Aqui você encontra os contos sobre o universo de Mythborne e a Nova Ordem narrativa!
Todos os contos são IC, e aqueles que não forem / não puderem ser usados, estará sendo informado que se trata de situação apenas para conhecimento OOC.
O Torneio das Casas começou há quinze anos e, desde então, tornou-se uma das tradições mais aguardadas de Everafter. Durante semanas, Arsênio, Beladona, Cicuta e Mandrágora disputam pontos, provas, prestígio e privilégios, até que apenas uma delas erga o troféu diante de toda a Academia.
Essa é uma leitura OOC recomendada para compreender como e por que o Torneio das Casas foi criado, por que Beladona costuma ser vista como o grande exemplo a ser seguido, e por que, em Everafter, nem toda competição nasceu para ser justa.
“Professor, por que todo mundo fala de Beladona como se fosse a Casa mais importante?”
A pergunta foi feita em voz baixa, quase engolida pelo barulho do Salão dos Banquetes durante o almoço, quando centenas de alunos conversavam sobre provas, intrigas, tarefas atrasadas, duelos marcados em segredo e o início iminente do Torneio das Casas. Mas ainda assim foi alta o bastante para fazer o professor Oogie Boogie erguer os olhos do pergaminho que lia, enquanto o estudante diante dele, jovem demais para ter aprendido a disfarçar curiosidade, olhava na direção da mesa de decoração roxa. Sua expressão misturava incômodo, fascínio e uma leve irritação. Beladona ocupava o centro do salão como se o espaço tivesse sido desenhado para favorecê-la, os broches roxos brilhavam sob a luz das velas flutuantes, os risos eram baixos, elegantes, medidos para serem ouvidos apenas o suficiente, e mesmo quando seus alunos não faziam nada, mesmo quando apenas comiam, conversavam ou viravam páginas de livros que talvez nem estivessem lendo, havia neles uma espécie de consciência coletiva de palco, como se soubessem, desde muito cedo, que ser observado também era uma forma de poder.
O professor acompanhou o olhar do aluno até o troféu exposto no alto, próximo às bandeiras das quatro Casas. Uma peça dourada e alta, envolta por detalhes que mudavam conforme a luz, ora parecendo vinhas, ora lâminas, ora pequenas rachaduras de uma maçã partida ao meio, e demorou alguns segundos antes de responder. “Porque Beladona aprendeu a vencer.” Disse, por fim, recolhendo a pena, e o aluno franziu o cenho como se aquela explicação resolvesse apenas a parte menos importante da pergunta. “Mas Arsênio venceu cinco anos.” Lembrou, cuidadoso, olhando ao redor como se citar a derrota de Beladona em voz alta pudesse chamar alguma consequência. “E Cicuta venceu três vezes também. Mandrágora quase venceu no ano passado.” O professor sorriu, um sorriso pequeno, e voltou a olhar para o troféu. “Sim.” Concordou. “É por isso que todos continuam jogando.”
Quinze anos antes, ninguém em Everafter falava em Torneio das Casas. Ainda não.
Naquela época, a Academia já possuía Arsênio, Beladona, Cicuta e Mandrágora, seus broches, seus dormitórios, seus professores responsáveis, seus símbolos e suas reputações nascendo em velocidade assustadora. Mas faltava algo que transformasse separação em ritual, preferência em tradição, hierarquia em desejo. A primeira geração de alunos do novo regime aprendia depressa, como todos aprendem quando crescem sob o olhar de vencedores. E se Beladona já era tratada com deferência pelos professores, pelos monitores, pelos funcionários mais atentos, e por qualquer família que soubesse reconhecer onde o poder se sentava durante os banquetes, aquilo ainda não era suficiente, porque deferência imposta servia para manter cabeças abaixadas, mas não para fazer olhos brilharem.
E o Conselho da Reescrita não havia vencido o mundo para ser apenas temido.
QUINZE ANOS ANTES.
