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Declarações póstumas
Antes de tudo, eu te amo. Sei que falei poucas vezes enquanto podia, mas também sei que todas foram especiais. E mesmo depois de tudo, e especialmente depois de tudo, eu ainda te amo.
Agora parece um pouco tarde mas preciso dizer o quanto você foi, e o quanto ainda é, especial. Com você ganhei coisas únicas, como uma nova visão do antigo mundo e os, vá lá, dois anos que tivemos um para o outro.
Ainda ganhei carinho, atenção, risadas... até mesmo uma priminha inquieta, que acho que perdi junto de todo o resto. Pois é, você faz muita falta, e eu não posso dizer que não sabia que isso aconteceria.
Assim, sofrendo, eu peço perdão por tudo que te fiz sofrer também, todas as vezes que eu soube e que não soube. Saiba que quando pude sofri junto, e quando não, quis. Sofro inclusive por ter te feito sofrer.
Antes, agora, depois, sempre desejei sua felicidade acima de tudo, até mesmo da minha própria. Perdoa, de novo, as poucas vezes que falhei em consegui-la ou as poucas vezes que, fora de mim, não soube agir para tal. por mais drásticas as consequências dessas ocasiões.
Aliás, uma delas que me traz aqui, te escrevendo essa carta por ser alguma forma de , talvez, te alcançar. Não alcançar sua mão e te puxar para um abraço, como tantas vezes, mas, talvez de alguma forma, te dizer o que quero.
Com ela, trago minha vontade de, um dia, onde quer que você esteja, e onde quer que eu esteja, nós estejamos bem, bem com nós mesmos, bem um com o outro, bem um sem o outro, um com o outro, bem. Só quero, na verdade, que você fique bem. Porque, com a licença de um pequeno egoísmo, só assim eu ficarei bem também.
Com todo o amor que sempre carregarei no peito,
Eu.
Vai dormir aí?
Já era tarde, mas não tanto assim. O tempo melhorara, mas não tanto assim. Ele já estava sóbrio, mas não tanto assim. Pelo menos o suficiente para notar que a chuva agora era só uma poça na varanda, e na varanda era também só a menina que ele sonhava a tanto tempo.
Estava apoiado no portal, observando a garota apoiada no peitoril, com tantas cenas passando pela sua memória que o passado já se confundia com o presente. Ela olhava na direção oposta e aquela visão lhe lembrava as tantas vezes que a vira passar pelo corredor, as tantas vezes que não tivera coragem de colocar uma palavra entre ele e começar o que tanto queria. Mas, apesar de não trocarem voz, olhares ele não medira, e não medira também se ela os devolvia. Culpa daqueles olhos. Aqueles olhos que brilhavam com o reflexo de todas as coisas que ela pensava e isso o fascinava de tal maneira que se tornava incapaz de enxergar, por mais que fitasse, se ele era um daqueles reflexos. Talvez esse brilho só se comparasse à luz que os fios loiros emanavam, ou à pele clara que lhe permeava a imaginação, ou à aura do sorriso que nunca faltava naquele rosto. E essa mente tão cheia e tão fértil o empurrava degrau a degrau em direção a ela, apoiava a caneca quase vazia em um canto qualquer, e o colocava bem ao lado da clareza que iluminava aquela noite, em companhia à lua nova. Como se de propósito ela demorou alguns instante para virar, e ele não a apressou. Quando finalmente o encarou, mesmo os muitos copos de coragem que tomara não o fizeram rápido o suficiente, ela deu inicio a tudo:
- Vai dormir aí?
Já era mais tarde ainda, mas para os dois se tornara cedo. O tempo melhorara ainda mais, para os dois fazia até calor apesar da chuva ter voltado a cair. Ele já estava completamente sóbrio, mas resolvia a situação naquele momento, se embriagando com a mulher que lhe arrancava os cabelos. E assim ele terminou a noite, em um colchão no chão, bêbado do perfume que tantas vezes apenas passara, e agora não deixaria ir embora tão cedo.
Ainda está aí?
O orvalho de chuva ainda molhava as folhas e flores que os cercavam. Ele e a menina passavam por corredores e galerias de árvores, por caminhos de cascalho e areia, por cenas e paisagens de contos e sonhos de fada. Toda essa magia sempre a cercava, e talvez fosse por isso que gostava tanto de acompanhá-la, por isso ou por ela estar sempre falando.
