pelos deuses! aquele ali passeando na praia é Eileithyia? ah, não, é só EMERY DALLAS HAYES, uma CAMAREIRA nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os VINTE E NOVE anos nesse novo corpo, segue tão RESILIENTE e HIPERINDEPENDÊNCIA quanto na antiguidade. repararam também que ele lembra muito MICHELLE RANDOLPH? a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-lo como FUNCIONÁRIA do nosso hotel.
Emery nasceu numa cidade pequena do Texas, daquelas onde o calor entra junto com você quando abre a porta e onde o sobrenome das pessoas vale mais do que qualquer chance que te prometam. O dela nunca valeu nada. Emmie cresceu ouvindo que era white trash antes mesmo de entender o que isso significava, como se a vida tivesse decidido o final dela com antecedência e só estivesse esperando ela alcançar a idade certa pra assinar embaixo. A infância foi uma sequência de improvisos. Sofás emprestados, quartos de namorados, o banco de trás de um carro quando não tinha mais ninguém pra pedir favor. Em casa, quando havia casa, faltava o básico: onde tomar banho, o que comer, como lavar a própria roupa. Os pais eram viciados, e seu pai dela era abusivo, do tipo que distorce amor até virar ameaça, do tipo que ensina uma menina a confundir atenção com perigo. Emery aprendeu cedo a se mover com cuidado, a ler humor no tom de uma porta fechando, a reconhecer quando o ambiente ia piorar. Não por maturidade, por instinto de sobrevivência.
A gravidez na adolescência foi tratada como sentença. Ninguém fingiu surpresa, nem ela. Ela largou a escola por um tempo, teve o bebê e voltou quando deu. Ethan nasceu quando Emmie ainda era praticamente uma criança, mas foi ela quem virou adulta primeiro. Ela se formou atrasada, carregando o cansaço no corpo e a responsabilidade como se fosse parte do osso. E mesmo com tudo contra, ela tentou. Anos depois, quando passou na universidade, achou que finalmente tinha aberto uma porta diferente, uma brecha por onde ela pudesse escapar daquele destino de chão sujo e expectativa baixa. Só que a segunda gravidez veio e o mundo fechou as portas na cara dela de novo. Não foi falta de capacidade, foi falta de apoio. Ela desistiu da vida acadêmica porque não dá pra escrever futuro com uma mão e segurar o presente com a outra quando o presente está sempre te cobrando. Ela casou tentando construir estabilidade onde nunca existiu nenhuma, e por um tempo pareceu que funcionava. Até o fim da gestação da filha, quando o marido foi embora para ficar com uma menina mais jovem, como se abandonar fosse uma escolha simples.
Ela dormiu no carro por meses. Aprendeu a escolher estacionamento pela luz do poste e pela chance de não ouvirem batidas no vidro durante a madrugada. Limpou casas até a pele dos dedos abrir, juntou o suficiente para pagar um motel, e quando Erin nasceu, a rotina virou um nó impossível: a menina precisava de atenção, Ethan precisava de alguma normalidade, e as contas só subiam. Dallas tentou buscar trabalho “decente”, tentou negociar, tentou esticar dinheiro até onde dinheiro não se estica. Até que, sem rede, sem família, sem ninguém, ela virou acompanhante de luxo. Não por glamour. Por matemática. Por desespero. Ela se envergonha disso do jeito que pessoas decentes se envergonham de coisas que jamais deveriam ter sido exigidas delas, mas na época não existia a opção de orgulho. Existia a opção de alimentar os filhos ou passar fome com duas bocas na rua.
Quando conseguiu juntar o suficiente para alugar um apartamento, pequeno e apertado, mas com porta que trancava, ela jurou que ia sair daquela vida. Procurou empregos que não envolvessem se colocar em risco com homens desconhecidos, tentou recomeçar com a dignidade que ainda sobrou. Foi aí que a Grécia apareceu como oportunidade: escola mais barata, saúde mais acessível, a promessa de que as crianças teriam um futuro que não começasse já algemado ao mesmo rótulo que deram a ela. Emery pegou o que tinha, enfiou o resto em malas, e atravessou o oceano com a coragem torta de quem só sabe seguir em frente porque parar nunca foi opção. No Hotel Aletheia, ela virou camareira. Ela gosta de ser invisível, porque invisibilidade é uma forma de proteção que ela entende muito bem. Faz o trabalho com cuidado e uma eficiência quase silenciosa, como se arrumar um quarto pudesse ser mais do que arrumar um quarto, como se cada lençol esticado e cada toalha dobrada fossem pequenas vitórias contra o caos.
