pelos deuses! aquele ali passeando na praia é 𝑨𝑸𝑼𝑰𝑳𝑬𝑺? ah, não, é só 𝑮𝑼𝑰𝑳𝑳𝑬𝑹𝑴𝑶 𝑽𝑰𝑪𝑬𝑵𝑻𝑬 𝑰𝑰 𝑼𝑪𝑰́𝑵-𝑺𝑨𝑺𝑰𝑨𝑰́𝑵, um 𝑬𝑵𝑮𝑬𝑵𝑯𝑬𝑰𝑹𝑶 𝑪𝑰𝑽𝑰𝑳 nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os 𝑽𝑰𝑵𝑻𝑬 𝑬 𝑶𝑰𝑻𝑶 anos nesse novo corpo, segue tão 𝑬𝑮𝑶𝑪𝑬̂𝑵𝑻𝑹𝑰𝑪𝑶 e 𝑺𝑶𝑪𝑰𝑨́𝑽𝑬𝑳 quanto na antiguidade. repararam também que ele lembra muito 𝑱𝑨𝑪𝑶𝑩 𝑬𝑳𝑶𝑹𝑫𝑰? a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-lo como 𝑯𝑶́𝑺𝑷𝑬𝑫𝑬/𝑭𝑼𝑵𝑪𝑰𝑶𝑵𝑨́𝑹𝑰𝑶 do nosso hotel!
𝑨𝑸𝑼𝑰𝑳𝑬𝑺: Ἀχιλλεύς, foi o maior dos guerreiros gregos na guerra de troia e figura central da ilíada de homero. filho de tétis e de peleu, rei de ftia e renomado argonauta, aquiles foi criado em ftia junto de seu companheiro de infância pátroclo e educado pelo centauro quíron. durante o conflito, comandou a tribo mítica dos mirmidões e tornou-se célebre por matar o príncipe troiano heitor diante das muralhas de troia. foi morto por páris, atingido por uma flecha. segundo lendas posteriores, aquiles era invulnerável em todo o corpo, exceto no calcanhar, parte por onde sua mãe o segurou ao mergulhá-lo no rio estige quando bebê; o “calcanhar de aquiles”.
Μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληιάδεω Ἀχιλῆος, οὐλομένην, ἣ μυρί' Ἀχαιοῖς ἄλγε' ἔθηκε.
“𝑆𝑖𝑛𝑔, 𝐺𝑜𝑑𝑑𝑒𝑠𝑠, 𝑜𝑓 𝑡ℎ𝑒 𝑟𝑎𝑔𝑒 𝑜𝑓 𝑃𝑒𝑙𝑒𝑢𝑠' 𝑠𝑜𝑛 𝐴𝑐ℎ𝑖𝑙𝑙𝑒𝑠, 𝑡ℎ𝑒 𝑎𝑐𝑐𝑢𝑟𝑠𝑒𝑑 𝑟𝑎𝑔𝑒 𝑡ℎ𝑎𝑡 𝑏𝑟𝑜𝑢𝑔ℎ𝑡 𝑔𝑟𝑒𝑎𝑡 𝑠𝑢𝑓𝑓𝑒𝑟𝑖𝑛𝑔 𝑡𝑜 𝑡ℎ𝑒 𝐴𝑐ℎ𝑎𝑒𝑎𝑛𝑠”
A Ilíada, Homero, VIII a.C.
𝒆𝒔𝒕𝒆 𝒔𝒊𝒏𝒗𝒆𝒓𝒈𝒖̈𝒆𝒏𝒛𝒂...
tw: acidente, homem safado.
resumo: guillermo vicente ii ucín-sasiaín nasceu do enlace entre duas linhagens bascas de peso; os sasiaín, nobres antigos de guipúzcoa, e os ucín, industriais modernos cujo império moldou a economia de euskadi. terceiro de cinco filhos, cresceu à sombra dos irmãos célebres e do favoritismo paterno, visto apenas pela mãe, eline, cuja afeição era o único afeto real. relegado ao papel de coadjuvante, tornou-se um espírito indomado, conhecido por escândalos, vícios e pela indiferença diante do legado familiar. formou-se engenheiro civil, talentoso, porém invisível, autor das obras que outros assinavam. a morte do pai e a ruína de um dos irmãos o forçaram a regressar ao país basco, tentando aparentar maturidade. por amor à mãe, aceitou casar-se com celia, de uma linhagem ilustre, num arranjo conveniente e sem afeto. mas ao saber da gravidez da esposa, dois meses antes, fugiu alegando negócios em santorini.