Naquela noite, os sete conselheiros reuniram-se na sede oficial do Conselho, longe dos dormitórios da Academia, mas ainda na Ilha, onde vieram a chamar de Capital. A mini cidade, de difícil acesso, e na ponta oposta da Vila Far Away, é guardada pelos soldados mais fiéis, e seu acesso é extremamente restrito. Se for convocado, pode ter certeza de que medidas serão tomadas para que nunca, jamais, saiba voltar à Capital sozinho. De qualquer modo, se reuniram lá! Em uma construção austera por fora, quase discreta para quem não sabia olhar, e impossível por dentro, com salões longos demais, janelas voltadas para céus que não correspondiam à hora do lado de fora, e uma sala circular no centro, onde os mapas de Mythborne flutuavam sobre uma mesa negra, marcando fronteiras, rotas, castelos, prisões, portos, e todos os lugares onde a história havia sido obrigada a se ajoelhar diante deles. Não era uma reunião emergencial. Não havia rebelião, ataque, profecia, traidor descoberto ou criatura fora de controle, e talvez por isso a atmosfera fosse ainda mais perigosa, porque o Conselho, quando não precisava reagir a uma ameaça, costumava criar instrumentos para impedir que ameaças futuras aprendessem a existir.
“Me digam,” começou Úrsula, sentada com tranquilidade em uma das cadeiras, os dedos cobertos por anéis repousando sobre a taça de vinho escuro à sua frente, “o que os alunos viram esta semana?”
Gancho, que girava uma pequena faca entre os dedos com tédio ensaiado, ergueu uma sobrancelha. “Aulas ruins, professores cansados e adolescentes convencidos de que inventaram a desobediência.” Era seu jeitinho de alfinetar Ja'Far, já que havia vencido por quase unanimidade a votação para escolherem o diretor de Everafter.
Facilier riu, baixo, divertido. “Não seja injusto, capitão, pelo que fiquei sabendo alguns deles penduraram um garoto da Mandrágora do lado de fora da torre do observatório. A juventude ainda tem imaginação.”
“Foi o meu cupcake?” A pergunta foi feita pela Rainha de Copas, ansiosa demais em ver seu filho forçar joelhos a serem dobrados. "Um garoto da Arsênio, na verdade." Respondeu Ja'Far, que enchia o próprio copo antes de juntar-se aos demais na mesa redonda. Sua resposta, porém, arrancou um sibilo de insatisfação dos demais conselheiros. "O que nossos filhos estão fazendo de vilanesco? Beladona anda chamando atenção?" Perguntou a Rainha Má, e o diretor coçou a resposta, sendo resposta suficiente.
"Eles tem os melhores dormitórios." Defendeu Facilier, que acendia um charuto. "Isso não é mérito, é favoritismo." Foi Úrsula quem respondeu, não exatamente feliz com a constatação. Ja’far, que analisava um conjunto de relatórios acadêmicos, ergueu os olhos. “E favoritismo, quando percebido cedo demais, produz ressentimento.”
“Ou inveja.” Facilier comentou.
“Ressentimento é mais perigoso.” Ja’far disse.
Malévola permaneceu imóvel, os dedos longos tocando a lateral da cadeira, e quando falou, sua voz não precisou se elevar para silenciar todos os pequenos movimentos ao redor. “Então deem a eles algo para provarem seu mérito.”
A Rainha de Copas, que equilibrava uma colher sobre o próprio nariz com a seriedade de quem participava de um julgamento, deixou o talher cair sobre a mesa e bateu palmas uma vez. “Um jogo?”
“Uma competição.” Corrigiu a Rainha Má.
Malévola inclinou-se para frente, e os mapas flutuantes se moveram levemente, como se até os reinos quisessem escutar. “Beladona já é a Casa da influência, do encanto, da política, do controle social. Beladona abriga os nossos filhos, os nossos herdeiros, aqueles que um dia ocuparão o conselho. Ela representa, melhor do que qualquer outra Casa, aquilo que nós construímos depois da Reescrita.” Ela fez uma pausa, bebendo um gole de vinho como se falasse de algo simples, cotidiano, inevitável. “Mas não basta que isso seja verdade. As pessoas precisam assistir essa verdade acontecendo de novo, e de novo, e de novo, até chamarem de tradição.”
Ja’far fechou o relatório diante de si. “Um torneio anual, então? Onde inevitavelmente Beladona vença.”
Foi assim que o Torneio das Casas nasceu. Não da vontade de celebrar união acadêmica, não de um desejo de estimular mérito entre os estudantes, não da fantasia ingênua de que competição saudável formaria jovens melhores, mas da necessidade muito mais refinada de transformar Beladona em objeto de admiração pública. De fazer com que Arsênio, Cicuta e Mandrágora medissem a si mesmas contra uma Casa que o próprio sistema já havia escolhido como exemplo. A ideia era simples, e quase bonita em sua eficiência: se Beladona vencesse porque o Conselho dissesse que ela deveria vencer, todos odiariam Beladona; se Beladona vencesse diante de todos, sob regras, aplausos, provas, notas e cerimônias, todos aprenderiam a desejá-la.