O que ninguém sabe é que Emmie ainda está correndo atrás do sonho mais simples e mais absurdo para alguém como ela: comprar uma casa. Um lugar que ninguém possa arrancar dela com uma traição, um despejo, ou uma “mudança de planos”. E para juntar dinheiro extra, ela voltou a fazer o que jurou que nunca mais faria, só que escondido. Ela trabalha numa boate adulta que acabou de abrir, a Hedone, em horários que ela disfarça, com um cuidado quase paranoico de não deixar pistas. Emmie vive dividida entre duas versões de si: a mãe cansada e cuidadosa que acorda cedo, dobra lençóis, prepara lanche e finge que está tudo bem; e a mulher que veste outra pele à noite porque o mundo cobra caro demais para permitir que ela seja só uma coisa.
Emery não podia se dar ao luxo de ficar acordada até tão tarde se não estivesse sendo paga para isso. A rotina pesada não dava nem tempo de piscar os olhos, não podia arriscar estar exausta na manhã seguinte… mas, ainda assim, não conseguia pregar os olhos por um segundo. Desceu até a cozinha com o plano de beber um pouco de chá, mas acabou fazendo o que sabia fazer de melhor: comer. Já tinha uma sacola de Doritos aberta, três xícaras de chá, cupcakes que deveriam ser para o café da manhã, frutas, queijos e até mesmo uma omelete que acabara de sair do fogo. Sem sequer perguntar se o outro estava com fome, colocou o prato na frente dele. — Esse lugar tá me deixando louca. Aqui, pra você, acabou de sair. Não que você tenha me pedido nem nada, mas é isso ou qualquer coisa que você vê aqui nessa mesa. Em teoria, estamos fechados, então na verdade você nem tá me vendo. — disse, já voltando a atenção para a próxima coisa que podia fazer.
[Drop: Fragmentos] - Piscina. Aletheia Hotel (0/3)
Estava sentado na beira da piscina. Pés descalços balançando na água morna enquanto observava o reflexo distorcido do céu na superfície. Sete noites de sonhos confusos, sem a menor ideia do que havia se passado por doze horas de um dia. E, Saul, se orgulhava de ter uma memória razoável para fator. Mas, o pior… era a sensação que persistia. Dor, ressentimento, como se tivesse sido punido por algo e ninguém importado o suficiente para lembrar. Ele inclinou a cabeça para trás, deixando o sol de Santorini aquecer seu rosto. Deveria estar apavorado, revoltado, exigindo respostas. Mas havia uma parte estranha e perturbadora dele que achava que merecia estar ali, como se fosse um castigo que vinha adiando por tempo demais. Abandonado. A palavra ecoava em sua mente com uma familiaridade nauseante, e Saul não costumava remoer assim, não costumava ser dramático em realidade daquela maneira. O rosto virou para a pessoa próxima. — Então… O quer quer fazer enquanto descobrimos se fomos drogados ou não?
Olivia estava com seus filhos, e Emery tinha um daqueles raros momentos em que podia se dar ao luxo de simplesmente não fazer nada. Morar ali, naquele hotel gigante e cheio de infraestrutura, ainda lhe parecia inacreditável, tão distante da pequena cidadezinha preconceituosa em que havia crescido. Sentia falta de muitas coisas; a habilidade de sonhar era uma das que mais pesavam. Sua vida agora era dedicada a tudo, menos a si mesma, e isso a frustrava mais do que costumava admitir. Os pés estavam na água, o corpo sentindo o calor da luz do sol, algo de que também sentia falta, já que muitas vezes começava a trabalhar antes do sol nascer e terminava muito depois de ele se pôr. Ela riu de leve ao ouvir a pergunta. Tinha que admitir: não tinha pensado o suficiente naquilo. Dizer que Emmie tinha surtado nos últimos dias com a histeria coletiva era eufemismo, mas agora, pela primeira vez em um tempo, começava a se sentir mais como ela mesma. — Eu não faço ideia, pra falar a verdade. Tô só feliz que consegui ter o dia off. Mas você? — ela o olhou de cima a baixo, deduzindo que fosse um hóspede, com tudo o que ela não tinha: estudo, dinheiro, estabilidade. — Suas opções devem ser quase infinitas, né?
Josh ainda demorou antes de voltar-se para a mulher que o chamou, tomando o seu tempo para fechar a porta. Não a ignorou inicialmente por mal, apenas estava acostumado demais com pessoas chamando o seu nome, principalmente os jornalistas do lado de fora. Além disso, a cabeça estava cheia. Ainda não sabia o que pensar de tudo aquilo, e odiava que não havia respostas concretas. Ela não demorou para se aproximar e começar a falar. "Hum... que favor seria?" Questionou, desconfiado, cruzando os braços em seguida. Devia estar acostumado com fãs emocionados nos últimos tempos, mas estava começando a se sentir sufocado toda vez que tentava colocar os pés para fora do hotel. "Se você quiser um autógrafo, eu não estou assinando nenhuma parte do corpo." Avisou, até porque no dia anterior mesmo uma mulher pediu para Josh assinar os peitos dela. O que ele não fez. E não que a loira fosse pedir isso, é claro. Mas Josh ainda estava se reacostumando com o fato de que estava retornando para os olhares da mídia.
