[Flashback] A higher place | Aidan, Florence & Maureen | January 78
Se meses atrás alguém lhe dissesse que sua vida se desenrolaria da forma que tem feito nas últimas semanas, Maureen jamais acreditaria. A hufflepuff provavelmente teria uma crise de risos, provocada principalmente pelo nervosismo que aquele assunto despertava do que por qualquer outra coisa, se faria de incrédula e fingira que aquilo não era o que ela havia desejado por tanto tempo. Mas ali, caminhando pelas ruelas de pedra de Hogsmeade e incapaz de esconder o sorriso bobo que surgia em seu rosto somente quando ela o encontrava, Dowson se deu conta de que nunca, em um milhão de anos, suspeitou que estaria caminhando por aquelas calçadas tentando não deixar estampado na cara que esteve com ele e que seus cabelos ligeiramente assanhados e suas roupas um tanto quanto amassadas denunciavam o que estivera fazendo naquelas últimas horas na companhia de Vincent Rowle. Por um instante ela chegou a se perguntar se os colegas que a olhavam e a cumprimentavam com maneios de cabeça sabiam ler através da expressão feliz demais e das tantas outras pistas que podiam ser facilmente captadas por um bom observador, mas Maureen logo descobriu que ela não se importava. Ainda que aquilo ainda precisasse ser tratado como um segredo, por Merlin, porque se sentiria culpada por sua própria felicidade?
Com isso em mente, decidiu focar em sua busca por Florence Cauldwell, que havia sumido misteriosamente e parecia não estar em nenhuma das lojinhas que elas usualmente frequentavam quando visitavam juntas o vilarejo bruxo. Havia se despedido da melhor amiga mais cedo para se encontrar com Vincent e as duas combinaram de se encontrar horas depois na Praça Principal, mas depois de não achar a hufflepuff em nenhum lugar, Maureen estava tentando não ficar preocupada demais. Entrou esperançosa no Three Broomsticks, um dos últimos lugares que ainda não havia checado e, tirando o gorro de lã púrpura que cobria seus cabelos longos e escuros, colocou-se nas pontas dos pés e esticou o pescoço para procurar pela amiga entre os muitos bruxos e bruxas que tomavam uma bebida no salão do popular pub. Quase gritou quando reconheceu os cabelos loiros em uma mesa mais ao canto, deixando escapar um gritinho excitado antes de correr na direção da amiga, afoita demais para notar que Florence na verdade estava acompanhada.
“FLORENCE! Por Merlin, estava te procurando há um tempão e comecei a ficar preocupada! Entrei em tantas lojas atrás de você, até em umas que nunca fui antes, sabia? Você estava aqui esse tempo todo?” A hufflepuff falava rápido demais e olhava para a amiga de cima a baixo como se estivesse checando se ela estava de fato inteira, e só então ouviu uma voz masculina que a fez congelar em seu lugar e xingar a si mesma mentalmente como nunca havia feito antes. “Murdoch!” Maureen exclamou, virando-se na direção do homem com o sorriso mais sem graça do mundo. “Não tinha visto você aí!” Acrescentou rapidamente, dividida entre a vontade de esconder-se embaixo da mesa para sempre e surtar com o fato de que Florence estava com Aidan Murdoch. Em uma mesa do Three Broomsticks. Bebendo, conversando e parecendo mais íntimos do que nunca. E ela havia acabado de interrompê-los, Agrippa’s sake! “I’m so sorry.” Virou-se para a amiga mais uma vez, seus lábios mimetizando um pedido de desculpas sem que realmente o falasse em voz alta enquanto se decidia se continuava por lá ou fingia que aquilo não tinha acontecido e corria para o mais longe possível deles.
“I’m not a seer! You just… Look your age.” Ela deu de ombros, dando um riso nervoso que, se Aidan estivesse prestando um pouco mais de atenção, perceberia fácil que aqueles pequenos detalhes que Florence dizia eram mentira. Aquela mentira tentou reparar com um toque sutil sobre o suéter de vinho, mas que, com a proximidade dos dois, adquiriu uma intensidade muito maior do que a planejada precisou realmente se esforçar para afastar os dedos do calor de Aidan. “Sorry, forgot how you Irish people are with drinks. I, on the other hand, am very weak for alcohol and…” Justo quando ia começar a falar e falar sem parar, como geralmente fazia quando estava empolgada com alguma coisa, ou nervosa, Aidan envolveu sua mão com a dele – Florence notou como tinha a mão pequena se comparada à do músico – e Cauldwell já sentia como se estivesse pensando através de uma névoa. O aparentemente inocente carinho de Murdoch no seu pulso foi responsável por um choque de calor no seu corpo e a fez engolir em seco pela expectativa, sem saber o que responder à declaração clara que queria beijá-la. Merlin, she wanted it too, so much.
