Escrito 5
Aos chamados a deixarem a toca
Em 1930, enquanto corrigia provas de seus alunos, uma frase surgiu espontaneamente na mente de J.R.R. Tolkien:"Numa toca no chão vivia um hobbit."
De maneira despretensiosa, ele começou a escrever o que se tornaria uma das maiores obras da literatura fantástica do mundo. Mas o que a história dessa pequena criatura tem a ver com aqueles que são chamados por Deus?
A frase de abertura, embora simples, nos revela muito sobre a natureza do personagem principal e os dilemas que enfrentaria. A "toca no chão" não é um sinal de alguém aventureiro ou desbravador, tocas são refúgios, lugares de conforto, estabilidade, ordem e, acima de tudo, segurança.
Mas certo dia, esse refúgio é invadido, quase completamente destruído, por um grupo de anões rudes, sem modos, e um mago. O mago, Gandalf, havia marcado uma reunião na casa do pobre Bilbo sem sequer pedir permissão. Sua visita não era apenas social. Gandalf viera chamá-lo, ou melhor, vocacioná-lo para uma tarefa que talvez nenhum outro hobbit jamais tivesse enfrentado. O convite não era para ser apenas um observador, mas para se tornar uma figura ativa no meio de um grupo improvável de aventureiros.
Sua missão? Recuperar Erebor, a Montanha Solitária, antigo reino dos anões, agora dominado pelo dragão Smaug. Nessa companhia, Bilbo seria "o ladrão", o que teria a tarefa de roubar a Pedra Arken, o “coração da montanha”.
Diante de tal chamado, Bilbo resiste. Reclama do caos que os visitantes causaram e demonstra grande desconforto. Gandalf então o confronta com uma pergunta marcante:“Quando foi que talheres, porcelanas e rendas se tornaram mais importantes para você do que uma boa aventura?”
É aí que percebemos o paralelo com a vida daqueles que são chamados por Deus. Assim como Bilbo, o vocacionado é desafiado a deixar para trás o conforto, a ordem e a previsibilidade de sua “toca”, e seguir rumo ao desconhecido. Ao ler o contrato da jornada, Bilbo se depara com cláusulas assustadoras: ele poderia ser morto pelo dragão, queimado vivo, ou enfrentar inúmeras outras desventuras. Diante do medo, pergunta a Gandalf : “Você promete que eu vou voltar?” Gandalf, com compaixão, responde:“Isso eu não posso garantir. Mas posso garantir que, se voltar, você não será o mesmo.”
E assim a história acontece. Ele assina, parte para a aventura. No início é desacreditado por todos, mas ao longo da jornada ganha ferramentas, sabedoria, coragem, respeito e cumpre a missão. Ao regressar, ele é outro.
Da mesma forma é a vida daqueles que são chamados pelo Bom Mestre. Assim como Bilbo, somos chamados a deixar a segurança da nossa “toca”, nossas famílias, propriedades, profissões, rotinas (aquilo que nos é confortável) para viver a grande aventura de anunciar que o Reino Eterno está próximo.
Desde os tempos antigos até hoje, todos que desejam caminhar com o Senhor precisarão abrir mão de algo. Como disse Jesus, é necessário calcular o preço. Não há garantias de segurança, nem de uma vida fácil. Mas há a promessa de plenitude, transformação e um novo olhar para a vida.
Bilbo, ao retornar para sua toca, já não a via como antes. Os talheres, rendas e porcelanas haviam perdido o brilho. A casa já não representava abrigo, mas saudade das montanhas, da estrada, dos dragões, dos elfos. Saudade de viver com propósito. Quando Gandalf o visita anos depois, a casa está em desordem. Não refletia mais a vida de antes, mas uma existência marcada pela coragem, memórias e mudança.
Assim também ocorre com aqueles que, mesmo com medo, dão o primeiro passo e seguem o Mestre. As coisas que antes eram valiosas: conforto, estabilidade, posses perdem seu lugar de importância. Tornam-se apenas objetos, sem poder sobre o coração.
Certa vez, um autor escreveu sobre Abraão: mesmo estando na terra que o Pai lhe havia prometido, ele viveu como peregrino, pois seu coração ansiava por algo muito maior, a Canaã celestial, cujo arquiteto e fundador é o próprio Deus.
¨Pois quem foi alcançado por um chamado eterno… nunca mais cabe na mesma toca¨














