Matthew L. Chi’s (supposedly worst) instagram (pics).
Alisa U Zemlji Chuda
RMH
Stranger Things
No title available

Product Placement
Cosmic Funnies

izzy's playlists!
Claire Keane
"I'm Dorothy Gale from Kansas"
PUT YOUR BEARD IN MY MOUTH

No title available

Andulka
Peter Solarz
he wasn't even looking at me and he found me
Not today Justin
h

Kaledo Art

JBB: An Artblog!
trying on a metaphor
No title available
seen from United States

seen from T1
seen from Türkiye

seen from France
seen from Greece
seen from Philippines
seen from Ukraine

seen from Germany

seen from United States

seen from United Kingdom
seen from France

seen from United States

seen from Japan

seen from Spain

seen from United Kingdom

seen from Italy
seen from Kenya
seen from United States

seen from Qatar
seen from United States
@ferrisjordan
Matthew L. Chi’s (supposedly worst) instagram (pics).
Matthew L. Chi’s instagram.
“straight outta brooklyn”
Axel B. Cho’s instagram.
“i sing in a band”.
i.
fuck. fuck. fuck.
era a única coisa que atlan pensa naquele horror que havia se desenrolado em minutos. em um segundo ele estava em cima da mesa improvisada com blair, tentando desesperadamente fazê-la prestar atenção nele, fazer todos prestarem atenção nele... no outro, não havia mais mesa, não havia mais palco, só havia desespero, choro, o cheiro de queimado entrando em suas narinas e a confusão da bebida e das drogas que ele havia misturado.
deitado na arquibancada, completamente imóvel, atlan curry só pensa em uma palavra.
fuck.
ii.
quando os seniors abrem a porta do ginásio, as pernas de atlan o erguem de forma quase involuntária, com a mesma rapidez de quem fazia algo de errado e era pego. hm. talvez fosse exatamente isso.
a primeira coisa que ele vê, é cassidy cain. cassidy cain, o garoto que ele sempre quis impressionar, que ele sempre quis conhecer, que ele sempre quis ser. e cassidy cain não está nada feliz, mas não precisava ser um perito no rosto do seniors para saber disso. na linha de pensamento de atlan aparecia tantas vezes o nome de cassidy que era uma daquelas palavras que perdia o sentido de tanto repetí-la, mas não o suficiente para fazê-lo esquecer do que estava acontecendo.
ele ouve axel cho falando algo para alguém e ugh, seu estômago revira instantaneamente. ele sabe que axel está com blair, quando atlan travou, vendo o sangue escorrendo da testa dela, foi axel quem o empurrou e segurou blair, estancando seu sangue, sujando suas mãos, enquanto atlan só conseguiu assistir.
mais seniors entram pela porta. atrás de cassidy, amara mccabe fala alguma coisa perto do ouvido dele, e pela expressão dela também não parecia nada bom. lyla frost andava do outro lado de cassidy, e parecia ainda menos feliz com tudo aquilo (mas atlan sentia que talvez tivesse algo a ver com a atenção que mccabe estava recebendo do man of the hour ali). zeke mccoy e wendy worthington estão ali também, mas atlan não sabe muito bem porque. eles não são como os outros. atlan também não entende porque os dois chegaram juntos (ou melhor, porque alguém como ela estava passando tempo com alguém como ele), mas devia ser alguma x-thing que ele não entende. ugh, falando nisso... a liga. atlan nem quer pensar na liga naquele momento, é talvez uma das poucas coisas as quais ele preferia ficar vivendo aquele momento desesperador ao invés de pensar nelas. ele suspira, assistindo tudo se desenrolar da arquibancada, abraçando seus joelhos.
henrique da costa, os gêmeos west (e a visão de uma winnie west adentrando o ginásio o fez pensar se não era melhor sair correndo naquele momento, porque ele realmente não estava em condições de receber a intensa porém merecida escolada de winnie west), o garoto queen (gabriel? gavin?), e até mesmo delilah moonstar e orion rasputin aparecem para ajudar. ele se surpreende a cada pessoa que passa pela porta para ajudar. nenhum sermão até agora, o que o faz pensar por um momento quantas vezes aquilo aconteceu com os seniors, porque a calma que atlan vê neles enquanto lidam com a situação com certeza não é de uma primeira vez cuidando daquilo.
nunca esteve tão rodeado de seniors quanto naquele momento, e nunca quis tanto estar na enorme mansão dos curry, sozinho, como prometera aos seus pais que estaria.
iii.
a maior parte dos alunos de sua turma se senta na arquibancada depois de um tempo. atlan abraça seus próprios joelhos e pousa o queixo neles, observando tudo silenciosamente. os outros se juntaram a ele, depois de perceberem que tentar fazer algo para ajudar era infrutífero.
matty foi o primeiro a desistir, balbuciando consigo mesmo o óbvio: he had a bad feeling about this. troy deitou-se no frio do piso da arquibancada um pouco depois, pedindo para que matty calasse a boca e parasse de repetir a mesma merda tantas vezes. cody foi o último a se juntar a eles, depois de algum tempo andando atrás de cassidy tentando ajudar. parecia que eles não entendiam que o jeito que tinham de ajudar era ficando fora do caminho deles. deixando que os seniors fizessem seu trabalho, observando e quem sabe aprendendo alguma coisa. atlan já sabia disso porque fez aquilo a vida toda.
— how the hell did this happen? — atlan murmura, com o queixo ainda pregado no joelho. está falando com seus amigos, mas também consigo mesmo e com qualquer deus que estiver ouvindo.
troy deu de ombros, murmurando uma resposta pela metade, deitado de bruços na arquibancada e com a cara no chão, completamente derrotado. cody fica em silêncio, brincando com os dedos. atlan sabe o que cody está sentindo, porque é o que ele está sentindo também: vergonha. matty continua murmurando sobre seu mal pressentimento, e atlan odeia isso, principalmente porque ele está certo. matty sempre está certo sobre essas coisas, por que eles nunca o ouvem?! ugh.
iv.
duas horas e treze minutos depois que os seniors chegam para consertar tudo, atlan consegue ver uma luz no fim do túnel, e a piscina e o ginásio voltam a ficar com a cara de antes... antes deles.
yuki e dakota estão sentadas um pouco mais à frente. matty murmura algo sobre se juntar a elas, mas atlan não consegue se mexer, e ele sabe que os outros sabem que ele não consegue, e por isso ficam ali ao invés de se juntar as outras duas colegas.
axel cho ainda está cuidando de blair, e atlan quer tanto levantar. ele e blair não são amigos, nunca foram, e muito menos namorados de verdade... mas parecia estranho estar sentado enquanto sua namorada falsa estava com a testa fatiada. suas pernas permaneciam imóveis, duras demais enquanto ele estava sentado e moles demais quando ele tentava se levantar.
— my mom is gonna kill me — ele ouve dakota falar. em algum momento enquanto olhava para blair, yuki e dakota haviam se sentado ali entre eles. matty deita sua cabeça no colo de dakota e fecha os olhos, e atlan pensa em como quer dormir nem que seja por cinco minutos. a dor de cabeça parece que vai matá-lo.
— your mom is gonna kill all of us — yuki responde, e atlan concorda (em sua mente, porque seu corpo é incapaz de responder) — atlan? are you okay?
— don’t mind him, he’s having an “atlan moment” — troy responde. eles (matty, troy e cody) acham que atlan tem “atlan moments”. ele não sabe muito bem o que isso significa, mas pela primeira vez ele concorda... ele realmente está no meio de um atlan moment.
kit gold para do lado de axel, ao longe, perguntando alguma coisa. axel balança a cabeça algumas vezes, e atlan consegue ver mesmo a distância os olhos cansados e atrapalhados de cho. juliet keller está ao lado de kit, com seu corpo escorado no ombro dele. exausta.
estão todos exaustos.
v.
atlan sente que tudo para de fazer sentido perto das 2 da manhã. ainda tem muita coisa para resolver, mas pelo menos a piscina começa a parecer habitável. ele ainda está sentado no mesmo lugar de horas atrás na arquibancada, enquanto seus amigos fazem rodízios para não deixá-lo morbidamente sozinho. troy aguenta exatamente vinte e dois minutos antes de pedir para ser rendido por cody. cody aguenta por uma hora inteira, e teria aguentado à noite toda se matty não tivesse aparecido para rendê-lo e insistisse que ele precisava comer algo. matty aguenta quarenta e quatro minutos até precisar ir no banheiro e aí, atlan está sozinho de novo.
ele observa o movimento dos seniors. os irmãos west estão tentando reerguer algumas tábuas da arquibancada oposta, mas ficam mais tempo brigando e discutindo do que qualquer outra coisa. winnie west já está com o rosto vermelho de irritação, e wyatt west murmura reclamações para o ar, seus olhos revirando a cada palavra de sua irmã. eles se parecem bastante, o que é uma obviedade, considerando que são gêmeos. mas atlan acha que eles são mais parecidos do que gostariam de ser parecidos, talvez por isso briguem tanto, ele pensa. mas ele nem tem irmãos para saber se isso é factual.
shogo lee e nastya lokisdottir estão tentando consertar o gigantesco buraco no chão, onde cedeu o que antes era um palco improvisado. lee não parece nem um pouco feliz em estar fora de sua casa às 2 da manhã para resolver um problema de juniors, mas ainda sim, ele está lá. atlan imagina que é algo no senso de dever. nastya... bem, atlan sabe qual é a cara de alguém tão solitária que ninguém sente falta. nastya pode ser querida pelos amigos, mas no final do dia, ela volta para uma casa vazia... e é melhor sair de casa às 2 da manhã para resolver alguma porcaria que não tem nada a ver com ela, do que confrontar essa realidade mórbida. ele sabe mesmo como é.
ezekiel - ou melhor, zeke - mccoy e wendy worthington parecem estar tendo sucesso em acalmar alguns outros juniors do outro lado do ginásio. zeke tem um tom de voz assertivo, porém positivo e responsável, mesmo no caos. wendy afaga as costas da garota em questão, que tem os olhos vermelhos de choro e tenta explicar algo entre soluços (“we didn’t mean— for this to happen— we just wanted to have some fun!”). os dois trocam um olhar afetuoso, e ao mesmo tempo preocupado. atlan sabe o que eles estão pensando: eles querem que fique tudo bem. todo mundo quer que fique tudo bem. porque ninguém quer repetir o acontecido do torneio em maryland. a última coisa que ele pensa antes de olhar para outro lugar é: eles definitivamente estão se pegando.
cassidy cain e lyla frost parecem estar vivendo o próprio problema deles, mas ele se lembra de ter visto isso pelo menos cinquenta vezes nos últimos cinco anos. ele está de calça de moletom, tênis de corrida e uma camiseta do gotham knights, além do cabelo completamente bagunçado. e a roupa de lyla não é muito diferente, exceto que a jersey de cassidy cobre os ombros dela. ela parece irritada, e em defesa de lyla frost, atlan também estaria irritado se tivesse tido que sair no meio da noite e do conforto dos braços de cassidy cain. ele vê cassidy estender um braço e afagar um ombro de lyla, e discretamente colocar seu queixo no topo da cabeça dela, murmurando algumas palavras que a fazem relaxar a expressão. eles se amam muito, isso é claro. só não sabem como fazer isso. lyla deita sua cabeça no ombro de cassidy, e atlan sente um pequeno sorriso se formando em seu rosto.
vi.
— are you okay?
são três e cinquenta e cinco da manhã quando atlan consegue andar até blair. é a primeira vez que ela fica sozinha nas últimas duas horas, desde que o momento festa virou um velório. ela não parece ressentida por ele ter ficado sumido nas últimas duas horas, e algo no olhar de blair é tão carinhoso e complacente que atlan tem vontade de derreter completamente no chão, do lado dela.
