B é uma das recém chegadas. Ainda esta confuso, procura pela sensação de “familiaridade” como um coelho procura por sua cenoura. Acontece que B acordou de um de seus melhores sonhos até hoje; Ainda precisa se acostumar com o fato de não ter mais orelhas, focinho, nem o desconforto que o acompanhava nos últimos meses.
Muitas almas acabam tendo pesadelos, portanto, como precaução, gosto de fazer elas lembrarem aos poucos, mas pretendo quebrar esse protocolo. B não precisa dessa cautela. Suas memórias são ótimas, tenho planos maiores para as almas que vivem o que B viveu.
Melhor adiantar a papelada enquanto ele se lembra…
Pra isso, preparei doses diárias de encontros “casuais” com fotos, cheiros e sabores que ele costumava sentir.
No 5° encontro planejado “casual” (rsrs) ele atravessou um portal diretamente pra uma sala escura, ao fundo, uma música e a única fonte de luz vinha da televisão. Quando chegou mais perto, viu uma moça -que reconheceu de uma lembrança- deitada no sofá com um coelho aninhado junto dela.
Viu sua vida passar diante dos seus olhos. VIDA. Entendeu que não era sonho. Correu pra minha sala:
-B! Estava te esperando! O que deseja?
-Preciso ver essas pessoas. Preciso ter certeza que estão bem.
-imaginei… já preparei tudo! Assine aqui para ser Guardião deles até o momento de se reencontrarem.
B lê tudo com entusiasmo (especialmente a cláusula sobre estar presente nos sonhos deles) e assina.
-Perfeito! Em instantes já pode visita-los nos sonh…
-Na verdade… tem mais uma coisa…
B me faz seu último pedido antes de ser promovido a guardião e eu prontamente o concedo.
B vai embora saltitante, rumo a seu novo quarto, que perdurará consigo pra eternidade. B atravessa o corredor escuro, com um impulso, sobe no sofá e se une ao coelho e à moça que ali descansa. Se tornam um só.
O último desejo de B foi viver naquela memória.
-Ao recém chegado anjo, Bobzila.