Hearts On Fire || Antoniet
A partir do momento em que dera seu primeiro suspiro no mundo, uma vida inteira havia sido cuidadosamente pensada e planejada para Antonin Dolohov. Até mesmo seu nascimento fora planejado. O filho primogênito, herdeiro dos Dolohov. Colocado no mundo para ser tudo o que seu pai fora e seguir cada um de seus passos, desde suas primeiras escolhas, até mesmo seu último suspiro. Antonin deveria ser educado de acordo com os ensinamentos puristas de sua família e seguir cada um deles com sua alma e seu sangue, assim como deveria ser ensinado a tomar conta da herança da família, para poder assumi-la quando se casasse. Antonin deveria ser colocado em contato com a Magia Negra desde criança porque sabiam que em Hogwarts ele nunca o faria, e ela era essencial para o cumprimento de outra etapa de sua vida. Antonin deveria ir para Hogwarts e ser selecionado para a Sonserina como todos os seus ancestrais que frequentaram a escola – o que não eram muitos, já que os Dolohov haviam saído da Rússia em direção à Inglaterra a apenas duas gerações, as anteriores sendo todas mandadas para Durmstrang – para poder manter contato apenas com alunos da alta sociedade bruxa. Antonin deveria tirar as maiores notas da classe e entender bem de todas as matérias ensinadas ali, até mesmo as não obrigatórias. Antonin deveria arranjar uma noiva de sangue puro – por conta própria ou com auxílio dos mais velhos – para continuar a linhagem Dolohov. Antonin deveria se juntar ao Lorde das Trevas para ajudar a livrar o mundo da influência suja dos sangues-ruins. Antonin deveria ter um filho homem para que este também pudesse dar continuidade à linhagem Dolohov. Antonin deveria administrar a herança da família até o momento em que seu filho se casasse. Antonin então deveria continuar dando assistência para o filho para que este não cometesse nenhum erro, até o fim de seus dias. E então morreria e seria colocado no mausoléu da família em Saratov, na Rússia, ao lado de incontáveis gerações de Dolohov.
Aquele era um plano perfeito. Uma linha do tempo padrão que fora planejada para todos os primogênitos Dolohov a tanto tempo que ele jamais saberia dizer onde aquela tradição se iniciara. Com exceção da junção ao Lorde das Trevas, que era algo que havia sido acrescentado especificamente para ele, todas aquelas coisas já haviam sido feitas por outras pessoas. Tudo aquilo vinha dando tão certo para seus ancestrais que Antonin sempre imaginou que seria exatamente daquela forma para ele. Simples. Fácil. Sem complicações. Porém, nenhum daqueles planos e nenhuma das vezes que os repetira em sua cabeça ou ouvira o pai os repetindo, o preveniu de que não seria assim tão fácil. Pior, ninguém nunca o preparara para o enorme empecilho que era Harriet Goldstein. E como poderiam? Como poderiam prever que, mesmo tendo seguido os ensinamentos de sua família corretamente, passado com êxito em um teste desenvolvido a décadas para medir suas capacidades, cumprido perfeitamente cada etapa planejada de sua vida até então (inclusive a que menos o agradava, que era encontrar uma noiva de puro sangue) e demonstrado ser perfeitamente capaz de cumprir aquelas que ainda tinha por vir, um dia Antonin Dolohov teria seu caminho invadido e suas percepções abaladas por uma mestiça? Não, aquilo não era algo planejado. Harriet era como uma tempestade de verão, imprevisível e inconstante, e nenhum meteorologista poderia ter previsto o estrago que ela faria. E ela fez um grande estrago. Se não, por que outro motivo os dois estariam ali, naquele lugar fechado, com os rostos tão próximos que Antonin quase podia sentir a respiração enfurecida da menina? Sua mente gritava para ele se afastar, que aquilo era errado, mas seu corpo tinha ideias completamente diferentes. Ele lutou para manter a concentração intacta, mas estava cada vez mais difícil fazê-lo, e ele quase podia sentir a intensidade daquele momento queimando entre os dois como pólvora prestes a explodir.
