Stand up and fight... Hero
Eu estava relutante em fazer parte da fogueira naquela noite. Apesar de ter me juntado aos campistas como eu havia prometido a Ariel que faria, buscava o canto menos iluminado nos entornos da fogueira, crente de que, ao fim das histórias, eu voltaria ao chalé treze e teria mais uma noite comum entre pesadelos e instantes de calmaria. O que, vejo agora, havia sido uma tolice e uma ideia terrivelmente inocente.
É verdade, havia certa nostalgia em ouvir as histórias que eram compartilhadas pelos campistas, em especial aquelas que ganhavam uma dose extra de heroísmo e coragem. Tudo me fazia pensar em casa, o Acampamento Meio-Sangue: o riso, o crepitar do fogo, a sensação de que pisávamos sobre uma linha tênue que separava a segurança e dos inconvenientes malefícios. Eu até tinha um sorriso discreto nos lábios, claramente me divertindo.
E foi então que sentimos. Primeiro, as palavras do contador de histórias da vez se interromperam, e então os risos e burburinhos. Por um instante, só se ouviu o som cálido do fogo. Mas, como um grupo de semideus, bem sabíamos que não havia um momento de calma sem que a tempestade nos assolasse em seguida.
Minhas mãos estavam apoiadas no chão, dando sustentação para meu corpo que pendia para trás, relaxado, e meus pés pousavam sobre o escudo de aço quando senti o chão vibrar contra meus dedos, reverberar no metal, no mesmo instante em que um grito irrompeu a noite, dando início ao pandemônio que o Acampamento Júpiter se tornaria.
Levantei-me aos tropeços, amaldiçoando por não ter os equipamentos de segurança ao alcance e conjurando a espada que mais parecia uma extensão pontiaguda do meu próprio braço. Na noite, minhas mãos eram tão brancas quanto o branco ósseo que compunha o cabo da Caveirinha, não que este fato tenha alguma relevância aos eventos que se seguiram. Veja bem, eu tenho uma grande tendência a tagarelar quando fico nervoso.
Com a espada numa mão e o escudo na outra, vasculhei a área em que eu estava buscando aliados e, de pronto, reconheci as feições do filho de Hipnos, avançando até ele com rapidez. Não é como se Francesco e eu tivéssemos algum tipo de relação, mas naquele momento, não havia laço mais intenso do que o desejo de matar. De uma forma boa, devo acrescentar.
—Hey, Fran. — Cumprimentei, não exatamente desejoso de estabelecer qualquer diálogo.
Tentei identificar quem e quantos eram nossos inimigos naquela noite e, talvez, esse tenha sido meu primeiro erro. Eram muitos, e a energia que alguns deles emanavam só deixava claro que não eram só uns monstros boçais ou semideuses de índole duvidosa. Havia deuses entre eles.
—Alguém tem que ensinar esses caras que não se invade a casa dos outros assim. —Rosnei, entre os dentes, as palavras soando baixas como uma maldição, enquanto meus olhos se focavam mais acima, no céu escuro. Meu pai podia não ser o melhor no que dizia respeito à paternidade, mas ao menos havia me dado uma boa visão noturna e, graças a ela, a Harpia que mergulhava no ar, com as garras afiadas expostas não passou despercebida. — Harpia! — Adverti, ainda que eu soubesse que a mira da criatura não era o filho de Hipnos naquele momento. Era eu. Sempre era. Valeu, pai. Abaixei o corpo, cobrindo a cabeça com o escudo, tentando desviar das garras da harpia (dado 6), mas a queimação no ombro esquerdo provava que eu não havia sido ágil o bastante, me arrancando um grunhido de dor. Senti o sangue molhar a camisa e uma onda de dor me percorrer o ombro, mas, mais que isso, senti raiva por ter sido atingido por aquela criatura.
Antes que ela tivesse tempo de retornar para outra investida, me ergui, dessa vez fitando os olhos estranhamente humanos com ódio e, quando ela revelou os dentes amarelados e afiados, batendo as asas grotescas em minha direção novamente, brandi a espada, traçando um arco sobre minha cabeça e acertando uma dos pés da criatura (dado 14). Não vou negar que o guincho de dor me arrancou um sorriso, um desses discretos, de canto. Mas ainda um sorriso.