E como sempre a garota falava, sobre os filmes que o ensinara a gostar, sobre a poesia a qual ele ainda não havia se rendido e talvez sobre toda a energia que os cercava, assunto que encontrava seu tempo em todas as conversas que tinham. E como sempre ele escutava, caindo cada vez mais no redemoinho de encantos que ela tinha: A pele de mármore, o corpo esculpido e, a maior joia que vira nos últimos anos, seus olhos. Cada olhar tinha um poder imenso sobre sua mente e alma, o brilho radiante de um semblante bobo e feliz tornava leve qualquer nuvem escura e assopravam-na para longe juntos, enquanto quando carregava de malícia o par de pedras claras e lhe dava um rosto sério e certeiro algo se acendia dentro dele. Era tão fácil se perder ali que a situação era frequente, ela parava de falar, esperando uma resposta ou confirmação, e ele ainda não nadara para fora daquele oceano, fazendo-o ter que se desculpar assim que conseguisse chegar na praia. Mas talvez a culpa fosse dela, de ser tão forte, profunda e misteriosa como o mar, afinal, niguém é obrigado a ter força para fugir desse turbilhão, e muitos não querem ter. Ele era um desses muitos.
- Ainda está aí?
Só quando a mulher deixou sua voz voltar ao ar que conseguiu reparar que tudo se repetira, Pediu desculpas mais uma vez enquanto sentavam sobre a raiz de uma grande árvore e beijou-a. Apesar de ser algo que também se repetia com frequência, não se desculpou pelo beijo.
A culpa é do vinho
A chuva podia continuar caindo à vontade, isso era a última coisa com que ele se importaria. Aquela menina, ainda um mistério, era a primeira. Leu mais uma vez as curvas do corpo dela e repetiu seu movimento mecânico: dar o último gole, tirar a rolha, encher a taça, oferecer a ela. O vinho acabou antes que ele sequer sentisse seus efeitos.
O silêncio se prolongava enquanto os olhos se examinavam, ali já começava a disputa de forças. Apenas o gato traçando seus caminhos e as taças às bocas eram sinais de movimento. No olhar dele a vontade ainda contida mas já à beira da ação, no da garota o fogo que já queimava pela meia garrafa tomada. Novamente um último gole, depois o outro, e então o calor começou a se manifestar: camisa, cinto, calça, vestido, beijo, mordida. os mais poéticos diriam que as gotas de chuva que pingavam na janela evaporavam e que a luz que dali emanava não era de lâmpadas mas sim da paixão dos dois. Paixão quase batalha, era uma briga com dentes e unhas, uma dança com mais força que leveza, uma guerra de giros e suspiros. Como uma estrela, após um clarão, a calma. Como vencedor apenas o felino, único que ainda tinha fôlego para se mover, então os olhos se desafiaram novamente e a certeza de um novo duelo surgiu, ainda que sem data ou local. Ela foi a primeira a recobrar a fala:
- A culpa é do vinho.
Então ele riu, na dúvida se aquilo era verdade, na dúvida do que aquela mulher ainda guardava, se ele conseguiria ganhar a próxima e de onde estaria o bichano naquele momento. De fato, a única coisa de que ele não duvidava era que voltaria, e de que o próximo vinho seria ainda mais doce.
Lego®
“Poucas coisas podem ser comparadas à sensação de prazer que invade nosso corpo ao derrubar montes e montes de peças de lego® pelo chão. Aquela montanha de pequenos tijolos coloridos já excita nossa imaginação e já começamos a fazer os planos de tudo o que construiremos, as possibilidades são virtualmente infinitas, a liberdade é quase esmagadora e a ideia de não encontrar a peça necessária está distante.
Assim uma tarde se transforma na eternidade, ou melhor, na madrugada e o dia seguinte chega, com o cansaço ou não, mas a montanha ainda está enorme e mal começamos o primeiro degrau da base de nossa obra-prima. Mais um dia se passa e o progresso é lento, ainda não temos sequer o primeiro nível completo, essa noite não varamos debruçados sobre as pecinhas, vamos dormir talvez um pouco chateados com tamanha demora. Então sonhamos, um sonho antigo, ou recente, ou completamente novo, sonhamos com aquela estrutura perfeita já montada e atingindo nuvens à nossa frente. Então acordamos.
