel de tom cinza-chumbo, ornamentado com arabescos prateados que lembravam rendas antigas. Uma única tapeçaria francesa pendia acima da cabeceira da cama uma reprodução de La Dame à la licorne, o unicórnio ao centro parecia observá-lo em silêncio há anos. Cada móvel ali parecia escolhido a dedo, do espelho de moldura entalhada em madeira escura até a escrivaninha de estilo Luís XV, onde ele agora repousava os cotovelos, inclinado para frente. O cômodo exalava uma ordem meticulosa. Os livros estavam organizados por tema e idioma, os frascos de tinta dispostos em linha reta, as penas e papéis repousando com uma precisão quase religiosa. A cama estava feita, como sempre, com hospitalar perfeição. As cortinas grossas de veludo estavam apenas entreabertas, deixando a lua filtrar um feixe pálido que banhava o chão de madeira encerada.
Mas Alexei estava longe de refletir aquela compostura.
A camisa social estava desabotoada até o peito. Ele havia retirado o blazer do uniforme e o jogado sobre a poltrona. Os cabelos loiros, geralmente alinhados com um esforço sutil, estavam um pouco desalinhados. Seus olhos carregavam a inquietação de quem tentava silenciar vozes internas com estímulos externos. Os eventos da reunião o deixaram tenso, saturado. E ele tinha um novo hábito um vício recente, silencioso, mas já indispensável em momentos como aquele. Estava sentado diante da escrivaninha, a cabeça curvada sobre um pequeno espelho de bolso. Uma linha fina, milimetricamente traçada, o aguardava como uma promessa. Alexei aspirou a cocaína com precisão cirúrgica, como se aquele gesto fosse mais uma equação do que um desespero.
A que usava naquela noite era diferente. Mais pura. Mais cortante. E, ironicamente, mais segura fora Volkov quem a entregara meses antes, num gesto quase paternal, quase cúmplice. Como um pacto velado entre homens que sabiam que certas dores só podiam ser dissolvidas com veneno. Ele ergueu o rosto lentamente. Um leve tremor no maxilar denunciava o efeito imediato da droga. Os olhos estavam mais vívidos, dilatados, e ao mesmo tempo, distantes.
E foi nesse exato momento que percebeu a presença dela.
“Você sabe que essa é a ala masculina dos dormitórios, certo?” Ele perguntou, com a voz ligeiramente arrastada, mas sem perder a altivez. Sombra estava parada à porta, que ele não lembrava de ter ouvido abrir. A luz do corredor delineava sua silhueta com uma precisão quase espectral. Ela não parecia intimidada, nem surpresa. Apenas... presente.
Zvezdana dava passadas rápidas dentro do próprio quarto, de um lado para o outro. Não sabia quantas horas haviam se passado desde o fim daquela reunião, e seus eventos continuavam a rodar em sua mente, como um disco arranhado. Espelho ter mencionado Anátema a feria diretamente, além da traição com todo o grupo. Falavam a todo momento que deveriam permanecer unidos, mas no primeiro empurrão, ele abrira a boca para entregar outra pessoa.
Quando deu por si, já estava fora do dormitório. Seus passos pelo corredor escuro eram silenciosos, sua figura similar a um espectro preso nas paredes daquele Instituto. Ela parou no corredor da ala masculina, caminhou até a porta de Vox e a abriu. A tempo de o flagrar. Não disse nada. Permaneceu na porta até que ele a visse, e então deu um passo para dentro, silenciosamente a fechando. "Quando isso passou a ser um problema?" Perguntou. Sem precisar de permissão, ela se sentou na poltrona e se manteve em silêncio, encarando o chão, os pensamentos ainda borbulhando.
Khanin já não se lembrava mais do motivo da briga. Isso era, no mínimo, curioso, considerando o quão furioso desferia socos e chutes no alvo de sua raiva. Tudo o que conseguia pensar era em arrancar o máximo de sangue possível, afinal, tinha que calar aquela sede de alguma forma. Mesmo sem saber a razão — não que isso fizesse qualquer diferença, na verdade —, ele claramente cedeu à violência para extravasar tudo o que guardava. O soco que recebeu em retribuição ao ataque quase não se fez sentir em Khanin, de tão em fúria que estava naquele momento. Caso Zvezdana não tivesse intervindo na briga, continuaria ali até que apagasse o outro de vez.
Khanin não esperava aquela reviravolta, e isso explicava o porquê de tê-la seguido até a estufa abandonada e ter esperado quando ela lhe exigira que o fizesse. Quando percebeu que ela estava ali para ajudá-lo com seus machucados, ficou sem reação por algum tempo. Ninguém nunca fizera isso antes. A respiração estava pesada e a confusão em seu rosto era evidente. “Não precisa…” Murmurou de forma imediata ao vê-la molhar o pano para limpar o sangue, mas as palavras não soaram tão confiantes como gostaria. “Eu já lidei com coisa pior.” Não sabia exatamente por que tinha dito aquilo, mas era verdade. Sem saber como agir realmente, apenas deixou escapar, incapaz de refrear as palavras que se seguiriam. “Por quê?” Se a estufa não estivesse mergulhada em um silêncio tão opressor, talvez sua pergunta tivesse passado despercebida. Não era o caso. E, por alguns bons segundos, se sentiu estúpido e fraco por deixar escapar tal questionamento.