“Ela não pode vencer sempre, seria óbvio demais.” Rainha Má disse, depois de alguns minutos. "Eu gosto do óbvio!" Cantarolou a Rainha de Copas, recebendo um "Nós sabemos." em unissino como resposta.
Gancho soltou uma risada. “Está sugerindo que deixemos outra Casa vencer?”
“Estou sugerindo que deixemos outras Casas acreditarem que podem vencer.” O vizir respondeu, calmo. “Ocasionalmente, permitir que vençam será útil. Arsênio pode vencer quando for necessário lembrar ao reino que força ainda tem valor, Cicuta pode vencer quando precisarmos prestigiar vigilância, pesquisa e obediência intelectual, até Mandrágora pode chegar perto, muito perto, perto o suficiente para que seus alunos tenham esperança.”
“E então, Beladona no topo.” A Rainha Má disse.
“Beladona como referência.” Úrsula corrigiu, porque havia uma diferença, e ela sabia que todos ali entenderiam.
A Rainha de Copas inclinou a cabeça. “E se, por acidente, a referência cair do topo?”
A pergunta era absurda apenas na voz dela.
Ja’far molhou a pena no tinteiro, puxou o primeiro rascunho do regulamento e escreveu uma cláusula tão elegante que ninguém na sala precisou sorrir para demonstrar aprovação. “O Conselho reserva-se o direito de conceder Pontos de Excelência Institucional a Casas que, durante o Torneio ou ao longo do ano acadêmico, demonstrem valores exemplares para a preservação da ordem, do prestígio e da soberania narrativa de Everafter.”
Facilier assobiou. “Isso significa qualquer coisa.”
“Sim.” Ja’far respondeu.
“Adoro como você enxerga a lei.” Anunciou Facilier, fazendo um carinho na face do vizir.
Gancho inclinou-se sobre a mesa, lendo a frase com atenção, e então soltou uma risada baixa, quase admirada. “Então, se Arsênio vencer todas as provas físicas e Beladona ainda assim estiver próxima demais para perder...”
“Beladona pode receber pontos extra por postura.” A Rainha Má disse.
“Ou por não ter incendiado nada.” Facilier disse.
Malévola, pela primeira vez naquela noite, sorriu. Não um sorriso grande, nem gentil, nem exatamente humano. “Também deveriam perder pontos por vitórias que ensinem a lição errada.”
“Como Mandrágora vencendo por altruísmo.” Úrsula disse.
“Exatamente.” A pena de Ja’far voltou ao pergaminho, depois dele concordar.
E assim, linha por linha, nasceu um regulamento que parecia justo o suficiente para ser lido em público e enviesado o bastante para cumprir seu verdadeiro propósito. Haveria provas físicas, para que Arsênio sangrasse com orgulho; desafios intelectuais, para que Cicuta acreditasse que conhecimento bastava; tarefas de resistência, cooperação e resgate, para que Mandrágora tivesse momentos pequenos e luminosos antes de ser lembrada de que luz demais incomodava; e, acima de tudo, haveria provas de influência, diplomacia, estratégia, categorias nas quais Beladona não apenas competiria, mas reinaria com a naturalidade. Ou assim esperavam.
No fim da reunião, Malévola e Rainha Má permaneceram diante do mapa de Everafter por alguns segundos, olhando para a pequena representação mágica da Academia com uma ternura estranha. “Os heróis ensinaram gerações a acreditar que o bem sempre vence.” Disse Malévola, e sua voz, naquele instante, parecia quase suave. “Nós ensinaremos algo melhor.” Concordou a Rainha.
(...)
O Torneio das Casas começou em agosto, e foi anunciado com um banquete. Sendo assim todos os anos seguintes.
Velas flutuaram mais altas do que o normal, bandeiras surgiram nas paredes do salão, e professores que até então tratavam disputas entre alunos como incômodos disciplinares passaram a chamá-las de espírito competitivo, o que, em Everafter, era uma forma elegante de dizer que a violência se tornava aceitável quando havia plateia, regulamento e pontuação. Os alunos antigos não sabiam exatamente o que esperar, os novos acreditavam que aquela sempre fora uma tradição.
