Pra hoje? Tem luta.
Ontem foi o dia internacional da luta contra a discriminação racial. 21 de Março. E hoje? O que tem? Tem resistência e tem mais luta, porque a batalha não acabou. A realidade nos livra de esquecer que o racismo ainda existe e que infelizmente, todos os dias ainda afeta a vida de todos nós. Uns mais, outros menos. Alguns são diretamente impactados, outros indiretamente. Mas todos.
Quanto mais negamos a existência do racismo, mais difícil se torna combatê-lo. Quem age, pensa, escreve, determina racismo, fere e desumaniza. As vítimas carregam as cicatrizes da dor na forma como se enxergam, como enxergam ao mundo, na forma como enxergam aos outros.
O racismo não é problema isolado, não é uma questão separada, que diz respeito tão somente a um determinado grupo social. Se estivessemos todos conscientes disso... Ah! Se estivessemos atentos ao racismo que se mascara de "brincadeira", de "democracia racial"! Se aguçássemos nossos sentidos para perceber todas as formas sofisticadas que a discriminação econômica, cultural e política contra segmentos étnico-raciais ganhou com o tempo, com a globalização e com a tecnologia, veríamos que (ainda) não estamos tão distantes de 1888. A senzala ganha novas formas, mas infelizmente continua aqui. Ainda há quem subestime a persistência e o impacto dessas formas encobertas e dissimuladas de discriminação e na condição subalterna da MAIORIA das pessoas negras de nossa população.
Discutir sobre a condição atual e a participação histórica dos brasileiros e brasileiras de cor negra e ascendência africana na construção desse País, é essencial numa narrativa que incorpora a importância de TODOS. Reconhecer e estudar o legado histórico do nosso povo é uma premissa básica na luta contra o apagamento da memória negra. Entretanto, não é isso que temos visto. Nos limitamos à "lembrar" ocasionalmente de uma data comemorativa (isso quando nos lembramos) e a nos esquecer intencionalmente todos os demais outros dias do quão grave é que o racismo ainda exista.
Precisamos aprofundar nossas pesquisas sobre o tema, ler ainda mais sobre esta realidade. Nos munir de informação e difundí-la afim de que tantos quanto for possível, se conscientizem e se juntem á luta diária dos que procuram erradicar todas as formas de discriminação racial no Brasil e no mundo. Você não precisa de nada além de sua própria vontade pra isso. Você não precisa ser de um segmento social específico, de um coletivo. Você só precisa ser gente. Você só precisa sair de dentro de si mesmo por alguns instantes e se colocar no lugar do outro.
- 70% das pessoas que vivem em situação de extrema pobreza no Brasil são negras.
- Pessoas com a pele mais clara, representam 80% dos brasileiros mais ricos.
- De 12 mil presos no sistema prisional do Distrito Federal, 80% são negros. Dos 400 juízes do Tribunal de Justiça de meu estado apenas 7 são negros. Não há registro de nenhuma juíza negra no Distrito Federal atualmente.
- Mais da metade dos negros no Brasil não possuem nenhum tipo de acesso à internet.
- Do total de 30 mil assassinatos em 2012 no Brasil 77% eram jovens negros.
- Mulheres negras jovens têm três vezes mais chances de serem estupradas em meu país.
- A cada 12 minutos uma pessoa negra é assassinada no Brasil.
O que temos feito quanto à isso? Quantas vezes nos posicionamos quanto à esta realidade em nossos contextos, seja na universidade, na escola, na igreja, dentro de casa, na rodinha dos amigos? Quantas vezes ficamos calados quanto à ausência de representatividade, quanto à insensibilidade alheia? Onde há racismo, não há amor, não há justiça. O racismo nega toda ideia de igualdade, de aceitação, e nos cega. Nos impede de exergar que pessoas, por mais diferentes que sejam, continuam sendo pessoas, tão dignas de respeito, de afeição, de liberdade e de oportunidades quanto nós.
Toda forma de indiferença à realidade étnico-racial do Brasil, alimenta o sistema de privilégios restritos à um só grupo social. Toda vez que nos calamos ante às injustiças, toda vez que nos conformamos em estarmos onde estamos e como estamos enquanto outros perecem a margem do nosso esquecimento contribuimos para a existência de tais injustiças. Você luta contra o racismo? Você exerce o papel que só VOCÊ pode exercer no SEU contexto para que as pessoas saibam que você não concorda, nem compactua com esse tipo de injustiça? Se sua resposta foi SIM para essas perguntas, me alegro em saber que não estou sozinha nisso. Continuemos a lutar todos os dias. Não nos cansemos. Afim de que todos possam viver! Se sua resposta foi NÃO ou NÃO SEI, só posso lhe dizer que seu silêncio e neutralidade em meio ás injustiças, as alimenta. Decida lutar. Não só hoje. Saia da sua zona de conforto, do seu comodismo. Saia do seu emaranhado de privilégios e recuse aceitar um contexto de discriminação racial. Descubra sobre as demais implicações do racismo, aprofunde-se nas leituras e no resgate das condições específicas de classe e gênero que o envolvem. Estude o passado, estude o presente. Vá além!