— lemme see this — atlan se aproxima, afastando o cabelo dela do corte em sua testa. não parece muito profundo, mas só a visão faz o estômago do jovem curry afundar, lembrando-o com muita exatidão do sangue escorrendo na testa de blair — i’m... sorry for freezing. and i’m sorry being away, but i’m here now, okay? — seus dedos escorregam por onde antes um mar vermelho havia passado. traçou o caminho marcado por algumas marcas do sangue seco, e engoliu com dificuldade, levantando seu olhar para blair — i’m here now. and you’ll be okay.
ele vê axel se aproximando, e quando cho nota sua presença, atlan já começa a imaginar a surra que vai levar. mas, axel para seu caminho no meio. ele observa atlan por alguns segundos, e claramente contra sua vontade, gira em seus calcanhares e volta para onde estava antes. é um voto de confiança, ou pelo menos é assim que atlan interpreta.
— it’s... gonna be okay — afirma novamente, e dessa vez, com a voz mais firme do que em qualquer outro momento de sua vida. ele aninha blair em seus braços com cuidado, passando um braço pelos ombros dela e dando um beijo no topo de sua cabeça.
e foi naquele momento, sentado no chão de um ginásio em reconstrução, com sua namorada falsa encostando em seu ombro, que atlan entendeu... que ia mesmo ficar tudo bem.
“they come to me because i kiss them good, sweets. and they come back because i fuck them better”
“prove it”
favorite quotes (06/??): cassidy cain & lyla frost
“you taste like marshmallows”
favorite quotes (05/??): ezekiel mccoy & wendy worthington
“how’s it like for you?”
“it’s different. it’s... not something i want”.
favorite quotes (04/??): nastya lokidotyir & jasper cobblepot
“one day, you’ll wake up and realize that playing house with me is a waste of time and you’ll leave or you’ll die or you’ll have kids and get married, and no one else will ever come or measure up to you, and i’ll be alone again. and i can’t get used to this, i can’t get to used to you, because my brain will learn and my mind will learn and— maybe it already did.”
“maybe we don’t have the same thing that cassidy and frost. or amara and henry. but we do have something. i feel something for you. and maybe is not what you want. and maybe you deserved better than me. but right now that's all i'm offering you. and if you wanted to declined cause you want something better? for me is fine. but don't reject it so you can go back to empty touches and lonely nights that will make you miserable. because you don't deserve this. because you are more than this.”
favorite quotes (03/??): georgia gardner & shogo lee
“i know you have this thing with noel going and i’ve been hitting pretty hard lately, but i’m not gonna stop. because i couldn’t give a single shit about whatever that plain boring football player thinks abou anything. so either you tell me to stop... or i’ll go on, and on, and on. until i get you, sally walker”
“you know, i ended things with noel a while ago, right after you gave me your neckchain. it wouldn’t be fair staying with him while i liked, well... you. you win, axel cho”.
favorite quotes (02/??) » axel cho & sally walker
“just... make it good”
“good choice”
favorite quotes (01/??) » gwenog jones & dylan choe
superkids social media (03/??): when gia is scared that quarantine is making her forget something really important, zeke is scared to forget something he really loves, an old tweet from matty proved to be very accurate and the cho household serves the finest food in quarantine.
superkids social media (02/??): when cassidy is completely bored at wayne manor and decides to closely watch bruce’s behavior, henry is having a hard time with the two presidents that should represent him (and shogo and zeke are having a hard dispute over... headphones), kacey and gerry are being their usual selves isolated together and winnie can’t ignore wyatt’s underwear in the kitchen anymore (and anna may noticed a very common habit between the west boy and her brother.
superkids social media (01/??): when zeke spends quarantine away from wendy, each member of the faded four is apart (and kit logged his imessage account on axel’s computer), atlan and junior boys miss each other so bad and gerry, trent and kc spend their quarantine at the avengers tower.
i.
lian nunca enxergou garotos como as outras garotas enxergaram. pelo menos não naquela idade. enquanto as garotas de quinze anos estavam pensando em beijos na boca, lian estava pensando em armas, munição, facas e arcos. não que ela achasse que fosse melhor que as outras garotas por isso. na verdade, ela queria enxergar os garotos assim, queria entender o que elas queriam dizer com borboletas no estômago e aquelas palavras engraçadas. mas parecia acima de seu intelecto limitado, como muitas coisas pareciam, então se concentrava mas coisas que estavam ao seu alcance.
havia passado a noite na garagem da mansão com jason, já que roy tinha assuntos a resolver com oliver. na terceira hora seguida em que já estavam ali, jason deu um tapinha no ombro de sua filha e murmurou algo sobre suas costas e disse que iria se deitar. lian assentiu, sem tirar os olhos de suas ferramentas, e continuou ali por horas e horas, sozinha, parafusando e desaparafusando, colando e descolando, montando e desmontando. foi quando suas pernas começaram a ficar dormentes pelo tempo em que estavam cruzadas no chão que lian percebeu que era tempo de — pelo menos — fazer uma pausa. e assim seguiu para cozinha da mansão. colocou metade do corpo para dentro da geladeira, buscando a garrafa de água gelada que havia deixado ali algumas horas antes.
— looking for something?
a voz fez lian dar um pulo, batendo a cabeça com força na prateleira de cima. virou-se com feições nem um pouco amigáveis à voz estranha — devia ser um dos filhos dos amigos bizarros de bruce wayne (não que os amigos e filhos dos amigos de batman fossem menos bizarros) — e tomou outro susto.
oliver carter — popularmente chamado de ollie — era o melhor amigo de seu primo john. ele era um garoto loiro de cabelo bagunçado, da mesma altura que ela, corpo magrelo e que estava sempre recostado a alguma parede tentando parecer descolado (e não conseguindo). ou pelo menos era assim que ela se lembrava dele no último ano.
os três — ela, john e oliver — haviam acabado de terminar o freshman year. e sendo assim, já fazia dois ou três meses que ela não via a cara de oliver. como em três meses alguém poderia mudar tanto em três meses?! o cabelo loiro antes bagunçado agora estava levemente jogado para trás, uma barba despontava (quase imperceptivelmente já que os pelos eram tão claros quanto o cabelo), seus ombros haviam alargado consideravelmente (não o tanto para que ela pensasse que ele havia treinado, mas o suficiente para ela pensar que a puberdade havia pego um taco de baseball e batido nele fortemente), e agora ele estava recostado no balcão da cozinha e tendo completo sucesso em parecer descolado.
e lian estava coberta de fuligem, com o cabelo colado na testa, uma calça de moletom que era de john e uma camiseta que era de zoe (e ela nunca havia devolvido, e nunca iria devolver). um visual perfeito para não encontrar ninguém.
e por que diabos ela estava preocupada com seu visual?! aquele era oliver carter, pelo amor de deus. oliver carter. o amigo de john, seu primo que superava os ideais de imbecilidade, esse mesmo john. mas aparentemente, ele não era assim o mesmo garoto que ela havia visto pela última vez.
— what are you doing here? — ignorou a pergunta, com as sobrancelhas fincadas e encarando o peito dele — and what are you doing here with my water bottle?
— oh, sorry. i didn’t know it was yours. i mean, it doesn’t have your name written here — oliver sorriu, sem parecer nem um pouco abalado com a rispidez de lian. no meio do silêncio que havia se instaurado, lian ergueu os olhos discretamente, apenas para encontrar oliver olhando bem no meio de seu rosto.
sentiu um rubor involuntário subir por seu pescoço e parar no meio de sua face, enquanto um único pensamento passava por sua mente: não queria que ele a visse assim. assim, suja, suada, com suas roupas mais surradas. e por que?! por que isso sequer estava passando em sua cabeça?! ela não ia muito diferente para escola. quer dizer, tinha menos fuligem e suor, mas não era tão diferente. e o que lhe importava se oliver carter estava olhando para ela?! lian, get your shit together, pensou.
por alguns segundos, não sabia se oliver havia notado a estranheza da situação. mas teve certeza que ele soube quando, ainda sustentando o olhar de lian, levou a garrafa de água dela até sua boca e tomou um longo gole, quase esvaziando a garrafa. seus olhos pregaram no pescoço dele, que mexia devagar enquanto oliver engolia. lian piscou algumas vezes, sem tirar os olhos da pele (bronzeada? ah, é mesmo. ela havia visto no facebook, a viagem dos carter para as... bahamas? bermudas?) dele. não sabia exatamente a que estava sentindo, o que sabia era que não deveria estar sentindo nada. além de aquele ser oliver carter, era apenas oliver carter bebendo água, o que havia de tão intenso nisso? bebendo água com a boca em sua garrafa.
— sorry, i was really thirsty — ele disse, baixando a garrafa de água e estendendo na direção dela — and john and i are using the movie room or whatever bruce calls it. it’s why i’m here.
— oh. right. he did say he was watching halloween tonight — lian pontuou, pegando a garrafa da mão de oliver tão rápido quanto ela colocava seu dedo num gatilho e atirava num alvo.
— wow, i don’t bite, lian — oliver respondeu, baixando sua mão e a afundando em seu bolso. lian pôde jurar que ouviu uma risada ao final da frase, mas seu olhar pouco amigável deve ter feito oliver engolí-la — anyway, the movie was super boring as usual, and i got thirsty and came here. you didn’t even notice me, so i guess you were doing one of those intense lian harper things...
— wh- what? what do you mean? — lian franziu a testa, mexendo com a tampa da garrafa e encarando suas próprias mãos.
— you’re a really intense person. like, focused, you know? it’s cute — o nariz de oliver franziu quando ele disse a palavra “cute”. e lian teve quase certeza de que seu coração havia parado — you’re really cute, by the way, with all that grease on your face — ele levantou uma mão na direção de lian e ela deu um pequeno passo para trás — i told you i don’t bite — ele deu uma pequena risada, e lian ficou imóvel, assistindo com a mesma atenção que john dispunha para michael myers, aos movimentos de oliver. com o polegar, ele limpou uma mancha no meio da bochecha dela, do que lian supôs ser graxa ou fuligem ou ambos — like i said. cute.
— ollie, did you die in there?! — a voz de john se manifestou, entrando na cozinha a passos largos e se deparando com os dois ali — lils, what’s up?
— hey — lian piscou algumas vezes, dando um longo passo para trás, bem mais longo do que da última vez, e olhando na direção de john. que felizmente, parecia estar completamente alheio ao que se passava na cabeça de sua prima. felizmente.
— wanna join us? — perguntou, erguendo uma sobrancelha. john era difícil com os outros. quer dizer, ele realmente era impossível com thomas e winnie, e tripudiava em cima de dannel sempre que ele estava longe de cassidy ou dela, mas com lian, ela não podia reclamar. claro que ela sabia que esse tratamento era porque 1) ela era uma garota, 2) john tinha plena consciência de que ela tinha acesso a uma arma de fogo e outras coisas que poderiam matá-lo de vez. mas além de tudo, john e lian se gostavam, teoricamente. como os dois mais velhos, havia um bonding que ela não entendia muito bem, mas que os unia no meio de toda aquela bat-mess — we’re still on the beginning of halloween 2. i’ll explain what happened in the first one.