Na primeira prova, Arsênio venceu. Não venceu de forma delicada, nem bonita, nem sequer particularmente inteligente, mas venceu com corpos atravessando lama encantada, escudos quebrando sob golpes secos, alunos carregando uns aos outros sobre barreiras de ferro e uma disciplina tão brutal que até Gancho pareceu satisfeito. A mesa vermelha rugiu quando os pontos apareceram no placar, Shang Lee manteve a expressão rígida de sempre, embora seus olhos denunciassem orgulho, e por algumas horas os alunos de Arsênio caminharam pelos corredores como se a Academia inteira devesse abrir passagem para eles.
Na segunda prova, Cicuta venceu. Um labirinto devia ser explorado e no centro dele existia o prêmio daquela prova. Porém, as pistas eram documentos falsificados e diversos enigmas. Se dobrasse a esquina errada, podia ser atacado por um orc, receber um feitiço de paralização ou simplesmente ser teletransportado para o início. Madame Morrible quase sorriu quando seus alunos entregaram a resposta antes da metade do tempo e alcançaram o centro, Elphaba permaneceu séria, os dedos manchados de tinta fechados sobre o próprio caderno, e a mesa azul-marinho recebeu os pontos com uma satisfação silenciosa, porque Cicuta, ao contrário de Arsênio, não precisava gritar para se achar superior.
Na terceira, Mandrágora surpreendeu. Era uma prova de resgate em uma torre ilusória, com escadas que mudavam de lugar, salas tomadas por fumaça, criaturas falsas chorando atrás de portas falsas e uma regra simples: quanto mais pessoas fossem deixadas para trás, mais rápido a Casa terminaria. Mandrágora, irritantemente previsível em sua tendência ao martírio, salvou todos. Quando cruzaram a linha final atrasados, exaustos, feridos e carregando até adversários de outras Casas, perdeu os pontos que havia recebido até então. Motivo oficial: desobediência, uso excessivo de risco pessoal e falha em priorizar eficiência sobre sentimentalismo. Anna de Arendelle levantou-se da cadeira, mas Yzma puxou-a de volta pelo cotovelo e sussurrou, sem mover muito os lábios, que morrer em defesa da coerência alheia era uma péssima forma de passar a tarde. Àquela prova também ficou para Arsênio
Beladona venceu a quarta prova, a quinta. E a sexta de um jeito tão elegante que ninguém conseguiu identificar o momento exato em que a vitória aconteceu. Em uma simulação diplomática, seus alunos convenceram duas Casas rivais a brigarem entre si enquanto assumiam o papel de mediadores. Em um debate público, fizeram Cicuta parecer fria, Arsênio parecer incivilizada e Mandrágora parecer infantil. Quando o placar virou, não houve surpresa.
No último dia, porém, Arsênio estava perto. Perto demais. Havia vencido combates, provas de contenção e uma tarefa de caça mágica que renderia histórias por meses, e, por um momento breve, quase vulgar, os alunos de vermelho acreditaram que poderiam vencer o primeiro Torneio das Casas. A mesa de Arsênio batia punhos contra a madeira, os alunos de Cicuta folheavam livros em busca de feitiços, Mandrágora observava em silêncio, e Beladona sorria com uma calma muito bem ensaiada, embora alguns dedos apertassem talheres com força demais.
Foi então que a Rainha Má levantou-se. O Salão dos Banquetes inteiro silenciou antes mesmo que ela dissesse uma palavra.
“Antes do encerramento,” começou, a voz clara, delicada e cortante, “o Conselho reconhece a necessidade de premiar não apenas desempenho bruto, mas também a preservação dos valores que sustentam Everafter. Por isso, em reconhecimento à excelência institucional demonstrada durante todo o Torneio, Beladona receberá vinte e cinco pontos adicionais.”
O silêncio durou três segundos. Facilier levou a taça à boca para esconder o sorriso. Gancho olhou para o teto como se pedisse forças a um deus no qual não acreditava. Ja’far registrou os pontos sem qualquer alteração no rosto. Úrsula aplaudiu primeiro, e depois Cruella. Seguida pelos professores que entenderam depressa o bastante.
Beladona venceu por dois pontos de vantagem. No ano seguinte, Arsênio treinou mais, Cicuta estudou o regulamento e Mandrágora tentou entender onde havia errado. Beladona aprendeu que até quase perder podia ser útil, desde que a vitória final parecesse suficientemente inevitável.
(...)
Quinze anos se passaram desde então. Beladona venceu a maior parte dos Torneios. Mas não todos, pois isso seria deselegante.