no coração do país basco, entre montes de um verde austero e o as águas do cantábrico, duas linhagens se uniram: os sasiaín, herdeiros de uma nobreza ancestral de guipúzcoa, nomes dos corredores da política e da história, e os ucín, industriais modernos, donos de impérios de aço e vidro que redesenharam a economia basca. um casamento entre tradição e prosperidade, passado e o futuro se entrelaçando pelas mãos de dois homens visionários, chefes de sua família, que providenciaram o casamento. dali emergiu uma das casas mais poderosas de euskadi, influência tão sólida quanto as montanhas que a cercavam. e foi dessa união, desse amálgama entre o sangue antigo e o dinheiro novo, que nasceu o herdeiro ucín-sasiaín, um descendente destinado, segundo diziam, a carregar tanto o peso da história quanto as expectativas do porvir. todas as expectativas, grandiosíssimas, concentradas, é claro… em beñardo! ah, o incrível beñardo. lindo, alto, carismático… e sim, beñardo, porque é claro que não estou falando de guillermo. ninguém jamais falava de guillermo.
sua família, o povo basco, a mídia… todos parecem sempre imensamente mais interessados em beñardo, que toma a frente dos negócios. ou com ramón, que é ator. ou julián, que… honestamente, não fez nada demais além de se casar com uma princesa, e por algum motivo isso pareceu mais importante. como tudo parecia. guillermo foi o terceiro de cinco. até nerea, a mais nova, conquistara aplausos aos dezesseis anos com sua voz doce nas rádios de san sebastián. havia pouco espaço para um guillermo, não o suficiente para o olhar dos jornais, tampouco para o orgulho de seu pai. a única que o via, verdadeiramente, era sua mãe, eline, e para ele, isso era quase tudo, quase o bastante. o amor materno, embora vasto, não supria o vazio de não ser visto pelo mundo.
guillermo cresceu entre festas onde nunca era o centro e jantares longos onde as conversas sempre desviavam para alguém que não ele. aos poucos, foi se desprendendo da ideia de ser admirado. deixava que a indiferença o moldasse, e moldado, tornou-se um espírito que agia como bem entendia. confusões, um rosto bonito demais para ser levado a sério, um sobrenome pesado demais para ser ignorado. e assim seguia, entre festas, escândalos abafados e a inconsequência de quem sabe que o dinheiro resolve o depois. quando partiu para a universidade, os jornais finalmente lembraram-se de seu nome, mas pelos motivos errados. sua sexualidade deixada à mostra sem pudores, as companhias inconvenientes, o gosto pelas substâncias e a vida noturna. nada que orgulhasse seu pai, que tentava construir uma imagem política respeitável. guillermo não parecia se importar. nunca se importara com quase nada, salvo a opinião de eline.
mas não era tolo. sabia que um dia o pai poderia cansar das defesas da esposa e decidir cortá-lo da fortuna familiar. por isso, tratou de formar-se, engenharia civil, com louvor. ofício que fora também de seu avô paterno. e era bom… surpreendentemente bom. os projetos que tocava erguiam-se firmes, belos, sólidos. apenas nunca levavam seu nome nas manchetes. era a assinatura pequena, as letras miúdas ao fim da reportagem, o homem por trás, nunca o rosto da obra. tinha dinheiro no bolso, mas faltava-lhe a glória. e guillermo, ainda que fingisse o contrário, sempre quisera a glória.