ficar sozinha — sozinha, porque john se tornava parte do filme quando estava em suas maratonas de slasher movies — com oliver carter numa sala escura depois de todas aquelas sensações estranhas? nuh-uh. lian harper era mais esperta do que aquilo.
— i have to finish some stuff at the garage. next time, but thanks, johnny — e segurando a garrafa firmemente em suas mãos, saiu pela porta dos fundos da cozinha.
— is she okay? — ouviu john perguntar, enquanto ela já estava do lado de fora, corando furiosamente.
ii.
para alguém que há dois anos antes não enxergava garotos como mais do que sacos de carne, lian havia se apegado bastante a eles. ou aos corpos deles. suas bocas, seus... bens únicos que muitas vezes eles não sabiam usar, mas ela não se importava em ensinar. oh, garotos. lian harper amava garotos.
para o desespero de seus pais, é claro. a partir da sexta feira até o domingo à noite, lian era uma garota desaparecida em ação. cada final de semana um garoto diferente, isto é, quando ela não trocava no sábado à noite ou no domingo de manhã. fazer o que se ela se entediava tão fácil?
de qualquer forma, aquela sexta feira era uma sexta feira especial. era a última festa deles como alunos de ensino médio, lian havia esperado tanto por aquele momento, momento em que finalmente toda aquela baboseira acabaria e ela poderia fazer algo importante de verdade. nunca havia sido segredo o quanto ela achava a escola um desperdício de tempo completo, mas havia prometido a roy e jason — e feito um trato seríssimo com zoe — que terminaria pelo menos a escola. e ali estava ela, cumprindo sua promessa.
— arriba, abajo, al centro y adentro, chiquitas! — saint gritou, antes de virar um shot de tequila com uma maestria que apenas ele tinha. zoe e lian, que dividiam a roda com ele, viraram suas doses ao mesmo tempo, antes de fazerem profundas caretas — you did it, z! you graduated us!
— yay, zo! — lian passou um braço ao redor do ombro da amiga, e com a outra mão, deu um belo high five com saint.
— i’m so happy for you guys, but maybe we should think about those colleges i-
— boooooooo! — lian e saint disseram ao mesmo tempo, antes de cada um virar mais uma dose de tequila.
— chicas, i’ll have to hit the loo. lian, don’t let zoe start the college convo, por favor — saint disse, antes de virar-se e ir na direção do banheiro, onde uma longa fila o aguardava.
felizmente, antes que zoe começasse a conversa — o que lian sabia que ela seria capaz de fazer, mesmo bêbada e mesmo no meio de uma bela festa — quem quer que estivesse no controle da mesa de som aumentou o volume, dando início a uma série de músicas que eram exatamente o que eles precisavam: animadas e sem sentido.
lian e zoe acabaram na pista de dança, e em algum momento, se perderam uma da outra. sabia que se zoe estivesse precisando dela, já teria lhe achado — pois zoe era assim — então continuou ali, dançando, com seu corpo sendo levado pela multidão, com sua pele suada se esfregando contra as outras, com seu cabelo grudando em seu pescoço e um sorriso no rosto.
— someone is happy today — ouviu uma voz conhecida ao pé de seu ouvido. parando completamente de dançar, virou-se para encarar o dono da voz. e sentiu-se subitamente como a lian de dois atrás, coberta de fuligem e graxa na cozinha, com os olhos fixos em um garoto que ela conhecera a vida inteira e, ao mesmo tempo, era como se tivesse acabado de conhecer.
oliver havia mudado, de novo. para duas pessoas que frequentavam o mesmo colégio, era engraçado que ela o visse tão pouco. mas oliver e lian frequentavam o que pareciam ser planetas diferentes. ollie andava com as garotas com planos, ensaios das líderes de torcida, ambições de vida e dinheiro de sobra. e claro, andava com john — e era difícil ter muitos amigos quando se andava com john. e já lian, lian estava um pouco em cada lugar. a maior parte do tempo estava com zoe, saint, e malcolm, mas gostava de não ser previsível, de espalhar um pouco de si por onde passava e ali deixar, sua marca nas pessoas. sendo assim, ela não olhava muito para oliver carter.
mas, querendo ou não, oliver carter havia sido responsável pelo despertar de uma era feliz na vida de lian harper. havia feito ela começar a enxergar garotos. quer dizer, ela tinha que agradecer a ele pelos serviços prestados, não estaria vivendo um momento de vida tão bom assim se não fosse o empurrãozinho não requisitado e provavelmente não intencionado de oliver.
— last week as a high schooler. gotta count for something, right? — lian deu de ombros, voltando a ficar de costas para oliver. não havia muito espaço ali, enquanto quando alguém passou esbarrando em oliver, os dois se colaram ainda mais. as costas de lian estavam praticamente enterradas no peito do garoto — oh, i loooove that song!
— let’s dance, then — o típico tom bem humorado de oliver agora tinha um leve tom de curiosidade. de quem estava testando a garota de costas para ele.
— yeah, right — lian rolou os olhos, enquanto movia seu corpo no ritmo sozinha. bom, não exatamente sozinha, já que com a quantidade de gente abarrotada naquele lugar, não havia como fazer nada sozinha. mas o importante era que ela estava dançando com ela mesma, e com todas aquelas pessoas, mas não com oliver carter. oliver carter, amigo de john (que havia piorado consideravelmente nos últimos anos). oliver carter, preppy girl lover. oliver carter, fuckboy king. esse oliver carter.
— is that a yes?
— yeah, oliver, it’s a yes. whatever. just don’t kill my vibe, dude — rebolou sua cintura devagar, com suas mãos balançando no alto. e foi quando sentiu um par de mãos grandes em seus quadris e a puxando para perto, fazendo suas costas baterem com precisão em um peito que já conhecia. agora sim, ela estava dançando com oliver carter.
e não era nada mal. ele era bom, bom nos movimentos, bom em segurá-la. bom e... diferente. claro que muito poderia ser pela quantidade de álcool ingerido — damn you, saint e sua tolerância altíssima a tequila — mas não parecia nem um pouco com todos os outros garotos com que lian havia se envolvido ao longo daqueles dois anos e seu súbito interesse no sexo oposto. se ela tivesse dissertado sobre isso mais cedo, talvez tivesse chegado a conclusões antes do esperado, conclusões de que oliver era de fato... diferente. mas infelizmente (ou não?), naquela noite, ninguém estava em condições de dissertar.
lian rebolava devagar e tortuosamente, mexendo seus quadris no mesmo ritmo da música e no mesmo ritmo de oliver. as vezes ela sentia a presença dele atrás dela, e as vezes não, mas em segundo algum ela esqueceu que ele estava ali. com milímetros os separando e às vezes nem isso. era bom sentir um par de mãos pesadas em sua cintura, um par de mãos que parecia saber o que estava fazendo. o que a fez pensar por um micro instante: o que mais aquelas mãos saberiam fazer?
— enjoying yourself? — como quem havia percebido, talvez pela forma como as pálpebras dela estavam entreabertas, assim como seus lábios, e a maneiro como empurrava seu quadril para trás sem perceber. fucking oliver carter. nem precisava olhar para ele para saber que ele estava com aquele sorrisinho satisfatório no rosto — lian, come on... i’m catching a plane to another continent tomorrow... — os lábios dele tocaram brevemente seu ombro nu, fazendo-a projetar seu quadril para trás ainda mais. que tipo de bruxaria era aquela?! — why don’t we say our farewells like we mean it?
yep. that was it. era só isso que lian harper precisava, esse empurrãozinho de oliver. estava pronta para aceitar a proposta quando...
— i've been looking for you everywhere! — zoe apareceu, agarrando o braço de lian como se oliver nem estivesse ali. certo. provavelmente zoe nem imaginava que lian estava dançando com oliver (nem lian acreditava?), conhecendo zoe como ela conhecia, ela provável que ela nem tivesse visto oliver.
— yeah. sorry, i... ran into someone. come on, let's go back, party is only getting started!
iii.
eles têm 23 anos agora. 23, uau. lian honestamente não achou que ia chegar aos 20, quanto mais aos 23. mas aí está ela e... aí está ele.
a frança fez... mal. muito mal para oliver carter. é claro que não para o rosto dele, agora ele uma barba decente finalmente cresceu e preencheu o rosto dele, dando um aspecto... adulto. a barba, o cabelo bem mais comprido do que ela se lembrava, a expressão confiante. tudo isso fazia ele parecer tão mais velho que ela, mais inteligente, de um jeito petulante que a fazia querer socar a cara dele.
e agora que ele estava de volta, era como se ele estivesse em todos os lugares. com john, sem john, rodeado de garotas, sozinho, ela simplesmente não conseguia parar de encontrar oliver carter. todo lugar. nas baladas desconhecidas que lian achava que só ela conheceria, nos bares underground, nas ruas de gotham... e em sua cabeça.
iv.
ele não quer morrer sozinho, e lian tem a agradecer eternamente por isso, porque ela também não queria morrer sozinha. ou morrer, at all. mesmo assim, lá estão eles, morrendo. estão tossindo e grunhindo, as quatro pernas moles no chão, cobertos de fuligem, sujeira, sangue. sangue deles próprios, um do outro, sangue de outras pessoas, muito sangue. tem tanto sangue ali que ela poderia vomitar, mas talvez seja a pancada que ela levou na barriga ou o fato de que oliver está a chacoalhando pelos ombros enquanto seus olhos fecham.
nas pequenas frestas abertas, ela enxerga um homem. e ela se sente... mal. ele tem os olhos azuis, mas ela não consegue enxergar isso, porque tem tanto sangue no rosto dele. ela simplesmente sabe que ele tem os olhos azuis mais lindos, talvez porque ela tenha pensado mais nesses olhos azuis do que deveria. lian sente o sangue escorrendo do rosto de oliver pingar em sua camiseta, sente ele escorrendo por sua barriga, quente e desconfortável e sente a preocupação de oliver em limpá-la, de se desculpar pelo sangue, de murmurar tantos perdões para tantas pessoas. para ela, inclusive. "pra que? eu vou morrer de qualquer jeito..."
— stay awake, lian, please...
— just... a little nap... — ela não quer fechar os olhos. ela quer olhar pra ele, se aproveitaria da chance que tinha ali para isso. iria morrer vendo uma última coisa bonita, se daria esse presente. era melhor do que morrer vendo a si mesma sangrar e agonizar.
os olhos dela fecham ao som de oliver dizendo seu nome.
v.
— oliver!
é a primeira coisa que ela diz quando acorda. é um grito estrangulado, doloroso, que estava preso em sua boca quando ela dormiu e por horas ficou lá, amargando em seus lábios. é um grito que tem gosto de medo, de derrota, de sangue.
— lian, you need to calm down — lance. lance? definitivamente lance. ela sente as mãos do namorado de sua amiga a afundarem de volta na cama, enquanto ela tenta inutilmente levantar. ele é uma visão ótima para se ter quando acordar, mas não a visão que ela quer ter naquele momento -- zoe, babe, i need you here!
— where's oliver? — as coisas ainda estão confusas em sua mente, enquanto ela se debate na cama, revirando os lençóis que a cobriam. as mãos de lance continuam a segurando para baixo sem dificuldade, enquanto ele chama por zoe — oliver!
— i'm here, i'm okay-- everything's okay, lils — do andar debaixo, ela ouve a voz de oliver, o som de zoe o castigando por estar fazendo esforço, o som de passos.
