Tinha ouvido, ainda que baixo ela dizer que se tratava do pai, e agradeceu por ela não perguntar como ele sabia, anos de treinamento o fizeram a aprender se concentrar de longe e escutar as conversas das pessoas. Não respondia às palavras de defesa de Florence, não queria, não tinha forças, sabia aonde terminaria, com ela o lembrando que eles não tinham e nunca teriam nada. Sem se virar, ouviu o celular vibrar, ouviu a respiração da loira ficar entrecortada, se ele virasse iria correndo abraçá-la, dizer que estava tudo bem, mas não estava, tinha que por um fim naquilo, virou outro gole da bebida assim que ela saiu do quarto. Se sentou na cama aliviado, para sentir o seu celular alertando-o, tinha uma mensagem codificada de voz em um aplicativo escondido que ele tocou e se colocou a escutar as instruções da voz distorcida da gravação. Foi ao banheiro e tomou um banho, não longo, não curto, apenas algo rápido para esfriar a cabeça e trazê-lo de volta ao presente, não podia ficar se lamentando. Interfonou na cozinha e pediu que lhe trouxessem um café, abrindo a porta já vestido, ainda que com os cabelos molhados. Surpreendendo-se ao vê-la ali, tinha uma cara de choro misturada com nervosismo, assentiu com as palavras dela, não que se importasse com aquele trabalho estúpido na seleção, mas precisava manter a fachada. — Vamos… — Falou sem qualquer animação na voz pegando o celular esquecido jogado sobre a cama e saindo: — O que houve agora? Acabou o shampoo caro das selecionadas? — Perguntou irritado com a situação e com as demandas que lhe faziam naquele emprego. A seguia tentando mante-se distante, se a tocasse ainda que só relasse em sua mão sua razão se dissiparia e lá estariam o dois dialogando na cama de algum deles, não, não queria aquilo! Não mais! Não podia!
O simples ‘vamos’ dele fez seu coração palpitar mais rápido. Apesar de seu pai dizer que ela podia reconquista-lo facilmente ela não acreditava naquilo, ela havia deixado ele louco, havia dito que eles não eram nada, que não estavam juntos, mas agia completamente diferente, ela o queria mas era orgulhosa, medrosa demais para admitir qualquer coisa. Tinha medo de perdê-lo e por isso se afastava tanto, não quero sentir aquilo, não queria chorar por ele, foi tentando se afastar, foi negando o que sentia, foi por não querer amar que ela amava ele. Sim, Florance Wayne estava apaixonada por Noah Morissett, mas fora covarde demais, cega demais, para ver aquilo até aquele momento. Balançou a cabeça por um momento, não queria falar nada e arriscar estragar tudo, por isso apenas andou para fora da casa, sendo seguida por ele. O carro já esperava por eles, e bastou uma rápida olhada no banco de traz para ver tudo o que havia pedido ali. “Não faça perguntas difíceis, ele não me deu detalhes.” - Correu entrando no banco do motorista. Geralmente quando estavam juntos ela o deixava dirigir, mas não poderia hoje. Dirigiram em silêncio por 10 minutos até uma das praias mais bonitas que ela já havia visto na ilha. Com palmeiras, água cristalina e areia branquinha. Estava feliz com o fato de o por do sol na ilha ser por voltadas sete e quarenta e cinco da noite, pois eles não haviam perdido ainda. Ela contava com mais aquela cartada. Estacionou próximo a praia e saiu do carro. Pegou a mochila no banco de trás e começou a caminhar, na esperança dele a seguir. Tirou as sandálias e pisou à areia tentando se acalmar, mas a verdade era que ela tremia dos pés a cabeça. “Okay, acho que estamos no lugar certo. Ele nos mandou esperar. Disse que nos encontraria aqui.” - Abriu a mochila e tirou um cobertor de lá, estendeu no chão sentando-se e quando ele se sentou ao seu lado, ela entrou em pânico. Não sabia por onde começar, não sabia o que dizer. “Meu pai me ligou mis cedo.” - Começou, olhando o horizonte, não conseguia encará-lo. “Ele disse que queria me contar que ele é minha me estarão oficialmente separados na semana que vem e que ele finalmente contou para meu avós que ele é gay.” - Seu tom era simples, baixo, como se estivesse contando aquilo a um amigo. “Ele queria me contar pois ele viu a gente cantando na noite do karaokê, disse que nós dois fomos a fonte de coragem dele.” - Ela deixou um riso sem humor escapar por seus lábios. “Eu descobri que o casamento dos meus pais sempre foi uma farsa quando eu tinha 15 anos. Eles sempre foram amigos e minha mãe se casou com meu pai para ajudá-lo a enganar meus avós, e conseguiram, até que meus avós começaram a pedir por netos, e então meus pais procuraram os melhores médicos para uma inseminação artificial, e foi assim que eu nasci.” - Seu olhar estava preso no por do sol, enquanto ela abraçava os joelhos. Foi preciso reunir toda sua coragem para virar a cabeça dele e encontrar os olhos de Noah. “Eu não sei o que é o amor, eu não sei o que é amar, nem ser amada.” - Mordeu o lábio inferior, apoiando o queixo em seu joelho. “Você me assusta, Noah. Eu tenho medo de me envolver, de sentir tudo isso, de te perder.” - Confessou ainda olhando em seus olhos. “Eu sei que a culpa é toda minha e que ninguém merece alguém que não sabe o que quer. Mas eu sei o que eu quero, eu só tenho medo de querer.” - Engoliu em seco, sentindo seu celular vibrar em sua mão, estava na hora. “Eu não tinha percebido até hoje o quão assumir que estamos juntos parece significar pra você, então...” - Ela apontou para o céu parcialmente escuro, um avião passava carregando uma faixa grande, na qual podia-se ler: NOAH + FLOR = ❤️, escrito em tinta neon. Ela revirou os olhos, como aquilo era brega, nada a ver com ela. Logo em seguida os fogos de artifícios estouraram, preenchendo o céu, agora ainda mais escuro, com luzes, forma do um grande coração. “Você aceita namorar com essa pessoa medrosa e cheia de defeitos?” - Ela perguntou, mordendo o lábio e fazendo um grande esforço pra não revirar os olhos e rir.