I still don't know why I love you so much. @Marvery.
De qualquer forma, Jonathan tinha consciência de que Kala não o merecia. A mulher era boa demais, mudara demais, e Avery apenas não notaria aquilo se fosse um completo babaca. Notara todas as mudanças, as admirara de perto, mas não fora versátil o suficiente para reformular suas próprias atitudes, seus próprios sonhos. Mantivera coisas em mente do começo ao fim do relacionamento e sabia que havia magoado a pessoa que amava por causa daquilo. Daquela insistência toda, daquele egocentrismo sufocante que não o fazia ignorar o ponto de vista de sua esposa. Entendia a situação, mas absorvia somente o que era bom para ele próprio, como sempre fizera em sua vida. Um narcisista como aquele não merecia Kala que, mesmo depois daquilo tudo, mesmo depois de toda humilhação de ter sido rejeitada por não poder dar-lhe um filho, ainda estava ali. Ao seu lado, bem ao seu lado dizendo coisas reconfortantes e sorrindo do modo belo que sempre sorria. E tudo aquilo, de uma forma bastante obscura, amaciava o ego de Jonathan. O mesmo ego que insistia em fazê-lo pensar que tudo poderia ficar bem, afinal, podia usar aquela mulher e ela ainda estaria ali como sua amiga. Institivamente, o homem fazia as pessoas se encaixarem em seus padrões, quase inconscientemente fazia tudo girar ao seu redor e aquilo o satisfazia de um modo deplorável. Poderia ser um belo homem por fora, mas por dentro suas atitudes se convertiam de forma perversa somente para o bem próprio. Não externava aquilo tudo, mas era resquícios do garoto que fora um dia, o garoto que era tudo aquilo regurgitado e montado tornou-se um homem de máscaras e sorrisos bonitos que tinha tudo o que poderia querer. Ou trabalhava bastante para conseguir.
Sem precisar de dois minutos pensando, Jonathan logo respondeu a pergunta. – Estudo dos trouxas, faz completo sentido. – Sorriu, sabendo que havia acertado. Kala sempre fora boa em mostrar aquela realidade não-magica que sempre tivera em paralelo com a história de sua própria. Os trouxas eram fascinantes, aquilo Jonathan não discordava porque aprendera certo como os admirar. Sabia que Martinez faria um bom trabalho com seus alunos, mas sentia pena por ser uma aula não obrigatória. O que fazia os puristas terem a liberdade de desclassifica-la de sua grade para trabalharem em algo mais chato como Runas Antigas, como o próprio Jonathan fizera em sua inconsequente adolescência. Sabia que, se estudos dos trouxas fosse ao menos uma aula obrigatória, muitos puristas passariam a reconsiderar os dogmas instituídos por suas respectivas famílias. No entanto, o próximo comentário de Kala fizera o homem engolir a seco e se perguntar se a mulher presenciara o jogo mais cedo. Se o vira na arquibancada mais cedo ou, pior ainda, se o vira não sair da quadra no horário correto. Afastou o pensamento com um safanão, claramente estava imaginando coisas por sua consciência estar pesando demais. Jonathan não era o tipo de pessoa que suava demais e começava a se retorcer quando era obrigado a mentir. Mentia do mesmo modo que cumprimentava as pessoas pela manhã. Retorcer-se por uma verdade não dita era uma perda de tempo em sua concepção. Ao invés de entregar-se ao nervosismo então, riu por cima do comentário. – Meu velho time ainda se saía melhor que esse novo. Mas a Sonserina nunca decepciona, não é mesmo, texugo? – brincou distraidamente sem ousar mencionar os participantes do atual time. – Slughorn sempre me adorou e isso não é novidade alguma, só que agora podemos compartilhar experiências de sala de aula como velhos amigos. – Como não imaginava que poderia estar ali, há pelo menos dois anos, também não imaginava que reestabeleceria um contato muito amigável com o ex-professor, mas aquele elo acabara se tornando maior do que o esperado.
Como antes, Kala parecia ter sido feita para estar em seus braços. Encaixavam-se perfeitamente e novamente Jonathan estava tomado por boas sensações. Novamente estava se sentindo bem como se tudo estivesse nos conformes, como se tudo fosse se resolver se permanecesse de olhos fechados, imaginando que aquele era o antigo apartamento e que a vista da janela era o Empire State e não o Salgueiro e a orla da Floresta Proibida. Queria muito poder voltar para aquela época antiga e ter achado qualquer outra solução para não terminar o casamento. Mas tomara a decisão há bastante tempo, nada mais voltaria ao que costumava ser normal. – Acho bom nem ansiar por esse encontro, também. Supostamente você é a razão de eu ter deixado minha família. Mas isso na visão de Clary, para mim você foi um dos motivos, um dos grandes motivos para a minha liberdade, Kala. – suspirou profundamente, como a primeira verdade que soltava em muito tempo e enrolou de forma distraída uma mecha do cabeço louro alheio em seu dedo indicador. Costumava fazer aquilo para imitar o gesto de inquietação de Kala com seu próprio cabelo, fazia tanto aquilo que acabara tornando um hábito seu quando perto suficiente da outra. Afastou-se depois de um tempo, notando que a proximidade talvez fosse mais constrangedora por não estarem mais juntos, e apoiou-se no parapeito da janela, observando o lago negro ao longe. – Talvez você queira ir, já é tarde. – Olhou-a de canto, com um tom de sugestão, não ordem. – Nos veremos mais, agora que estamos trabalhando pelo mesmo castelo. – Sorriu amigavelmente com a ideia e voltou a dar passos até sua cama, sentando-se nela e observando Kala com olhos atentos.