as coisas mudaram dois anos atrás, quando um acidente interrompeu a rotina soberba. seu pai morreu, e ramón, o irmão brilhante, o ator, ficou debilitado, incapaz de retomar a carreira. foi um terremoto familiar, e guillermo, pela primeira vez, viu o olhar da mãe sem luz. aquele olhar o moveu. não pela memória do pai, nem pelo legado da casa, mas por ela. ela, sempre ela. seu calcanhar de aquiles, sua razão de fingir que era alguém melhor. retornou a euskadi. tentou compor a imagem do filho reformado, sensato, disposto. casou-se, como ela desejava, com uma moça de linhagem ilustre, celia. um casamento político, útil, que ele aceitou. fazia tudo por eline! ou acreditava que fazia, até dois meses atrás, quando a notícia de que celia estava grávida o fez entrar em colapso.
em uma manhã, alegou compromissos de trabalho em santorini. fez as malas, embarcou e partiu. deixou para trás a mulher, a casa, o nome que tentava reconstruir. fugiu, como sempre fizera. não era um casamento de amor, e ele nunca fingira que fosse. havia traído celia muitas vezes, e ela sabia, era parte do acordo silencioso, não discutido. e a ideia de iniciar uma família com ela? impossível. ilusão. havia sido um acidente, noites de carência. afinal, ela era sua esposa, e que graça havia em um casamento se não podia fazê-lo? e agora, longe de casa, entre taças de vinho e mares translúcidos, guillermo vicente II ucín-sasiaín insiste em fingir que é um homem livre. pelo menos, pelo tempo que conseguir seguir alegando estar à trabalho.
ele parou em santorini como quem não pretendia ficar, fugiu para nova york por um bom período, e retornou à ilha quase sem perceber que o movimento de fuga havia o feito dar um círculo. agora, entretanto, havia um contrato; renovação do hotel, novas atrações pensadas para hóspedes, reformas em espaços que já haviam sido belos antes, mas que precisavam ser elevados a algo memorável. ele continuava oficialmente como hóspede, instalado em um quarto magnífico no andar mais alto que conseguiu negociar, mas acumula também compromissos que vão além da temporada. alguns contratos remanescentes da estadia anterior ainda o mantinham atado à ilha, e esse novo vínculo, mais sólido, mais durável. faz até um se questionar quanto tempo ele pretende passar na ilha, afinal...
¿𝒚 𝒄𝒐́𝒎𝒐 𝒆𝒔 𝒆́𝒍?
ele vive na contramão das expectativas, sempre. aprendeu cedo que seu papel seria, inevitavelmente, o do coadjuvante. não por falta de talento, mas por excesso de comparações. essa percepção moldou nele um tipo de desdém difícil de se desfazer. se considera acima, e também se recusa a competir em um jogo que já o declarou perdedor. ironia natural, sorriso traiçoeiro. sorri para encobrir o tédio, e faz piadas para disfarçar o incômodo de existir em um lugar onde não é lembrado. em essência, guillermo é um hedonista. também no sentido vulgar do prazer sem medida, mas principalmente na urgência com que busca qualquer coisa. vive de excessos porque o vazio o assombra. suas escolhas são impulsivas, e ele as justifica com um charme ensaiado. fala pouco sobre o que sente, mas sabe exatamente o que os outros querem ver, saber. é um homem de máscaras, mas talvez nenhuma seja inteiramente falsa. a sua indolência tem cálculo, e seu desinteresse, propósito. quando quer algo, é capaz de mover céus e terras para obtê-lo, apenas se convence, quase sempre, de que nada vale tanto esforço (porque não acha que o fariam de volta).
o vínculo com a mãe é o único alicerce que o sustenta, o amor que o define e... "o enfraquece". de seu propósito, de sua vida desordenada. tudo o que faz, até o que parece irresponsável, carrega uma forma distorcida de agradá-la, de ser visto por seus olhos. ele está tentando! já não é mais como nos anos da universidade, e há um tipo de ternura, uma lealdade silenciosa em ser minimamente o que ela gostaria. ou pelo menos fazer o errado só em longos quilômetros de distância. e assim, o mesmo homem que trai, mente e se exila é aquele que venderia o mundo inteiro por sua mãe. no fim, é um preso entre o orgulho e o arrependimento. deseja ser livre, mas não sabe o que fazer com a liberdade quando a tem. teme o fracasso, mas sabota qualquer chance de êxito. constrói e se destrói com o mesmo zelo. vive fingindo leveza, enquanto carrega nas costas o peso de uma linhagem que o ignora. entre a glória que nunca veio e a falta de reconhecimento que nunca o abandona, guillermo tenta sobreviver. com drinques em mão. piadas terríveis. muita libidinagem. e principalmente, sem falar nada sobre sua esposa.
