Passar os dias fatigados com a companhia de Clarissa estava começando a se tornar um hábito que, embora na maioria das vezes necessitasse de uma paciência quase que imensurável para o rapaz, nem sempre era tão ruim assim. E graças ao que quer que fosse, aquele dia de quarta se classificava no último dos quesitos, o que especialmente já tornava o dia em si um fardo a menos para se aturar. Clarissa andava agitada e um pouco mais distante e impaciente que o de costume, o que Thomas julgava ser por conta da presença de seu irmão mais velho, Jonathan. Não que ele e sua noiva conversassem sobre o que quer que fosse, principalmente a vida dela, mas era facilmente perceptível que a morena não tinha o irmão como o maior exemplo do mundo, longe disso aliás. A inquietação da slytherin podia não ser realmente algo fácil de se perceber, mas o Nott caçula já convivia com ela por um tempo até que considerável, o que facilitava a percepção do comportamento da mesma. A princípio, a chegada do mais velho dos Avery havia causado certa apreensão, afinal ele não só era o irmão de sua noiva, como também um professor e provavelmente um cara tão assustador quanto a própria Clarissa era quando assim o desejava. Mas passado um tempo, Thomas acabou por se acostumar com a ideia, mesmo que ouvisse coisas bastante suspeitas em relação a Jonathan - o que ele pensava ser coisa de Clarissa no fim das contas - mas mesmo não estando tão preocupado assim, o sonserino era esperto o suficiente para saber que, mais cedo ou mais tarde, seria procurado para ter uma conversa com o Sr. Avery.
Recolhia suas coisas de forma calma e organizada, ouvindo por vezes um grunhido de impaciência vindo de Harriet, que provavelmente só estava com fome e não tinha muita disposição de esperar o sonserino tanto assim. Se fosse Clarissa que estivesse ali com ele, só teria revirado os olhos e feito um comentário sarcástico que, finalizado com um “amor”, demostraria o quanto ela o achava lento e entediante, mas nada que ele já não houvesse escutado nos últimos meses. Por ser a última aula do dia, Thomas não estava com muita pressa e preferia seguir seu caminho de forma calma, mesmo que tivesse que ouvir as brincadeiras proferidas por Harriet. Dias de quarta eram geralmente mais calmos, uma vez que sua noiva quase não tinha as mesmas aulas que ele e os dois somente se viam em horários livres ou quando ela achava que seria de bom tom, o que pra Thomas não era exatamente um problema. Fora isso, a presença de Aella e Harriet eram agradáveis e com a ausência da primeira, o moreno deixava que a amiga falasse ao seu lado e ouvia com atenção, esquecendo de seus próprias problemas por algum tempo e somente apreciando o fim da tarde. Sua bolsa começava a pesar em seu ombro direito, no mesmo momento que os dois começavam, mais uma vez, a falar de Julian e de todos os problemas que aquele noivado tinha assim como a forma nada madura com que o mais velho dos Nott lidava com a situação. E por mais que Thomas amasse sua amiga, assim como seu irmão, e realmente entendesse a situação desagradável pela qual ela estava passando, não sabia dizer se era realmente o melhor momento para conversar sobre aquilo. E pela primeira vez em muito tempo, o sonserino desejou que Clarissa estivesse ali. E bem, ele conseguiu algo parecido. Algo com o mesmo sobrenome, mas umas três vezes do tamanho da mais nova e com um ar levemente mais assustador e sombrio. Definitivamente um Avery. Com um cumprimento rápido, Thomas o olhou. - Sr. Avery. - acenou para Harriet e deu um pequeno sorriso para a amiga, afirmando que estava tudo bem e ela poderia ir.