Há escolhas que você faz e que fazem por você. Francesco se orgulha de dizer que não é do tipo passivo em sua vida, protagonista de sua própria aventura na medida do possível, olhos atentos e nunca preguiçoso o suficiente para se abster de escolha alguma. Entretanto, fogueiras eram como o exato oposto do que ele considerava de valor. Participava vez ou outra quando o Acampamento Meio-Sangue ainda sustentava sua potencialidade sob os pés, contudo não se fazia o caso de sua boa vontade. Sem falar que Belen era como uma constante nas vezes em que fazia questão de marcar sua presença. Contação de histórias nunca foi seu passatempo preferido.
Mas ele gostava de observar os céus noturnos, a brevidade do ser sob as estrelas. Gostava de assistir o fogo queimar no rosto daqueles mais próximos e gostava de contemplar o fato de que não estariam ali por muito tempo. Em alguns casos, tempo ainda menor que o esperado. Ainda assim, o fazia de longe, a ausência de alguém que lhe fizesse sentir a real vontade de envolvimento lhe garantia a paz e o quase silêncio, longe o suficiente dos outros semideuses para que ele conseguisse bloquear os burburinhos curiosos.
Longe o suficiente, também, naquele caso, para que ele sentisse no ar frio a estranheza de um aviso silencioso. O ar cedeu ao peso da preocupação e ele franziu o cenho para o que viria a seguir: a eterna tempestade que se segue um semideuses. Ele olhou em volta, buscando rostos conhecidos, um rosto específico na multidão, utilizando-se de sua habilidade para enxergar sob as sombras, entretanto não houve tempo para se aproximar de quem procurar.
Todavia, perto o suficiente para que ele pudesse ver com clareza a figura esguia e pálida erguer-se de onde estava e conjurar uma espada. Francesco respondeu ao cumprimento com um breve menear de cabeça, preferia o silêncio. ━━ Acho que esses só aprendem da pior maneira. ━━ Respondeu o rosnado alheio, menos raiva, mais silencioso em seus pensamentos. Clicou o botão lateral de sua arma, assistindo-a triplicar de tamanho até se tornar a alabarda de ferro estígio, com uma lâmina afiada em uma de suas pontas e uma lança na outra, poucos pontos em azuis brilhando em contraste com a escuridão.
Continuava sério, cenho franzido e expressão dura. Nem mesmo sabia como o havia escutado sob os sons da batalha. Não era exatamente a pessoa mais empática com os locais que tantos consideravam casa, mas certamente odiava a ideia de que aqueles colocavam os poucos a quem tinha apreço em perigo. Francesco imitou o movimento do filho de Hades, agradecendo por ser filho de um deus como Hipnos. A atenção não reinava sobre si, permanecia sorrateiro, encarando a Harpia atacar o outro enquanto apertava o botão na lateral de sua arma para vê-la triplicar de tamanho. Não enfrentaria aquela galinha de perto, não era idiota e egocêntrico o suficiente para tal.
A forma encontrada para Vicent abriu espaço para Francesco reagir. Ele já aproximava-se antes mesmo de ouvi-la guinchar de dor e usou da lâmina afiada de sua alabarda para atingi-la (dado 9), o impacto sendo o suficiente para machucá-la e ganhar sua atenção. A Harpia não pareceu receber bem as investidas, gritando algo muito parecido com qualquer maldição grega e então bateu suas asas no ar, atingindo o filho de Hipnos com a força desconhecida do vento (dado 12). ━━ Ugh! ━━ Gemeu ao ser jogado para longe.
Não assistiu sua arma voar, contudo o vazio em suas mãos denunciava o feito. Maldição de galinha sem pé. Franz apoiou a mão no chão e empurrou-se para cima, erguendo-se ao que ignorava a falta de ar causada pelo impacto e rezava para não ter quebrado osso algum, sentia os pedregulhos que cobriam o chão fazerem pressão em sua pele. Aquela criatura havia comprado uma briga maior do que ela esperava.