𝒍𝒂 𝒎𝒂𝒍𝒅𝒊𝒄𝒊𝒐́𝒏
a cada vida, aquiles nasce com o heroísmo nos ossos, e a maldição o empurra de volta à irrelevância. se antes havia honra, há agora tédio. no lugar da batalha, rotina. celebrado nas canções, amado pelo povo grego... agora é um nome esquecido nas colunas sociais, um rosto bonito entre tantos, sem feitos, sem qualquer propósito que valha o nome que um dia aterrorizou reis. e ele sente, ainda que não compreenda inteiramente, que há algo quebrado em si. algo que o convoca e que ele não consegue atender. quando o vinho ou qualquer garrafa não basta, e ele sonha com lanças e mares revoltos, acordando com o peito ardendo. mas, talvez a glória o tenha abandonado, ou talvez ele a tenha traído primeiro. porque nesta vida, a coragem lhe escapa como areia entre os dedos.
a maldição o tornou um homem de quase. quase grande, quase amado, quase livre. sempre à margem do que poderia ter sido. eternidade de mediocridade, ciclo interminável de promessas não cumpridas. guillermo, sem saber, busca a glória de novo, mas de formas pequenas, fugidias, nas aprovações que deseja, nas tentativas de ser visto. talvez o amor da mãe seja sua guerra de troia pessoal. há algo profundamente trágico em sua maldição, já que, ela não é feita de dor espetacular, e sim de um sofrimento discreto, banal. seu castigo não o rasga, só... esvazia. invisibilidade, indiferença, vida longa sem brilho. ele destrói o que toca, sem guerra o bastante para suas mãos, nem causa nobre o suficiente.
𝒂𝒍𝒈𝒖𝒏𝒐𝒔 𝒅𝒆𝒕𝒂𝒍𝒍𝒆𝒔…
quando criança, passava horas olhando o retrato do avô paterno, fascinado pela pintura, pela expressão de solenidade. ele morreu antes de seu nascimento, e era um engenheiro civil renomado no país. foi parte do motivo para a decisão de carreira;
apesar de viver cercado de pessoas, guillermo é solitário. a maioria dos seus amigos o admira, mas poucos o conhecem;
é fluente em três línguas, e prefere euskera ou espanhol. fala inglês porque precisa, mas não gosta;
não suporta velórios. o luto alheio o deixa constrangido, e não sabe lidar com pessoas chorando;
não acredita em sorte, mas vive fazendo apostas... e perde bastante;
sua maior habilidade é fazer com que as pessoas o perdoem. mesmo quando não merece;
tem um fascínio estranho por construções abandonadas, gosta do que está ruindo;
usa perfume demais. é o mesmo desde os vinte e poucos anos. o único traço de continuidade que ainda lhe resta;
às vezes imagina o próprio funeral, por curiosidade em saber quem realmente apareceria;
tem medo de ficar careca, e verifica o cabelo com frequência obsessiva;
há uma antiga fotografia de sua mãe que ele guarda na carteira, envelhecida, dobrada, gasta;
há noites em que bebe sozinho e fala em voz alta com o pai, como se o homem ainda estivesse ouvindo. e no dia seguinte, nega;
acredita que, se existe reencarnação, e isso foi alvo de muitos diálogos bêbados, está preso em um ciclo que não consegue quebrar;
às vezes sente dores no tornozelo, sem motivo clínico;
guarda um caderno cheio de anotações sobre pontes, estruturas, cálculos. diz que é para o trabalho, mas há páginas em branco preenchidas com frases sem sentido;
há um anel antigo que usa ocasionalmente, um presente da mãe.
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