Arsênio venceu em cinco anos, principalmente quando o Conselho precisa lembrar aos reinos que força ainda sustenta a ordem. Cicuta venceu três vezes, quando vigilância, pesquisa e controle pareciam virtudes mais úteis do que charme. Mandrágora nunca venceu, embora tenha chegado perto o bastante algumas vezes para que seus alunos guardassem a dor da derrota. E Beladona, com seus títulos, mesmo quando perdia, continuava sendo comparada, o que, no fim, talvez fosse uma forma mais duradoura de vitória.
Agora, todos os anos, em agosto, as bandeiras voltam a cair das torres.
O Torneio das Casas nunca foi criado para descobrir qual Casa era a melhor. Foi criado para ensinar, ano após ano, plateia após plateia, geração após geração, que excelência tinha uma cor, e ela brilha em roxo. E se, de vez em quando, outra Casa erguia o troféu, se o vermelho, o azul-marinho ou qualquer outra cor ousava ocupar o centro do Salão por alguns meses, isso apenas tornava o jogo mais crível, mais emocionante, mais viciante, porque nada mantém alguém preso a uma disputa com tanta eficiência quanto a convicção de que, da próxima vez, talvez consiga mudar o resultado.
E a décima quinta edição do Torneio está se aproximando. Você está preparado para disputar contra o hexa?
Os Berradores não são corujas, tampouco encantamentos comuns de correspondência. Ninguém sabe exatamente quem os criou, apenas que, décadas atrás, eles passaram a ser utilizados pelo Conselho da Reescrita para entregar convocações, punições, documentos oficiais e cartas urgentes. Desde então, uma regra tornou-se praticamente unânime em Mythborne: se um Berrador recebeu seu nome, ele irá encontrá-lo.
Essa é uma leitura OOC recomendada para compreender como os Berradores funcionam dentro de Mythborne e por que, entre professores, alunos, reis e até mesmo membros do Conselho, existe um consenso absoluto: É inútil tentar fugir deles.
Personagens na narração: Ja'far, Úrsula, Capitão Gancho, alguns funcionários do Conselho e um jovem escriba.
"Ele entregou para a pessoa errada."
O silêncio que tomou conta do Mourningbell post office foi suficiente para fazer o jovem escriba desejar nunca ter aprendido a ler. Diante dele, um pequeno Berrador vermelho bicava inocentemente um tinteiro derrubado sobre a mesa, completamente indiferente ao desastre que acabara de provocar.
"Tem certeza?" perguntou outro funcionário, aproximando-se da pilha de documentos espalhados.
"Absoluta."
"O destinatário?"
"O Hunter, líder da guarda."
"E quem recebeu?"
"...a filha da fada do dente."
Mais alguns segundos de silêncio, até que alguém murmurou: "Estamos mortos."
O rapaz passou as duas mãos pelo rosto.
"Era uma convocação oficial do Conselho..."
(...)
Nas semanas seguintes, o problema só piorou. Um Berrador levou uma cobrança de impostos para Gothel, e juram que surgiu uma ruga entre suas sobrancelhas com isso. Outro deixou uma carta de Alana, que deveria ser para seu filho, nas mãos da filha de Mirana. Houve até mesmo o caso particularmente constrangedor em que uma ordem de execução foi entregue a Shang, e foi assim que o Conselho descobriu o problema. E eles não costumam tolerar erros. Muito menos erros repetidos.
Foi por isso que, na manhã da terceira reclamação, sete cadeiras encontravam-se ocupadas ao redor da mesa circular do Conselho.
"São pássaros." disse Hook, girando uma adaga entre os dedos como se aquela reunião pudesse ter sido um e-mail. "Acontece."
"Não são pássaros." corrigiu Úrsula sem sequer erguer os olhos do pergaminho que lia. "Se fossem, eu já teria sugerido substituí-los."
"Então substitui."
"Por quê? Os gritos são úteis."
"Concordo." comentou Facilier, divertindo-se. "Nunca vi criatura anunciar uma desgraça com tanto entusiasmo."
O pequeno Berrador pousado sobre um pedestal abriu a boca.
"VOCÊ ESTÁ ATRASADO PARA A REUNIÃO DO CONSELHO!"
Todos fecharam os olhos, enquanto o animal parecia satisfeito consigo mesmo. Com o formato de um pergaminho fechado, a mensagem pode ser gravada nele em um papel e jogado na abertura, que representa a boca, e será anunciada em alto e bom som para seu destinatário.