“Talvez você devesse começar pedindo desculpas” sussurrou uma voz irritante no fundo de sua mente. “Explicando para ela que você não quis chamá-la de sangue-ruim e que, da forma como foi criado, sangue-ruim é uma expressão tão comum quanto nascido-trouxa, mestiço ou sangue-puro” insistiu, e o rapaz resistiu ao impulso de chacoalhar a cabeça para afastá-la. Ele sabia que tinha razão, ele provavelmente deveria pedir desculpas pelo que dissera, e também que fora algo completamente não intencional. Mas sabia que, se o fizesse, tudo estaria mudado. Se pedisse desculpas, ele estaria dando brecha para que um novo lado de si viesse a tona, e a partir do momento em que deixasse aquilo acontecer, não sabia se seria capaz de impedi-lo de ir até o final. Ele sabia que o certo a se fazer era lutar contra aquilo, manter tudo da forma como sempre fora, afastar qualquer indício de mudança eminente que ameaçasse mudar o curso de sua vida, ficar no caminho que seus pais, avós, bisavós traçaram para sua vida. Ele sabia de tudo aquilo. Mas não tinha certeza de que realmente acreditava. Antonin suspirou, um suspiro quase cansado o suficiente para Harriet notar que ele não queria brigar, mas não sabia se ela seria capaz de perceber aquilo no estado de nervos em que se encontrava. – Não estou sendo melodramático, estou sendo realista. Esse tipo de arranjo não dá certo, e eu não quero tirar uma nota baixa. É claro que preciso de pontos, todo mundo precisa de pontos. – ele soava tão ridículo dizendo aquilo que nem ele próprio acreditaria caso se ouvisse falando. Ele realmente queria acreditar no que dizia, mas estava difícil. As palavras seguintes da Goldstein não o pegaram de surpresa, mas seu tom sim, e ele quase a beijou para calar sua boca, mas aquilo não resolveria de nada além de colocar um fim numa discussão que eles provavelmente voltariam a ter mais tarde. Então apenas levantou a mão para colocá-la sobre a boca da loura. Quase disse “Pare de gritar, você está louca?”, mas aquilo apenas prolongaria a discussão. Ainda com a mão na boca da menina com firmeza soltou rapidamente, antes que as palavras lhe escapassem de novo: – Me desculpe, eu não quis te chamar de sangue-ruim naquele dia. Foi um erro meu e me arrependi depois. Eu só… Queria afastar você, e parece que funcionou muito bem, mas eu não queria isso realmente. É só que… Isso tudo é muito confuso, okay? Só… Me desculpe. –ele havia dito o que tanto temia dizer, e naquele momento apenas a reação dela seria capaz de dizer o quanto aquelas palavras haviam mudado em sua vida.
Não podiam existir pessoas mais diferentes uma das outras como Harriet Goldstein e Antonin Dolohov. Enquanto ele havia nascido em uma família cuja criação era rígida, e eram um tanto preconceituosos em relação ao status sanguíneos, já Harriet tinha crescido em um lar totalmente diferente. Para começar os Goldstein podiam ser definidos como uma família bruxa bem numerosa, tendo seus membros espalhados pelo Estados Unidos e Inglaterra, e mesmo assim eram bem amorosos e acolhedores, além de aceitarem bem as diferenças não se importando em conviver junto aos trouxas. Enquanto Antonin havia crescido em uma casa cheia de regras, e tendo inúmeras expectativas para cumprir; Harriet havia sido criada em uma fazenda tendo a liberdade que muitas pessoas desejavam e não precisava se preocupar em realizar as expectativas que seus pais tinham, pois eles a encorajavam a trilhar o seu próprio caminho ao invés de seguir algo já planejado para ela. Os dois eram tão diferentes, mas mesmo assim sempre encontravam um modo de se atraírem uns para os braços do outro, como se fosse uma espécie de porto seguro. Eram como dois imãs de cargas opostas que se atraíram constantemente. No início Harry havia tentado negar aquilo, justificando tudo apenas como simples coincidências e que elas não significavam absolutamente nada. Mas a cada dia que se passava sentia-se cada vez com menos forças para lutar contra aquele sentimento que estava a consumido, ela que era conhecida por ser uma garota durona e forte estava considerando entregar os pontos de tão desgastada que estava se sentido. Como o amor podia ser algo tão bom e mesmo assim um sentimento tão destruidor? Sim, destruidor. Desde o momento em que Antonin Dolohov entrou em sua vida tudo parecia ter mudado, sabia que aquilo soava como um grande clichê, mas a era a mais pura verdade do que estava sentido. Com ele presente em sua vida mais nervosa ela ficava e brigas começaram a ser constantes, mas de certa maneira ela também se sentia cada vez mais viva com os sentimentos e emoções a flor da pele.
