Ela traga fundo seu Lucky Strike, escorada na parede mal pintada, enquanto seus pelos se eriçam com a ventania e o cabelo se mistura com a fumaça. Um dos braços cruzado, protegendo o corpo e as unhas compridas arranhando o cotovelo. O pé bate impaciente na calçada, fita a rua pouco movimentada e o tom alaranjado do céu autunal.
“Quanto desespero.” A figura surge do nada em seu lado esquerdo. Os fios negros presos em um rabo, a barba pungente emoldurando o rosto de expressão forte. E o cobrindo, aquele velho sobretudo bege.
“Ah, você acha?” ela ironiza, arremessando a bituca calçada e os braços no pescoço másculo. Os lábios avermelhados ainda impregnados com nicotina encontram o sorriso torto acima da barba e as garras se prendem à nuca.
“Bom, você parecia afobada mesmo no telefone.” ele diz ao tomar fôlego, suas sobrancelhas se arqueiam. “O mercado está escasso?”
“Cala a boca.” A ruiva o fuzila com os olhos e começa a puxá-lo pela gola porta adentro. O lugar é imundo. Ela se apressa à recepção e troca uma dúzia de palavras com um homem magricelo, que lhe entrega a chave de um quarto nos fundos.
Este, digno de qualquer coisa naquele estabelecimento. A iluminação é precária, composta por apenas um abajur em cima do criado mudo ao lado da cama, os únicos móveis do cômodo. O rapaz abre a boca para fazer um comentário fajuto, mas é logo interrompido pelos dedos da moça.
“Só me fode logo. Por. Favor.”
O semblante dele muda em um instante em resposta ao olhar de súplica dela. Seu lado jocoso se vai, dando espaço ao lobo interior, que arranca as roupas da amante com agilidade.
Assim, logo se encontram nus em beijos desesperados, as garras dela puxando e arranhando por onde passam, como se agarrando uma mão salvadora em um penhasco. Ele procura dominá-la, espalhando seus lábios pela pele desnuda. Nos ombros, nos seios, no sexo… Até que ela o puxa de volta para cima pelos fios negros e ele entende o recado.
Seu pau desliza facilmente para dentro dela e logo inicia sua dança ao som de gemidos abafados. Ele busca os olhos de felino da garota, mas eles se fecham em outra realidade, em um estado alfa. Meditando em prazer, sensitivamente, abandonando os pensamentos e preocupações.
Ele acelera, os gemidos aumentam gradualmente e o rosto delicado varia entre o prazer e a dor, os dedos agora agarrando firme o lençol barato, a cabeça jogada para trás com os fios acobreados bagunçados.
Observando tal expressão, por um momento ele pensa em parar e diminui a velocidade, mas é logo repreendido. “NÃO PARA!”
O moreno, então, a vira abruptamente, deixando-a de quatro, e mete com violência, ele mesmo agora fechando os olhos, por saber do que ela precisa. Os gemidos dela então tornam-se descarados, exprimindo toda a dor necessária, atingindo seu ápice e finalizando em espasmos por todo o corpo pálido, sentindo seus fluidos se misturarem logo depois com o gozo do membro dentro de si.
As duas carcaças caem lado a lado na cama barata. Exaustos, não do ato em si, mas do que acabara de acontecer em um plano maior.
Ela se vira para o lado, imóvel. Recuperando o fôlego, ele se levanta, veste sua calça e acende um cigarro. Depois dos altos gemidos, o silêncio predomina no quarto.
“Passa a noite comigo.” O pedido, ou súplica, vem quase que inaudível da boca delicada estirada do outro lado da cama. Não há resposta. Ele termina o cigarro sem pressa, o apaga no criado mudo, ao lado do maço, e desliga o abajur. O quarto se inunda em escuridão.
Algumas horas depois, junto com o Sol, ela se levanta vagarosamente. Dá alguns passos e recolhe do chão o conhecido sobretudo bege, enrolando-o em seu corpo gelado. Apalpa o bolso interno até sentir uma pedra em formato de coração, a segura com força por alguns segundos e a coloca no criado mudo, trocando-a pelo maço de cigarros.
Caminha em direção a porta e abre a maçaneta precária. Enquanto a luz da manhã adentra a fresta e ela se esquiva para o lado de fora, pode observar a presa em seu sono profundo. Com a outra mão, ela acaricia o pingente de seu colar. O mesmo talismã em forma de coração lapidado em pedra-do-sol.
Em um suspiro profundo, a porta se fecha.
O lobo acorda com apenas a memória do perfume insensato ao seu lado, horas depois, drenado.