Copão de chopp
Antigamente era mais rápido sorrir. Não precisava tirar foto pra mostrar no grupo do WhatsApp. Disse um idiota. Não fui eu.
“Liga ai o zap que você precisa ver o COPÃO de chopp que eu to tomando” disse um senhor de camisa xadrez e um shorts laranja que ornava com um chopp — tudo orna com um chopp, é só um líquido, caraio.
Eu olhei, o tamanho do copo era normal. É difícil dizer o que ele quis dizer com copão, eu não sei se tem uma regra específica que configura um copão, eu não conheço a história desse sujeito.
Mas mesmo assim eu senti raiva. Não era um copão. Ele estava claramente mentindo, e não satisfeito, produzindo provas contra si mesmo. Ele tirou sete selfies segurando o “copão”, a mulher do seu lado batia palmas num gesto cúmplice, como se não tivesse compactuando com uma manipulação barata.
Não podia passar a tarde ali, eu tinha que trabalhar. Continuei o caminho tentando ignorar tudo aquilo. Ah, teve um momento que ele ameaçou fazer um vídeo e eu só pensei como seria se alguém do grupo do zap questionasse
- mas Agripino, esse copo que você mandou é normal.
Como é que ele se sentiria? Isso, claro, considerando que ele não fez de propósito. Se desde o início ele sabia que não era um copão, mas só queria testar alguma teoria antropológica. Se Agripino apenas esperava alguém interrompê-lo pra comprovar alguma teoria estapafúrdia.
Quer dizer, se a pessoa sente confortável mentindo o tamanho dum copo, o que mais que ela esconde, sabe? Dei meia volta, apressei o passo e voltei pro parque, pro bar, pros cisnes que andavam sem rumo e pro zap do Agripino. Ele ainda estava sorrindo. Desgraçado.
Andei até a sua mesa e chutei o copo longe. Ele gritou “você quebrou o meu copão” e eu gritei que aquilo era na verdade no máximo um copo de tamanho médio. Ele parecia confuso, como se a minha atitude tivesse sido mais agressiva que mentir pra um grupo inteiro no WhatsApp. Eu perguntei em voz alta quantas pessoas tinha no grupo, ele continuava reclamando do copo. A mulher me olhava assustada, mas depois de um tempo ligou a câmera e ficou filmando escondida. Ninguém no bar se mexia. Agripino percebeu que não teria ajuda, então começou a me responder, motivado talvez pelo medo.
- Do que você tá falando?
- Do grupo do zap
- O que? Porque você chutou meu copão
- Eu já disse que ele não é, olha, só me diz pra quantas pessoas você mandou a foto?
- O que? Aa… 8. É só pra minha família e o Oswaldo, que trabalha comigo.
- Escuta, Agripino.. eu
- Quem é Agripino? Meu nome é Juliano.
O desgraçado não assumia o próprio nome.
Peguei os cacos e coloquei no lixo e depois pedi um pano no balcão para limpar. Podia ter perdido a cabeça, mas não era porca.
Pedi um chopp e fui prontamente atendida. A garçonete estava nervosa, e me trouxe um copo muito grande. Olhei pra ele e disse “viu só? Isso sim é um copão!
Deixei Agripino pagar a minha conta.