Tudo em sua vida seria mais simples se não tivesse se apaixonado por alguém tão complicado, ridículo — isso para não dizer algo pior — e diferente dela. Sua vida estaria mais simples se estivesse junto de algum de seus colegas de casa, alguém que ela pudesse assumir uma relação sem precisar pensar nos possíveis perigos que a associação entre eles poderia acarretar; alguém que não estivesse comprometido em um noivado e alguém que a aceitasse como ela era, sem precisar mudar ou fingir ser outra pessoa. Se orgulhava bastante de ser uma mestiça, uma caipira e não via problemas no seu modo grosseiro de ser, pois todas essas características a faziam ser quem ela era e não estava disposta a mudar esse seu jeito por ninguém, nem mesmo por Antonin. Existia uma pequena parte da loira que ainda tinha esperanças de o garoto mudar de atitude, quem sabe romper o noivado e se rebelar contra sua família. Mas as chances daquilo acontecer eram praticamente remotas, de forma que diariamente Harry tentava convencer a si mesma de que tinha superado todos os seus sentimentos, de que o sonserino não representava e não significava mais nada em sua vida. Sabia que não iria começar a gostar dele do dia para a noite, mas esperava que aos poucos fosse o esquecendo. De passo em passo podia alcançar um resultado surpreendente, e no caso seria conseguir superar de vez aquela paixão que estava sentido. Ela e Antonin não tinham uma relação concreta, apenas uma grande tensão sexual, e mesmo assim já era algo tão complicado, cheio de problemas e desgastante de forma que era praticamente impossível imaginar um futuro em que eles ficassem juntos, até mesmo alguns trabalhos escolares serviam para mostrar que eles foram feitos para ficar separados e era assim que eles deveriam permanecer. De forma, que fora um erro de sua parte pensar que algum dia eles poderiam funcionar. Nem mesmo com um milagre isso iria acontecer.
— Já deu certo em ocasiões anteriores e pode dar certo novamente. E se você precisa tanto desses pontos que procure outra pessoa para fazer essa porcaria de trabalho com você, pois eu apenas faço com você se for do meu jeito ou nada feito — disse de forma impetuosa. Talvez estivesse sendo muito durona e orgulhosa em colocar tantas restrições, mas sabia que aquela era a única maneira de conseguirem fazer funcionar. Toda vez que ficavam perto um do outro acabavam discutindo, sem contar que quanto mais tempo passasse ao seu lado cada vez ficava difícil em superá-lo. Como poderia esquecer alguém que vivia lhe rondando? Era impossível. Para o bem deles e, principalmente, o bem dela era melhor que continuassem afastados. E no fundo ela suspeitava que ambos sabiam que aquela briga estava acontecendo por algo muito maior e mais importante do que um trabalho de História da Magia, era uma briga que estava acontecendo por fatores mais profundos que eles poderiam se dar conta. Quando o rapaz colocou a mão em sua boca a impedindo de falar, foi inundada por uma grande raiva. Mas que diabos ele estava fazendo?! Ele definitivamente estava cutucando a onça com a vara curta, e o que restava da paciência de Harry se esgotou com aquele gesto. Olhou para os olhos castanhos do garoto, como se fosse conseguir encontrar alguma resposta racional para aquilo que havia acontecido, mas apenas pode perceber o quão confuso ele parecia estar. Antes que tivesse a oportunidade de se afastar e dar um soco bem merecido no rosto do sonserino, Antonin acabou surpreendendo ela ao pedir desculpas e assim demonstrar um lado completamente novo que ela não sabia que existia. Em anos que estudavam juntos nunca havia o visto demonstrar nenhum tipo de vulnerabilidade, o que tinha a deixado um tanto quanto desnorteada e sem saber como agir. Era como se sua vontade de o xingar — e quem sabe bater — tivesse desaparecido em um passe de mágica. — E-e-eu não sei nem o que falar — admitiu, enquanto organizava os seus pensamentos em sua mente. Uma das coisas que mais queria era receber um pedido de desculpas, mas nunca imaginava que um dia isso poderia acontecer de modo que nem sabia como reagir. — Você não é o único que está confuso com tudo isso. A única coisa que eu mais quero é conseguir me afastar de você, mas toda vez que eu tento fazer uma força acaba me atraindo novamente para perto de você. Cada vez eu me sinto sem forças para lutar contra isso, contra esse sentimento e acaba sendo algo bem desgastante.

















