Transfeministas: entrevista com Viviane Vê
Viviane Vê é uma mulher trans* e militante transfeminista
Quais foram as principais mudanças e dificuldades na sua vida após se assumir como trans*?
Bem, minhas decisões no sentido de me apresentar socialmente como uma pessoa transgênera foram crescendo a partir de uma experiência profissional que tive no exterior. Como morava distante daquelas pessoas que anteriormente faziam parte de minha socialização (família, amigxs), comecei a me arriscar mais nas 'fronteiras de gênero', saindo mais frequentemente 'montada' – o que significava, à época, me apresentar socialmente como mulher. Isso apesar de ainda estar socializando no trabalho e de maneira geral enquanto homem – pro bem e pro mal, as mudanças que iam ocorrendo em minha aparência não geravam, até onde percebia, estranhamentos de gênero (talvez começassem a desconfiar da heterossexualidade que se infere de todas pessoas, mas não sentia estranhamentos das pessoas no sentido da 'hombridade', do 'parecer homem', rs). Esse foi um processo gradual que, em certo sentido, 'culminou' na minha autoidentificação enquanto mulher transgênera.
Assumir-me como trans veio junto com várias dificuldades 'paralelas' (não exatamente paralelas, porque são esferas de minha vida que 'dialogam' entre si), como o pedido de demissão de meu trabalho no exterior (no qual estava 'indo bem', porém já infeliz por vários motivos), a volta ao Brasil (o que se agravava profundamente pelo fato de eu querer voltar 'como trans', escancarando uns armários), a vontade de voltar à academia (embora noutra área, mais ligada a identidades de gênero – sou formada em economia). E são dificuldades que, embora presentes, foram bastante atenuadas por outras esferas de minha vivência em que sou bastante privilegiada – particularmente se consideramos as realidades mais comuns entre pessoas trans: tive-tenho acesso a recursos educacionais e de saúde, a apoios financeiros, a uma reserva pessoal derivada de um trabalho relativamente bem remunerado, sou (percebida como) branca e asiática (uma situação étnico-racial que me situa, no mais das vezes, em posições privilegiadas no contexto contemporâneo brasileiro), com nenhuma inconformidade estigmatizada às normatividades de corpo-mente (como 'deficiências' físicas ou mentais, ou inconformidades 'substanciais' em relação a padrões estéticos), etc. Enfim, poderia pensar em outros 'vetores' que me compõem enquanto subjetividade relativamente privilegiada dentro do que se tem de 'narrativas trans', ou mesmo 'narrativas humanas', de forma mais ampliada.
As mudanças têm sido várias em minha vida nestes últimos 3 anos de identificação mais forte como pessoa trans: de atividades corriqueiras que foram incorporadas a questões mais existenciais (tanto nas suas formas mais sublimes e castas quanto nas mais ousadas e tesudas). Roupas, hormônios, reflexões acadêmicas, se perceber na posição de mulher sexualizada-objetificada, na posição de travesti sexualizada-objetificada, bater um baba (jogar futebol). Ser legitimada e tratada por um outro nome, um nome que dá muito mais sentido à minha inserção no mundo, é de um empoderamento incrível. Assim como pode ser terrível cada momento de deslegitimação, claro – e isso assume tantas formas sociais que pode ser um verdadeiro tormento pra vivências trans. Mas no mais, posso dizer que tenho me sentido melhor me apresentando socialmente como Viviane: me parece mais verdadeiro, mais honesto comigo mesma, e (devido às questões político-sociais trans) me dá a sensação de estar lutando uma luta (muito obviamente, a meu ver) justa, coisas que me fazem suportar alguns episódios complicados em minha vida – que, felizmente em meu caso, não se caracterizaram como violências que tomo como profundas (só o tempo dirá, talvez). De todas formas, os estranhamentos são constantes (ainda que amenizados pela minha relativa 'passabilidade como pessoa cis'), e me fazem questionar meu pertencimento à humanidade com frequência, o que não é lá muito agradável.
Quais os principais e mais marcantes preconceitos você sofreu e ainda sofre?
Ah, acho que as coisas mais comuns são os estranhamentos sociais que eventualmente acontecem (em diversos ambientes: ônibus, ruas, bares, ambientes acadêmicos, etc), a exotificação ou ojerização a que estou sujeita enquanto mulher trans, que acabam me deixando mais insegura de mim mesma e, em algum sentido, me deixando menos sociável e aberta a coisas bonitas na vida.
Como você vê a relação entre as pessoas cis e as pessoas trans* dentro do movimento feminista? De qual forma poderia haver uma maior inclusão da questão trans* nesse meio?
