Vasily crispou os lábios, sentindo uma pontada de culpa ao perceber a reação da melhor amiga. Ele sabia que tinha a desapontado, é claro — conseguia sentir aquilo só pela presença da fada, já que evitava olhá-la para que o peso em seus ombros não aumentasse. Não seria capaz de dizer, fitando as órbitas dela, o quanto ainda remoía a última briga dos dois — não seria capaz de ficar bravo ou ao menos chateado, porque no instante em que seus olhos se encontrassem, sabia que a perdoaria, que a pediria para ficar, que a diria que sentia sua falta. Ele a amava, não pelo jeito que ela dançava com seus anjos, mas pelo jeito que o nome dela silenciava seus demônios.
Ouvira a respiração de Blueblood travar e logo em seguida, se retomar, mais apressada e profunda do que antes; ouvira o lápis rabiscando o papel com mais força, como se ela canalizasse toda a sua raiva naquele fino objeto de madeira. Não queria machucá-la, mas era aquilo que a relação dos dois se transformara: uma lâmina de dois gumes. O tanto que Vasily machucava Evye, ela acabava machucando-o também. E a pior parte era que ele ainda a desejava, com todo o seu coração. Sempre fora inclinado à dor, mesmo que tentasse fugir dela constantemente.
— O que você esperava que eu fizesse, Evye? — acabou falando um pouco mais alto do que desejava, beirando o descontrole, quando finalmente a encarou. — Que eu te recepcionasse com um abraço e o maior sorriso do mundo? Não. Não mesmo. Não depois do que você me disse antes dessa merda toda acontecer — desviou seu olhar da fada, fechando as pálpebras e apertando-as com força enquanto massageava suas pálpebras. — Eu entendo que ficou preocupada comigo, que ficamos dois meses separados, mas o que eu ouvi… Eu não consigo esquecer. — Era sempre assim, com todas as coisas de sua vida. A memória de Vasily era cruel, sempre voltando para assombrá-lo, torturá-lo, flagelá-lo; nunca conseguia esquecer algo, nunca, e aquilo fazia as sementes de mágoa em seu coração crescerem. Mais cedo ou mais tarde, acabaria contaminando Evye, e ele não queria quebrá-la ainda mais.
Por que ele não conseguia entender? Por que não entendia que cada minuto que Evye passara ali nos últimos meses era uma forma de gritar o que sentia? Por que era tão difícil admitir o que acontecia entre eles? Por que Evye não conseguia dizer? Por que? Depois que entendeu motivo de tamanha acidez, Evye não conseguiu dizer nada. Ela não esquecera nenhuma palavra, nenhum piscar de olhos diferentes durante aquela briga, a cena passara em sua cabeça tantas vezes que já havia perdido a conta. Concentrou-se em manter sua força no lápis, impedindo-se de dizer qualquer coisa que não queria dizer. Por fim, o lápis quebrou. Não havia mais no que se concentrar, não havia mais para onde fugir. Ela não queria fugir, queria correr para os braços do que estava bem na sua frente. Queria dizer-lhe o que pensara em dizer desde que fora pedir desculpas e seus olhos já estavam fechados.
Evye largou o que antes era um lápis inteiro, o barulho que ele fizera ao cair no chão era quase ensurdecedor, se comparado ao silêncio do quarto. Levantou-se, os nós de seus dedos já brancos de tanto que eram forçados, a mão completamente fechada, como se estivesse pronta para espancar Vasily. Seus coração batia forte, a fada tentava se convencer de que o vampiro não podia escutar, e rezou silenciosamente para que o coração não escapasse de seu corpo, não aguentando a pressão. As pernas estavam meio trêmulas, mas a Blueblood tentava manter seus passos firmes. Não falou nada. Seus olhos encaravam os olhos de Vasily. Quando estava, finalmente, perto o suficiente, parou. Ficou encarando o homem, que minutos antes tinha os olhos fechados. Imediatamente, seus olhos encheram de lágrimas que ela segurava há mais tempo do que achou que poderia suportar. As lágrimas começaram a lhe escapar, e ela deixou que elas continuassem, que manchassem sua blusa, que mostrassem o quanto era doloroso.
Sem se preocupar em limpar qualquer lágrima, Evye se aproximou mais. A raiva já havia se esvaído. Já não havia espaço para raiva em Evye, não havia mais nada na garota além de um sentimento puro, ingênuo, maravilhoso. Amor. Mesmo assim, a mão fechada foi com força até o peito de Vasily, antes da garota, com uma rapidez inexplicável, colar seus lábios aos do vampiro. O calor de sua pele misturando-se à pele gélida daquele que amava. Amava, amava, amava. Era isso, apenas isso. A mão, antes cheia de dor, tranquilizou-se, abriu-se, foi do peito de Vasily à sua face, acariciando-lhe, dando-lhe todo o amor que sempre quis dar. Era óbvio, não era? Aquele amor sempre esteve ali. Não queria deixar de beijá-lo, queria ficar ali para sempre. As lágrimas não paravam de cair, misturando-se à todos os outros sentimentos que Evye depositava ali, naquele beijo.
Por fim, se separou de Vasily. Deixou seu nariz colado ao dele, a mão ainda lhe acariciava a face. -- Você não entende, Vasy? Não entende? Não importa quantas palavras eu jogue contra você, não importa quantas vezes eu tente machucar você, eu sempre acabo me machucando mais. Não importa o que eu faça, quanto eu tente, toda vez que eu tento me afastar de você, uma parte de mim morre. Você é uma parte de mim, porra. Eu te amo, Vasily. É tão difícil entender? -- Afastou-se dele, pronta para pegar as coisas e sair dali. Era demais. Tudo aquilo era muito para ela. Já não havia espaço para mais nada. Só amor.