a única coisa que ela quer ver é o rosto de oliver carter, e seu sorriso pretensioso, e seus olhos azuis, e seu cabelo hipster que beira o ridículo. e ela quer dizer que sente muito, sente muito por tê-lo feito cuidar dela sozinha, por tê-lo feito salvá-la.
mas a voz dele basta por agora.
For the life of me I cannot remember What made us think that we were wise and We'd never compromise For the life of me I cannot believe We'd ever die for these sins We were merely freshmen
2h07.
from: holly gurrrrrl. your boy is here at the party and he is wasted. you should come and get him
from: winnie who tf are you talking about?
from: holly kane
from: winnie as if. he hates parties
from: holly (attachment: video) i keep thinking what would happen if he loved it
e foi assim que winifred west foi parar na frente do bar favorito do campus, malone’s, e não demorou mais do que dois minutos pra encontrar dannel montoya-kane no meio do bar. mas demorou muito para que winnie processasse a cena que se desenrolava em sua frente.
dannel estava sem camisa, cercado de garotas — garotas lindas e loiras e usando uniformes de torcida e altas e de corpo delineado e de olhos que brilhavam e sorrisos que ofuscavam a luz do sol e risadas que poderiam curar o câncer — que pareciam se deliciar com a visão e o garoto a sua frente. e ele parecia estar se divertindo. não, risque isso, ele estava se divertindo. com certeza estava se divertindo. aliás, winnie nunca havia visto alguém se divertir tanto daquele jeito.
— oh, there you are!
holly era... bem, holly. ela era uma estudante de artes cênicas com quem winnie dividia o dormitório desde o começo do semestre e possivelmente a única e melhor amiga que ela tinha naquela faculdade. yale era, de certa forma, solitária. todos pareciam estar ocupados demais se destruindo para construir sua ladeira para o topo, e winnie gostava de vencer, mas não achava que alguém tinha que perder para isso acontecer. ou pelo menos não achava mais. mas, a mentalidade em yale não era a mesma que a dela, e assim os alunos seguiam se digladiando e sem tempo para small talk. de qualquer forma, holly e dannel — sim, o mesmo dannel que estava cercado de líderes de torcida naquele momento — já eram mais do que ela precisava. winnie aprendera a ser solitária durante a maior parte de sua vida, dois amigos já era mais do que sua vida toda.
— winnie?! hello?
— yeah. yeah, hi — winnie respondeu, sem tirar os olhos da cena.
quando ela disse nunca havia visto dannel sorrir daquele jeito, bom, ela realmente não estava mentindo. ela nunca havia visto, todos os trinta e dois dentes dele, jogando a cabeça para trás e gargalhando. ela nunca havia feito ele rir daquele jeito.
— crazy, right? who would’ve thought?! he just became the cheerleaders biggest sensation — holly riu pelo nariz — anyway, i only texted you because sean was worried about him. i thought it was fun.
oh, sean. certo. sean evans era o namorado de holly, um estudante de engenharia-de-whatever. ele era um frat boy legítimo (membro da kappa-delta-whatever), jogador de lacrosse e ele e holly namoravam desde antes da faculdade. os dois eram um daqueles casais que faziam tudo juntos e winnie foi obrigada a fórceps a aceitar a companhia de sean. mas, no decorrer do semestre, winnie percebeu que ele não era assim tal ruim, e visto que naquela noite havia se preocupado com dannel, realmente colocava a opinião de winnie sobre ele em outra perspectiva.
— i just saw him drink 5 shots of tequila. that boy is going down — e speaking of the devil, sean apareceu, passando um braço no ombro de holly. winnie acenou para sean, sem tirar os olhos da cena — so, winnie, i didn’t know you guys had an open relationship.
— what? — winnie indagou, sem mover seus olhos de dannel.
— sean, shut up — holly murmurou, dando o que parecia uma cotovelada em sean.
— i mean, that’s the only reason for you to be so cool while he’s being licked by cheerleaders- ouch, holly!
— we’re not together — winnie respondeu automaticamente, e então, se dando conta da conversa que havia acabado de se desenrolar ali — and i don’t care either. i’m just here to pick him up.
e num passe de mágica, dannel pareceu notá-la no meio da multidão. apenas literalmente, é claro.
— winnie! — ele gritou freneticamente, acenando de longe e fazendo aquela legião de garotas ao redor dele virar seus olhares para cima dela. respirando fundo, winnie juntou sua força e caminhou até dannel, agarrando-o pelo braço.
— party is over for you, come on — seu tom alternava entre o de uma mãe irritada e de uma namorada nervosa. e pelo menos era assim que as cheerleaders olhavam para ela.
— what? but we were only getting started! — dannel choramingou, enquanto winnie o arrastava em direção da porta. nunca a distância entre o balcão do bar no malone’s e a porta pareceu tão grande, a cada passo para frente que davam, dannel dava meia volta e surpreendentemente, ele era bem mais difícil de se arrastar do que parecia. quando finalmente chegaram até a porta, winnie acenou para holly e sean e todos os irmãos de fraternidade de sean, e não esperou uma resposta para empurrar a porta e sair — why are you so mad? i don’t like when you’re mad at me.
— then don’t make me mad — winnie rolou os olhos. dannel era sempre sensível, mas ele estava extrasensível naquele dia — just... hold me or whatever. and try not to vomit.
winnie esperava algum tipo de protesto, um choramigo, uma reclamação, bem como lidar com uma criança. mas dannel apenas fez o que lhe foi mandado, e colocou os braços em volta dela.
ela era capaz de contar nos dedos as vezes em que usara sua supervelocidade. nos dedos de uma mão. e não completava nem uma. aquela era a quarta vez em 18 anos que winifred west invocava seus poderes de flash, e ela com certeza iria usar aquele momento contra dannel em algum futuro próximo.
— wow. how did we get here so fast? — dannel perguntou, quando, milésimos depois, os dois já estavam no meio do dormitório — did we get on a plane?
— yeah. sure. listen. go take a shower, can you do that without drowning?
— your wish is my command! — dannel respondeu, com seu tom de voz obscenamente doce e aquele sorriso “aw shucks!”, enquanto entrava no banheiro. bom, agora ela tinha espaço e silêncio para processar o que havia acontecido
ele nem havia a convidado.
winnie afastou o pensamento enquanto buscava no guarda roupa de dannel uma roupa limpa. jogou uma camiseta cinza e uma calça de moletom na cama, e sentiu seu rosto ficar vermelho quando abriu a gaveta de cuecas dele. quer dizer, eles já haviam ultrapassado todas as barreiras de intimidade que a amizade poderia impor, já haviam se visto em tantas situações (situações lamentáveis e degradantes, inclusive) que uma roupa íntima não era nada, ou pelo menos, não deveria ser. escolheu qualquer uma entre as tantas (e desorganizadas) cuecas da gaveta, e jogou em cima da cama.
enquanto ouvia o barulho do chuveiro, o pensamento voltou. ele nem havia pensado em convida-la, sequer. winnie sabia disso. tinha certeza disso. havia visto a surpresa — e uma ponta de choque — no rosto dele quando a enxergou no meio da multidão de estudantes bêbados, como se tivesse esquecido que ela existia por um breve momento. um momento em que ele estava com o maior sorriso no rosto que ela já havia visto, por sinal. eles nunca haviam se divertindo tanto assim juntos, pelo menos não dannel.
— i’m coming out! — dannel avisou, com a voz arrastada e as palavras de enrolando umas nas outras. winnie fechou os olhos e virou para o lado, escondendo seu rosto enquanto ouvia os passos de dannel no quarto — okay, you can look right now, miss president!
e lá ele estava, parado no meio de seu quarto, com um grande e bobo sorriso no rosto, vestindo apenas a calça de moletom e nenhuma camisa. qual era o problema dele? havia virado um frat boy que era incapaz de se cobrir com uma camiseta?
— put your shirt on, come on — winnie reclamou.
— i can’t. help me? — dannel choramingou mais uma vez.
— oh my god, you’re such a baby! — winnie se aproximou, pegando a camiseta da ponta da cama.
dannel era alguns centímetros mais alto do que winnie, e ela descobriu que eram bem mais centímetros do que ela achava que eram, enquanto tentava passar a camiseta pela cabeça e pelos braços dele.
— can you just- ugh- — winnie resmungava enquanto dannel não facilitava o trabalho dela, rindo e se mexendo e sendo uma pessoa exageradamente grande — fine! fine. just keep being shirtless, jesus, what are you? jacob from twilight? fucking christ.
— well... were you team jacob?
— as if i lost my time watching a movie sponsored by the patriarchy. as if — winnie revirou os olhos enquanto arrumava a cama de dannel — i was team nobody.
— then i’m nobody!
winnie se virou para dannel, pronta para dizer que flattering não o tiraria daquela situação, e foi então que ela viu. oh, boy. he was handsome. quer dizer, ela sempre soube, era uma daquelas verdades inconscientes gravadas em seu cérebro. mas... ali, com o cabelo molhado do banho, com a camiseta perdida em algum lugar do quarto, com a cabeça leve e um sorriso — um sorriso... diferente — no rosto, não tinha como negar.
— ahn... come here — winnie suspirou, empurrando dannel na direção da cama, fazendo-o cair como um saco de batatas desajeitadamente — i’ll be in my dorm. just try not to die.
— wait, what? no, you can’t go to your dorm.
— and why is that? — winnie colocou as mãos na cintura. como se um adolescente bêbado fosse lhe dar alguma ordem. as if.
— because i want you to stay with me, duh — dannel respondeu, e mais uma vez, seu sorriso obscenamente doce voltou ao seu rosto. drunk dannel was the fucking worst — i’ll be good. i promise.
— don’t make promises you can’t keep, asshole — era a forma dela de dizer “yeah, okay. i’ll stay”.
winnie deitou-se devagar, puxando as cobertas para cima de si mesma e de dannel. eles já haviam estado naquela posição tantas vezes antes, mas nunca daquele jeito. something was changed. something was... off. sentiu o braço de dannel atravessar por cima de seu coro puxa-lá em sua direção, fazendo com que suas costas encostassem por completo ao peito dele. winnie engoliu em seco. de repente, ela estava sentindo tudo. cada pedaço de dannel, cada parte dela, se tocando, ela como se ela estivesse hipersensível a tudo ao seu redor. como se tudo tivesse mudado.
ela havia dormido como um bebê. melhor do que na vida toda, e diferente de qualquer circunstância anterior. era de manhã, ou melhor, quase a hora do almoço quando winnie despertou. o corpo de dannel ainda estava contra o seu, mas agora, ela estava virada na direção dele. o queixo dele estava no topo de sua cabeça e os dois braços a envolviam sem dificuldade nenhuma. mas a surpresa era nas mãos: a sua e a dele, estavam com os dedos entrelaçados. that was a first.
winnie ergueu a cabeça para vê-lo, ou pelo menos checar se ele estava vivo. e ele estava. muito vivo, e oh, still so handsome. ele era como uma obra de arte viva.
percebeu que estava encarando tempo demais quando ele se mexeu, e sem graça, winnie rapidamente virou para o outro lado ficando de costas novamente, e escondendo seu rosto.
— you’re so soft — dannel murmurou, em um transe entre estar acordado e tomado pelo sono, aumentando o aperto e puxando-a para cima, fazendo com que seu pescoço ficasse na altura do rosto dele. como ela sabia disso? bem, porque ela sentia a respiração de dannel em seu pescoço, e por um segundo, sentiu os lábios dele quase como um fantasma deixarem um beijo ali.