Olhando no canto do quarto o projeto recém iniciado temos apenas um dever, compreender que um dia aquele simples aglomerado se tornará uma perfeita construção. Devemos enxergar que isso não acontecerá instantaneamente e muito menos espontaneamente, que isso será fruto do nosso esforço, perseverança e habilidade. Com essa compreensão o fôlego, a vontade e a força virão, e o “concluir o que começamos” será um prazer e não uma obrigação.
Claro, no caminho peças não encaixarão direito, múltiplos machucados surgirão em unhas, dedos e pés, aquela peça tão necessária sumirá e as leis da física inviabilizarão muitos ângulos. Claro, o resultado final não será idêntico ao plano inicial, mas apostaria que ele será tão perfeito quanto. Daremos três passos para trás e veremos uma base muito mais sólida do que pensamos, um corpo muito mais desenvolvido do que imaginamos e um topo muito mais impressionante do que sonhamos.
A melhor parte? Nunca conseguiremos atingir esse objetivo sozinhos. Precisamos sempre de alguém ao nosso lado, seja para segurar alguma parte mais frágil enquanto tentamos montar um apoio, seja para mostrar e ensinar como construir tal forma, seja simplesmente para elogiar e nos renovar no final do dia. Essas pessoas também são um motivo das diferenças arquitetônicas da construção, todos deixam marcas naquilo que participam.
Inclusive, nem todo dia gastaremos com nossa própria pilha de peças. Alguns, alguns vários, iremos ajudar nossos companheiros, seremos aquilo que um dia precisamos ou precisaremos. E também deixaremos nossas impressões em torres alheias, mudando um pouco por cada minuto que damos a esses outros sonhos.
Então, no final de tudo, ou até mesmo antes, repararemos que nossas obras se encaixam com todas essas outras, de uma forma ou outra, por um ponto ou outro, mas todas se encaixam. E a verdadeira magia do lego® acontece, o feitiço de que o que deve encaixar, encaixa, o que não encaixa, não precisa se encaixar.
Poucas coisas podem ser comparadas à sensação de prazer que invade nosso corpo ao descobrir que a vida se parece muito com um balde de peças lego®.”
Rodrigo A. Franceschett
Desculpa, por tudo.
"Já estava sem forças, por isso deitara a cabeça na mesa da velha biblioteca. As bibliotecárias tinham ido almoçar e aproveitara essa chance para chamá-la, agora olhava para a porta, esperançosa de que no próximo segundo ela apareceria. Não demorou muito, claro que não, ela era a menina mais incrível que conhecera, não a deixaria esperando mais que o tempo de cruzar os corredores. Chegou com a mochila em um ombro só, a pressa no corpo todo e um sorriso lindo, um sorriso que costumava enchê-la de alegria mas que agora foi só mais uma dor para aguentar. Mas durou pouco, parada na porta os dentes se esconderam, ela veio devagar, sem saber o que fazer. Era a primeira vez que desistira de guardar seus sentimentos atrás de animados bom-dias, só não pensara que talvez fosse demais para segurar. Ela já havia deixado a mochila na ponta da mesa e se sentado ao seu lado, mas ainda não entendia. Os olhos desesperados foram a gota d’água e desabou, ou derramou, pois tudo o que conseguiu fazer foi chorar, mas foi tudo o que precisou fazer. Diante das lágrimas sua garota a abraçou, a protegeu de si mesma e despontou, aos poucos, um raio de sol na tempestade que a tomara. Ao custo das mangas do casaco dela seus olhos estavam secos e podia ver toda a luz que ela tentava passar. Um clarão que surgia de dentro e aparecia nos olhos castanhos. Aquele brilho só a tornava mais bela, mais irresistível, mais necessária para sua felicidade. Levantou o corpo. Se não fizesse aquilo agora nunca mais faria, passou as unhas pela pele macia do rosto dela:
- Desculpa, por tudo
O beijo não foi tão longo quanto gostaria, se durasse dias não seria suficiente. Mas foi algo, teria seus lados bons e seus lados ruins, o importante é que teria lados. De qualquer forma, aquela seria a última e a primeira vez que mostraria seu amor àquela mulher."
Ficou bom?