Não dera ouvidos ao aviso de que não precisava. Não havia perguntado, muito menos oferecido a ajuda. Só estava fazendo por querer, e imaginou que se ele esperou até ela voltar, permitiria a aproximação. Com uma das mãos, ela segurou o rosto dele, e com a outra, passou devagar o pano molhado, limpando o sangue. "Não significa que precisa andar por aí com o rosto cheio de sangue." Ela respondeu, os olhos atentos no que estava fazendo, tomando cuidado para não tocar nas feridas.
Não sentiu desconforto com o silêncio. Na realidade, às vezes até preferia. Era melhor do que conversa fiada, que dizer coisas inúteis e que não fossem acrescentar em nada. Se surpreendeu um pouco com o questionamento, mas a expressão não mudou. "Por que não?" Devolveu, deixando o pano de lado quando o rosto dele já estava limpo, e cortando um pedaço de esparadrapo. "Você me lembra alguém que eu conheço, só isso." Explicou, fazendo um pequeno ponto falso como quem já tem experiência com aquilo. "E agora, de certa forma, você ganhou alguns amigos." Se referiu à entrada dele para Decápolis. Segurou o rosto de Khanin mais uma fez, colocando o ponto falso por cima do corte na sobrancelha.
Nyx manteve o olhar fixo em um ponto qualquer da parede do quarto, como se ali estivessem enterradas todas as versões de si mesma que nunca teve a chance de ser. A fala de Zvezdana não lhe trazia surpresa, apenas reafirmações. Verdades antigas, silenciosas, que apenas agora tinham nome. “Transações.” repetiu baixinho para si, num tom sem emoção aparente, apenas o gosto amargo da palavra na boca. “É isso que a gente vira, né? Moeda de troca em um tabuleiro que nunca foi nosso.” Ela virou levemente o rosto em direção à amiga.
“Sobre Volkov…” Fez uma pausa, mais longa agora. “Você está certa sobre ele só cair quando for desafiado.” O sorriso sumiu. “Mas não vai ser por nenhum de nós, não acho que tenha alguém com essa audácia.” Nyx descruzou os braços e olhou ao redor, como se pudesse ver os rostos dos outros dez no escuro. “Fomos moldados pra obedecer, pra sobreviver e nunca pra quebrar o ciclo. Até mesmo os que odeiam Volkov ainda esperam aprovação dele.” Ela ergueu uma sobrancelha, cética. “Não vejo nenhum de nós com coragem suficiente pra mordê-lo onde realmente doeria.”
Pensou que a repetição fosse mais para Nyx do que para ela, então não comentou. "Bem," Zvezdana se levantou, "acho que em algum momento nós também acabamos escolhendo ficar." Especialmente ela, que já era adulta quando passou a integrar a sociedade.
Ela pensou nas palavras de Nyx enquanto caminhava até o guarda-roupas, seus pertences perfeitamente alinhados. Pegou uma muda de roupas limpas e se virou para Nyx. "E onde doeria em Volkov?" Era uma pergunta sincera. "Veja, minha enxaqueca está de volta, e gostaria de tomar um banho e descansar, se me der licença." Ela foi até a porta do quarto e a abriu. "Nos vemos mais tarde." Sorriu para Nyx, e trancou a porta após ela sair.
Alexei demorou alguns segundos antes de responder. Não porque não tivesse palavras ele as tinha, muitas, mas porque aquela conversa parecia exigir mais do que palavras. Exigia cautela. Verdade. E ele estava cansado de mentiras, até mesmo das que contava a si mesmo. Seus olhos seguiram os de Zvezdana até o altar, mas havia uma sombra diferente em seu olhar. Mais escura. Mais dura. “Sim.” Disse enfim, com a voz baixa e grave, quase como um sussurro. “A maior punição que ele podia nos dar era desaparecer. Morrer sem resposta. Nos deixar com o fardo do que foi feito, do que não dissemos, do que nunca entenderemos.” Fez uma pausa, as mãos apoiadas nos joelhos, o corpo inclinado para frente como se carregasse um peso nos ombros. “E pior, ele morreu nos fazendo acreditar que estava no controle. Mesmo agora… parece que tudo ainda gira ao redor dele.”
A menção à estufa arrancou um leve movimento da sobrancelha dele. Era um bom plano. Discreto. Inteligente. E ainda assim, por algum motivo, a simples ideia de voltar lá àquele lugar onde as plantas quase sufocavam o ar e onde tantas conversas veladas haviam acontecido o deixava com o estômago revirado. “A estufa…” repetiu em voz baixa, como testando o gosto da ideia. “Faz sentido. É silenciosa. Isolada. E cheia de coisas vivas pra disfarçar o cheiro da morte que ta impregnado no gente.”
