Emma acordou atordoada com o som do despertador, suspirou sem acreditar que já eram cinco da manhã. Por um momento se permitiu ficar ali observando Callum ainda dormindo, piscou com força os olhos e depois os revirou, a última noite não tinha sido a melhor pro casal, uma discussão besta atrás de outra, deveria ser a crise dos 6 anos de relacionamento. Vestiu dia roupa de treino e partiu para o primeiro do dia, cardio, a corrida na rua antes da musculação. Quanto mais sua carreira crescia como jogadora profissional de Quadribol, mais os treinos e planos de acompanhamento aumentavam. Emma tinha uma equipe completa, médicos, fisioterapeutas, nutricionista e personal trainers ao seu dispor, malhar não era mais apenas um alívio de stress, era um objetivo de fortalecimento e de resistência do corpo para os campeonatos. A loira foi para a cozinha para tomar seu café da manhã, nada além que um café com dois ovos e uma fatia de pão integral.
Emma costumava correr ao redor do seu bairro em Londres, passando por parques e algumas ruas não muito movimenta. Quando viu, seu relógio já marcava mais de 5km sua média diária, estava tão ocupada mentalmente pensando na noite anterior que não viu o tempo e a distância passar. A verdade é que ao passar os anos em que ela e Callum saíram de Hogwarts muitas coisas aconteceram, uma delas sendo o deslanche da sua carreira como apanhadora, ela já tinha conquistado diversos títulos desde o campeonato londrino até o europeu, faltando apenas o mundial de clubes. No entanto, ela não imaginou que isso a traria fama, era constantemente reconhecida na rua, se tornou comum que pessoas a parassem e pedissem um autógrafo ou uma foto. E para falar a verdade? Ela não estava acostumada com isso, sempre foi muito discreta com sua vida pessoal e ter milhares de pessoas a observando, esperando seu próximo posicionamento, ou apenas saber que shampoo ela usava assustava. Não é atoa que a loira já reunia mais de um milhão de seguidores em suas redes sociais e estava constantemente em algum veículo na mídia, ela precisou contratar até uma estilista de tantos eventos ou entrevistas que precisava ir. E o pior da fama é que foi uma vida escolhida por ela de certa forma e não por Callum, entendia que pudesse incomodar a falta de privacidade, mas não tinha como voltar atrás. Ao caminho do café que, as vezes, ia depois do treino ela digitou no celular na conversa de Kael:
“Starbucks in 5 min”
“FAIK is 6 am, girl…”
“Pls, I need to talk with u”
“On my way, little blonde”
Em cinco minutos Emma estava sentada em uma das mesas do lado de fora do café com Kael, ela com seu Frappuccino de caramelo e ele com um café preto sem açúcar. Por mais que tivesse sido a trajetória dos dois, Emma era muito agradecida por ter o amigo em sua vida, ainda mais este morando perto dela, era sempre bom estar na presença dele, sair para tomar um café ou andar sem rumo pelas lojas conceituais do bairro. E apesar de toda a tensão sexual que tiveram anos atrás e que ainda se perdurou pela parte do moreno por alguns anos, Emma finalmente sentia que essa tinha se dissipado, Kael já compartilhava encontros e conversas com outras mulheres com ela de uma forma natural, como uma amizade deve ser. Se tornou uma mão de via dupla, um sendo o conselheiro amoroso do outro e por isso, ela precisava tanto desabafar, sobre como Callum e ela tinham se estranhado esses dias, os horários desencontrados, a agenda apertada dela e a falta de paciência dos dois para uma conversa mais séria.