A primeira chuva do verão já lavava as calçadas naquela madrugada quente mas não molhava os dois, a horas debaixo daquela marquise. Ela finalmente decidira qual, da dezena de desenhos, ia colocar naquele muro e já começava a fazer os traços iniciais. Enquanto a menina ruiva lidava com os pincéis e as tintas, ele fazia seu passatempo favorito: se afundar mais e mais naquela paixão.
Os braços marcavam arcos de cores vibrantes na parede, o movimento o hipnotizava, a manga comprida descendo até o ombro o fazia subir às nuvens, por lembrar-lhe das sem-fim camas que compartilharam naquele romance. Os típicos três passos para trás, para analisar o andamento da arte, se confundiam com o vento, os primeiros traziam o perfume cítrico dela e o outro o cheiro da chuva, numa mistura mais mágica que os incensos que acendiam quando se amavam. Talvez esses dois odores se encaixassem tão bem por ser a garota e a tempestade parecidas, decididas e avassaladoras, quando resolviam cair só havia duas opções: fugir e se trancar em buracos escuros ou aceitar as carícias e marcas que as gotas e unhas lhe fariam. O braço ainda um pouco ardido facilmente entregaria qual das duas ele preferia. Mas não importava o corpo sensual, o rosto belo marcado por sardas ou as roupas da moda que usasse, os cabelos vermelhos sempre seriam o que mais lhe agitava o sangue, mais lhe aquecia o coração e mais tornava o seu amor rubro, igualando a aura dos dois. Suspiraram fundo ao mesmo tempo, ela por ter terminado sua pintura e ele por ter começado de novo a amá-la, como fazia todos os dias.
- Ficou bom?
Olhou-a com seus olhos de menino apaixonado e ela soube a resposta. Largou o pincel dentro de uma lata, juntou com os pés todo o material que usara num canto, pegou o violão folk que estava sobre as mochilas e se aninhou no peito dele. Ficariam assim até o sol nascer ou a chuva passar, ou para sempre. O tanto que amava aquela mulher tornaria fácil encarar a eternidade, especialmente com ela deitada sobre ele, embalado pelo som das cordas e olhando a obra-prima que se tornava aquele beco, na soma de tudo o que havia nele agora.
Falta
Claro que ia sentir falta. Isso não era novidade. O absurdo é que a saudade foi de mim mesmo. Daquele eu que não tinha medo do amanhã, daquele eu que sorria por qualquer coisa e que fez seus dias mais felizes. Faz tempo que ele não aparece por aqui e da última vez que apareceu só disse que sentia falta. Mas não desse escuro que estou vivendo agora, a saudade era de brilhar e iluminar sua vida. O absurdo é que eu também sinto. Quem não sentiria? Quem não gosta de viver um grande amor? Quem não adora deitar ao sol e aproveitar sua companhia? Quem jogaria tudo fora? Quem desistiria daquela vida perfeita? Quem sabia o que eu estava sentindo? O absurdo foi o que eu fiz? Olha, faz falta. Sendo sincero, você faz falta, eu faço falta, qualquer coisa a essa altura faz falta. Mas eu tenho que me desculpar, de novo, não sei exatamente o que estou sentindo. Pode ser saudade, ou pode ser só falta. O absurdo é que deve ser os dois. Claro que ia sentir saudade. Isso não era novidade. O absurdo é que estou começando tudo de novo…
Desisto
As férias finalmente haviam chegado, melhor, as férias que poderiam passar juntos haviam chegado. Era o primeiro dia de chuva da semana, decidiram que não sairiam do quarto mesmo que o destino exigisse, entretanto a fome o levou até a cozinha. Proibiu sua amada de levantar da cama enquanto preparava um café-da-manhã para ambos.