Ele sorriu sem humor, quase como um reflexo. “Tá certo. Vamos fazer isso do jeito certo. Sem levantar suspeita.” Olhou para ela de novo, e havia algo mais suave no olhar agora algo que Zvezdana conseguia puxar dele. “Você sempre foi boa nisso. Em manter a cabeça fria enquando eu só quero gritar.” Silenciou por um instante antes de concluir, em tom mais íntimo, quase como uma promessa. “Se tem alguém nesse lugar em quem eu confio… é você.”
Não pensou que fosse o ver falar de Volkov daquela forma. Especialmente não tão cedo. Sentia como se algo começasse a se abrir em Alexei, mesmo que devagar. Eram passos pequenos, então não quis abrir mais a ferida. "Talvez..." Ela suspirou. "Talvez tenha algum significado." Mas não acreditava tanto nas suas próprias palavras. No fundo, queria que tudo acabasse com Volkov.
"Não diga isso. Não fomos nós que matamos Volkov." Ela revirou os olhos levemente. Mas foram os dois que limparam seu sangue. Ela olhou para as mãos e começou a colocar de volta os anéis que havia guardado no bolso antes de começar a limpeza. "Apesar de termos feito o trabalho sujo."
Zvezdana se levantou, caminhou até ele e parou ao seu lado. Pousou a mão em seu ombro, apertando levemente. O olhou com um pequeno sorriso, o olhar suave. Uma demonstração de compreensão que ela raramente demonstrava. Ela também confiava nele, não sentia que precisava falar em voz alta; ele compreenderia. "Vamos ficar bem." Disse, a voz um pouco mais baixa, como quem conta um segredo. Inconscientemente queria esconder daquelas paredes que ainda havia esperança para eles. Abaixou-se, deu um beijo na testa de Alexei. "Agora vá descansar. Não vai ser fácil." Avisou e, sem olhar para trás, deixou a capela.
Sabia que estava sendo observado com mais atenção agora, mas tentou não dar importância a isso. Preferia manter o olhar longe dela sempre que possível, focando em manter a expressão o mais neutra possível. Sabia que era naturalmente expressivo demais e não queria ser mal interpretado. " Não. " Respondeu com um suspiro. " Ia vê-lo depois da reunião. Queria mostrar umas fotos que tirei para um projeto do Clube de Fotografia. " Deu de ombros, como quem tentava minimizar a própria expectativa. " Você o viu naquele dia? "
Grigori enxergava a situação por outra perspectiva. " Ele não tem escolha. " Para ele, se Alexei havia sido preparado para aquele papel, se havia sido escolhido, então era porque estava à altura. Porque sabia o que tinha que fazer e como fazer. Todos aqueles anos ao lado de Volkov deveriam ter ensinado o suficiente, não? " Existe um propósito maior do que as escolhas pessoais. E o nosso dever é apoiá-lo. " Sem Volkov, parecia que era isso que lhes restava: unir forças e seguir em frente. " Ainda não... Não está sendo fácil para alguns de nós. " Sabia que nem todos compartilhavam da mesma visão que ele e Alexei tinham sobre o professor. " Mas quero fazer isso, com calma. "
Quis perguntar desde quando Volkov se interessava por assuntos pessoais de Grigori e, especialmente pelo Clube de Fotografia. Mas sabia que não ouviria uma resposta satisfatória. "Não. Não costumo ver Volkov fora das aulas, das reuniões e de... você sabe." Se referia às punições.
Todos tinham escolha, ela pensou. Volkov agora estava morto. Não seriam mais punidos. Não seriam mais humilhados. Não seria um sinal de liberdade para Grigori também? "Alexei vai ficar bem." Ela deu de ombros. "As coisas vão se ajustar." Deu um passo para trás, enfiando a mão no bolso. "Preste atenção nas coisas que você diz. Não podemos confiar em ninguém mais, está ouvindo?" Avisou. "Nos vemos depois." E com isso, se afastou, remoendo repetidamente o que ele havia dito.
Grigori riu de novo quando ela repetiu suas palavras, como se gostasse da ideia. " É, acho que somos dois esquisitos então. Mas talvez seja por isso que estamos aqui, né? Só sobra espaço nesse mundo novo pra quem não se encaixa direito no outro. "
A fala da mulher sobre Volkov o fez franzir um pouco o cenho, como quem tenta decifrar um quebra-cabeça e depois só aceita que ele não tem solução. " Talvez ele seja uma daquelas entidades que vive entre os mundos, sabe? " Continuou, meio sonhador. " Tipo um... espírito guia. Só que mais cínico. "
Deixou a cabeça tombar um pouco contra a dela enquanto caminhavam, sentindo a proximidade como algo sagrado, algo que ancorava. " Ou talvez ele só esteja esperando a gente chegar onde ele já chegou faz tempo. " Fez uma pausa, e então, com uma sinceridade desarmada, completou: " Mesmo que às vezes pareça que ele gosta de assistir a gente se debatendo. "
"Acha que não nos encaixamos do lado de fora?" Ela perguntou, e repentinamente bateu a preocupação. Ouviam sempre de Volkov o quanto apenas os membros da Decápolis eram confiáveis, o quanto os outros lá foram julgavam todos eles, o quanto os odiavam. Ela tentava não dar ouvidos, mas naquele estado, foi impossível ignorar a possibilidade. "Acha que realmente nos odeiam, Grisha?" Não se lembrava da última vez que o havia chamado peplo apelido.
