Eu vi sua alma num sonho
Quando o mundo ainda era pouco habitado, e as Américas ainda não haviam desenhado seu vasto território curvilíneo., nossos ancestrais desenhavam, na parede de uma caverna escura, os primórdios de um amor em formação.
A ideia de afeto era erudita e arcaica. Os antigos caçavam alimentos de forma guerreira e os levavam à sua linhagem, que se consolidava diante de um planeta ainda menos povoado do que é hoje.
Com a evolução e a seleção natural das espécies, o amor permanecia gravado nas paredes, resistindo ao tempo que tentava coibir promessas futuras.
Milhões de anos depois, entre os restos de uma antiga existência, os homens ocidentais encontraram a gravura e invejaram o amor que persistira diante de um tempo que se recusava a apagar.
Aquele desenho éramos nós: primários, eruditos e desconhecidos do mundo moderno. Sonhando com uma espécie que nos permitisse coabitar formas que preservavam um afeto desafinado.
Em uma expedição fortuita fomos fotografados, expostos e vistos pelos olhos daqueles que sonhavam com a invenção de um novo mundo. Depois de tantos olhares nos contemplarem, e de tantas bênçãos nos serem prometidas, aprendemos a viver como espíritos. Evoluímos para almas que se encontrariam em todos os destinos, em todas as estações e em cada promessa genuína.
Vazamos ao mundo numa escolha única: as estrelas se alinharam, o sol escureceu e a lua dançou na alegria das entidades antigas, vagando pela terra. Éramos formas etéreas em busca sincronizada do amor que nos unia há bilhões de anos.
Exploramos instâncias ainda não descobertas, projetamos um futuro com pernas, braços e um tórax que viria a ser colo. Olhávamos um ao outro, fundíamo-nos em seres infinitos que dançavam nas noites silenciosas.
Éramos constelações cintilantes, distantes da vida física. Provávamos os sabores do sol que nos iluminava, invejoso da alegria que nos unia e moldava. Caminhávamos por paraísos, buscávamos os jardins mais belos e sabíamos que existir assim era único, e era nosso.
Levamos milhões de anos para nos compreender como formas etéreas complexas e prontas, preparadas para habitar corpos orgânicos. Precisávamos olhar os olhos um do outro e sentir o som quente que aquece o coração.
Cruzamos a linha da eternidade para alcançar a vida humana. Sabíamos dos riscos — talvez nunca nos reencontrássemos. Mas eu passaria a vida inteira buscando tua alma e nossas danças em Saturno. Nos separamos para depois nos unirmos em perfeita sintonia.
Anos se passaram e eu me lembrava dos nossos passos compartilhados em cenas infinitas. Nos meus sonhos, eu te encontrava desesperançoso, ainda ansiando por nos unirmos. Eu perfurava tua alma com o olhar de vidas descompassadas, te realinhava e te provocava com minha inquietação. Estava à tua procura, e nos meus melhores sonhos te revisitei como um soneto sem fim.
Despertava carnívora e te procurava em todas as esquinas em que minha vida tortuosa se curvava. Nos dias mais inquietos, chorava na fé cega de que os planetas jamais se reordenariam, os astros jamais dançariam e a noite não cairia diante de nossos olhos, nesse encontro infinito que éramos eu e você.
O nosso amor nasceu nas paredes dos sonhadores. Encrostado numa caverna aquecida, habitamos a terra como uma ideia que florescia. O Ocidente conheceu nossa forma, e os olhares de tantos nos ensinaram a viver livres, atravessando tempo e espaço.
Assistimos o mundo cair e se reerguer tantas vezes, com a destreza que somente a vida humana pode demonstrar. Percorremos o cosmos e evoluímos para nos reencontrar em outro formato.
E ainda te procuro. Lamento, pelas noites, a saudade que me habita. Minha essência busca a tua, e me pergunto em qual momento iremos nos unir.
Antes de dormir, eu rezava por ti. A tua falta me sufocava, a ausência ardia na pele, e todas as lembranças de um bilhão de anos juntos me transfiguravam nessa intensa agonia de te reencontrar.
Encontrava-te nos meus sonhos. Perseveravas, embora desistente, compartilhando a dor da ausência e dos caminhos que já não se cruzavam mais. Eu sentia tuas ausências, e você mordiscava a minha.
Cada dia mais submetida à esperança tua.
Quinze anos se passaram, e tua forma me visitava toda noite. Eu te buscava diariamente, meu coração chamava o teu e minha essência gritava pela tua. Dormia em agonia. Os céus lamentavam a história de duas almas que não conseguiam se encontrar. A lua confidenciou ao sol, as estrelas choraram tanto, e os cometas brilharam com a mesma intensidade de aflição das almas mais antigas.
O cosmos, que nos viu caminhar pelos planetas e desenhar na Via Láctea, lamentava o amor mais antigo que não vingava. Saturno se comoveu, a lua entristeceu, e todos os satélites falavam sobre nós.
O nosso amor chegou às galáxias, os mundos se realinhavam. A lua escureceu e eclipsou em metamorfose. Todos os astros cruzaram o céu, e as estrelas dançavam em grande cadência.
O mundo mudou mais uma vez para nos reencontrarmos.
Eu segui o mapa noturno e cultuava o céu em tua busca.
No ponto mais alto da noite, com os universos a nosso favor, o peso no coração acelerado, minhas pernas bambas e minhas mãos trêmulas...
Nossos olhares se cruzaram, e naquela vida inteira eu te percebi. Diante do universo nos tornando um só, nos reencontramos.
Há um bilhão de anos vivemos gravados nas paredes antigas de uma caverna, contemplamos o mundo como formas etéreas, caminhamos por todos os campos floridos, adentramos todas as noites silenciosas.
Nós inventamos o amor.
E nossa lenda permanece.


