Não levou a mal a postura mais cuidadosa do outro. Atenção era o tipo de coisa que viciava, mas também sufocava; ela sabia disso por outros motivos. Por essas e outras, ser famosa nunca fora um desejo seu. Ser perseguida por fãs, lidar com opiniões alheias o tempo todo, a falta de privacidade… tudo lhe parecia o exato oposto do que queria. Entretanto, aquilo dava a muitos o que Emmie mais precisava: dinheiro. Se fosse sincera, ela nem sabia o nome do rapaz, o que em partes a fazia se sentir mal, mas… o que não faria pelos filhos, não é mesmo? Lembrava-se do rosto dele estampado em um dos pôsteres no quarto do filho mais velho. No bolso, guardava um pequeno caderninho e, dentro dele, uma foto dela abraçada a Ethan. Aquilo teria que servir. Prontamente, tirou a imagem do bolso e, mesmo envergonhada, pediu. — Desculpa novamente, eu juro que, se tivesse qualquer coisa melhor pra dar de aniversário pro… — suspirou, cortando a própria fala. Ele não precisava das suas explicações. — Meu filho é fã da sua banda. Você é daquela banda, né? Você poderia assinar essa foto? — Ela estendeu a mão, oferecendo a fotografia, e riu do comentário dele. — Pelo visto, nem todos os pedidos são casuais, né? Não, eu acho que na foto seria melhor. Não é pra mim e, sem ofensa, mas acho que vou passar a tatuagem temporária. Muito obrigada, mas sair andando toda rabiscada por aí? Eles com certeza me demitiriam.
James não tinha tempo para lidar com burburinho e aglomeração. Cinco dias. Elu estava cinco dias atrasado para o início das gravações. As pessoas estavam aparecendo do nada no hotel? ENTÃO POR QUE CARALHOS OS FIGURANTES NÃO ESTAVAM ALI? Afundou os dígitos no ombro alheio e puxou a outra pessoa o mais perto possível de si. - Você! Tem um rosto muito bonito! Deveria estar na televisão. Quer estar? - Mostrou o crachá: o nome James Hunt era conhecido pelos entusiastas de cinema. Os melhores roteiros, as piores direções.
Emery estava exausta. Passava o dia indo de quarto em quarto, limpando, e quando voltava pra casa ainda tinha duas crianças para entreter. Que não a entendessem mal: ela amava os filhos com toda a alma, mas às vezes era difícil equilibrar tudo junto com o cansaço constante. Como se não bastasse, havia começado há pouco tempo um trabalho de meio turno como dançarina em um clube adulto excêntrico. Ao menos, entre todos os lugares em que já trabalhou, naquele ela se sentia segura.
Empurrava o carrinho de limpeza, pronta para entrar em um dos quartos, quando ouviu o outro falar. Se fosse mais inocente, talvez tivesse se animado de cara, mas Emery já sabia bem que a vida não funcionava assim. — É uma proposta tentadora, com certeza. Muito obrigada, mas no momento eu preciso terminar o serviço. — respondeu com educação, mas mantendo os pés no chão. — Você tem algum cartão ou algo pra eu poder entrar em contato depois?
O que estava planejando fazer? Algo que podia muito bem custar o próprio emprego, e Deus sabia que ela não podia arriscar o teto sobre a cabeça dos filhos. Mas, ao mesmo tempo, ela realmente queria que aquele Natal fosse diferente. Seu filho era fã declarado de uma banda de rock e ela tinha quase certeza de que um dos integrantes estava hospedado ali. Passou quase trinta minutos rondando o mesmo corredor, fingindo que estava ocupada, até que finalmente viu o rapaz sair do quarto. — Ei, você! — chamou, antes que a coragem escapasse. — Eu posso te pedir um favor? Além de, claro, não contar pra ninguém que eu tô te importunando… eu não posso perder esse trabalho.
Emery acordava antes do sol e, muitas vezes, ia dormir bem mais tarde do que devia. Não porque amasse o que fazia, nem por uma motivação inspiradora, mas porque tinha duas bocas para alimentar. Voltando tarde de mais um dos seus extras, com o corpo cansado e os ombros pesados, Emmie abraçou Olivia com uma gratidão quase palpável. Engraçado como, em um país estranho, se sentia mais apoiada do que na cidadezinha que a viu nascer. — Muito obrigada, eu juro que não sei o que eu faria sem você. — murmurou, ainda nos braços da amiga, antes de erguer a sacola de comida. — Eu trouxe take out, é alguma comida fancy aí… tá com fome?