"Hm..." Ela pensou, mas a imagem de entidade de Volkov em sua mente se misturava com algo sombrio, assustador. "Espírito guia..." Ela repetiu, refletindo. Com a sinceridade de Grigori, ela assistiu. "Às vezes parece mesmo, não é? Quero dizer, que ele gosta de assistir."
Não era muito de toques e de proximidade, especialmente com Grigori, mas o momento trazia um sentimento de acalento, de segurança. O vento era frio, mas a presença dos dois era calorosa. "Bem, não temos muito tempo, não é? Logo os anos em Valentinov terminam." Ela parou, encarando a grande construção do hotel. "E depois disso vamos ter que caminhar sozinhos."
ㅤㅤㅤㅤ✦ ainda havia algo que lhe remetia aos seus sonhos ao caminhar pelas calçadas cobertas pelo suave branco da nevasca. caminhava devagar, uma mão com os dedos entrelaçados nos dedos macios de ziggy. a outra cruzada sobre o casaco leve demais para o clima, porém sem dúvidas seu melhor casaco, como se ao abraçar a si fosse ajudar a carregar o vestígio de um calor que não vinha de seu corpo, mas do que acabaram de presenciar.
ㅤㅤㅤㅤ✦ o silêncio entre elas era confortável, como sempre. confiável. cúmplice. neste momento em especial, após tudo o que vira e viveram, palavras ainda pareciam frágeis demais quando o vento lhe sussurrava verdades que naquele momento não se incomodava de escutar, como louça recém colada. seus passos ressoavam com a vibração do todo em cores líquidas e formas reverentes.
ㅤㅤㅤㅤ✦ em um momento, ou após um longo passo, parou diante da vitrine de uma lojinha esquecida entre duas fachadas moderna. o feixe de luz lhe chamando como uma sirene chama a um marinheiro. pequena, uma relíquia da era soviética esquecida pelo tempo ou talvez o tempo lhe escorresse como parecia escorrer das mãos de liliya. em um giz quase apagado ao vidro, uma mensagem simples anunciava o nome do local...
Вещи для Души.
Coisas para a alma.
e abaixo do nome do local, colado com uma fita adesiva ressecada
um pequeno papel, manuscrito.
loja de antiguidades e café. aberto quando o tempo permite.
ㅤㅤㅤㅤ✦ virou o rosto levemente para a sombra. o olhar ainda enevoado, o brilho de sua animação conseguindo superar qualquer barreira. “podemos entrar?” murmurou, como se estivesse pedindo permissão ao momento e não apenas a melhor amiga. “só por um instante, juro. parece legal.” mentiu em um tom tenro, não de estar interessada no local mas sim, em sua intenção de ser breve, afinal, um pequeno desvio no caminho de volta também se tratava de uma tentativa sútil de prolongar aquele momento
Não esperava que fossem permitir que saíssem do hotel, mas havia algo de muito agradável em poder ter a experiência de ter uma amizade normal e um programa de amigas normais. Fora dos muros de Valentinov e, mais importante, longe de Volkov. O ritual recém presenciado ainda reverberava na mente, mas a companhia de Liliya era reconfortante, e poderiam, pelo menos por aquelas horas, fingir serem garotas normais andando por São Petersburgo.
Observava as vestes de Liliya e pensava em uma maneira apropriada de dar-lhe um casaco melhor, de forma que não soasse como se estivesse a insultando. Talvez pudessem parar em alguma loja, e ela lhe daria de presente com alguma desculpa boba. Quando pararam, ela leu o nome do local na placa, e apenas pelo olhar de Liliya, soube que entrariam. Ela não se importava.
"Talvez por mais de um instante." Ziggy deu de ombros, e esticou a mão livre para abrir a porta, soando um sino que não avisou para ninguém em particular que estavam entrando, considerando que não havia ninguém atrás do balcão, ou nas mesas do café. Trocou um olhar breve com Liliya, e deu mais um passo para dentro, o barulho do vento sendo calado quando a porta fechou atrás delas. Estava prestes a sugerir que não havia ninguém ali, quando ouviu uma voz rouca vir do segundo andar e avisar que estavam abertos, e elas poderiam se acomodar. "Está com fome?" Zvezdana perguntou, se aproximando do balcão. A comida parecia fresca, e ela sentiu o estômago roncar. "Quer algo doce ou salgado? Ou os dois?"