Suas mãos cortavam fatias de pão, escolhiam frutas, preparavam um suco e um café. Mas sua mente, seu peito e seu espírito estavam em outro lugar, estavam a alguns cômodos de distância. Seus pensamentos giravam em torno da menina que tinha roubado seu coração há meses, logo o mesmo estava nas mãos dela e fazia tanto tempo que agora sua alma também morava nela, junto da sua outra metade. Terminou de montar a bandeja e voltou, ansioso para deitar e sentir aquele calor novamente, a porta entreaberta cedeu ao seu ombro e seus olhos viram a garota sentada no meio da cama, com um quebra-cabeça que ele abandonara incompleto algum dia. De tão concentrada não reparara nele e deu a oportunidade para ser reparada. As pernas cruzadas se deixavam mostrar, magras e claras, quase todas, enquanto o resto, e o tronco, e os ombros ficavam cobertos pela camisa de pijama que não era dela, era dele. Os braços relaxados em cima dos joelhos terminavam em mãos tensas com o desafio entre elas, tensa estavam também as sobrancelhas, pelo mesmo motivo, mas seus olhos... Aqueles olhos, por mais que dissessem tudo guardavam algo, por mais que brilhassem tragavam a luz dele, assim como beberam seus medos, suas tristezas e preocupações. O deixaram leve mas o prenderam àquele amor, enfim, nunca existiu prisioneiro mais feliz. Um vento distraído passou pela cena e levantou os cabelos dela, quebrando sua concentração, e o encanto, como quebraria um vaso ao empurrá-lo da mesa. Se passaram aqueles segundos que demorariam até o objeto frágil chegar ao chão, mas ao invés de cacos recolheram sorrisos e ele se aproximou enquanto ela dizia:
- Desisto.
Olhando o pequeno jogo de anéis após tanto tempo a resposta surgiu mais rapidamente do que de costume, deitou a bandeja e solucionou o enigma, mostrando o pequeno sorriso da felicidade de acertar uma questão difícil. Depois mostrou o grande sorriso, da felicidade de ouvir a mulher que poderia passar a vida junto elogiando seu café-da-manhã.
Eu também.
Talvez chovesse lá fora, não importava, a janela estava bem fechada para guardar o quarto do frio da noite, sem sucesso. Ele já começava a sentir saudades da temperatura de sua cidade. Mas também não importava, estava ali por uma saudade maior que todas as outras. A dela.
Sentado na cadeira, olhava na cama o contorno que o corpo fazia nas cobertas. Os montes e vales traziam-lhe vontade de fazer algo para encantá-la, um traço, um verso, algo. Em silêncio encontrou um bloco de notas, pegou a caneta mais próxima, encarou a página. Tentou e conseguiu apenas rabiscos indignos, rimou mas não chegou a nenhum poema, nada descia às suas mãos. Olhou novamente sua musa, talvez suas linhas dessem forma ao desenho, o som de sua respiração desse o ritmo que faltava, o calor que ali ele via transbordasse seu coração e essa erupção permitisse a criação. Teve mil ideias, mil fracassos. Seu corpo recusava-se a deixar sua paixão naquele pedaço de rascunho… seria isso? Seria o papel o problema? Rolou os olhos pelo quarto à procura do que usaria. Imaginou o conteúdo dos armários e gavetas, mas nada concretizou o espaço perfeito para sua arte. Em última tentativa olhou a cama novamente. Encontrou sua tela ai, deitada e suspirando em seus sonhos. A poesia que sentia não devia ser escrita nem pintada, devia ser dita e estendida diretamente ao peito daquela que pretendia tocar. Levantou, deitou na cama ao lado dela e confessou seu amor.
- Eu também.
Resposta interrompida por um beijo, terminada pela morte final daquela saudade. E da outra também, pois o calor que ali surgia fazia o de sua cidade frio como gelo.
Bom dia...
O silêncio reinava absoluto. As vozes que já mal apareciam pararam, as mãos que alisavam os longos cabelos pararam, os corações que corriam um ao outro pararam. Até a chuva havia parado. O relógio, parado, marcava meia noite por duas horas, os dois, parados, respiravam juntos.
A mente dele corria por tudo o que acontecera nos últimos dias. O encontro, o beijo, a noite, a cama... cada vez que lembrava do sorriso dela seu coração descompassava. Mas mesmo insistindo em repassar esses momentos o peito voltava a bater no ritmo certo, no ritmo dela. O corpo quente marcava bem o contraste com o frio da cidade que entrava no quarto e ele conseguia sentir a batida que surgia dela e o atingia, envolvendo ainda mais sua alma, amarrando-o com mil voltas. Voltas que prometeria fazer àquele lugar se fosse para vê-la novamente, ouvi-la novamente, beijá-la novamente. Tudo ainda estava silencioso, mas as coisas começavam a se mover,a chuva, um coração, uma mão. Uma voz tentou surgir para acordar a menina mas o silêncio a guardou, talvez para mais tarde. Ela se moveu também e, ainda no sono, parou de modo que ele conseguia admirá-la com perfeição. A luz fraca da Lua marcava agora todos os traços que o encantaram desde a primeira vez. O queixo que começava a linha redonda do rosto, os lábios agora um pouco inchados por culpa dele, o nariz singelo e tímido e os olhos fechados. Olhos que ele era capaz de imaginar abertos, tantas foram as vezes que olhara profundamente neles. E a imaginação se tornou verdade, ela acordara. Mais uma vez enxergou o coração da garota até que ela sussurrou num tom de quem acha graça:
- Bom dia...