Sufocada. Era assim que Kala se sentia nos braços de Avery. Tentava buscar em sua mente, um momento no passado onde ela estivesse confortável naqueles braços, na tentativa de alunar a sensação atual. Mas não conseguiu quanto mais se lembrava do passado, mais ficava difícil respirar. Todas as coisas que eles viveram, dentro e fora daquele castelo. As palavras ditas, os gestos de ternura, amor e afeto. O ar simplesmente não conseguia alcançar os pulmões da loira, e Jonathan parecia mais confortável do que ela. Sendo assim, prendeu a respiração por poucos segundos, e se forçou a continuar naquele abraço pelo tempo que o outro desejasse. O cheiro dele que segundos atrás lhe trazia conforto, estava dando enjoou. Jonathan poderia sim ter tomado um banho, mas existiam resquícios do perfume da biscate que ele pegara horas atrás. Kala se sentia traia, não por Jonathan, pois por mais louca que ela fosse, sabia aceitar que não estavam mais casados. Mas se sentira traída por si mesma, por ter se rendido, mesmo que por pouco tempo ao charme de Avery. Ele tinha aquele poder sobre ela, e talvez sobre qualquer outra. Bastava que aqueles lindos olhos caíssem sobre você, que aquele belo sorrido fosse lançado em sua direção. Poderia até se ouvir o som de um coração se partindo. John nunca precisou de muito, só precisou ser ele. E talvez isso fosse o que mais a irritava. Kala mudara completamente para se encaixar nos padrões do outro, enquanto ele só alterou seu estilo de vida, e o modo de pensar. Pode não existir comparação, mas para Martinez ela tinha doado mais naquela relação, do que ele.
Ouviu a afirmação de John quanto a sua matéria, e não teve muito que lhe responder. Apenas sorriu, os anos poderiam ter se passado, eles poderiam ter se separado, mas ainda pareciam conhecer tão bem um ao outro. Mas não parecia confiar um no outro. Kala queria colocá-lo contra a parede e fazê-lo admitir o que estava fazendo mais cedo, mas simplesmente não podia. Primeiro por não ter como justificar sua perseguição de um jeito que fosse aceitável. E depois, como dito, eles não eram mais casados, Jonathan não devia justificações. Mas Kala, ainda se sentia desconfortável com aquela encenação. Jamais em todo o seu plano de vingança, a loira pensou que fosse se arrepender tanto. No primeiro dia quisera pegar suas malas assim que desceu da carruagem, e sair pelo mundo sem destino. A conversa que teve com Clarissa, também não fora muito inspiradora. Sem contar o momento em que entrou naquele quarto mais cedo. Sua mente já não trabalhava mais do mesmo jeito que um dia trabalhou, quando estava distante dele. Nos pensamentos tudo parecia tão mais simples, mas pessoalmente, ela simplesmente não podia prever os movimentos de Jonathan. Era como uma partida de xadrez, onde ela sabia que ficar a frente dele seria trabalhoso. – Não sei querido. Nunca gostei de Quadribol, lembra? Quanto a nosso ex-professor, imagino que ele deve adorar compartilhar coisas com você, novamente. Acredito até que ele jamais ira perder o habito de partilhar conhecimento. Enfim.
Suspirou ao final de tudo. Ela ainda se sentia presa e sufocada, mas não podia surtar tão perto do fim. Continuou imóvel nos braços de John enquanto ele falava sobre Clarissa. Se ele imaginasse que a irmã fora a primeira pessoa que Kala fora procurar. Ele podia ser esperto, mas felizmente isso não se passou em sua cabeça. – John, não se preocupe em se justificar para mim. Eu sei exatamente o que aconteceu entre nós, e o que Clarissa pensa. – nesse momento, Kala sentiu a necessidade de olhá-lo nos olhos enquanto falava. As mãos perfeitamente apoiadas no peito do outro. Ela se esforçava para manter o sorriso doce que sempre tivera diante dele, sabia que independente de qualquer coisa a fuga deles fez bem para Jonathan. Fosse para ele se descobrir, ou aceitar quem realmente era. Permitiu-se fechar os olhos por curtos segundos quando o outro começou a enrolar seu cabelo, se lembrava do gesto, de como ele imitava perfeitamente. O sorriso se tornou mais largo em seus lábios, pois ela não conseguiu sentir aquilo como algo ruim, como sentia o abraço minutos atrás. Por fim, ele a soltara. Desligando Kala do sufoco, a loira chegou até a respirar profundamente quando ele se afastou um pouco mais. Observou atentamente cada passo dele, e absorveu cada palavra. Parecia que ele estava dentro de sua mente, pois tudo que ela queria era finalizar aquele encontro. – Claro. Eu ainda tenho outros quartos para visitar, e você me parece um pouco cansado. Acho que é o peso de lecionar uma matéria importante. – a loira deu alguns passos em direção ao ex-marido, a mão direita fora direcionada a face dele, repetindo o carinho que fizera no inicio da noite. – Boa noite, querido. – controlou o impulso de beijá-lo como tipicamente fazia no passado, e apenas caminhou até a porta sem olhar para trás. Jonathan estava certo, eles se veriam novamente.