O coração dela ainda batia rápido, rápido demais, como se a cada milissegundo em silêncio, com Aidan Murdoch fitando seus lábios e deixando claras suas intenções, acelerasse ainda mais. Poderia ser dito que Florence Cauldwell estava nervosa, de fato, mas também estava cheia de expectativa — ela só não queria pensar também no fato de que Aidan estaria cheio de expectativa, era nova demais para que aquilo não criasse um bolo no seu estômago. Mas há algo que os humanos chamam de “Lei de Murphy” e, embora seja algo totalmente fictício (pobres humanos, escolhem acreditar em tantas besteiras), Florence acreditava muito naquilo, em situações específicas; quando ela ficava com medo, tinha certeza absoluta que o pior aconteceria, não importava o quê. Mas, e aqui leve em consideração seu coração batendo rápido e suas mãos suadas e sua expectativa, ela se sentia tranquila. Porque também há algo que os seres humanos chamam de “paixão”, e isso, por incrível que pareça, cura várias outras crenças bobas.
“FLORENCE! Por Merlin, estava te procurando há um tempão e comecei a ficar preocupada! Entrei em tantas lojas atrás de você, até em umas que nunca fui antes, sabia? Você estava aqui esse tempo todo?”
… Talvez não devesse ter descartado assim tão rapidamente a Lei de Murphy.
Florence Cauldwell amava sua melhor amiga, que também atendia pelo nome de Maureen Dowson. As duas se conheciam e se deram bem desde o primeiro contato no primeiro dia do primeiro ano em Hogwarts – muitos primeiros para uma amizade, a primeira verdadeira de cada uma das duas. Florence conhecia e sabia o que Maureen sentia com apenas um olhar, e a recíproca também era verdadeira. Se conheciam do avesso, de ponta cabeça e ao contrário. Mas, quando ouviu a voz da hufflepuff atrapalhando aquele momento, justamente quando iria beijar Aidan Murdoch, por um breve segundo pensou em como sentiria com suas mãos bem firmes ao redor do pescoço de Reena.
Contou até três antes de retirar sua mão de baixo da de Murdoch e levantar o rosto para a melhor amiga, provavelmente uns três tons mais vermelha por toda a situação. “It’s okay, Reena. We were just… talking.” Virou-se para Aidan em busca de alguma ajuda, apoio ou qualquer sinal que significasse que ainda tinham alguma chance.
Enquanto olhava fixamente para os lábios finos e bem desenhados de Florence Cauldwell e se perguntava se eles realmente eram tão macios quanto aparentavam, Aidan Murdoch pensou que nunca desejou tanto beijar alguém em toda a sua vida. Com trinta e três verões e uma carreira musical bem sucedida em sua bagagem, o irlandês certamente tivera a chance de conhecer mulheres maravilhosas ao longo de todos aqueles anos. Durante seus tempos de Hogwarts, ele havia sido o rapaz charmoso de voz melodiosa que sabia tocar violão como poucos e que conseguia convidar uma garota para sair sem muitas dificuldades. Foi exatamente essa desenvoltura com garotas que lhe trouxe a namorada dos tempos da escola, e era ela novamente que era culpada pela quantidade de moças com quem se envolveu quando seu nome se tornou conhecido por todo o Reino Unido durante o auge de sua carreira artística. E apesar de ter engatado um relacionamento sério de muitos anos (que logo se transformaria em um desastre, mas isso era uma história para outra oportunidade) pouco tempo depois da banda da qual fazia parte tocar em todas as rádios, ele ainda não se lembrava de ter desejado tanto sentir os lábios de alguém quanto desejava naquele exato momento. “Florence, I...” Ouviu a própria voz soar baixa e rouca quando aproximou-se um pouco do rosto dela, permitindo-se tocar o seu queixo e esquecendo-se rapidamente do que iria dizer quando seus olhos recaíram sobre a boca dela mais uma vez. He wanted to kiss her. God, he wanted to kiss her so bad...
Mas as coisas nem sempre tomam o rumo que desejamos e no instante seguinte ele ouviu uma conhecida voz esganiçada ecoar em seu ouvido e foi como se a realidade o tivesse atingido com um balde de água fria. Maureen Dowson o fez, na verdade.
“Hullo there, Maureen.” Murmurou, tentando parecer simático ao ajeitar-se em sua cadeira e virar o rosto na direção da moça de cabelos escuros que Florence disse ser sua irmã logo quando se conheceram há um mês atrás. Aidan tentou (sim, tentou de verdade) sorrir e parecer contente em rever Maureen, mas na verdade ele queria mesmo era despejar todo o seu whisky na moça ao seu lado. “Actually, not quite. it would be a sin to waste such a good whisky.”, concluiu mentalmente. “It’s very nice to see ye again!” Mentiu, um sorriso sem dentes em seu rosto. Ficaria contente em revê-la em qualquer outra circunstância, é claro, mas não naquele exato momento. “Yes! We were just... ye know, talking. We ran into each other in front of the pub, actually.” Disse, virando o rosto para mirar Florence e notando o quão corada ela estava, sem realmente saber porque estava tentando explicar a Maureen o que estava acontecendo ou o que estavam fazendo. Talvez estivesse apenas nervoso ou desconfortável, não seria algo muito difícil de perceber a julgar pela expressão de seu rosto ou sua linguagem corporal. “So... are ye here to pick Florence up from work? Because if ye are, I will have to protest.” Comentou, seu olhar recaindo sobre a metamorfomaga enquanto um meio sorriso surgia em seu rosto. No, he would not let her go. Not now. Not ever.