Eu tenho percebido uma abertura crescente às questões trans*(enfatizo o plural aqui) pelo que ando observando entre pessoas feministas, ativistas mais 'orgânicas' (no sentido gramsciano) ou não. Talvez eu tenha um viés considerável de observação – já que, por ser trans*, talvez preste mais atenção às feministas que não reproduzem discursos cissexistas ou transfóbicos de maneira deliberada ou acrítica –, mas tenho percebido esse movimento geral. Em parte, evidentemente, pelos trabalhos que têm sido feitos por várias ativistas trans*, nas ruas e nas redes sociais, bem como pelos desenvolvimentos de teorias sobre gêneros que desconstroem certos essencialismos que deslegitimam existências trans*.
Essa percepção de crescente abertura, no entanto, também convive com algumas tensões que têm ocorrido em alguns espaços (particularmente o das redes sociais, onde acompanho as coisas um pouco mais de perto). Estando os debates sobre identidades de gênero em maior evidência na sociedade em geral e nos meios feministas em particular, e as demandas políticas trans* consequentemente mais presentes (denunciando, inclusive, certas marginalizações, desconsiderações e invisibilizações históricas), talvez fossem inevitáveis certas tensões, onde se destacam alguns profundos desacordos com certas linhas identificadas como 'feministas radicais'. Estas tensões têm sido causa de diversos desânimos e afastamentos por parte de pessoas trans*, o que é preocupante.
Acredito que a inclusão das questões trans* no feminismo se dará, idealmente, através da crescente inclusão de pessoas trans*, e especialmente de mulheres trans*, nos diálogos e práticas que constroem os feminismos, de maneira que se possam articular formas de resistência e solidariedade feminista que levem em consideração as normatizações e violências a que estão sujeitas tantas vivências trans* nas contemporaneidades. Historicamente, essas inclusões de pessoas são bastante tensas (penso particularmente nos problemas enfrentados por feministas não brancas e não heterossexuais nos feminismos), mas eu gosto de pensar que, conforme destruamos patriarcados, possamos elaborar processos menos conflituosos.
A Marcha das Vadias é um dos maiores eventos feministas do país, ocorrendo anualmente. A pauta trans* é bem-vinda na Marcha? Como você sente a Marcha e outros eventos feministas cuja maior presença é de mulheres cisgênero?
Não saberia avaliar muitos contextos das Marchas das Vadias para dizer se as pautas trans* são unanimemente bem-vindas nelas (até porque as marchas são processos horizontais por princípio, até onde as entendo). O que posso dizer é que várias das marchas (inclusive a de Toronto, que foi a primeira delas) explicitamente incluem pessoas trans* como sujeitas dos seus processos. No entanto, é necessário dizer que, por vivermos em um contexto histórico profundamente cissexista, declarações não significam necessariamente que não ocorrerão instâncias transfóbicas ou exclusões eventuais de pessoas trans*: o importante aqui é que pessoas trans* também se sintam confortáveis em participar e construir estes espaços, de maneira a serem vozes críticas e escutadas. De todas maneiras, tenho sentido que muitas pessoas trans* se interessam em participar das Marchas (e eu me incluo nisso), e este interesse é um ótimo sinal.
Sobre eventos políticos no geral, confesso que tenho certa cautela crítica em relação a eles quando penso sobre questões trans* – particularmente se estas questões não forem as centrais, nem tampouco abertamente declaradas. Isso se deve ao contexto histórico cissexista, evidentemente, e se reflete em participações políticas 'mais tímidas' de minha parte. Mais especificamente em relação a eventos feministas, no geral eu me sinto mais tranquila (e a Marcha das Vadias, pelas suas relativas multiplicidades, me fez e faz sentir tranquila no geral), mas ainda assim é complicado deixar de lado a preocupação com que não te vejam como 'mulher de verdade' e te excluam ou inferiorizem por isso.
Saiu recentemente nos jornais uma notícia sobre um projeto de criar vagões específicos para mulheres no transporte público de São Paulo, medida já adotada em cidades como o Rio de Janeiro. Nós entendemos que essa medida é falha pois divide ainda mais a relação homem-mulher, e admite a ideia de "homens descontrolados", preferindo excluir as mulheres a educar os homens. Qual sua opinião sobre esta proposta? Como as pessoas trans* são afetadas por essa medida? O que as experiências em outras cidades podem acrescentar à essa discussão?
Bom, concordo plenamente com o entendimento de vocês, e desde uma perspectiva mais trans*, digamos, partilho muito da visão de uma amiga minha, também transfeminista e que tem um post muito crítico a respeito disso: http://bit.ly/17cHYLt .
Laerte também causou polêmica com a questão dos banheiros feminino e masculino. O que você pensa sobre isso? Já passou por algo parecido? Qual seria a melhor solução?
Acredito que, idealmente, a divisão por gêneros dos banheiros seria abolida. Neste nosso contexto histórico, eu gosto de esperar que, no mínimo, as pessoas trans* tenham seus gêneros legitimados no acesso a estes espaços: se eu me identifico como mulher (cis ou trans*), vou ao feminino; como homem, ao masculino.