Isso serve pra mim. Enquanto escrevo esse texto, só consigo pensar no tanto que preciso me aprofundar. Cada vez mais tenho sido levada a refletir sobre o papel que posso exercer para mudar essas estruturas. Meu referencial é Jesus e quanto mais olho pra Ele, mais descubro sobre mim mesma e sobre o mundo que me cerca. Fomos todos feitos à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26-27), somos todos destinatários de seu incondicional amor (Jo 3:16) e liberdade (I Jo 2:2). Jesus não apresenta parcialidade, favoritismo (Dt 10:17, At 10:34, Rm 2:11, Ef 6:9) e nem nós, deveríamos. Todas as formas de racismo, preconceito e discriminação são afrontas à obra de Cristo na cruz. Não há inferioridade ou superioridade racial quando nos deparamos com o olhar e com as atitudes de Jesus. Ele destruiu a parede divisória da hostilidade e da indiferença (Ef 2:14) e nos chama amar uns aos outros como Ele nos ama (Jo 13:34). Quanto mais conheço a Jesus, mais descubro quão revolucionário Ele é e o quanto somente Ele pode nos oferecer verdadeira liberdade: dos preconceitos, da insensibilidade, dos traumas, da negligência alheia. Ele pode nos oferecer perdão e nos ensinar a perdoar os que nos ferem. Ele pode nos ensinar a compartilhar dos sofrimentos e sermos como Ele é. Através de um relacionamento com Ele, podemos ser agentes de cura num mundo adoecido pela discriminação étnico-racial. Esse tem sido o meu aprendizado.
Que possamos caminhar juntos nessa jornada e que possamos nos ajudar mutuamente a crescer, a conhecer, a nos aprofundarmos. Essa luta é nossa.
Pra já começar hoje:
Artigos
- “Inoportuno, sempre ele” por Edson Lopes (em português)
http://www.geledes.org.br/o-inoportuno-sempre-ele/#gs.JnDm93s
- Racismo estrutural: o filho do orgulho estrutural” por John Piper (em inglês) http://www.desiringgod.org/articles/structural-racism
- “A teologia a favor do racismo” por Daniel Santos (em português)
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/321/a-teologia-a-favor-do-racismo
- “Ame o racista, confronte o pecado” por Philip Holmes (em inglês) http://www.desiringgod.org/articles/love-the-racist-confront-the-sin
- “Cinco fontes da nossa vergonha racial” por Kristin Tabb (em inglês)
http://www.desiringgod.org/articles/five-sources-of-our-racial-shame
Livros
- “Eu sou atlântica: a vida e trajetória de Beatriz Nascimento” livro em pdf por Alex Ratts (em português)
https://www.imprensaoficial.com.br/downloads/pdf/projetossociais/eusouatlantica.pdf
- “Bloodlines: raça, cruz e o cristianismo”, livro em pdf por John Piper (em inglês)
http://www.desiringgod.org/books/bloodlines
- “O genocídio do negro brasileiro”, livro por Abdias do Nascimento
https://drive.google.com/file/d/0B9bCapPj5QMEUE5ZVDAzbjB0XzA/view?usp=sharing
- “Sociologia do negro brasileiro”, livro por Clóvis Moura
https://drive.google.com/file/d/0B9bCapPj5QMEOHlGcGNmODhKalE/view?usp=sharing
Filmes
- Histórias cruzadas, 2011
- A cor púrpura, 1985
- Selma: uma luta pela igualdade, 2014
- Mississipi em chamas, 1988
- 12 anos de escravidão, 2013
Vídeos (Youtube)
- “A mulata que não chegou” , por Nataly Neri
https://www.youtube.com/watch?v=02TBfKeBbRw
- “Eu empregada doméstica” por Preta Rara
https://www.youtube.com/watch?v=_d_n-z3s8Lo
- “Colorismo, ser negra e os mitos da mulher negra” por Nataly Neri
https://www.youtube.com/watch?v=DGGaLz_NYDo
- “O racismo está em nosso dia a dia” por Emicida
https://www.youtube.com/watch?v=6bwajCsUjUc
- “O racismo, a cruz e o cristão” por John Piper
https://www.youtube.com/watch?v=3MJ6yMfnf7k
With love,
Jade Christinne
Garota sem fronteiras















