Mulheres e Agroecologia (Emma Siliprandi)
O livro analisa as trajetórias do envolvimento de mulheres de diversas partes do Brasil com a agroecologia, além de discutir conceitos fundamentais sobre ecofeminismo, família camponesa e produção agrícola e dar um panorama histórico da luta das mulheres nos movimentos sociais no campo.
As partes teórica e histórica são muito interessantes e dão uma boa compreensão do que é a agroecologia e sua relação com o feminismo. Mas são os relatos das mulheres que mostram como é esse relacionamento na prática. Não só aquilo em que acreditam, mas especialmente o modo como elas vivem e produzem, é emocionante.
A agroecologia é refutada muitas vezes porque os produtores cedem a pressões por uma produção mais comercial e de retorno imediato, com uso de veneno. Em razão de as mulheres serem as responsáveis quase sempre pela alimentação e pela saúde da família, elas rejeitam, com mais frequência que os homens, essa produção voltada para o agronegócio.
Os relatos mostram, por exemplo, mulheres que queriam melhorar a saúde familiar e acabar com a desnutrição na comunidade e que encontraram na agroecologia não apenas um modo de fazer isso, mas também de se afirmarem como sujeitas políticas. Nessa produção, elas têm voz e começam a participar das atividades sociais com poder decisório.
Muitas relataram a dificuldade em levar outras mulheres para participarem nos sindicatos e nos movimentos sociais, porque os maridos não querem que elas vão ou porque eles não dividem as tarefas domésticas e de criação dos filhos, dificultando que elas participem por falta de tempo. E quando elas conseguem ir, os homens raramente as tratam como companheiras de luta.
Alguns homens começam a demonstrar interesse pela produção agroecológica quando ela começa a dar retorno financeiro, mas em algumas comunidades, as mulheres decidiram que não vão aceitar a participação deles, porque fizeram daquilo seu ambiente seguro, onde podem falar de seus problemas e tomar suas decisões (elas concordam que quando os homens entram nos espaços, querem fazer as coisas do jeito deles e não as escutam como iguais).
A mobilização das mulheres camponesas desafia as instituições patriarcais e capitalistas e, por isso, essa é uma luta muito árdua. Elas lutam diariamente contra as construções sociais que as pessoas têm como naturais, e assim contra a família, o marido, a igreja, os próprios movimentos sociais e sindicais, o agronegócio e as grandes corporações que vendem sementes, agrotóxicos, fertilizantes etc, ou seja, não é fácil, mas vem acontecendo. E vem modificando o mundo à sua volta.