[Pós-PT] Oh, take me back to the start | Murdwell | March 78
Aidan Murdoch nunca tinha visto o caos. Em seus trinta e poucos anos de vida, o irlandês nunca havia visto de perto uma cena similar a que presenciara na noite do Festival dos Fundadores no vilarejo bruxo de Hogsmeade. Nunca havia visto a morte, ouvido gritos de terror capazes de gelar sua espinha, presenciado o fogo consumir tudo o que via pela frente ou ver varinhas torturarem e tirarem vidas sem qualquer remorso. Era como se estivesse no inferno e não houvesse para onde correr, como se fossem animais presos e prontos para o abate. Como nascido trouxa que era, temeu pela sua vida como nunca antes havia temido. Foi capaz de manter sua irmã mais nova a salvo durante aquelas horas de horror, assim como uma ou outra pessoa que encontrava em meio a aquela confusão, mas nada poderia apagar de sua memória o que havia visto.
Naquela manhã em que acordou em um leito do St. Mungo’s, ele soube, assim que abriu os olhos, que não era mais o mesmo Aidan Murdoch de antes.
“Where is my sister?” Foi a primeira frase que conseguiu dizer, levantando-se muito depressa da cama de hospital e sentindo alguém empurrar seu corpo de volta para o colchão. “I’m here, dumbass. You have to stay where you are, you were injured and you need to rest.” O gryffindor respirou aliviado quando reconheceu Aileen ao seu lado, ainda com as roupas que usava no festival. Sua irmã parecia exausta e Aidan viu que havia um ferimento na lateral de sua cabeça mas, fora, isso, parecia estar bem ou não estaria de pé ao seu lado chamando-o de idiota por estar preocupado a seu respeito. “And Fionn? Have you talked to him?” Perguntou, ainda deitado e lembrando-se de que não havia visto o irmão desde aquela noite. Fionn Murdoch era um auror experiente e estava trabalhando com vários outros aurores do Quartel General para garantir a segurança do evento, mas Aidan pensou que nem mesmo os melhores bruxos poderiam estar preparados para o que presenciaram. “He is fine, just busy. He came to see you earlier but you haven’t woken up yet.” A mulher de cabelos loiros respondeu rapidamente, sentando-se na beirada da sua cama e olhando-o com uma expressão cansada. “And the boy?” Lembrou-se de perguntar, erguendo-se da cama por conta da súbita preocupação ao se lembrar do garotinho que resgataram em meio a escombros durante aquele pesadelo, sendo empurrado mais uma vez por Aileen. “He is better now, Aidan. You need to rest.” Disse Aileen com o tom autoritário na voz que lhe era tão característico. Aidan deixou o peso de seu corpo cair no colchão fino e um tanto quanto desconfortável, afundando a cabeça no travesseiro e respirando profundamente, aliviado com o fato de não existirem notícias ruins. Sim, ainda tinha uma grande quantidade de amigos e conhecidos que sabia que estavam no Festival e que gostaria de saber a respeito deles, mas sua família estava bem e era isso o que importava. Por enquanto.
Aileen despediu-se momentaneamente afirmando que iria buscar um pouco de chá e Aidan foi deixado sozinho com seus pensamentos. Só então se deu conta das dores espalhadas por todo o seu corpo, a sensação de exaustão deixando seus músculos pesados e a impressão de que havia sido surrado por horas a fio. Havia uma sensação de ardor na parte esquerda de seu corpo, como se sua pele fosse muito sensível para suportar o toque de suas roupas ou da roupa de cama, além de dores que pareciam vir do interior de seus ossos, mas Murdoch não decidiu averiguar a fundo os próprios ferimentos naquele momento.
O irlandês fechou os olhos e levou uma das mãos a testa, esfregando a ponte do nariz enquanto se esforçava para não reviver aquela noite de domingo. Pensou que gostaria de tocar piano quando tivesse a oportunidade, que visitaria os pais assim que deixasse o hospital para abraçá-los e que daria tudo para estar observando o mar e ouvindo o barulho da água salgada chocando-se contra a areia.
E então lembrou-se dela e foi como se um choque elétrico tivesse passado por todo o seu corpo.
Levantou-se de sua cama quase que imediatamente, sentindo seu corpo protestar mas ignorando totalmente as fortes pontadas de dor que o fizeram franzir o cenho por conta do incômodo. Os Healers e MediWizards estavam tão ocupados com a exagerada demanda que era necessária do Hospital depois do Ataque a Hogsmeade que nem ao menos repararam no paciente que deixava o leito para trás e tomava o corredor ou se incomodaram quando Aidan os abordou para perguntar onde poderia localizar uma determinada pessoa. Foi orientado a seguir para a recepção do andar, onde uma bruxa tinha a relação de nomes dos bruxos e bruxas internados em todo o hospital. Foi lá que descobriu que Florence Cauldwell estava em um andar diferente do seu.