Thomas seguiu Jonathan sem muitos problemas, suas mãos ainda estavam enfiadas em seu bolso e o menino se perguntava, não de forma muito enfática, o que o irmão mais velho de Clarissa poderia querer falar com ele naquele momento, embora tivesse lá suas suspeitas. O sonserino fora desarmado de forma tão rápida que só conseguiu ter tempo de desviar do feitiço que se seguiu. Olhando para Jonathan com um olhar surpreso e realmente chocado, o moreno não conseguiu evitar de pensar em como ele e Clarissa se pareciam afinal. Jonathan não parecia realmente satisfeito e logo segurava o mais novo de forma nada sútil. Honestamente, pensou, os Avery e essas formas malucas de conseguirem o que querem. Thomas se sentia realmente irritado agora, por mais que entendesse a preocupação do mais velho com Clarissa, era claro pra todo mundo como a relação dos dois funcionava e Merlin, será que o loiro não conhecia mesmo sua irmã a ponto de achar que ele faria alguma coisa a ela? A vontade de Thomas era de se soltar, mas Jonathan era mais forte que ele e tinha uns bons 7 centímetros de altura a mais para compensar. Fora isso, o professor não parecia muito disposto a ser gentil com o noivo de sua irmã, e Thomas não tinha mais muitas condições de fazer qualquer coisa, não depois do modo nada gentil que Jonathan o empurrara na parede. - Com todo o respeito, Sr. Avery, coisa que aliás o senhor não teve, eu não sou burro e sou perfeitamente capaz de entender uma ameaça quando me deparo com uma. - falou de forma calma, deixando seu tom de voz ameno e esperando que o outro não voltasse a empurrá-lo. - Fora isso, não vejo real razão para toda essa cena. Levando em conta que sou capaz de conversar de forma amigável e creio que o senhor também seja. - com um pequeno sorriso cínico, coisa que só usava em situações como aquelas, ajeitou seu uniforme e voltou a encarar o mais velho. - Veja bem, não sei quanto tempo passou sem ver a sua irmã, e de verdade também nem é da minha conta, mas acho que está um pouco enganado sobre o que ela pode fazer. Clarissa consegue o que quer de uma forma ou de outra, e todo esse noivado segue de acordo com o desejo dela, entende? - deu de ombros e não esperou pela resposta do outro. - E de verdade, Sr. Avery, o senhor também não me conhece nenhum um pouco. E lhe garanto que não faria nada disso com sua irmã, ou com qualquer uma aliás. Nós estamos noivos e, mesmo que não seja em uma circunstância normal, respeito isso e respeito sua irmã acima de tudo, pergunte a ela se quiser. Fora isso, se eu ou qualquer garoto fizesse algo assim com Clarissa, ela mesmo daria um belo de um jeito de acabar com a minha vida antes mesmo de o senhor sequer piscar. - sorriu e ajeitou a bolsa no ombro. - Agora: Estamos entendidos ou vai tentar lançar uma maldição imperdoável em mim? Porque acredite, Sr. Avery, isso é tudo que sua irmã quer para lhe expulsar de vez desse castelo. -
Pensava conhecer sua irmã, Jonathan realmente o fazia, mas tinha uma concepção distorcida pela saudade da garota de seis anos. Saudade de quando tinha dez anos e ninava uma pequena criança enquanto seus pais saíam para qualquer reunião mais importante que seus filhos (que eram todas, basicamente), de quando tinha onze e ensinava a pequena Clary a engatinhar, a pequena que sorria diante de suas caretas mesmo que tivesse chorando segundos antes. Tinha saudade daquela criança, daquela pequena criança que deixara em um ninho de cobras. Um ninho que domara ele próprio e que sabia, apesar de tudo, sabia muito bem o que aconteceria. Sabia em quem Clarissa viria a se tornar. Ela se tornaria exatamente quem eles queriam que ela fosse. Moldada em uma forma rígida que todos os Avery passaram em qualquer geração, uma forma que faziam todos daquela família ter semelhantes atitudes. Eram prepotentes, iam até onde conseguiam para conseguir o que queriam, não importando o custo. Tinham um lema, o seguiam a risca mesmo que sem percepção real. Todo Avery honrava sua família. Todo Avery agia como um Avery até seu último suspiro. Mesmo que mudado, Jonathan ainda sabia que tinha aquele garoto dentro de si, o garoto que nunca conseguira matar. Quem era o garoto? Era alguém que andava em cima das nuvens, rico, narcisista e usando tudo ao seu favor com o charme que sabia que tinha. Poderia passar-se por um half-veela que sabia que acreditariam, mesmo que fossem apenas seus genes lhe favorecendo, poderia sorrir um pouco mais docemente e ter o que queria. Ou poderia ameaçar com todos os músculos formados pelos anos de esportes e ainda chegar ao objetivo. Então, quando agarrava Nott pelo colarinho, erguendo a centímetros do chão, sabia que não era sua parte mudada que fazia aquilo.
