SOZINHO EM ALTO MAR. Sempre fui muito bom em abrir o peito e fazer jorrar minhas emoções. Sempre consegui parar e traduzir o suspiro, o sorriso e o toque. Intenso, eles diziam. E também por conta disso, fugiam. Nunca consegui entender o porquê, talvez ninguém estivesse realmente preparado para navegar em alto mar e explorar o que tira os pés do chão. Por outro lado, nunca me bastou a superfície. Mergulhei, descobri e perdi o fôlego inúmeras vezes. Enquanto me acostumava com a profundidade, parecia que todos corriam para areia, para observar de longe. E todo mundo começou a ficar um pouco distante. É preciso gritar para ser ouvido, é preciso chorar para perceberem a dor, é preciso enlouquecer para notarem que algo está errado. Minhas ondas me levaram para outra direção, onde tudo é mais límpido e menos complicado. O problema é que todos se acostumaram com a complicação, com o molhar os pés na areia e achar o suficiente. Ninguém mais permite o toque íntimo, o compartilhar vidas e boiar despreocupado. Comecei a olhar para os lados e nenhuma terra à vista, fiquei sozinho em alto mar. Às vezes, aparece um ou outro tentando me socorrer, mas não consigo acreditar que sou eu que preciso de ajuda. Sempre fui muito bom em abrir o peito e fazer jorrar minhas emoções. Fico me perguntando se esse foi meu grande erro, se deixei tanto jorrar e acabei criando esse oceano ao meu redor, que ninguém tem coragem de mergulhar. E se foi realmente isso, pelo menos fui sincero quanto ao que sinto, muito melhor do que morrer inundado de tanto guardar tudo por dentro.
Mário Dias