Foi estranho ver o silêncio cair, por mais rápido que houvesse voltado. Tocou os lábios da mulher com o indicador para tentar sustentar o novo silêncio, mas ela afastou a mão que chegara e o olhou com o canto da boca a desenhar um sorriso. Assim, com o coração cheio dela novamente, ele colocou um beijo no vazio que o dedo deixara, sem nenhum medo de fazer o barulho que os acompanharia até o Sol nascer.
Estou pronta. E você?
Apesar da chuva firme, que já durava uma semana, inundando os caminhos da cidade eles se arrumavam para a festa. Coisa grande, casamento do chefe dela, ele nunca a tinha visto tão arrumada, ou melhor, tentando ficar tão arrumada. Já estava vestido com seu terno, cabelos penteados, sapato calçado e agora acompanhava com os olhos os movimentos da sua amada.
Enrolada em uma toalha ela cruzava o quarto de uma gaveta a outra, trazendo colares e outras jóias para fora da pequena confusão que cercava tudo na vida deles. Abriu uma gaveta baixa e enquanto procurava algo mordeu o canto do lábio. Essa mania o amarrava a ela com laços mais fortes que a simples paixão, o conquistara e reconquistara todos os dias, dessa vez não foi diferente. E como se não bastasse, após encontrar o brinco que queria, levantou e parou nos pés da cama de frente para ele. Com exceção do vestido de gala vermelho que estava pendurado, toda sua roupa estava ali. Se olharam e ela deixou a toalha cair. Vestiu-se, mas não o vestido, ainda tinha que arrumar o cabelo, no caminho deu um leve tapa no rosto que exibia um sorriso bobo.
Mas ele não deixou de olhar, enquanto ela controlava os cabelos loiros e curtos que ainda tinham as pontas um pouco arroxeadas ele lembrava as últimas semanas, tempo há que moravam juntos. Após lembrar e relembrar ela voltou ao quarto, ainda mais incrível, colocou-se no vestido e a cada brinco que botava em seus vários furos ele descobria que a amava mais e mais. Terminou e disse:
- Estou pronta. E você?
Levantou e estendeu a gravata, com as hábeis mãos de desenhista ela fez o nó e depois deu-lhe um beijo, um sorriso e um olhar. Iam ficar uma noite mais próximos das mil e uma.
Me perdoa?
"Ah… os olhos dele são tão pesados. Por que isso tinha acontecido? Foram só palavras bobas. Por que ele tinha visto? Não queria dizer aquilo. Por que eu tinha dito, se não queria dizer? Droga, droga e uma última vez droga!
Seis anos de amizade e eu decido estragar tudo com três meses de namoro. Ele ainda tá me olhando, quer que eu diga alguma coisa. Mas o que eu posso dizer? Que palavras podem expressar o quanto eu me arrependo? Que frase consegue conter o tanto que eu o amo? Eu não sei… será que não dá pra ver? Eu mal consigo ficar inteira. Meus olhos já desistiram e estão se desfazendo em lágrimas. Por favor, olha pra mim e enxerga, eu não tenho palavras pra falar, da minha esperança só sobrou te mostrar.
Não, não desvia o olhar, não desiste, me dá outra chance. Olha pra mim, eu prometo que não vai acontecer de novo, eu prometo que agora é só você que eu quero. Se minha garganta não tivesse um nó… se eu fosse como ele é, poeta… se eu conseguisse falar qualquer coisa.
Se eu conseguisse desatar esse choro, e fazer como ele, falar qualquer coisa só com os olhos. “Eu te amo, mas quero saber se você me ama”. Essa é minha última chance? Agora? Agora eu não consigo! Mas eu tenho que conseguir, eu preciso… eu o amo.