Alexei suspirou profundamente, sentindo o cheiro áspero de produtos químicos queimarem suas narinas. Seus olhos acompanharam a figura de Sombra, observando o modo como ela recolhia o balde, os gestos contidos, a frieza que escondia — ou disfarçava — o cansaço. Então, sua voz cortou o silêncio entre eles.
“Você se lembra?” Perguntou ele, baixo, como se cada palavra carregasse algo que ainda doía. “De como estavam as coisas nas últimas duas semanas antes do Volkov morrer?” Não era uma pergunta casual. O tom dele era contido, cuidadoso. Sabia que Sombra entenderia. Aquilo que nenhum deles ousara mencionar em voz alta desde então, as reuniões privadas, os bilhetes trocados, as cobranças, os acessos de raiva que Volkov vinha tendo, os olhares longos e ameaçadores como se já estivesse testando os limites de cada um deles. Alexei fitou o chão, onde antes havia uma mancha escura e espessa. Agora parecia limpo. Quase normal. “Talvez... ele quisesse nos punir.” A voz dele era mais grave agora. Ergueu os olhos para ela outra vez. “Ágata vai esconder os documentos. Queimar o que for demais. Procurar respostas nos arquivos, ou sei lá, em algum porão do Instituto. Talvez ela ache que ele deixou... uma chave, ou um ritual, ou qualquer coisa. Mas talvez a única coisa que ele tenha deixado mesmo... seja esse caos.”
Alexei se ergueu lentamente, os joelhos estalando discretamente, e observou o chão mais uma vez, como se buscasse alguma última gota de sangue que pudessem ter deixado passar. Era difícil acreditar que minutos antes aquele lugar cheirava a morte. Ajeitou os óculos no rosto e, sem pressa, se sentou de novo, deixando que o peso do corpo se apoiasse sobre os joelhos, o olhar vago indo até a parede suja. “Precisamos de outro lugar pra nos reunir.” Disse por fim. “Pelo menos por enquanto. Aqui... já era.”
É claro que ela se lembrava. Nunca estiveram tão a flor da pele quanto naquelas semanas, e por isso sua morte era tão mais estranha. Zvezdana falava pouco. O necessário. Mas não conversar sobre aquelas semanas era enlouquecedor, como se não fosse real para ninguém além dela. Ela sabia que não era o caso, mas não podia evitar. Ela só assentiu para confirmar que se lembrava, olhando para o chão limpo. "E a maior punição que ele poderia nos dar foi a sua própria morte?" Ela o encarou. Por que ainda falavam dele como se ele estivesse vivo? Como se fosse uma presença onipresente? Por que as amarras não haviam sido desatadas quando o enterraram em uma cova rasa? "Ela vai concordar. Pode te provocar, mas não é burra. Ágata sabe que precisamos colocar as coisas de volta em ordem. Ou pelo menos descobrir o que fazer a partir de agora."
Ela se sentou no banco de madeira ao lado dele, encarou o altar, passou o olhar devagar para cada detalhe. Cada mínimo detalhe daquele lugar carregava memórias sufocantes. "A estufa." Ela disse, sem pensar duas vezes. "Ninguém vai até lá. Pelo menos nunca encontrei com ninguém naquele lugar que eu não tenha levado comigo." Deu de ombros. "Só não podemos entrar todos ao mesmo tempo, seria suspeito demais. E precisamos agir normalmente, entendeu? Nos encontrar fora das reuniões. Para todos os outros, somos apenas amigos e ex estudantes de Volkov. E amigos estão juntos em momentos de luto."
A raiva não desaparecia tão facilmente, mas foi amenizada quando se deu realmente conta de sua companhia. Podia até estar na merda por ter que engolir aquela ordem e executar o que lhe foi mandado, mas pelo menos não estaria mal acompanhado. O vínculo entre Sombra e Thorn nunca fora simples. Tinham seus momentos de atritos, silêncios e discordâncias, mas havia algo reconfortante em saber que, no fim das contas, Sombra era alguém em quem podia realmente confiar.
Concentrando-se no que precisavam fazer, guiou o caminho sem hesitação, tomando a dianteira até a fornecedora. Após alguns passos dados em silêncio, Khanin assentiu com a cabeça em resposta ao que fora perguntado. “Sim.” Murmurou, dividindo o olhar entre Sombra e o entorno. Poderia até soar paranoico, mas Thorn estava convicto que precisavam, sim, serem discretos e vigilantes pelo caminho, embora, na prática, não tivessem tantos motivos assim para desconfiança. De qualquer forma, preferia não dar sorte ao acaso.
Enquanto caminhavam, Khanin manteve a voz bem baixa. O que compartilharia com ela poderia comprometê-lo de formas astronômicas, mas a confiança nela permitiu que ele deixasse momentaneamente as preocupações de lado. “Consegui o contato dela com um dos atletas do clube. Quando os treinos de natação apertam, eles utilizam de ajuda externa, digamos assim.” Fez uma pausa curta, como se pesasse as palavras antes de dizê-las. “Sobre o que iremos comprar especificamente, a resposta mais rápida seria o LSD, que é uma droga sintética, potente. Mas, há outra opção também. O contato mencionou psilocibina, um composto mais orgânico, mas é menos efetivo. Não sei se seria o bastante, para ser sincero.” Ele olhou de relance para ela, como se buscasse algum tipo de reação ou resposta. “O que você acha?”