oh. nothing was ever the same.
“did you see that? i totally punched that guy’s face!”
ela totalmente havia socado a cara daquele garoto. totalmente. o que agora parecia um pouco irresponsável e muito perigoso, mas... mas nada, porque não havia arrependimentos.
winnie e dannel estavam bêbados. oh, deus. muito bêbados. ou melhor, muito bêbados nem começava a descrever a situação. e winnie precisava de uma quantidade indecente de álcool para demonstrar uma alteração mínima, então era se se imaginar o quanto os dois haviam bebido.
— oh god. we almost died — dannel arfou, enquanto os dois entravam no dormitório dele — did we almost die?
— nah, not really. but we almost got beat by the entire football team, so there’s that. did you see when i punched him?! oh my god! it felt so good! — winnie gritava, e dava pulinhos e seu sorriso começava a fazer doer suas bochechas.
ela não sabia dizer exatamente a ordem dos fatores. ela havia ido até o malone’s - sozinha aparentemente? - e dannel havia chegado lá para resgatá-la, invertendo a ordem dos fatores anteriores. e o resgate se tornou uma sequência de shots inesperada, e ela se lembrava vagamente de um karaokê, e dançar e — oh, meu deus, ela tinha dançado na frente de outras pessoas? não apenas isso: ela havia dançado na frente de outras pessoas e não estava dando a mínima para isso. ou para o fato de que ela havia acabado de socar um jogador de futebol insolente.
— yeah, rocky balboa, calm down — dannel brincou, rindo e segurando winnie pelos ombros.
winnie notou ao redor do olho de dannel uma mancha vermelha, que no outro dia estaria bem roxa. a briga se desenrolou rápido: o garoto falou algo, insinuou alguma coisa, alguma coisa... sobre ela. e dannel se levantou, levando um gancho de direita em seu olho mais rápido do que ela poderia ter previsto, mas não mais rápido do que ela havia socado a cara de seu oponente segundos depois, acertando em cheio o nariz dele e sentindo os ossos se separarem debaixo dos nós de seus dedos. foi divertido.
— i can’t believe you let him punch you — winnie murmurou enquanto se equilibrava na ponta dos pés para enxergar o machucado melhor. com cuidado, ergueu sua mão e encostou a ponta dos dedos na mancha vermelha.
— ouch — dannel grunhiu, sem se afastar. o quarto estava escuro, somente a luz dos postes do lado de fora iluminavam o dormitório de dannel. bom, pelo menos ele tinha luzes. winnie morava no pior conjunto de dormitórios da universidade inteira, onde as ruas eram escuras e vazias e um motel barato seria mais limpo — be careful.
— awww, does danno have a boo-boo? — winnie riu novamente, fazendo um barulho estranho pelo nariz, que se estivesse sóbria o suficiente teria rapidamente corrigido e se desculpado. mas bem, ela não estava. continuou com sua risada infantil enquanto continuava a olhar a ferida. não havia muito para se olhar, e os dois conheciam bem o procedimento: gelo e descanso. mas era estranhamente confortável ficar assim, na ponta dos pés, tão perto dele que ela conseguia sentir o calor da respiração de dannel e a vibração de sua voz quando falava — does he want a kiss to feel better? — brincou.
— yeah... yeah, maybe — dannel riu, e winnie riu mais, e os dois riram até que seus olhares se cruzaram.
e então ninguém mais riu.
se encararam por alguns momentos — longos momentos — em que a ponta de seus narizes quase se tocava, e ela quase conseguia ficar da mesma altura que ele, e ele quase falava alguma coisa. quase.
— listen, i... — winnie começou. parou por um segundo, pigarreando e tentando comprar tempo para si mesma agora que havia começado a falar. eles continuavam na mesma posição, se encarando sem desviar o olhar por um instante sequer, como se estivessem com medo de que o outro fosse desaparecer a qualquer momento — okay, i’ll just spill the beans. can i?
— shoot — dannel disse, e para dois bêbados, até que eles eram bons em se manter concentrados numa conversa séria.
— i... something’s changed — winnie observou, engolindo em seco e compartilhando o pensamento que rondava sua mente há dias — i don’t know what it is. i just know it’s not the same. with you. it’s... do you know what i’m talking about? — perguntou, tentando buscar alguma segurança de que o que estava pensando não era um delírio coletivo — it’s like i just met you again. like i have never met you before. i don’t know, it’s stupid, i’m-
— no. no, it’s not — dannel interrompeu, engolindo em seco. e aí veio a segurança que ela estava esperando. não conseguiu disfarçar um sorriso suave em seu rosto. ele era sempre tão bom com ela, dannel caleb montoya-kane. — it’s not. keep going.
winnie assentiu com a cabeça, sentindo a coragem líquida impulsioná-la. era agora ou nunca.
— tonight was nice. and we had a few of them. nice nights. and days and- and nice things. you make me feel nice things. you make me feel good. really good — winnie aproximou-se mais um passo e dannel não se moveu, observando-a atentamente. a linguagem não era uma com que winnie estava acostumada a falar, e com que dannel estava acostumado a ouvir dela. winnie era sempre tão austera e rígida, dura, palavras longas e difíceis que ela usava com uma naturalidade que a fazia parecer mais velha, mais inteligente, mais. mas ali, ali ela era só uma adolescente com uma escolha de palavras duvidosa e subjetiva, de duplo sentido, mas honesta. afinal, ambos os sentidos eram verdadeiros — maybe i’m crazy or whatever, but i... i think what i’m trying to say is that i never felt this with anyone before and i... really feel with you... i wanna feel you... is that making any sense?
— yes. no. i don’t know. just please keep talking — dannel disse, atropelando-se nas palavras.
— i want to have sex. with you — winnie soltou de repente.
i-want-to-have-sex-with-you. simples assim. ela certamente poderia ter dito “i have a mutual benefit proposition in which we explore our bodies together” ou “we can team up and do some discovering of our woman and manhood” ou algo formal demais que só winnie conseguiria pensar. mas nada disso seria a verdade porque a verdade era essa: winnie west queria transar com dannel kane.
— i’ve had some... issues. along the years with... that — pausou. a palavra ainda era estranha em sua boca. s-e-x. soava... fora de onde deveria estar. soava como algo que uma líder de torcida bonita ou uma garota revolucionária poderia falar, não ela. como se ela não tivesse tanto direito sobre a palavra como as outras garotas tinham — and it’s been a long time since i wanted someone and even when i did it wasn’t like that, wasn’t like you, no one was ever like you — winnie riu baixo, achando engraçada a ideia de alguém como dannel. só existia ele, essa era a verdade — and i trust you, i really do, and we learn new things everyday together so maybe we can learn this too. we can learn... about ourselves and each other and... — não era isso que ela queria dizer, não era... quer dizer, isso também, mas... ergueu o olhar na direção de dannel. olhar pra ele sempre dava uma certa coragem à ela, e não seria diferente ali. tudo havia mudado, mas não isso — listen, that night, when i went to malone’s to get you, something happened. and since then i can’t stop thinking about this.
— about... me?
— about you.
about him. e aí estava, solta no ar a informação. não tinha como voltar atrás. agora ele sabia.
e foi sabendo disso que dannel beijou winnie.
dannel tinha gosto de... whisky. e cheiro de perfume ralph lauren. e ele era tão... doce e gentil e cuidadoso que era como se winnie estivesse andando nas nuvens. deitada nas nuvens. ela gostava daquilo, gostava de ser cuidada, de toques delicados, de pessoas que a enxergavam como mais do que uma retroescavadeira que andava por aí destruindo tudo.
— you’re so good — winnie murmurou, enquanto dannel escorregava os beijos para o pescoço dela. ela gostava de falar, winnie west, e naquele momento as palavras sem sentido se formavam em seu cérebro e desciam sem filtro para sua boca que as murmurava contra o ouvido de dannel. a língua dele era morna e a pele dela era gelada, e o contraste a fez suspirar — i... so good...
agarrou a barra de sua própria camisa e a arrancou, jogando-a em algum lugar do quarto. sentiu as mãos de dannel em sua cintura nua, sua barriga, suas costas.
— take your shirt off — winnie pediu (mandou?) e dannel realizou seu desejo, e então ela sentiu a pele dos dois se encostando de verdade. winnie empurrou-o na direção da cama, fazendo dannel deitar-se por baixo e ela ficar por cima dele. wow. that was some empowering position.
winnie agora com seu corpo todo em cima de dannel, começou a descer beijos pelo pescoço dele, enquanto as mãos do garoto faziam o trabalho divino e pressioná-la contra seu quadril. winnie sentiu seu coração acelerar ao ver que ela também estava tendo algum efeito em dannel. he wanted her too.
— winnie... — dannel gemeu, quando ela deu uma mordida em seu pescoço.
— yeah? — winnie ergueu a cabeça com um sorriso (quase) doce, ficando com o seu rosto colado no dele — what is it?
— i think this is not a good idea.
— oh, do you want to stay on top now? cool, we can switch — ela respondeu prontamente.
— no, i... don’t think we should do this. we shouldn’t...
winnie franziu a testa, ainda levemente atordoada pela quantidade de tequila que havia ingerido, e afastou seu rosto de dannel para observá-lo por um instante. e então ela enxergou o rosto que ela conhecia tão bem, um rosto do qual ela sabia cada curva de sorriso, cada cinco de preocupação, cada sinal, cada marca... e ela viu. simplesmente viu. um olhar perdido, um leve arrependimento, um grau de desconforto? e oh. meu. deus. aquilo não estava acontecendo. winnie saltou de cima de dannel no mesmo segundo que a mensagem fez sentido em seu cérebro.
— wait, winnie, i didn’t-
— no, it’s fine. we’re fine. it was a stupid idea, i am stupid, everything’s stupid — winnie riu nervosamente enquanto procurava por sua camiseta pelo quarto. dannel acendeu a luz, e winnie rapidamente abraçou seu próprio corpo, embaraçada. cadê a droga da camiseta quando se precisava dela?
— winnie, are you okay? you don’t have to go, actually, you shouldn’t, i want to-
— it’s fine, it’s super fine — ela repetiu mais uma vez, procurando minuciosamente por sua camiseta. ele estava olhando para ela? rezou brevemente por um momento, implorando a todas as divindades existentes e inexistentes para que ele não estivesse olhando para ela naquele momento — uh, i need my shirt.
— winnie-
— my shirt! i just want that, can you please help me?! — winnie elevou a voz, ríspida, e parou no meio do quarto, de costas para dannel. o silêncio dele pairou por um tempo, até que ela começou a ouvir o som de passos. ótimo. ele estava ajudando, e se ele estava ajudando, significava que não estava olhando para ela. sentiu uma mão quente em seu ombro e virou-se num pulo, arrancando a camiseta da mão de dannel e passando-a pela sua cabeça — thank you. i’ll be on my way now. don’t sweat it, everything’s fine.
nada estava bem.
— winnie?!
winnie estava deitada em sua cama, milimetricamente posicionada no colchão e encerando o teto branco acima de si ergueu a cabeça para enxergar quem achava e encontrou holly parada na porta, acompanhada de sean.
— what are you doing here? you never sleep here.