Mas essa é uma "solução" mequetrefe, porque os dispositivos de poder de gênero vão avaliar de formas mais problemáticas aquelas pessoas que se distanciam do que é socialmente percebido como feminino e masculino. Assim, as pessoas trans* que não aparentem ser cis (que não 'passem' como cis, isto é, que não sejam vistas como homem e-ou mulher 'de verdade'), muito especialmente aquelas que não se identifiquem de maneira binária, estarão sempre inseguras e potencialmente excluídas destes espaços que caracterizam um direito humano enquanto os banheiros estiverem regidos pela lógica de gênero cissexista binária. E isso sem falar em interseccionalidade: estes dispositivos de gênero operarão com maior intensidade sobre pessoas mais pobres, mais racializadas, mais 'fechativas', etc.
Como você vê a inclusão de pessoas trans* no mercado de trabalho? Quais seriam os próximos desafios a serem vencidos?
A inclusão de pessoas trans* no mercado de trabalho é péssima, para se dizer o mínimo. Se por um lado você tem marginalizações sociais frequentes de pessoas trans* em ambientes escolares (em todos níveis) – o que leva muitas pessoas trans* à exclusão do direito à educação e maiores dificuldades de inserção na economia produtiva capitalista –, por outro lado o cissexismo contra pessoas trans* é latente e escancarado por parte de pessoas componentes do mercado laboral, intensificando a marginalização econômica destas pessoas trans*, levadas a ocupações 'abaixo' de suas qualificações profissionais ou à prostituição que, em nosso contexto histórico, é uma atividade extremamente vilificada e realizada predominantemente em condições degradantes.
Acredito que o grande desafio nessa questão é vencer os cissexismos sociais e institucionais que impedem nossas inserções econômicas dignas (inclusive no mercado sexual). O que é um caminho um pouco diferente do foco das incipientes e insuficientes políticas públicas que têm acontecido em alguns lugares, que enfatizam a 'capacitação' das pessoas trans* acima da necessidade de se educar ou 'capacitar' os mercados de trabalho para o respeito às identidades trans*. Para mim, é mais uma forma de se enfatizar as 'responsabilidades' da vítima por sua opressão, como se o mero fato de ela ter uma certa formação lhe fosse garantir, 'meritocraticamente', uma inserção econômica adequada (e esta forma de se ver as coisas é muito evidente em diversas outras iniciativas semelhantes também). O que, evidentemente, não é dizer que 'estes programas de capacitação deveriam ser destruídos' e tal, mas é enfatizar que o cerne da questão não está aí.
E a inclusão no mundo acadêmico? Novamente, quais seriam as melhores alternativas a se seguir?
A inclusão de questões trans* no mundo acadêmico é um caso à parte, em minha opinião: enquanto as reflexões relacionadas ou que utilizam as questões trans* crescem significativamente, pessoas trans* ainda têm muita pouca participação nestes meios, especialmente em posições de influência e decisão. Devido ao contexto histórico (em que muitas dessas pessoas sequer têm acesso a recursos educacionais anteriores ao acadêmico), creio ser um problema de 'resolução' lenta, mas acredito que há potenciais consideráveis de que as pessoas trans* possam, crescente e criticamente, formular novas perspectivas sobre identidades de gênero e sobre o que mais lhes aprouver na academia (porque pessoas trans*, afinal, não têm de ficar circunscritas a estes debates).
E acredito que é nesta crescente participação de pessoas trans* que 'suas' questões têm maiores possibilidades de complexificação e de articulação crítica, porque no atual mundo acadêmico tenho percebido, frequentemente, quando não desinteresse absoluto por questões trans*, instâncias exotificadoras, condescendentes, e de utilização predatória de vivências trans* em prol de teorias e currículos lattes recheados com pouco (se algum) impacto para a construção de resistências e revoluções trans*, algo que me parece preocupante quando considero nossas vulnerabilidades a violências e cerceamentos diversxs.
Você acompanha a luta transfeminista nos outros países? Se sim, como você compararia os direitos focados às pessoas trans* no Brasil e em outros países?
Não saberia dar grandes detalhes sobre as lutas transfeministas de outros países, sinceramente, mas os transfeminismos de que participo mais atentamente dialogam de forma intensa com ideias transfeministas originadas de outros locais. Especulo que em países onde as comunidades trans* têm bases mais fortes (EUA, Canadá, Argentina, Espanha) os discursos de resistência tendem a ser mais críticos, o que também pode estar associado às possibilidades de acesso a recursos educacionais por parte de algumas pessoas trans* também. De todas maneiras, fico bastante feliz e entusiasmada pelas possibilidades (que devem ser alargadas e se tornarem muito mais acessíveis) de construção de lutas trans* mais internacionais, mais interseccionais, mais críticas, e isso tem se tornado possível aos poucos nas nossas interações enquanto grupo social. Minha esperança de que o transfeminismo seja uma voz política potente está nisso: na construção de lutas em ambientes solidários e críticos a todas as formas de normatização e opressão que também afetam existências trans* – de maneiras muitas vezes mais agudas.