O destino era um velho relojoeiro, uma loja esquecida entre prédios abandonados. Após cerca de dez minutos de caminhada silenciosa, os dois cruzaram a entrada do estabelecimento. Por um momento, Khanin respirou aliviado em sentir o ar mais quente da loja, embora não tenha se permitido relaxar demais. Atrás do balcão, um homem mais velho os observava. Sem se prolongar muito, Khanin se aproximou do balcão e disse apenas uma palavra. “Olga.” O homem não respondeu, apenas assentiu com a cabeça e, em silêncio, indicou com o queixo uma porta lateral. Entrada permitida somente para funcionários, era o que dizia o letreiro da porta. Sem hesitar, Thorn cruzou a porta após oferecer a passagem para Zvezdana. Olga já os esperava, uma vez que acompanhava a entrada deles pelas câmeras de vigilância do local.
A caminhada em São Petersburburgo trazia uma sensação de tranquilidade e, ao mesmo tempo, de nervosismo. Passavam tanto tempo trancafiados no Instituto sob o olhar de Volkov, que a sensação de andar naquelas ruas era estranha. Como se a qualquer momento ele pudesse surgir e os punir por estarem fora de seu alcance.
Ela ouviu silenciosamente, mantendo o olhar no caminho e, discretamente, no que acontecia a sua volta. Ter sido invisível por tanto tempo lhe deu a habilidade de observar. A informação sobre o clube não sairia daquela conversa, então ela não se estendeu no detalhe, apenas assentiu. "LSD." Respondeu. Não que quisesse que Vox parecesse com um grande líder de imediato, mas gostaria que, ao menos, parecesse que ele soubesse liderar um ritual como Volkov. Não queria arriscar que falhassem. "Se não for o bastante, arriscamos encarar o fracasso."
Ela o segurou pela manga do casaco antes de entrarem e o olhou nos olhos. "Não é por Vox. Ou por Volkov." Ela sussurrou. "Entende?" Era para provar para todo o resto que conseguiriam algo sem Volkov. Mas ela não precisava falar em voz alta. Então entrou na loja, seguindo Khanin com a expressão de quem sabe o que está fazendo e que já havia traçado aquele caminho. Entrou antes dele, e olhou para a mulher que os aguardava. Não sabia como pedir, como iniciar aquela conversa, então apenas tirou o dinheiro do bolso e colocou as notas na mão de Khanin, deixando que completasse a transação.
Nyx manteve o olhar no vazio por alguns segundos depois que Ziggy falou, a respiração saiu lenta, como se estivesse digerindo tudo, as palavras, o silêncio e a confissão. Era estranho como aquelas verdades ditas tão suavemente tinham mais impacto do que qualquer acusação. "Talvez ele nunca tenha tido a chance de ser outra coisa." Murmurou, a voz baixa, quase como se estivesse pensando em voz alta. Passou uma das mãos pelo cabelo escuro, empurrando os fios para trás com certa frustração contida. O nome de Volkov sempre deixava um gosto amargo na boca, como se cada sílaba arranhasse por dentro. "Volkov não ensinava amor, ensina necessidade, fazia você implorar por migalhas e achar que era banquete." Havia uma dureza quieta nas palavras, uma ferida antiga. "E o Alexei... ele se agarrou a isso porque não teve outra coisa, talvez nem saiba o que é amar alguém que não quer nada em troca." Os olhos ainda estavam fixos em ponto qualquer no chão do quarto, talvez aquela frase tenha sido mais sobre o relacionamento dela com Alexei do que qualquer outra coisa. Virou o rosto para Ziggy. "Você está certa." Disse por fim. "Talvez ele ache que merece ser substituído, mas isso... isso não é fé, Ziggy, é punição e tem que se odiar muito pra isso."
Havia um silêncio entre elas quase palpável. Nyx não tinha a intenção de ser cruel, mas havia algo corrosivo na forma como observava aquela dinâmica entre Alexei e Volkov. Um incômodo que crescia cada vez que via os olhos do rapaz buscando aprovação num lugar que só oferecia controle. "Às vezes, acho que ele já foi escolhido, só não percebeu que isso é a parte mais cruel de todas. Quem você acha que ele escolheria?"
Se considerassem a idade da maioria deles quando caíram nas garras de Volkov, ousaria dizer que a maioria não pôde ser outra coisa. Se considerava, em partes, uma das que tiveram a sorte de conhecer a vida fora do mundo de Volkov. Não concordou ou discordou das palavras de Nyx sobre o professor. Não que não confiasse nela, mas sabia que dentro daquele círculo, sempre havia a chance de alguém ser manipulado, ou até mesmo torturado, para abrir a boca. "As relações de Alexei foram baseadas em transações, você sabe." Permitiu-se dizer. "Minha entrada na sociedade, o término de vocês dois..." Mas não havia nada naquilo que Nyx já não soubesse. Era dela o sofrimento de ter uma decisão de Volkov ditando o rumo de sua vida daquela forma, de seus sentimentos. "Como você mesma disse, ele não teve chance de ter outra coisa."