Parou para ouvir Nott, mas realmente só realmente ouviu metade de suas palavras, porque sua cabeça girava entorno do que acabara de fazer. Tinha a atitude do que parecia ser um lobisomem em lua cheia, mudara com o humor. Mudara para seu pior lado, para o lado que odiava em si próprio. O lado que gostava de sangue, de dor e maldições imperdoáveis. O garoto em si que deixara esquecido em uma jaula como que por oclumência. Fechara os olhos por míseros segundos e tentara ouvir novamente em sua cabeça o que o garoto falara. “Sim, ela consegue.” Se afastou de Thomas, deu dois passos para trás, permitindo que o outro fugisse caso quisesse. Ou ficasse para ouvir o que tinha para falar. “Eu... Desculpe-me, Nott, eu pensei o pior de você. É o instinto, não de irmão, mas é o instinto de qualquer Avery. Pense o pior dos outros até que lhes provem o contrário, aprendi isso do meu pai quando tinha sete anos de idade.” Revelou em tom indiferente, era uma realidade comum para qualquer um em família pura daquele castelo. “Vejo que você é uma pessoa boa, Nott. Mas eu só não a quero envolvida nisso tudo, não quero ver o reflexo de mim mesmo quando tinha quinze anos. Eu era uma pessoa horrível, eu seguia esse dilema purista como a Palestina segue o Islã.” Descruzou os braços e começou a gesticular de acordo com suas palavras, talvez ali criasse um aliado, não um inimigo afinal. Nott estava com Harriet, uma de suas primas não tão ruins. Se estivesse envolvido com Elizabeth, por exemplo, já teria deixado seu olho roxo porque sabia o poder de Lizzie quando queria ser um monstro. “Acho que já a perdi, Clary. Perdi aquela criança de seis anos de idade, mas uma parte de mim ainda não quer deixa-la e... bem, age do modo que você presenciou.” Andou até a varinha do menor e jogou-a em sua direção para que pegasse no ar. Se quisesse ataca-lo, aquele também seria o momento, mas ninguém dizia que Jonathan estava com a guarda baixa, nunca ficava com a guarda baixa por ninguém além de sua irmã.
“Se eu lhe lançar uma maldição imperdoável não te deixaria sequer com a memória, idiota. Sofrer momentaneamente e depois sentir as dores e não saber o porquê é uma ótima maneira de tortura.” Dirigiu-lhe um olhar de nojo, mas depois retornou a postura anterior, como um lapso de maldade que o atravessara. “Aprendi com meu velho, Anastásia deve ter ensinado algo parecido para Clarissa também, então não pense que sairá ileso se realizar alguma gracinha por suas costas. Eu vou manter um olhar em você, mas também acredito que possa me ajudar, já que, por mais que eu reprove você ainda é noivo dela e está mais próximo do que eu poderia imaginar agora.” Suspirou admitindo algo que lhe doeu admitir. Não estaria próximo de Clarissa tão facilmente, mas ainda tinha a fina esperança de que um dia estaria. Um dia ainda lhe ajudaria como ajudava anteriormente, ainda poderia ter a oportunidade de verdadeiramente se desculpar por todo aquele tempo que passara na América, afastado. Poderia ter ido para a Inglaterra naqueles dez anos, visitar pelo menos uma vez por ano, ter reprimido aquele ódio que a criança de Clarissa começara a nutrir do irmão mais velho traidor. Poderia ter dado o que ela queria de alguma forma. Mas não o fez, não voltou para a Inglaterra e não estabeleceu nenhuma ligação porque sabia que de alguma forma seria pego por sua família se o fizesse. Seria pego e teria que se casar. Sua mãe lhe ameaçaria com chantagem emocional sobre o amor que ele sentia pela irmã. Diria que se quisesse continuando vendo-a, teria que estar fixamente ali. Imaginava todas aquelas vertentes porque no fundo conhecia muito bem seu núcleo familiar. E tinha medo daquilo, tinha medo e nunca admitiria tal coisa. “Faça o que eu não fui capaz de fazer, Nott. Se um dia eu for expulso do castelo, pelo menos quero saber se ela está em boas mãos. Porque se eu for embora novamente, eu nunca irei voltar, nunca mais voltaria sabendo que ela preferia que eu estivesse morto. Só me responda” deu um passo à frente, concentrando-se nos olhos alheios. Tinha nível apropriado de legilimência para lecionar, então sabia quando contavam mentiras tanto quanto sabia mentir. “ela está em boas mãos? Eu posso confiar em você, Thomas?”. Cruzou os braços novamente, falara em tom pacifico. Sabia que intimidar o outro o faria revelar uma verdade ameaçada, como cumprindo algo por dever e não vontade. Queria confiar em Nott, realmente o queria, mas primeiro podia tirar a prova por meio de sua legilimência aplicada. Era ainda melhor do que usar os frascos de veritasserum que tinha guardado em sua sala. Para entrar na cabeça das pessoas, era necessário apenas um contato ocular. Para ser minimamente bom em oclumência, bloqueio dos legilimentes, era preciso ter aulas. Afinal, poucos eram os que conseguiam bloquear legilimentes, o efeito da poção da verdade e até uma das maldições. Duvidava que Nott conseguisse tal feito.