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@f-elicitat
Não tenho a quem culpar. Entre feridas, farpas e vazios, não há uma única pessoa capaz de ser responsabilizada integralmente pelo meu caos, com exceção de mim, por óbvio. Eu me permiti estar assim. Fiquei quando deveria ter ido. Fui quando deveria ter ficado. Desisti quando o certo era permanecer. Soltei a minha própria mão em uma velocidade que, talvez, eu não conseguisse aplicar a mais ninguém. Fechei os olhos para mim mesma, sem perceber que ao deixar de me ver por dentro, também estava perdendo qualquer parte de mim que poderia ser enxergada por fora. Não mais sei quem sou por fora. Não mais reconheço o reflexo que me encara no espelho. Não mais sei o que consigo consertar. É como se eu tivesse caminhado a minha vida toda por uma estrada íngreme, que não me leva a canto algum e mesmo assim eu não conseguisse voltar. Os meus passos são apenas e sempre de ida. Já não me lembro qual direção é a correta. Leste ou Oeste? E o melhor: há retorno? A gente vive dizendo que tudo pode ser recomeçado como se não estivéssemos em um constante tic-tac. Como se o tempo voltasse para voltarmos para nós. Que inocência a minha. Não se pode voltar para casa quando nunca se fez de si um lar. É por isso que é inviável retornar. Porque eu sempre estive do lado de fora de mim mesma. Felicitat.
“Que coisa mais triste, tudo é tão triste, a gente passa a vida inteira feito bobo pra depois morrer que nem besta.”
— Charles Bukowski
há pessoas inesquecíveis e não há cura
Bukowiski
há uma vitória no deixar de lado; uma paz no relevar; uma calmaria na ausência de expectativa;
quando o nada se espera, nada acontece, inclusive dentro de você; quando se espera o pior, e ele chega, nada se rompe, inclusive dentro de você;
há um prazer silencioso em desprezar quem com pouco esforço te tirou do eixo e destruiu os seus limites, mesmo sabendo de cada um eles;
há uma serenidade que só o esquecimento oferece, independentemente da profundidade da ferida
parece até incoerente, mas, no fim, não é a vingança a melhor resposta,
é justamente a ausência dela.
isso porque há um enorme prazer em saber que você se recompôs e percebeu que aquilo que um dia te destruiu já não possui mais acesso a nenhuma versão de você.
felicitat
“Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza.”
— Clarice Lispector
fiona
há pessoas inesquecíveis e não há cura
Bukowiski
esbarros
quando é pra dar certo o universo colide.
esse deserto vai chegar ao fim
o Senhor está cuidando de mim
pensei em escrever tudo que vem à mente, mas achei as minhas palavras soltas demais. falhas, até. é como se no desenrolar da escrita as letras não conseguissem formar algo conexo; como se elas estivessem completamente desvinculadas, sem lembrarem a razão de ser. desconhecem o português e a regência verbal, assim como eu desconheço o motivo de não conseguir unir vogais e consoantes. e agora, enquanto olho para a tela e vejo esse espaço vazio, pronto para ser preenchido por qualquer coisa que saia de mim, eu me questiono o porquê de não ter nada a dizer, se tanto sinto; se tanto penso e tanto questiono, por qual razão não consigo explicar o que me aflinge? se eu sou, em alguma medida, aquilo que carrego dentro de mim, como não saber descrevê-lo? que algo é esse que não pode ser explicitado ou posto em linhas? se tudo o que sou está agora pairando sob minha mente, e tem tomado conta dos meus dias, me arrancando a voz, como também pode afastar a vontade de definir, em palavras, o tudo? ou será que na verdade estou diante de um nada? um nada complexo, que embora esvaziado em si mesmo ocupe todo o meu ser? um nada que me cause torpor suficiente para nada sentir e, contraditoriamente, me fazer pensar que tudo sinto? estou diante do que, afinal? e como discernir, se nem ao menos sei expressar? no final das contas, só me resta a certeza de que estava correta desde o início. as minhas palavras, neste momento, de nada servem. estão soltas demais para formar algo digno de ser entendido. isso é que dá tentar dizer, por meio de linhas falhas, o que resiste à linguagem.
felicitat.
numa quarta-feira de cinzas você está dominado pela ansiedade, sem dormir, com a cabeça a mil, o coração saindo pela garganta e questionando: o que é a vida? ah, o que é a vida? A vida é esse encontro entre você e as pessoas que te amam. A vida é esse momento de dúvida sobre o futuro, mas de certeza que no presente você tem O grande amor que sempre sonhou. A vida é pegar condução lotada às seis e ônibus para trabalhar. Ou quem sabe ir à praia, aproveitar a água gelada do mar do Rio de Janeiro. A vida é o calor que você sente quando está cercado de gente que você escolheu para ser sua família. Ou o calor de 50 graus da cidade maravilhosa. A vida é a mensagem do melhor amigo que mora em outro estado contando uma fofoca ou simplesmente dizendo que conseguiu um novo emprego e você ficando feliz por ele. A vida é a risada dos seus sobrinhos num áudio às sete da noite, depois de ver solos deformando num laboratório. Solos que deformam por cargas aplicadas. Seria o mesmo que acontece com a gente? A vida é talvez seja um material viscoelástico. Ou talvez não. A vida é a foto que você guarda da formatura do ensino médio e também aquela com sua mãe e avó nos jardins da universidade federal. O primeiro a conseguir um diploma. Que vida, hein? é, a vida é a beleza e a tristeza. A vida é o abraço apertado. A vida é o beijo molhado. A vida é o bolo de chocolate ou o café passado no coador de pano. A vida é a lembrança que você guarda e revive todos os dias com medo de esquecer. A vida é a projeção do que você espera dos dias que virão. A vida é o instante do agora em que você escuta uma playlist de folkindie para acalmar o coração. A vida é tudo isso. E pode ser muito mais. Muito mais.
sou um ser feito de barro, apenas.