O silêncio, para Zvezdana, nunca foi um problema. Permitia que suas companhias tivessem tempo para pensar, e ela falava quando tinha algo importante a dizer. Não costumava preencher o espaço com palavras vazias. "Volkov?" Perguntou, pensativa, e considerou todos os seus colegas. "Acredito que a submissão não seja um traço para um bom líder e sucessor, você não acha? Talvez Volkov só escolha um verdadeiro sucessor quando alguém o desafiar."
Não poderia culpar Anátema por contar à Volkov sobre o ritual. E também não poderia culpá-la por ter compartilhado com ele o segredo que ela lhe confidenciara: usaram entorpecentes para que tudo desse certo e fosse de acordo com o que Vox queria.
O silêncio era a punição de costume de Volkov. Na maior parte das vezes, era colocá-la no centro da capela e fazer com que todos os outros ficassem ao redor. Quietos. E as palavras de Volkov ressoavam em sua mente sobre os julgamentos que faziam sobre ela.
Desta vez, no entanto, eram só os dois. E por motivos óbvios, era bem pior.
Foi chamada no outro dia, após a reunião, em seu escritório. Como uma aluna normal, como um professor normal. Ele trancou a porta discretamente, mas seus ouvidos atentos captaram o girar da chave. Ela se sentou em frente à mesa dele, e ele tomou seu lugar.
Você tem fome. Fome por saber, por transgredir. Mas também por ser vista. O perigo não está no que você descobriu durante o ritual. Está na inércia que sentiu ao fazer sem ser autorizada. Isso me preocupa, você me preocupa.
As palavras da noite passada ainda ecoavam, mesmo que ela não soubesse ainda o que ele queria dizer. Talvez nada. Talvez apenas humilhá-la.
Volkov encostou-se na cadeira de couro, cruzou as pernas, e colocou juntou as mãos por cima. Os olhos sempre grudados em Sombra, mas com a feição imutável. Era impossível saber o que aquele rosto queria dizer. Iria puni-la? Iria continuar com os jogos de humilhação, dizer o quanto ela havia falhado em proteger os interesses dele?
Sombra manteve o olhar nos dele por segundos. Minutos. Continuou a o encarar. Não queria o desafiar, mas não sabia o que era esperado dela. Era impossível que soubesse, se ele não dissesse logo. Queria que os jogos acabassem, que ele colocasse as cartas na mesa e dissesse exatamente o que queria dela. Mas aí estava o jogo de Volkov: a deixava confusa. Deixava que mil pensamentos passassem por sua mente e nenhum deles estaria correto.
O coração começava a bater forte, e a expressão sempre fria e contida começava a mudar aos poucos. Primeiro, as sobrancelhas começando a se juntar levemente. Depois, o lábio tremendo. Os olhos sempre tão focados começaram a tomar o brilho de quem está prestes a chorar. As bochechas pálidas começaram a se avermelhar, e ela finalmente tirou os olhos dos dele quando as lágrimas se formaram, mas não caíram.
Olhou para as mãos no colo. Para todos os anéis nos dedos que disfarçavam a pedra vermelha no anelar. Tocou a aliança. Pensou em Vasily. Mas o silêncio de Volkov e seu olhar sobre ela eram impossíveis de se ignorar. Não conseguia escapar, nem em sua própria mente, pois lá estava ele também.
O peito erguia e abaixava com a respiração descontrolada, o nó na garganta prendendo o choro.
Só queria que ele dissesse logo o que queria dela.
Mas Volkov permaneceu em silêncio, praticamente imóvel. Parecia sentir prazer ao vê-la se desmanchar ali. A pequena Sombra que jamais mudava suas expressões, cuja voz raramente tomava tons distintos. A Sombra que sempre sabia muito bem deixar suas emoções em uma caixinha e não se afetava por nada. Ou por quase nada. Pois Volkov tinha o poder de fazê-la chorar.
Ela lutou. Não queria deixar as lágrimas caírem. Tentou engolir o nó na garganta. Tentou controlar a respiração. Mas, enfim, a primeira lágrima insistente desceu por sua bochecha.
E ela se odiou por permitir que Volkov a afetasse dessa maneira.
Não por achar que fosse fraqueza chorar, mas por nunca permitir que ninguém a fizesse chorar.
Quando a lágrima caiu por seu rosto e caiu em sua mão, Volkov finalmente se moveu.
Ela se assustou, ergueu os olhos depressa e o viu se levantar. Devagar, ajustando o paletó. Caminhou ao redor da mesa, e então se sentou no tampo de madeira, ao lado de Sombra. Ela recuou quando ele estendeu a mão em sua direção, mas ainda assim ele tocou em seu rosto. A segurou pelo queixo com delicadeza, fazendo com que olhasse para ele.
