FONE DE OUVIDO #2_Caio Prado: Anjo Torto
Por Magnólia Calegário
Conheci Caio Prado vendo no YouTube o programa de calouros Ídolos, um dos diversos exemplares de programas brasileiros que ao procurarem “a nova voz da música brasileira” (The Voice), “um ídolo para o Brasil” (Ídolos), acabam se limitando culturalmente a aceitar apenas música brasileira. E quando o candidato aparece cantando algo de outro país na primeira audição, e é inegavelmente bom, nos próximos programas, misteriosamente, aparece em seu repertório músicas nacionais de qualidade duvidosa.
Mas enfim, tirando essa extrema limitação músico-cultural, assim como a falta de respeito com estilos não facilmente comerciais e lucrativos nas terras tupiniquins, a limitação músico-cultural desses programas fica ainda maior quando eles recusam a música brasileira de qualidade, apenas por não fazer o estilo “popular”. Com isso, quem perde é a parcela da população que ainda tem o sistema auditivo conectado aos estímulos cerebrais.
A audição [veja aqui] que vi de Caio aconteceu em 2010, e segundo o apresentador do programa Ídolos, Caio já tinha tentado outras vezes a façanha de ser “a voz do Brasil”. Caio é uma avis rara: ao cantar imprime tanta personalidade, que quase cria uma nova música. De uma mesma música, semitona, e chega a fugir completamente das notas, propositalmente. Timbre doce e delicado. Interpretação marcante e uma personalidade ímpar, como a de todo gênio.
Cantou a primeira música “Ai que Saudade D´ocê”. Desse jeitinho que eu falei que ele canta: criativo, semitonado, expressivo. Advinhem? Foi esculachado pelos jurados. Pediram para que cantassem outra música. Caio cantou: “Vapor Barato”. Dessa vez Caio foi na contramão e fez o politicamente correto esperado pelos jurados; se despiu de suas tão especiais imperfeições, de seu estilo de semitons e desenhos melódicos surreais. Fez como manda a cartilha da medíocre normalidade.
Veredicto: Após ouvir diversas piadas de mau gosto e comentários ridículos, os jurados soltaram algo minimamente “coerente”. Pelo menos dentro de um programa cuja estética é a que eu já havia apontado: limitação músico-cultural à algo que venda fácil. Prostituição barata da música, em suma.
O jurado Marco diz:
“Você não é um cara sem noção, porque você é afinado. Mas você passa do limite para o teatral”.
(Acontece que esse limite estreito que os produtores traçaram para a música brasileira, repetindo “ a fórmula que deu certo no ano/período anterior”, até essa se esgotar e criar-se uma nova fórmula para vender, não são os limites de Caio.
O jurado Calainho diz:
“Caio, tem que ver o que você ta a fim de fazer: para ir adiante nessa competição, você tem que buscar uma outra onda e não essa”.
(Sim, óbvio. Essa não é a onda dele MESMO.)
A jurada Paula diz:
“Você tem seu caminho. É só escolher. Hoje é não.”
(Até que enfim, alguém disse algo coerente).
Eis que nosso anjo torto continuou, para a graça de nossos ouvidos, e alçou vôo sobre toda essa normalidade banal, inexpressiva, cômoda e superficial. Vendo que os meios de comunicação de massa e as grandes produtoras querem vender, Caio usou a Internet. Aliás um dos grandes êxitos da internet foi limpar o ouvido de gente que não suportava mais o famigerado “mercado fonográfico”.
Para falar sobre o trabalho de Caio usei a música “Variável Eloquente”. Isso porque a música “Variável Eloquente” é toda o que Caio é, desde a letra até a última nota do arranjo. Existem músicas de Caio ainda mais belas que essa, por mais inacreditável que seja.
“Variável Eloquente” tem a letra que ensina mais do que qualquer coisa que já li ou ouvi na vida; cada verso é um “tapa na cara” de nós mesmos, uma reflexão existencial tão profunda, que alguns versos são pura tortura, uma vez que destroem certezas, coisas que acreditávamos ser sólidas; paradigmas inabaláveis da existência.
As melodias de Caio são belas, o que qualquer músico erudito chamaria de composição de alto nível. Entretanto, Caio mantém um pé no popular, sendo as canções rápidas, no sentido rítmico. Isso possibilitou/facilitou a criação de um belo arranjo musical de instrumentos clássicos (que só conseguem ser bem usados; só funcionam quando a melodia for boa, criativa, harmônica, melódica).
Para usar um exemplo crasso, temos a música/ruído “Metralhadora”, da cantora Vingativa. Lançada no ano passado. O violino na canção fez apenas 20 notas repetitivas durante a música. O arranjo da música era tão pobre (tanto na parte composição/partitura, escolha dos instrumentos até mesmo quanto na mixação dos instrumentos) que o violino poderia ser trocado por qualquer instrumento (até por uma corneta) que não faria nenhuma diferença estética. Acho que o fato de porem um violinista executando uma partitura pobre de 20 notas (menos da metade de uma página) na música junto com o arranjo horroroso e extremamente clichê foi para “inovar” no sentido de simplesmente inserir um instrumento clássico solando em uma música de axé (não estou dizendo que todas as músicas de axé sejam ruins, mas essa é péssima) ao invés de um saxofone sintetizado ou algo do tipo.
Voltando a nossa análise da música escolhida para descrever o trabalho ímpar de Caio; “Variável Eloquente”, temos que no começo o violão e o violino não estavam no mesmo compasso; entraram em mesmo compasso depois. O “errado” do começo deu o “charme Caio Prado” na canção. Houve o uso do violino distorcido (para parecer violoncelo e violino), violão clássico executando várias notas em curto espaço de tempo. Somado a isso, as melodias e letras de Caio. Eis a fórmula de uma obra de arte. E essa receita, cujo os ingredientes são a alma desse incrível artista, se repete nas suas outras músicas, criando um patrimônio artístico ímpar.
O som do batuque (isso mesmo!) do violino inicia a melodia, com Caio dançando uma dança que não existe, senão em sua própria alma e corpo. E sem se preocupar com o politicamente correto, nosso anjo torto alça vôo, ao som de um tambor feito de violino, que logo depois vira um violino feito de tambor.
Caio é tão intenso e único que é do tipo de Arte que se ama ou odeia. Ao mesmo tempo sua imensa singularidade musical torna escasso seu público, pois poucos se reconhecem em algo tão único, e é óbvio, poucos tem sensibilidade artística para reconhecer um trabalho musical de qualidade, não vamos mentir. Entretanto, algo me diz que Caio conquistará o famigerado espaço “cult” do mercado fonográfico; aquela constelação de deuses intocáveis como Djavan, Caetano e Milton, que você pode até não ouvir o som, mas ouve o nome, devido ao reconhecimento da alta crítica. Caio tem tudo para ser um dos maiores artistas da música nacional e mundial. Digo isso porque ele já é. Só falta falarem dele. Recomendadíssimo!
Ouça o álbum completo dele :)