Foram duas longas horas de desabafo e conselhos, até algumas lágrimas se foram quando pensou que estava colocando seu relacionamento na balança, mas Kael a acalmou lembrando que tudo pode ser resolvido em uma boa conversa. Emma chegou a esquecer do seu treino e quando seu lembrete apitou precisou sair correndo, se despediu com um abraço e ele com um beijo na testa, depois saiu correndo para a arena no centro da cidade. Achou estranho não receber mensagens de Callum durante o dia, já estava preparada para se desculpar por qualquer coisa nos últimos dias quando chegou em casa. No entanto, ao abrir a porta e entrar na sala de estar encontrou um jornal na mesa de centro que tinha como matéria principal uma foto sua no café com Kael, o clique bem na hora do abraço de despedida com o maldito beijo na testa. Outras fotos menores complementavam a folha, Kael a consolando com um abraço lateral e uma dos dois rindo, provavelmente das saídas noturnas dele. Além do jornal exposto propositalmente para ela ver, Emma encontrou um Callum muito irritado no sofá, com a cara fechada. Lendo o título “Affair na vida de Emma Fawcett? Para quem ainda torcia por KaEm, não desista!”
Antes que ele falasse qualquer coisa ela interrompeu “Você não pode estar levando isso a sério…. Right?” Sem resposta, ela entendeu, sim, ele estava levando a sério. “Call, você sabe que esse portal é sensacionalista, só quer mexer com nossa privacidade. E eu não preciso falar que isso não é o que parece, certo?” O olhou ainda em pé o encarando sentado no sofá de braços cruzados.
@callumsinclairrp
Foi durante uma caminhada ao final da tarde para ir à livraria, que Callum se deparou com o beijo estampado no jornal. A reportagem completa trazia mais detalhes e recapitulações dos últimos “encontros” de Kael e Emma — sua Emma. Ele precisou juntar todo o orgulho que possuía para conseguir erguer a cabeça e encarar o vendedor no momento da compra do exemplar. Era óbvio que o homem sabia que estava diante de Callum Sinclair. Esse reconhecimento não se devia ao nome da ancestral família, mas porque agora era popularmente identificado como o “namorado de Emma Fawcett”. Assim, perceber a condescendência no olhar alheio acabou sendo mais doloroso do que qualquer tortura física. A vergonha se converteu em irritação, que cresceu para raiva. Ao longo de todo o dia, Callum conjecturou sobre os motivos do beijo. Por mais que tentasse se acalmar e pensar racionalmente, nada conseguia ser capaz de aplacar o alvoroço. Então, foi com os braços cruzados e a expressão que recebeu Emma em casa. “Sim, conheço bem o histórico desse jornal”, disse com uma calma que não sentia, percebendo o tremor de raiva na voz. “Mas parece que dessa vez eles nem precisaram se esforçar muito, não acha?”. Descruzou os braços e pôs uma mão em cada encosto da poltrona para se levantar. Tentava manter a calma, mas perceber o nervosismo dela apenas reforçou todas as absurdas teorias que vinha criando na própria mente. Sinalizou para a foto do beijo e para todas as outras que circundavam a matéria. “Você faz ideia, a menor ideia, do quanto isso é humilhante para mim?”
Balançou a cabeça e se afastou em um movimento brusco, evitando qualquer contato com ela. Sabia o poder que Emma tinha sobre o seu corpo e não conseguiria manter a raiva e o controle se ela se aproximasse. “Você sabe a humilhação que é receber a ligação de Katrina perguntando se eu estou bem com tudo isso?”, sua voz já estava em um tom elevado, mas a raiva saiu pingando quando repetiu: “se eu estou bem”. Soltou uma risada baixa, que não possuía nem uma gota de diversão. “Consegue acreditar?”. Voltou a sorrir, antes de fechar a cara. Sentia que estava tremendo. “E se ela me perguntou isso sendo próxima de mim, é bastante óbvio que todo mundo deve ter assumido a mesma coisa”. Pegou o jornal da mesa e sacudiu na frente de Emma, o papel amassado fazendo um barulho que quase ecoava pelo cômodo. “Olha isso, olha isso daqui”, apontou para a porra do beijo na testa. Na realidade, bateu os dedos contra a foto e se surpreendeu de não ter rasgado. “Que merda é essa? Como é que qualquer pessoa poderia pensar diferente quando você é a única pessoa que o Parrish faz esse tipo de coisa?”. Porque o sonserino nunca foi, nem seria conhecido por ser caloroso com as pessoas. Emma sempre foi o ponto fraco de Kael.