— yeah, i know, i just... — a voz de winnie foi morrendo, morrendo, morrendo, até desaparecer. foi então que notou que sua presença ali estava sobrando. sean tinha uma sacola de comida em sua mão (chinesa, holly e sean amavam comida chinesa, e sempre deixavam o quarto com aquele cheio de chop suey) e holly estava com seu suéter bonito, o que ela sempre usava quando ela e sean planejavam uma noite... bem, íntima — oh, guys, don’t worry. really. i’ll be out in a second, just need to get a coat and i’ll leave you to it.
— oh, hon, no! — holly exclamou, aproximando-se de winnie e sentando-se na cama — you’re staying here, don’t be nonsensical. we just rented that new ryan gosling movie and you’ll stay here with us.
— and there’s enough food for the three of us — sean completou, sentando-se na outra ponta da cama — come on, freds, don’t deny us the fun company of you and your snarky remarks at ryan gosling.
— it’s not my fault if he is dumb in every movie he has ever made — winnie pontuou, levantando-se e sentando-se na cama assim como os dois — i appreciate it, guys, but you’re clearly looking for a private night. it’s cool. i’ll just pull an all nighter at the library.
— winnie, what is going on? — holly perguntou, atingindo uma seriedade no tom de voz que winnie nunca havia ouvido antes. holly sabia dos problemas de intimidade de winnie, era uma das poucas pessoas para quem winnie havia contado em detalhes o que havia acontecido com jasper cobblepot, talvez porque holly nunca fosse conhecê-lo, talvez porque holly nunca fosse julgá-la como os outros fariam.
— do you want us to get the kane boy? — sean sugeriu, fazendo winnie pular de seu lugar como se tivesse assistindo um filme de terror.
— no! no, really, i’m fine. guys, just sit down and enjoy your movie, i’ll be downstairs and you can give me a call when you’re... done with your... stuff. just enjoy your night, please.
aquelas 24h estavam sendo as piores de sua vida toda. suas costas estavam acabadas no sofá da área de convivência do prédio onde ficava seu dormitório, e ela não se atreveria a ir bater na porta do quarto e acabar com a diversão de holly e sean. mesmo que já fizesse 5 horas que ela estava ali. o efeito da bebida já havia diluído completamente, e isso pareceria bom em teoria, mas só lhe dava mais consciência pra refletir sobre o acontecido da noite
— knock knock.
winnie ergueu a cabeça ao ouvir a voz de sean.
— so, holly fell asleep, and i’m going back to the frat.
— oh, cool. have a good night, sean — winnie acenou, com um pouco mais de simpatia que o normal. sean havia se provado uma pessoa decente durante aquele semestre, e tanto ele quanto holly eram muito sortudos de estarem juntos. algo que alguém como winnie nunca saberia.
— yeah... about that — sean pigarreou, sentando-se ao lado de winnie no sofá — i know you’re not my biggest fan. but whether you like it or not, you’re my friend. and holly really cares about you, and so do i. she’s very worried, and the same goes for me. do you need me to punch him in the face?
— what? punch who?
— the obvious person who made you so sad, duh? dannel.
winnie pensou em negar, e inventar uma grande e mirabolante história. mas ela nunca havia sido boa em mentir, e ela estava cansada demais para pensar em algo. tombou a cabeça para trás para não ter que olhar sean nos olhos e suspirou impacientemente, como quem gostaria de estar fazendo qualquer coisa exceto tendo aquela conversa.
— it’s not his fault — disse, depois de algum tempo de espera e perceber que sean não iria embora tão cedo.
— that’s where it gets super tricky! the dude is like a puppy. i mean, my frat was crazy about him, the greek row was killing to get him to join one of the frats, and even the team likes him. so i’m trying to picture a scenario where he is a dick to you, but i’m having a hard time.
sean era um daqueles garotos engraçados. ele era bonito, claro que ele era bonito, não estaria numa fraternidade se não fosse bonito. mas ele era muito mais engraçado. e foi o que fez winnie soltar uma risada pelo nariz.
— it really wasn’t his fault — ela abraçou seus joelhos — it’s just non-reciprocate, that’s all.
— whatever you two have, trust me, it’s very reciprocate — sean afirmou, com a confiança que apenas um frat boy tinha em sua voz — i mean it.
— and how would you know that? from your vast experience in relationships?
— there’s that. but your thing is just common knowledge. vicky novak invited him 12 times to grab a coffee and he was always too busy. busy with you, clearly. and the whole cheer squad is dying to land a date with him, but he only has time for one girl, apparently. and when it comes to you, let’s not mention the jack cole disaster.
— what?
— jack cole, my teammate? lacrosse team goalie?
— yeah. he’s pre law, i guess? and he’s from your frat too, right?
— so you do remember him. jack cole is a ripped and handsome dude, and he asked you out bluntly.
— what?! he did not-
— he did. he so did. i know because i was there, because he asked me to wingman him. and it was a disaster.
— when did that-
— before the midterms. he comes up to you in his charming male vibe and asks you if you’re coming to the game on saturday.
— i told him i was going back to gotham!
— yup. and he said “i’m from jersey, i can give you a ride”. and you said, to jack-cole-biggest-freshman-on-campus “it’s cool. i already have a ride, see you around”. just like that. and then dannel was at the door waiting for you like the adorkable puppy he is. and you two just left through the door, leaving me and the jack cole behind.
— and what is that supposed to mean?
— it means that jack cole could drop any panties in a 10 mile radius- — sean começou, recebendo um olhar bastante rígido de winnie — sorry. it means that any girl on campus would die for a ride with jack. and you, my dear, you just brushed it off for a ride with dannel kane.
— if jack had invited me before-
— i knew you were gonna say that! — sean exclamou, como se tivesse acabado de pegá-la no flagra cometendo um crime. além de engraçado, ele era dramático. muito. wyatt iria gostar dele — so, that brings us to last week, when you rescued your boy at malone’s.
— what about it, sean? — suspirou longamente, apoiando seu queixo na palma de sua mão.
— jack invited you to malone’s.
— he did not! — winnie exclamou acusadoramente — i would’ve definitely remember that.
— he asked you if you were coming to malone’s after the tailgate. and you said you weren’t even going to the tailgate at all. so, once again, jack cole just says “then maybe we could do something afterwards instead of malone’s, just the two of us”. and do you know what you’ve said, freds? you said “nah, i’m cool. see you around, cole”.
— i didn’t, sean!
— you did. because for the rest of the week we just answered anything he said with “nah, i’m cool”.
— well, then i didn’t notice he was asking me out!
— he said “just the two of us”. that is so asking you out. but i know why you said no.
— oh, you do? — winnie rolou os olhos.
— because dannel wasn’t gonna be there, so you didn’t want t go.
— don’t be stupid, sean, i don’t need dannel to do anything, let alone going to a bar — winnie respondeu ríspida, voltando a sua posição defensiva de sempre.
— true that. but you see, in high school, there was this party in which i really wanted to take holly. and another girl invited me and i blew her off because i was kinda hoping holly would invite me. and she didn’t…. and don’t hate me, but i think i’m you, and holly is dannel.
winnie cerrou os olhos e encarou sean com a intensidade de quem estava secretamente sonhando em ter visão de calor para derretê-lo. what. a. dick. não se faziam frat boys burros como antes.
— so, when holly didn’t invite me, i supposed she wasn’t going and i just decided not to go. but... well, she was going. she did. just not with me — o olhar de sean passou de cômico para compreensivo, como um irmão mais velho. wyatt realmente gostaria de sean. eles tinham o mesmo gosto estranho para esportes e piadas fora do momento, e winnie sentiu um conforto no coração por um minuto. she missed her brother a lot, these days — and i think when dannel didn’t invite you, you supposed he wasn’t going. but he was.
— he didn’t have to invite me — respondeu mecanica e automaticamente, como uma resposta saída de um robô, de uma caixa postal, de uma secretária eletrônica programada para repetir aquilo até que alguém a desligasse.
— that doesn’t mean you didn’t want him to. did i got anything right?
winnie abraçou seus joelhos mais forte, e apoiou seu queixo neles dessa vez.
— yeah. something like that.
— the thing is, i know why i didn’t invite holly. i just don’t know why you didn’t invite dannel, why didn’t you just said you wanted to go with him. you guys hang out more than i do with my girlfriend.
— i don’t know. i was just sure he was going to ask me if i wanted to go. he always does — ela deu de ombros. ele sempre perguntava, sem exceções. e ela sempre perguntava a ele. não era bem uma obrigação, quer dizer, definitivamente não era uma obrigação, mas… winnie não fazia por obrigação — but it doesn’t matter. it’s not like that, i just literally proved it’s better if we just say friends.
— friends? you guys are not just friends. just friends don’t look at each other like that.
quando winnie acordou na manhã seguinte, estranhou o ambiente ao seu redor. as paredes descascando, os bichinhos de pelúcia... ah, claro. é mesmo. agora ela dormia em seu próprio quarto, com a sinfonia de holly e seus roncos. já fazia mais de uma semana e ela ainda não havia se acostumado.
— morning! — holly exclamou, no segundo em que winnie abriu seus olhos.
— ugh. this place smells like... a mall food court — winnie resmungou, sentando-se na beirada da cama.
— sorry. forgot to open the windows and take out the trash.
— so just basically everything i told you to do before i went to class last night?
— yup! — holly riu, dando um beijo na bochecha da winnie — come on. what do you wanna do today? it’s saturday!
— i have brunch- — winnie parou a frase no meio. brunch no sábado era uma atividade com dannel, e as atividades com dannel estavam todas... suspensas — actually, i have no idea. what do you do on saturdays?
— well, i usually check what sean is up to.
— of course — winnie sorriu de canto, levantando-se e espreguiçando-se — he’s not that bad, you know. sean.
— oh god. is that you, winifred west? did you just said my boyfriend is not that bad?!
— stop screaming, it’s too early — winnie reclamou, sem cair na animação de holly — i just said he is not that bad.
— that’s probably the biggest compliment you ever gave anyone since i met you. he did said you two talked last week, finally getting along! you know what? since you’re in such a good mood with sean, i’m gonna call him and he’s totally gonna find us three something fun.
— nooooo, holly — winnie grunhiu — i really don’t want to be a third wheel. i’ll be fine. did he said anything about what we talked?
holly comprimiu os lábios, e suas feições de culpa o entregaram.
— oh god, he told you everything, didn’t he?
— i’m sorry! i’m super sorry. but we tell each other everything, he was very worried about you. you remind him of his sister.
— i can’t stand the pity in your eyes, holiday, ugh — winnie se jogou para trás, caindo na cama, e encarando o teto — but yeah, he also reminds me of my brother — suspirou — and my brother sucks sometimes.
— hey, sean! — holly atendeu o telefone, sentando-se ao lado de winnie e ignorando completamente a reclamação dela — what are your plans for today? and btw, you’re on speaker, winnie is here.
— good morning, ladies! — a voz de sean preencheu o silêncio do quarto através do auto falante — and you’re also on speaker. boys, say good morning.