- Me perdoa?
Saiu. Era tudo o que eu tinha. Menos não falaria tudo e mais não falaria nada. Isso… isso é um sorriso? Ele viu? Ele viu… por favor, por favor me beija… Obrigada”
Café? Tem pra mim?
O Sol começava a se encolher por trás dos morros e a luz ia diminuindo, criando um efeito colorido no pequeno chuvisco que trazia à mente dele um dilema: levantar e fechar a janela ou continuar ali, ao lado da mulher que o fazia sonhar até antes e depois de dormir. Levantou, mas quando os pingos que mais eram borrifos chegaram ao seu rosto e peito mudou de ideia, aquilo fazia parte do sonho que se iniciava agora. Virou e apoiou-se no parapeito, com as costas sendo massageadas pelo leve pingar da chuva. Olhou-a, olhou-a como se fosse a última vez que o faria, olhou-a como olhava todas as vezes.
Os pés pequenos para fora da beirada da cama, as pernas lisas e lindas ao meio escondidas pelo cobertor, o ventre magro que lhe despertou um tanto mais de desejo, o busto atrás do travesseiro que os braços firmes firmemente abraçavam, o pescoço branco maculado por uma pequena marca do seu amor e os cabelos vermelhos. Os cabelos vermelhos que dominavam todas as memórias dele, pintando cenas como no reflexo de um espelho de cobre.
A vontade de um espirro o tirou de seus devaneios, ela ainda dormia e não seria certo acordá-la de forma tão brusca. Segurou e saiu da janela para evitar se resfriar mais, pegou um dos CDs que ela adorava trazer, pura poesia em forma de música, e foi até a cozinha. Lá colocou o disco para tocar baixinho, separou um pote com amanteigados feitos naquela manhã e preparou uma prensa de café para dois expressos. Assim que o líquido negro começou a sair gorgolejante o refrão da canção que tocava veio, veio acompanhado da voz que dominava seus ouvidos com o simples falar, indescritível o que fazia ao cantar. Aqueles braços quentes o envolveram e perguntaram:
- Café? Tem pra mim?
Em resposta à pergunta ele se colocou para o lado apenas o suficiente para deixá-la ver as duas xícaras. Em resposta ao sorriso calmo que ela deu ele beijou-a, beijou-a com todo o amor que tinha dentro de si, beijou-a como beijava todas as vezes.
Eu não vou voltar
A chuva chegava pesada na parte descoberta do quintal. Por que sempre chovia nessas horas? Aliás, por que sempre chovia? Forcei-me a olhar nos olhos dela, aquele turbilhão verde segurava muito mais do que qualquer outro coração quebrado aguentaria. Transbordavam ali a tristeza da conversa, a centelha de uma esperança, a raiva de tudo o que eu tinha feito e também o amor que ela insistia em se agarrar, mas nem mesmo uma gota de lágrima caiu.
Quase fraquejei, uma vontade imensa de pedir desculpas e mandá-la esquecer aquela última hora surgiu, mas engoli em seco todas as palavras que já apareciam nas dobras da minha língua. Se as deixasse sair não seria diferente de todas as outras vezes: acontecia, eu fugia e depois voltava para dar uma satisfação, inventando um motivo novo a cada ocasião. Mas as desculpas acabaram e tomei isso, aquela seria a última vez, a última vez que sentiria aquele perfuma, a última vez que tocaria aquela pele quente...
Mas não, não importava, continuar só machucaria mais aos dois. Era difícil de dizer e devia ser muito mais de escutar, mas um dia ia acontecer, que fosse hoje e não depois de mais algumas semanas de uma peça sem platéia, que merecia aplausos pelo tempo que durou. A determinação me encheu e ao ver minha nova expressão a dela aceitou a derrota, o feitiço daquelas esmeraldas se quebrou e eu consegui pensar com mais clareza minhas próximas palavras:
- Eu não vou voltar.
Nisso ela vestiu também sua armadura, levantou do banco, abriu meu guarda-chuva e o ofereceu a mim, enquanto apontava o caminho para o portão. Peguei e saí, torcendo para que a muralha que se ergueu naquele instante continuasse intransponível para mim, mas que o cara certo, na hora certa, conseguisse entrar naquele belo castelo.