"O que acha que Vasily pensaria se soubesse que sua esposa comete crimes sem se importar com o peso de seus atos?" A voz era branda.
A mera menção de Vasily fez o turbilhão de lágrimas aumentar, e dessa vez ela não conseguiu segurar. Os olhos se encheram e ela tentou mover o rosto, mas a mão de Volkov a segurou na mesma posição.
"Shh..." Ele tirou um lenço do bolso, limpou o rosto de Sombra com calma e gentileza, como um pai que consola uma filha.
As lágrimas cessaram, e ela respirou fundo, se acalmando aos poucos.
Ele dobrou o lenço, o guardou de volta no bolso.
"Você é mais parte de mim do que consegue aceitar. E eu sou mais parte de você do que pode imaginar."
Volkov se levantou, segurou o rosto de Sombra com delicadeza e plantou-lhe um beijo na testa.
Foi até a porta, a destrancou e sorriu. Com a porta para o mundo lá fora, ele era apenas o professor dedicado e amável. A mudança em sua figura era expressiva, como se aquele que esteve ali com ela em todo aquele tempo fosse outra pessoa.
Ela se levantou, respirou fundo, passou uma mão nos cabelos para se alinhar, e deixou a sala de Volkov com o queixo erguido.
Internamente sentia-se quebrada, humilhada. Odiava o poder que Volkov tinha sobre ela, e como sentia que ela havia permitido que ele tivesse. Que tudo tivesse chegado àquele ponto. Odiava que ele sabia que poderia a fazer sentir qualquer coisa, alterar suas emoções apenas com o silêncio. Com um olhar que para qualquer outra pessoa, nem significaria tanto assim.
Naquele dia, ela não voltou para o resto das aulas. Permaneceu em seu quarto, mas nenhuma outra lágrima caiu.
– 𝕱𝖑𝖆𝖘𝖍𝖇𝖆𝖈𝖐: início de 2023. Starter fechado com @khaninkul
Havia, praticamente, o arrastado para longe da briga. Não era a primeira que o via se meter, mas era a primeira em que o vira levar um soco capaz de o machucar, então interviu imediatamente. A estufa abandonada foi o lugar escolhido, e sem dizer nada, ela o levou até o fundo do lugar. "Espere aqui. Estou mandando." Avisou, com autoridade na voz. A passos largos e rápidos, ela chegou até a enfermaria. Sem ser vista, conseguiu alguns itens de primeiros socorros, e voltou com a mesma pressa para a estufa. Não esperava, ao menos não totalmente, que fosse o encontrar lá, ainda a esperando. Mas não demonstrou a surpresa ao vê-lo. Apenas se sentou de frente para ele, molhando um pano para limpar o sangue do rosto de Khanin. "Você já deve saber, mas isso vai arder."
Ocupou o lugar na frente dela, deixando-a quebrar o silêncio, enquanto apreciava a bebida que mantinha em sua mão. A paranoia se alimentava até nisso, mantendo o que consumia perto de si, não importava o quanto próximo ou não era da pessoa. Não confiava em Volkov, mas também não confiava particularmente em nenhum deles, não tendo como confirmar se a informação que lhe era alimentada era verdadeira ou não. Preferia prevenir do que remediar, nessas situações.
❛ — Você esperava outra coisa de Vox? — ❜ Riu, abanando a cabeça de leve. Vox era o mais próximo de um irmão que tinha naquele lugar amaldiçoado, mas isso não o tornava cego à dedicação a Volkov. Atiraria Sergei para o fogo sem hesitar, se a ordem viesse da pessoa certa. ❛ — Há rituais piores. Não que o queria completar, mas, considerando todas as coisas que poderiam ser… Poderia ser bem pior. Especialmente para nós. — ❜ Escondeu o seu sorriso atrás do copo, não resistindo em provocar Sombra um pouco.
Ela o olhou de soslaio com o riso, mas não o dividiu. Permanecia com a mesma expressão. Não era um olhar de julgamento, pois sabia que estava certo. Não esperava nada de Alexei além da tentativa cega de seguir os passos de Volkov. "Vox não é Volkov. Ainda que seus métodos sejam..." Calculou as próximas palavras. "Incomuns... ele conduz os rituais. Vox, não." E a distinção entre Vox e Alexei era importante nas palavras.
"Não é isso que me preocupa." Suspirou, e dessa vez se virou completamente para ele, encostando as costas na poltrona. "Não é nenhuma novidade para nós, mas... não é como se eu estivesse animada para o que pode acontecer." Sentiu o estômago revirar com o pensamento de estar com Espelho durante o ritual. "Somos iniciados na mesma ordem, o que não significa que há interesse em ser mais do que isso." Chacoalhou levemente os ombros. "E, novamente, muita coisa pode não funcionar. Já pensou em todos os riscos?"