— good morning! — winnie ouviu uma legião de garotos, que winnie supôs que eram o restante do time de lacrosse, responder do outro lado.
— and i’m sorry to disappoint, but we have practice the whole day. i’m only free at 6, maybe we can get some pizza?
— who is that, evans? — outra voz vagamente conhecida se manifestou.
— it’s holly and her fr- ohhhhh, shit! dude, say hi, it’s winnie. winnie, this is my boy jack cole straight from the lockeroom. the one who, you know, asked you out multiple times.
winnie arregalou os olhos, pulando da cama e se afastando do celular como se fosse uma praga.
— winnie, say hi! — holly exclamou enquanto winnie negava veementemente com a cabeça.
— uh, winnie, what’s up? — a voz de jack cole se manifestou e winnie fechou os olhos duramente.
— what do i say? — sussurrou, não tão baixo quanto achou que seria.
— you can say hi back — sean caçoou do outro lado da linha.
— uh, cole, hi — winnie acenou para o ar, sentindo-se completamente ridícula.
— she just waved — holly comentou, recebendo uma olhada feia — oh, we could do something us four after your practice!
— totally. jack, what do you think? — sean se manifestou.
— yeah, i’m game. what about you, winnie?
oh, she was not game. nope. ela não estava. mas se não fosse aquilo, ela ficaria presa no dormitório mais uma vez enquanto dannel provavelmente fazia algo muito mais divertido. e sem a sua presença.
— yeah. yeah, okay, i’m up for it.
jack cole era devastantemente bonito. era o tipo de beleza que você via em catálogos de cueca ou propagandas de jeans da abercrombie. era como se todas as 20 capas da people dos homens mais bonitos tivessem procriado entre si. ele era tão bonito que era difícil olhar para ele muito tempo sem seus olhos ficarem vidrados em alguma parte dele, seus olhos, o cabelo, até o pescoço. e além de tudo, ele tinha exatamente a mesma idade que todos eles e mesmo assim, não parecia nem um pouco com um calouro. na verdade, parecia que tinha 25 anos, um emprego em alguma firma de advocacia privilegiada e dirigia um carro esporte.
— so... i had already lost all of my hopes of going out with you — jack coçou a nuca e riu baixo, quando sean e holly se levantaram para ir até o bar.
— sorry, i have a completely crazy schedule sometimes. all the time, actually — foi a primeira e única coisa que winnie conseguiu dizer. jack era legal, e engraçado e ela mantinha sua opinião de que ele era anormalmente bonito. mas... ela não estava nem um pouco confortável.
não entendia porque ou como um garoto anormalmente bonito como era jack cole se interessaria por ela. não entendia como. em seu mundo, garotos como jack cole nem sabiam que ela existia. garotos como jack cole a chamavam de willa. garotos como jack cole a seguravam e diziam como transar com ela era uma péssima ideia.
jack cole e dannel eram duas pessoas completamente diferentes. e winnie estava fazendo uma força descomunal para não pensar nisso naquela noite, para não pensar em dannel naquela noite, na falta que ele fazia, e no calor do corpo dele e na forma com que as mãos dele seguraram sua cintura... piscou algumas vezes, tentando se manter focada na conversa. mas o ponto era esse: jack e dannel eram duas pessoas completamente diferentes. e mesmo assim, jack e dannel ainda faziam parte da mesma categoria masculina. ou melhor, a única categoria masculina na vida de winnie além de parentes: garotos que nunca se interessariam por ela.
ela entendia. é claro que ela entendia. winnie não era ingênua. e além de não ser ingênua, ela não era líder de torcida, sorridente, bem vestida, simpática, não era alta o suficiente, não tinha curvas o suficiente, seu rosto tinha sardas demais, seu corpo tinha ossos que despontavam e a faziam parecer desproporcional, seu cabelo era quase uma palha sem brilho e falando em brilho, o de seus olhos morria tão cedo numa conversa, que seria capaz de fazer parecer com que ela estava num velório.
dannel já havia deixado claro que as coisas acima não eram seu tipo. não com essas palavras, mas winnie preferia não ser muito gentil consigo mesma. então porque jack cole ainda não?
— and then i totally shot barack obama and wow, what a day!
winnie arregalou os olhos, quase engasgando na própria saliva ao ouvir as palavras de jack.
— sorry, sorry! — jack exclamou, sem conter suas risadas. permitiu-se sorrir um pouco, e até mesmo soltar uma risada baixa de si mesma — i just had to get your attention somehow. are you okay? you’ve barely said a word tonight.
— i’m really sorry — winnie grunhiu, escondendo seu rosto nas mãos por alguns segundos antes de rir de si mesma de novo — i’m just a bummer like this, sorry. i’m not used to being fun and spontaneous like holly and sean. around this time on a saturday, i’m in my bed watching house of cards and pretending kevin spacey didn’t ruin the show.
— i think you’re the coolest, honestly — jack disse, dando de ombros casualmente — really, you’re a blast. i just... don’t think you wanted to be here.
— honestly? like i said, all i wanted was to be in my bed watching house of cards.
— no, i think you wanted to be with somebody else. somebody who happens to not be me — jack riu pelo nariz.
ugh, fuck. que porra holly e sean estavam fazendo? fabricando as cervejas? com a expressão de surpresa, de alguém que realmente não esperava uma indagação daquelas, olhou na direção do bar a procura dos dois amigos.
— you do know they’re never coming back, right? sean is a good wingman, he probably left like twenty minutes ago.
winnie voltou o olhar para jack novamente. ela raramente havia estado em uma situação tão estranha quanto aquela em sua vida. parecia que estava vivendo em um universo paralelo, um universo em que estava sentada ao lado de um jogador de lacrosse bonito numa mesa de bar e discutindo seus problemas amorosos.
— i really am sorry, jack. i didn’t want to waste your night — respondeu depois de algum tempo de silêncio — to be really honest, the only reason i am here is because holly threatened to call my parents.
— ouch! — jack exclamou, colocando a mão sobre seu peito fingindo ter recebido um golpe. wyatt também ia gostar de jack.
— no, i didn’t mean it like that, i... you’re a really nice guy. you are. i just...
— like someone else? — jack completou — that’s easy to notice. you looked at me like i was the most uninteresting person in the world when we got here.
— maybe you are and this has nothing to do with someone else — winnie brincou, tentando aliviar o clima.
— ouch, west, jesus! you wanna kill me or what? — jack rebateu rindo, e era o que faltava para que uma parte do estranho peso da noite saísse dos ombros dela. não era mais um encontro esquisito, agora era só... uma conversa de colegas. quem sabe algum dia amigos — he’s a lucky guy, that kane boy. and don’t try to deny it, because i may look stupid, but i sure as hell am not.
não havia muito objetivo em tentar negar. jack não ganharia nada passando aquela informação adiante e winnie não sabia se tinha como ser mais humilhada do que dentro de sua própria mente.
— they don’t make dumb jocks like they used to, what a waste — winnie riu — and i’m not sure about the lucky part. he doesn’t really...
enquanto ela falava, o sino na porta do malone’s tocou, e winnie ergueu os olhos na direção da porta meramente e apenas pelo instinto. como quando você ouve o seu nome sendo chamado mesmo sabendo que está chamando outra pessoa, ou quando alguém diz o nome dos seus pais e você tem que olhar. e então foi como uma montagem triste de um filme medíocre.
o nome dela era victoria novak, e ela era a garota mais bonita que winnie já tinha visto em sua vida inteira. talvez não tão bonita quanto lyla frost e gia gardner, mas muito bonita. agressivamente bonita. vicky era uma aluna de história da arte, que parecia ter saído diretamente de um catálogo do pinterest. e naquela noite, havia saído também com dannel montoya-kane.
winnie não via dannel há... 13 dias e meio. e é claro que ela havia contado, para deixar tudo ainda mais patético. as vezes, quando estava sozinha à noite, pensava no que ele estaria fazendo. se estaria sentindo sua falta. em algum lugar de sua mente profundamente perturbada, winnie west imaginava se dannel kane estaria pensando nela. patético.
— ...feels the same. he doesn’t really feels the same — completou a frase que havia deixado pairando no ar. jack pareceu notar o olhar congelado de winnie na direção da porta e virou-se sem a menor discrição.
— oh. oh, damn. listen, do you wanna leave? — jack voltou-se para winnie novamente.
— no. yes. i- listen, your frat is all the way across the campus, you don’t have to do this. i live just a few blows away and it’s only 9pm. i can walk myself — winnie levantou-se bruscamente de sua cadeira, empilhando seus casacos e sua bolsa em um braço — thanks for the night, jack, sorry that i’m such a fucked up company.
— no need to apolog—
mas winnie já estava saindo pela porta. fez uma observação mental de mandar uma mensagem para jack se desculpando pelos seus modos horríveis. mas se precisasse ficar ali mais um segundo iria destruí-la e ela não precisava mais disso. parada do lado de fora do malone’s, winnie respirou fundo, muito fundo, tão fundo que parecia que seus pulmões iam explodir. e fez isso uma, duas, três vezes até que... até que não parecesse que ela estava se sufocando.
winnie sonhou com dannel no décimo oitavo dia desde o fatídico acontecimento.
ela sonhou com ele a puxando para perto. sonhou com ombros largos, com puxar a camiseta — sua favorita, uma camiseta azul marinho que fazia com que dannel parecesse saído de um livro do nicholas sparks — de cima desses ombros, e empurrá-los contra a parede. sonhou com mãos pesaddas e dedos que se afundavam na pele nua de sua cintura, que escorregavam até chegarem em suas coxas e a erguiam no ar. sonhou com sorriso dele no escuro, com ele abrindo cada botão da sua camisa devagar. sonhou com sussurros pouco comportados contra seu ouvido, com uma respiração quente deixando um traço invisível em sua pele, com uma boca molhada tracejando o mesmo caminho indo e voltando por suas costas, seus ombros, seu peito. sonhou em fazer pedidos e ele realizá-los, sonhou com ele dizendo seu nome, com ele em cima dela, embaixo dela, dentro dela.
e acordou com holly gritando seu nome.
— are you okay?! you started to move and sweat and make some weird noises — holly estava com o rosto a centímetros do de winnie, bem como um mãe checando uma criança que teve um pesadelo. pena que não havia sido um pesadelo.
— i’m fine. sorry, i didn’t mean to scare you — winnie engoliu em seco, empurrando holly para o lado e sentando-se na beirada da cama — what- what are you doing? — perguntou confusa, ao ver a mala de holly na porta.
— my train is about to leave, duh. winter break, remember? earth to winnie, helloooo?
— your train- oh, shit! fuckshitfuck! what time is it?! — winnie pulou da cama, dando de cara com a janela do dormitório e uma noite escura — i slept all day?!
— you needed it, hon. you've barely slept since... uh, well, a couple of weeks — holly estava sendo extra cuidadosa para não tocar no nome de dannel, jack, ou o que quer que houvesse acontecido naqueles dezoito dias. fazendo uma pausa na fala, continuou a organizar suas coisas apressadamente — there's still an hour until your bus, so... freshen up, take care of yourself and don't forget to call me, alright? i love you! see you after the break!