"O problema." disse Ja'far calmamente, "não é o Berrador."
"Ah, não?" Hook apoiou os cotovelos sobre a mesa.
"O problema é que ensinaram o método errado."
(...)
Na tarde daquele mesmo dia, os funcionários do Jornal foram convocados ao pátio interno da sede do Conselho. Sobre uma mesa havia dezenas de cartas, e ao lado delas, aproximadamente quinze Berradores. Todos olhando para Ja'far. O conselheiro caminhava lentamente entre eles, as mãos escondidas dentro das mangas longas do traje, como se não tivesse qualquer pressa.
"Como vocês ensinam um Berrador?"
O escriba respondeu primeiro.
"Lemos o nome do destinatário."
"Errado."
Outro tentou.
"Mostramos o retrato."
"Também errado."
"Explicamos onde ele mora."
Ja'far apenas sorriu.
"Agora entendem por que falham."
Ninguém respondeu. O vizir retirou uma única carta da pilha.
"Os homens acreditam que identidade é um nome."
Virou o envelope.
"Depois acreditam que identidade é um rosto."
Levantou outro.
"Alguns acham que identidade é um endereço."
Ele olhou para os funcionários.
"Nenhuma dessas coisas permanece."
O escriba franziu a testa.
"Mas... então como eles encontram qualquer pessoa?"
Ja'far caminhou até um dos pequenos Berradores. A criatura inclinou a cabeça de pergaminho para ele. O conselheiro tocou delicadamente o peito dela com dois dedos.
"Porque eles aprendem a magia das pessoas."
Ja'far pediu que o rapaz entregasse três cartas. Todas possuíam exatamente o mesmo destinatário. Um homem que, naquele instante, mudava de roupa em um quarto distante. Na primeira carta, o nome estava correto. Na segunda, havia um retrato antigo. Na terceira... nome nenhum, apenas um pequeno fio de cabelo preso ao lacre.
Os três Berradores partiram ao mesmo tempo. O primeiro retornou vinte minutos depois, sem entregar a carta.
"O destinatário não foi encontrado."
Ja'far apenas assentiu.
"O homem trocou oficialmente de nome há dois meses."
O segundo voltou meia hora depois, e também falhara.
"O retrato estava desatualizado." explicou Ja'far. Então todos olharam para o terceiro. Ele demorou quase uma hora. Quando retornou, trazia o recibo de entrega. O escriba arregalou os olhos.
"Como...?"
Ja'far retirou o pequeno fio de cabelo do envelope restante.
"Eles reconhecem a assinatura mágica daquele homem."
(...)
Naquela noite, todos os Berradores passaram por um novo treinamento, aprendendo pequenas assinaturas deixadas por cada indivíduo de Mythborne. Um fio de cabelo, uma gota de sangue, um objeto usado durante muitos anos. Qualquer fragmento suficientemente antigo para carregar ecos da existência de seu dono. Era isso que berradores perseguiam. Foi também naquela noite que Úrsula fez uma única pergunta.
"E se alguém destruir todos os próprios vestígios?"
Ja'far demorou alguns segundos para responder. Então sorriu daquele jeito discreto que sempre parecia significar que já conhecia a resposta, antes mesmo da pergunta existir.
"Eles procurarão aquilo que você inevitavelmente deixou em alguém."
"Como memórias?"
"Exatamente."
(...)
Desde então, tornou-se praticamente impossível fugir de um Berrador. Algumas pessoas mudaram de nome, queimaram documentos, trocam de rosto através da magia. Ainda assim, mais cedo ou mais tarde, sempre há um pequeno bater de asas na janela. Seguido por uma voz estridente, inconveniente e absolutamente incapaz de respeitar qualquer momento da vida alheia.
Berradores tornaram-se populares justamente por isso, e atualmente cada aluno tem o seu próprio berrador que, inevitavelmente, encontra a pessoa certa para entregar, aos gritos, o recado. Costumam receber seu berrador assim que iniciam seus estudos em Everafter, e todos são entregues devidamente treinados, e com o conhecimento de todos em Mythborne. O berrador é a coisa mais próxima de um celular, que existe nesse mundo, já que entrega mensagens de forma praticamente imediata. Sua única inconveniência é o alto som com que as mensagens são entregues, e por isso, ocasionalmente e para assuntos mais discretos, os cidadãos costumam usar corvos, que carregam mensagens presas em suas patas.