Murdoch procurou por ela pelo que lhe pareceu uma eternidade. Entrou de quarto em quarto, espiando discretamente os leitos na esperança de reconhecê-la. Estava começando a sentir um certo desespero apertar seu peito quando estava chegando ao final do corredor e não encontrara qualquer sinal da garota, sua cabeça começando a trabalhar em um milhão de possibilidades que só o faziam ficar mais tenso e preocupado. Então seus olhos azuis recaíram no rosto conhecido e ele arfou de alívio.
“Florence?” Chamou por ela enquanto se aproximava de seu leito, os olhos percorrendo cada centímetro de seu corpo para saber se ela estava gravemente ferida ou não. “Merlin, I almost panicked while looking for you. Are you alright? Are you hurt?” As perguntas eram urgentes e seu tom demandava uma resposta imediata, como se não conseguisse respirar novamente se não ouvisse ela dizer que estava bem. Estava tão absolutamente preocupado que nem ao menos se lembrou de que não se falavam há mais de um mês e que esteve ignorando as cartas dela desde que as mentiras de Cauldwell acabaram sendo finalmente reveladas.
That didn’t really mattered to him at that moment because the only thing he could think of was her and how he felt his chest aching when he couldn’t find her.
A única coisa da qual Florence Cauldwell tinha certeza no minuto em que acordou era que sua cabeça doía. Muito. E seu braço doía menos. As duas constatações previamente mencionadas foram feitas quando a hufflepuff recobrou a consciência, ainda com as pálpebras dos olhos pesadas demais para que conseguisse vencê-las e abri-los. Assim que o fez, determinou a terceira constatação: estava em St. Mungus. Assim que assimilou essa informação, nos milésimos de segundo em que seu cérebro de fato registrou que estava no hospital para bruxos, as lembranças dos dias - dias? Há quanto tempo estava ali? - anteriores a invadiram como o avanço da lava de um vulcão em erupção: irrefreável e sem volta.
Acordou por conta de mais um pesadelo. Ou melhor: mais um flashback da tortura. Deve ser o segundo em uma mesma madrugada. Suas pálpebras levantam devagar, sonolentas. A escuridão é tão intensa que manter os olhos abertos não faz diferença alguma. Florence solta um suspiro de impaciência, já não alimenta a esperança de ter sonhos tranquilos. Sequer lembrava-se de quem a havia torturado. Mas, ah, a tortura não tinha como ser esquecida. Como um acampamento tão tranquilo como aquele se transformou em uma lembrança tão macabra? Tudo porque não havia nascido em um leito originalmente mágico.
O braço esquerdo levantou-se em um impulso e hábito para secar a lágrima que caiu silenciosamente sobre a bochecha rosada de Cauldwell, apenas para parar no meio do caminho pela dor e também ao senti-lo imobilizado. Teria que se acostumar mais a usar a mão direita. Não que fosse canhota, mas, ao longo dos anos, achou prudente pelo menos saber fazer tudo com as duas mãos. Nesse movimento, notou a mesa ao lado de seu leito com flores no tom de rosa mais bonito que Flor já havia visto. O cartão, claro, estava assinado com a caligrafia perfeita da melhor amiga, Maureen Dowson. Suspirou novamente, pela segunda vez, mas agora não de impaciência, e sim de verdadeiro alívio. Maureen estava bem. O barulho da cortina que isolava seu leito dos restantes assustou a hufflepuff, que secou novamente as lágrimas antes que seu visitante pudesse vê-las. Para sua surpresa, parado ao seu lado estava Aidan Murdoch.
Aidan Murdoch. Aidan Murdoch?
Cauldwell piscou novamente os olhos – a chance de estar sonhando era grande, mas, pelo menos, aquele era um sonho de verdade, não o pesadelo que antes estava tendo. No entanto, ele não desapareceu. Continuava ali, com uma expressão verdadeiramente preocupada. Como se Florence fosse importante para ele. Bem, só poderia ser um sonho mesmo. Depois de meses sem sequer uma notícia dele, aquele sonho era suficiente para que a hufflepuff aguentasse mais alguns. “I’m physically fine, except my arm.”Respondeu aos questionamentos urgentes de Aidan, temendo o que aconteceria se não o fizesse. Aidan estava agitado, com pressa, preocupado. Só sinais de que aquilo certamente era um sonho – o que não significa que Florence estivesse confortável para expor assim, facilmente, o que o garoto loiro lhe fizera durante o Festival dos Fundadores (nem ela sabia precisamente). “What are you doing here? Are you okay?” Era desnecessário dizer que sentia sua falta, ou perguntar o que andara fazendo nos tempos em que não se falaram. Era um sonho, afinal, nada mais que isso.