e assim, winnie estava sozinha em seu dormitório. respirou fundo, levantando-se da cama e olhando a neve cair devagar pela janela. o recesso de inverno já estava ali e ela lidaria com ele com perfeição... mas o recesso de dannel... era uma história totalmente diferente.
I'll be home for Christmas You can plan on me Please have snow and mistletoe And presents on the tree Christmas Eve will find me Where the lovelight gleams I'll be home for Christmas If only in my dreams
A pior nevasca da década. Ou pelo menos foi o que os jornais disseram naquela manhã, enquanto ela arrastava sua mala na direção da porta e ralhava com Shogo sobre o fato de ele não estar a ajudando com isso. Ela conseguia ouvir a voz dele, baixa e abafada através da porta, contando para Nastya Lokidottir sobre a hora em que eles iriam chegar ao JFK, e que antes das duas da tarde eles já poderiam se encontrar para falar sobre as idiotices que perdedores falavam (última parte gentilmente adicionada por ela própria enquanto largava a mala na porta e bufava de ódio, encarando a porta fechada do quarto de Shogo). Foi quando resolveu dar atenção para a TV.
Shogo e Gia mal abriam suas janelas, elas estavam sempre cobertas por pesadas cortinas escuras e que constantemente os faziam errar qual era o clima do lado de fora. Duvidando das palavras da repórter, Gia pulou a mala de Shogo – que ele já havia deixado arrumada e esperando na porta na noite anterior, ao invés dela que arrumara sua mala faltando exatamente trinta minutos para saírem para o aeroporto – e andou em direção a janela da sala, puxando as cortinas e se deparando com... A pior nevasca da década.
“75% of the flights are already cancelled, and if you, like thousands and thousands of californians are heading towards the airport, you should check with your flying company if your flight is still happening. So far, all the flights by Delta Air, JetBlue and United Airlines were cancelled”, a voz da repórter se fez mais uma vez, fazendo Gia congelar no lugar. Ok. Eles haviam comprado as passagens meses antes, American Airlines, ela se lembrava perfeitamente, e a American Airlines não havia cancelado todos os seus voos, então ainda havia um estilhaço de esperança.
— Shogo! — Gia berrou, enquanto corria até sua bolsa e procurava seu celular. A única resposta que teve de Lee foi continuar ouvindo ele a tagarelar com Nastya Lokidottir ao telefone — Shogo, now!
— I’m on the phone, can’t you just wait?! — Shogo reclamou de trás da porta, murmurando algo inaudível em tom mais baixo que Gia não precisava ser um gênio para saber que era alguma reclamação sobre ela sendo feita à santíssima Nastya. Sem se dignar a responder, Gia alcançou o objeto mais próximo – um caderno do próprio Shogo – e lançou na direção da porta, ouvindo ele soltar um grito abafado de susto. Pareceu surtir efeito, porque ele finalmente se despediu da gótica sem senso de moda e segundos depois, abriu a porta sem delicadeza nenhuma, pronto para uma briga pré- voo. Exceto que... Talvez não houvesse voo – What the fuck, Gia?!
Em silêncio, Gia apontou para a janela. E foi o suficiente para Shogo entender.
— Yeah. Alright. Yeah, I see. Thank you.
E foi assim, quando Shogo colocou seu celular em cima da mesa devagar e desconectou da eterna ligação com o atendimento ao cliente da American Airlines, que Georgia Gardner soube que passaria o Natal em solo californiano.
Guy entendeu. Guy entendeu, e disse que eles poderiam comemorar o Natal depois, que todos sentiriam falta dela e que ele iria guardar um pedaço de torta de coco para ela. Que o bar estava bem, que os clientes sentiam falta dela. Disse que a amava muito e que estava tudo bem.
Mas não estava nada bem.
— What do you want to eat? — Shogo perguntou, aparecendo na porta do quarto de Gia depois de horas de silêncio.
A informação de que o voo deles havia sido cancelado fora dura com os dois. Gia sabia que Shogo estava com saudade de sua mãe (e de seus amigos, e de sua vida em Nova York, assim como ela), que mal esperava para vê-la depois de tanto tempo já que os dois haviam passado praticamente o primeiro semestre inteiro sem voltar para Nova York. Depois que Shogo desligou o telefone, e explicou explicitamente o que havia acontecido (“They just decided that no flights are wheeling up until tomorrow. The airport is shutting down until further notice”), cada um retornou para seu quarto e lá ficaram em silêncio. As malas ainda estavam no mesmo lugar, próximo à porta, juntamente com a esperança dos dois de que o gelo nas pistas fosse derretido, as pistas consertadas, e os voos liberados magicamente. Um milagre de Natal.
— Not hungry — Gia respondeu, ainda com as costas viradas na direção de porta, abraçando seu travesseiro de olhos fechados. Alguns segundos depois, ouviu a porta se fechar atrás de si e sentiu um peso afundar o outro lado de sua cama — I said I’m not hungry. Just go fucking chat on the phone and get out.
Sabia que ele não merecia aquele tratamento. Ele estava tão chateado quanto ela em estar preso ali, e não era culpa de Shogo se ele tinha com quem conversar por horas no telefone. Horas. Mas, ugh, no segundo em que as palavras saíram da boca dela, Gia já queria as retirá-las. Aqueles meses com Shogo a haviam feito propensa a desculpas, a sentir vontade de se redimir, a um tipo de ética com a qual ela nunca havia se importado. E talvez por isso, por nunca ter feito antes, fosse tão difícil. Deixou que o gosto amargo continuasse na boca, como faria muitas vezes depois daquilo, ao invés de pedir desculpas.
— You need to eat — Ouviu Shogo dizendo, em tom mais baixo e um pouco mais brando, como se as palavras dela tivessem tido algum efeito. Gia só não sabia qual, ou como.
— I said I’m not hungry! — Ainda sem virar, Gia apenas pegou o travesseiro que estava em seus braços e lançou na direção que imaginava ser Shogo, antes de fechar os olhos com força novamente. Ainda estava com a mesma roupa da manhã, uma calça jeans, o moletom da Caltech e nem ao menos o par de tênis havia tirado — Just go!
— If you eat, I’ll go.
“Who says I want you to go?”.
O pensamento fez Gia corar, e depois corar mais simplesmente pelo fato de ter corado. E antes que ela pudesse começar um overthinking, o silêncio fez com que Shogo se manifestasse novamente, a voz ainda mais baixa.
— I can make you something, Gia. Come on. It’s already eleven and I didn’t even see you having lunch.
Gia sabia que não deveria sentir aquele calor estranho no peito com o tom de preocupação, uma ponta de admiração de que aquele garoto, que estava sentindo a mesma angústia brutal de estar no lugar errado naquela noite, ainda sim, se oferecer para preparar algo só para que ela não morresse de fome.
Rolou na cama devagar, e abriu os olhos quando estava de frente para Shogo, que a observava com o olhar brilhante e curioso, coberto por alguns fios de franja. No breu do quarto, iluminado apenas pela luz fraca da rua, eram iguaizinhos ao que ele tinha quando era uma criança.
— Fine.
É o primeiro Natal dos dois longe de... Casa.
Ela não sabia se essa era a palavra certa para usar. Casa. O que era estar em casa, afinal? E por que ela sentia tanta falta? Pois quando ela estava em tal casa, não importava quanto tempo ela passasse longe dela, no minuto em que pisava os pés ali queria estar em outro lugar. Quando Guy sumia em suas missões, quando Guy sumiu de fato, quando Guy estava lá. Gia nunca gostava daquele apartamento no Queens, não importava quando ou quem estivesse lá. Nunca havia sido sua casa, nunca havia sido seu lar. Então não era isso.
Já Shogo, ela entendia. Casa para ele era... O cheiro de bolo fresco da padaria duas esquinas abaixo. O som dos videogames na sala. Os porta retratos distribuídos por cada prateleira, os quadros vanguardistas em cada parede. Amigos sentados pelos sofás, amigos apoiados nos balcões da cozinha, amigos. Casa para Shogo eram noites de pizza rodeado por pessoas, era o conforto de saber que estava no lugar certo na hora certo, era... Sua mãe.
— I’m sorry. That... Things didn’t work out the way they should — Gia murmurou, depois de engolir uma mordida. Havia tacos congelados no freezer (como se eles já não comessem tacos descongelados o suficiente) e eles aqueceram por alguns minutos no micro-ondas. Era ridículo. As tortilhas estavam moles e o recheio era estranho e enjoativo, mas Gia não podia negar que estava com fome e comida do Natal com o Lanternas não seria muito diferente.
— I... Thanks. I’m sorry, too. That you couldn’t be home tonight.
A palavra fez Gia se movimentar desconfortavelmente na cadeira, antes de dar um gole em sua coca cola.
— You okay? — Shogo perguntou, a observando por trás dos fios de franja que caíam na frente de seu olho.
— I... Miss my dad. But I don’t miss home. Not even sure if I’m supposed to call it home — Gia suspirou, cruzando os braços e encarando o tampo da mesa. Espalhado por ela, existem bilhetes de semanas atrás, anotações de lápis, de caneta permanente, datas, números de telefone. Ela e Shogo simplesmente nunca compraram um quadro de avisos (ou melhor, Gia disse que era “lame” demais) e usavam a mesa para deixar mensagens urgentes um para o outro, anotar lembretes, listas de compra, endereços e todas as coisas que seus conturbados cérebros dedicados à programação e videogames não conseguiriam.
— Well... It is your home.
— What is home anyway? — Gia respondeu, ainda sem levantar o olhar das anotações diversas. “Buy cherry coke”, num canto, com sua caligrafia. Gia esboçou um pequeno, minúsculo sorriso para si mesma. Na semana passada, havia deixado ali para que Shogo soubesse que a última garrafa de seu refrigerante precioso e potencialmente perigoso para órgãos internos havia acabado. Poderia ter deixado que Shogo notasse sozinho, poderia ter deixado que ele abrisse o armário e se chocasse com a visão de uma prateleira com zero latas de cherry coke. Mas, seu primeiro pensamento no instante em que não as encontrou no armário, foi de avisar Shogo — Hm. Home. It’s a roof to live under? It’s a place where you feel like yourself? That place is neither of them, trust me.
— Merry Christmas, Gia.
Então, aparentemente, enquanto seus olhos liam os recados escritos na mesa, que agora não tinham sentido nenhum em sua cabeça, mas em algum momento foram imprescindíveis; o relógio chegou à meia noite. Gia ergueu os olhos da mesa, ainda com a pergunta em sua cabeça. O que era casa? Era um teto para se viver? Uma cama para se deitar, um sofá para esticar as pernas e assistir gameplays de três horas? Eram embalagens de comida chinesa duvidosa empilhadas ao lado do lixo da cozinha, eram pratos descartáveis que destruíam o meio ambiente estritamente para não ter que lavar a louça, eram pares misturados de sapatos largados ao lado da porta? Eram anotações de aulas completamente em branco, soltas na mesma cadeira há meses? Eram controles de videogame cuidadosamente posicionados no móvel, jogos organizados milimetricamente por ordem de preferência (preferência de quem?), a TV que já ligava no canal certo? Era o sinal de wifi com um nome engraçado, um agasalho dividido entre duas pessoas, as escovas de dentes jogadas de forma descuidada na pia, a marca de pasta de dente favorita (favorita de quem?)? Eram joelhos que se encostavam acidentalmente, o queixo no topo de sua cabeça enquanto dois pares de olhos encaravam as notas no quadro de avisos da faculdade, frozen yogurt de qualidade duvidosa e mountain dew com cherry coke? What was home?
— Merry Christmas, Shogo.
Era uma pessoa?
Zeke McCoy's phone [01/??]