Emma precisou segurar uma risada irônica e um palavrão, o beijo na testa que significava “vai da tudo certo, depois me conta como foi com ele.” Na verdade, agora, interpretado como um gesto de casal. Se já era difícil lidar com a fama fora de casa, trazer esse assunto para dentro de casa era quase como um gatilho para a loira.
“Certo…” Suspirou sentando na poltrona de frente ao namorado, já que ele havia negado o contato físico e que ela se sentasse com ele no sofá. “Por onde começo?” Apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos se permitindo pensar cinco segundos como iniciaria essa conversa que nem ela sabia o que falar. “Callum, eu não acho que eu deva me explicar por isso.” Apontou para o jornal. “Mas, para sermos claros aqui. Sim, eu precisava desabafar… Sobre nós, então chamei ele para um café, enfim algo que você faria com a Katrina.” Se esforçou ao máximo para que o nome dela saísse o mais natural e sem ressentimento no tom que usasse. “Você sabe que eu não tenho muitos amigos. Sabe também onde ele mora e que nos vemos com certa frequência e isso não te incomodava, mas agora com imagens fora de contexto isso muda?” O fato de não ter muitos amigos era verdade, apesar de a loira sempre ter sido “popular” em Hogwarts, suas amizades eram sempre contadas nos dedos, por possuir uma personalidade simpática e carismática tocava várias pessoas, mas apenas poucos chegavam em um patamar com quem ela se abriria por completo. “Eu não sei o quanto isso é humilhante para você.” Sim, realmente a loira não vinha de uma realidade onde os outros a respeitavam pelo sobrenome e o namorado sempre teve um ego grande, ela provavelmente não iria se importar com o fato de ver fotos de Callum com Katrina na mídia, não pelo fato de estar na mídia, mas por ser ela com ele. Ela estava pouco se importando com o que os jornais falavam dela, principalmente, os sensacionalista, por isso estes continuassem tentando atingi-la. “Eu peço desculpas por isso, mesmo não sendo minha culpa e espero que saiba disso. Eu não escolhi isso para nós, você muito menos, sei que nossa privacidade é invadida muitas vezes, mas não posso voltar atrás com isso, eu sou o mais discreta possível.” Apesar de estar sendo sincera, falar isso olhando para as fotos do jornal poderia parecer falsidade ou loucura, mas era exatamente o que sentia. Emma balançou a cabeça em negação “Não. Eu não preciso me explicar! Isso é sério?? Não somos mais adolescentes. Já passamos da época em que saímos de Hogwarts, não vamos entrar no assunto Kael, você sabe muito bem como isso tudo já foi superado por ele, meu Deus, eu não acredito que tenho que voltar nesse assunto, SEMPRE. Callum, ele está saindo com DIVERSAS mulheres, sobre o que você acha que estamos rindo nessa foto? Claro que sobre encontros e vivências, como bons AMIGOS fazem.” Emma não iria entrar novamente no assunto do bendito beijo, há 5 ou 6 anos atrás, quando Kael a beijou e se mostrou apaixonado por ela, depois que estava namorando Callum, o relacionamento dos dois quase foi por água abaixo, mas depois de um ou dois anos afastado, os dois puderam reatar 100% a amizade, depois de entender que tudo aquilo ficou em Hogwarts. Olhou bem nos olhos do moreno, apertando os seus como se o desafiasse a falar a verdade. “Você prefere discutir sobre um beijo na testa do que nos problemas que temos passado na última semana? Que quase não conversamos sem ser coisas superficiais? “ Cruzou os braços e levou os olhos rapidamente para a tela do celular que piscou com uma notificação de sua assessora, mandando um arquivo de imagem com vários pontos de interrogação, com certeza, ela não estaria feliz com a material, mas depois ela trataria disso. Pensou rapidamente como a assessoria de imprensa do seu clube estaria feliz com seu nome nos jornais e dando algum ibope pro clube, que loucura. “Você prefere falar como seu ego vai ser ferido com isso tudo ou como está nosso relacionamento? Por que o que parece é eu tudo aqui tem relação com você, mas não com nós.”










