#004
Uma risadinha baixa fora a resposta da Casillas para aquela primeira sequência de palavras, mas a expressão logo abrandou-se, por sentir que as palavras de Conrad passavam a assumir um teor mais sério. Apertou os lábios em uma linha reta, afinal, apesar de já ter superado qualquer mágoa que podia ter guardado por conta daquela sucessão de fotos, o revirar daquela história ainda não lhe trazia os sentimentos mais agradáveis. Ainda assim, não fez nada para impedi-lo de continuar, porque sentia que ele precisava falar, e ela, de certa forma, precisava ouvir. