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@girassoldalua
Me desculpe, mas eu não vou voltar.
Você sabia que o boxe tem suas regras? Por mais que sejam duas pessoas se atacando ferozmente, há golpes que são proibidos e um limite para a violência. A gente não teve regras no ringue. Tudo valia no ringue, mesmo que o outro estivesse literalmente morrendo, os socos não paravam. Não havia um juiz, não havia uma plateia, éramos apenas nós dois se atacando com os ossos doendo, o nariz sangrando e dizendo que era tudo em nome do amor. Você queria a vitória e eu queria correr. Me lembro que a última vez que tive uma crise de ansiedade por sua causa, eu não quis me curar, eu só quis ter a certeza que você ainda me amava. Meu corpo somatizou de uma maneira tão assustadora que tudo o que eu conseguia entender dele era que o seu amor era minha única necessidade fisiológica para ele estar vivo. Eu tentei meu melhor pra ver além da discussão, do ódio, da raiva. Eu tentei parar a briga pra dizer que eu não conseguiria mais lutar, porém eu estava ocupada demais tentando estancar o que não deveria estar sangrando. Eu estava entre morrer ou lutar, você escolheu me matar. Tudo o que eu quis era que você levasse mais a sério o meu choro de desespero e não uma discussão cotidiana que hoje você nem se quer lembra mais. Eu queria voltar por tudo que era bom. Eu amava sua família, a sua risada, nossos passeios inesperados, a sua companhia e as conversas no final da tarde depois de um filme que você tinha assistido e me forçava a ver também. Me peguei tantas vezes enumerando o que era bom, apenas pra ignorar o mal que você me causou.
Me desculpa. Eu não vou voltar porque se eu voltar, eu não vou ser sua lembrança favorita. Eu vou ser apenas aquela que deu mais de um milhão de chances jurando ser a última. Infelizmente, dessa vez, eu vou ser sua lição de vida. Eu vou ser o amor da sua vida, aquele que você perdeu. Eu vou ser a pessoa que poderia ter sido tudo, mas foi a metade. Eu vou ser aquela pessoa que você tinha libido, conexão, amizade e a certeza que me amou em outras vidas, mas terá de conviver com o fato de que não estarei mais aqui. Eu vou ser a razão pelo qual você não vai machucar a próxima pessoa que se relacionar. Eu vou ser a pessoa que você vai esperar por anos uma mensagem, uma volta, um sinal de vida, mas tudo que você vai ter de mim, é meu fantasma, minhas lembranças, a pulseira que eu te dei no seu aniversário e meu cheiro em algumas roupas suas que eu usei.
Eu confesso que eu queria ter voltado, ter corrido pros seus braços pronta pra ser destruída novamente, mas se eu voltar, você nunca vai aprender. Você nunca vai sofrer, você nunca vai saber de verdade o que é perder alguém pra sempre por culpa das suas reações momentâneas. Você nunca iria entender que por mais que fosse um ringue, existia um limite, regras e alguém que poderia ser tudo, menos seu oponente. A sua raiva não significava que você tinha o direito de me fazer sangrar. Você fez um corte profundo por causa de problemas que se resolveriam com um abraço.
sua falta.
tem dias que eu me permito sentir sua falta. mesmo que as lembranças ruins venham junto. mesmo que os meus amigos tenham uma lista alfabética com todas as coisas erradas que você fez. ás vezes a saudade é só saudade, nada mais. às vezes ela é a criança que quer um colo, então eu perdôo todas as coisas ruins que ela fez, afinal, ela é só uma criança. e como nosso amor, estávamos apenas vivendo e aprendendo. então, eu sinto. sinto você deitar no seu lado da cama, sinto a ansiedade de te ver chegar do trabalho, sinto seu abraço nos momentos difíceis, sinto a sua respiração na minha nuca, sinto a sua mão entrelaçar na minha durante os passeios. sinto vontade de te ligar, mas não ligo. e passa. eu deixo ela ir, com a certeza de que nós dois, não aconteceríamos. nunca mais. e eu sei que, essa saudade voltaria mais de mil vezes. eu sou o anfitrião e de vez em quando, não tem problema ela colocar os pés no sofá.
Quando você ainda é criança, a ansiedade é apenas uma emoção. O medo pequeno, o frio na barriga. Ela te paralisa, mas você não se importa. Vai passar, vai parar. A ansiedade ainda é tão inofensiva. Você cresce e na adolescência, dizem que é uma fase e o frio na barriga se torna vontade de vomitar, o coração palpitando, a dor no peito e a insônia. Como pode ser uma fase se triplica todos os dias? Você acredita que vai passar, por isso você não pede por ajuda. Algum dia, você se torna um adulto, a ansiedade que antes era inofensiva, te indaga todos os dias se vale a pena estar aqui. Os seus amigos, o trabalho, a faculdade, a parte boa da vida, não importa mais. O medo pequeno se tornou o choro interminável, a monotonia de não ter um lugar seu no mundo. Antes, era a vontade de não comer, hoje é a vontade de desaparecer na cama. Antes, era a curiosidade de saber do amanhã, hoje é culpa por não ter mais interesse em nada.
Ser adulto é cumprir com a obrigação, mesmo que não esteja em condição. É levantar, escovar os dentes, lavar o rosto, trocar de roupa, comprar o pão, fazer o café, sair de casa, dar sinal, pegar o ônibus, trabalhar e estudar (essas últimas duas exigem um pouco mais quando feitas ao mesmo tempo), cumprir com as metas, entregar as atividades e tudo o que for adicionado de responsabilidade e compromisso. Ainda que os pedaços de si mesmo estejam espalhados, esquecidos, amontoados, perdidos, irreconhecíveis ou quebrados em mais pedaços. Para as crianças que tiveram um pouco de sorte, essa realidade chega mais tarde ou às vezes é consideravelmente facilitada. Já outras são obrigadas a cumprir com essa demanda sem nem mesmo ter trocado os dentes e, às vezes, de uma maneira estupidamente mais difícil. Mas eu acho que, em todas as realidades, não há um que esteja inteiro. Sempre pedaços, independentemente do berço. Talvez a diferença esteja na maneira como lidamos com a própria incompletude, sem deixar que ela nos mantenha em estática, emergidos na inércia. Ou simplesmente ficar para trás em pedaços não seja uma opção para quem já é responsável pela própria vida ou por outras vidas. A vida não espera ninguém. E, se não tiver sorte, a dor que te dilacera pode te acompanhar por toda uma vida. Mas, independentemente, siga. Não há muito o que fazer. De verdade, não tem.
Nostalgia.
Hoje, eu acordei nostálgica.
Decidi ouvir a música que você me recomendou uma vez, disse que lembrava de mim ao ouvi-la. E depois, ouvi uma música da minha banda favorita da adolescência. Confesso que não consegui chegar até o final. A nostalgia me atravessou de tal maneira que não resisti e quis chorar. Esses dias, resolvi desistir de coisas que fazíamos juntos, porque não faz mais sentido fazer sozinha. Encarei as pessoas que eu amo sem entender o que elas diziam, porque eu apenas imaginava o quanto sentiria falta delas. Me lembrei, tão detalhadamente, do dia em que te conheci. Da irresponsabilidade de dormir tarde, conversando bobeiras, prometendo besteiras sem medo algum. Da paixão repentina que nunca cessava, do esforço de acordar cedo para me ver, que você nunca mais faria porque a vida adulta te engoliu.
Apesar de tanta nostalgia, nunca quis te ligar. A sua voz não seria mais a mesma e os nossos planos nunca aconteceriam. O meu jeito de ser charmosa, hoje, seria drama para você.
Hoje, prometer para mim em uma madrugada seria medonho. Antes, era amor, era divertido. Antes, você achava todos os meus gostos incríveis, mas hoje me sinto um peixe fora d’água quando preciso contar sobre eles a alguém novo. Hoje, vejo meu esforço para fazer alguém ficar, mas antes eu tentava entender, todos os dias, o que você achava tão incrível em mim. A vida não tinha linha de chegada, futuro ou medo. E, se houvesse algum futuro, ele estaria tão longe que não nos amedrontaria. É curioso porque, hoje em dia, eu sinto medo das próximas duas horas que estão por chegar.
Talvez eu não fosse tão amável como você dizia. Talvez a vida fosse mais encantadora, mais fácil, mais leve. Talvez amar fosse mais simples.
Simples de um jeito que jamais será. Se algum dia, na velhice, me questionarem o que me faz tanta falta, eu vou dizer que é amar.
Existem momentos em nossas vidas em que a gente precisa ir. Não pela dor ou pelo sofrimento, mas porque não há mais nada ali para você. Só ir.
É como ler a continuação do seu livro predileto e de maneira decepcionante, perceber que aquele gênero não é mais para você. Então, você fecha o livro para sempre.
Você vai lembrar dos momentos bons, das risadas, mas, no fundo, sabe que os risos não serão mais escandalosos como eram antes. Tudo o que tinha para ser vivido já foi.
Dói encerrar ciclos. Você quer que algo mude, que a graça das piadas que você achava engraçadas volte, mas você cresceu. E tudo o que você quer para a sua vida não está mais ali. Você não está mais ali.
Queria ter como escrever um texto que descreva o quão vazia eu estou. Por que os dias não podem ser normais? Por que eu preciso voltar para casa com o coração na mão? Sinto que sou insuficiente, mesmo sendo suficiente. É como se eu fosse vista como alguém invisível e amada como alguém impossível de amar. Como se eu fosse, mas nunca chegasse a ser. Penso comigo, o que faço de tão errado se tentar acertar é o suficiente? Eu estou vazia, oca por dentro.
Por mais que eu tente, eu jamais sinto que estou sendo vista. Mesmo que eu brilhe, mesmo que os holofotes pousem sobre mim. Eu me sinto invisível. Como se todo infinito de coisas boas que eu sou, fossem apenas um milésimo. Eu queria que eu não fosse lembrada, apenas quando eu não estou aqui. Eu não queria sentir que preciso ir embora de todos os lugares que pertenço apenas para notarem que eu existo. Porque é sempre sobre o que eu faço, nunca pelo que eu sou.
Às vezes seu esforço não vai ser o suficiente, saiba lidar com isso.
Psionicos.
Eu odeio falar de você. Eu odeio explicar como não deu certo. Eu odeio ter que dizer a minha psicóloga, aos meus amigos e a mim mesma. Eu sei que lacunas existem para serem preenchidas, mas você é a única lacuna da minha vida que nunca será. Será, para sempre, um espaço vazio. Uma parte do texto faltando, a palavra que daria sentido ao titulo que eu fiz tanta questão de existir. Eu encaro o papel, imaginando tantas coisas boas poderiam ter sido facilitadas, se você fosse a única palavra que falta. Inconscientemente, posso dizer que você é a representação de todas as coisas boas que eu, infelizmente, acredito que nunca terei. Talvez o conforto de ser amada sem dúvida, a gratidão de ser aceita sem medo, a paz de ter alguém para me segurar ou a felicidade de não ser inadequada. Eu não sei como posso me recordar tão bem da sensação única de ter você por perto. Foram poucas vezes, mas o sentimento é tão real que me convence de ser suficiente e viver sem você. Digo que você é o relacionamento perfeito que eu tento encontrar, a validação que eu tento entender porque persigo e o esforço de não me sentir deslocada por onde eu vá. Quando digo, em voz alta, todas as coisas ruins que você foi, me parece que estou sendo ingrata. Me sinto idiota por me invalidar pensando em todas as coisas boas que teriam sido, mesmo que nunca tivessem acontecido. Mesmo que, de alguma forma, você tenha sido ruim sem remorso. Eu coloco a culpa nas vidas passadas, em mim, em você, mas confesso que é difícil culpar as suas atitudes. Quando digo, em voz baixa, o quanto eu te amava, não parece o suficiente. Eu imagino como tudo seria normal, não extraordinário, se você estivesse por perto. Eu ainda continuo no mesmo posto de inválida que você me colocou. E por mais que eu não queira ser a vitima, eu nunca quis ser inválida, pois antes mesmo de você pensar me dilacerar, eu tinha a certeza que eu apenas queria ser amada de volta. Mesmo que eu duvide de mim mesma, eu tenho essa certeza em mim. Eu não fiz nada para merecer seu desamor. Digo em voz alta, tudo de ruim que você me causou e me sinto uma tola. Porque parece tão normal, mesmo que tenha sangrado. E talvez seja. A única diferença era que eu realmente te amava, como nunca amei ninguém. Deve ser por isso que doeu o dobro. Eu não soube traduzir a sua maneira de amar.
Eu encaro essa lacuna. Vez ou outra, escrevo com lápis. Se não dei certo com você, com quem eu daria?
diante de todas as coisas ruins que fomos, a toxicidade que exalava, ainda penso em você. ainda via alguém bom em você. uma criança indefesa que chorava com medo e se defendia com raiva, quando era ameaçada. ainda via em você, o quanto você queria ser feliz e mais nada. o quanto somos refém da nossa imaturidade. no fundo, você só queria que desse certo também. além de ter me feito tão mal, eu ainda sinto que você é uma pessoa boa. dessa vez, vejo de longe. sabe, de longe, te mando amor. e te juro com todo meu coração, torço genuinamente para você ser feliz. hoje, eu olho com certa maturidade para nossa história, entende? está tudo bem. está tudo bem se não deu certo. eu não consigo guardar rancor. tudo bem se o amor não prevaleceu de perto, ele pode te alcançar de longe.
Cheguei em casa e quis chorar. O meu dia havia sido péssimo, a dor me consumiu. A desesperança me marcou, mas ainda sim, tive a sensação de que a vida estava sendo boa comigo. Porque havia você. E em meio a um dia que me consumiu, ainda sim, a vida foi bonita. Porque ela havia me trazido você. Ainda sim, com tantos motivos para desistir, você estava lá. E mesmo que eu ganhasse uma discussão contra o universo por tantos momentos de dor, eu agradeci. Porque você existia. E no meio de um choro inconsolável, eu agradeci por ter te conhecido. Daqui alguns anos, quando eu finalmente viver a vida que eu tanto quero viver, ela não vai se comparar a sorte de ter nos dias de hoje. E quando eu tive o pior dia da minha vida, percebi que não trocaria por um dia de sorte sem você.
No meio de tantos “não”, de tanta dor, tanta angústia, ainda sim, a vida estava sorrindo pra mim. Ela me deu a sorte de ter você ao meu lado. E de repente, não era mais sobre a minha dor. Era sobre você. Era sobre gratidão e sobre amor. Era sobre a maneira que qualquer dor poderia ser tranquila se você estivesse aqui.
A vida só passa a ser vivida, quando percebemos a finitude de tudo que respira.
A. Bentler
E todas as vezes que eu conheço alguém novo, eu lembro do conforto que era te ver. Saber que você sabia de todas as coisas que eu mais gostava, saber que você memorizou todas as linhas do meu rosto, saber que você sabia aonde me tocar. E todas as vezes que eu conheço alguém novo, eu sinto falta desse conforto. De você. Era você que sabia que eu tinha uma risada escandalosa, que revirava os olhos durante as discussões, que ficava calada quando algo incomodava e ficava tímida diante elogios. Era você. Era você que achava graça quando eu não estava tentando ser engraçada e me achava incrível quando eu estava sendo apenas eu. Era você que sabia o quanto eu ficava brava por ficar tão longe e me achava charmosa quando eu estava irritada. Ninguém é você, ninguém nunca será. Só que agora dói mais profundo. No meio de tantos porquês, existe uma dúvida que me assola: Por que não demos certo? A vida continuou. Confesso não sentir sua falta o tempo inteiro, mas eu sei que tudo que eu vivi ao seu lado foi real. Eu queria ter prolongado mais. O beijo, o abraço de madrugada a última vez que nos vimos, teria pedido para dormir com você, teria implorado pra você me abraçar mais forte antes da viagem, teria perguntado se era real. Teria ficado mais dois, três dias, mesmo sabendo que algum dia, eu teria que ir embora. Eu senti falta. Eu senti falta da inocência de saber que algo que estava fadado ao fracasso, poderia ser emendado. Se eu soubesse, teria aproveitado mais dez minutos ao seu lado. Eu teria entendido de uma vez que a sorte que nós tivemos, não vai se repetir. Apesar de existirem pessoas melhores que você, elas nunca serão você. E até mesmo incluindo as dores, você era melhor em tudo.
Que Deus me ajude a sempre enxergar o lado bom, por mais difícil que seja. Que cada situação complicada seja apenas um convite à minha gratidão. Que, não importa quantas vezes eu tropece ou sinta dor, eu possa me lembrar de que, apesar de tudo, eu sobrevivi.
Que cada dia dificultoso seja apenas um desafio à minha gratidão e que eu me torne, todos os dias, profissional em focar nos segundos bons durante um dia triste.
Por um momento, eu não quis morrer. Eu só quis que a vida fosse um pouco mais leve. Quis que o peso não estivesse nos momentos felizes também. Quis ser criança de novo, quis sentir o abraço da minha mãe, quis seu colo e contar que eu não tenho sentido prazer em existir. Quis tanto amar a vida novamente. Quis dormir para não ter que existir, mas também desejei que a ansiedade me deixasse acordada.
Quis tanto e ironicamente, senti a vida esvaindo de mim, mesmo no meio de tanto querer. Eu amei tanto a vida a ponto de não acreditar que ela é tão frágil em mim.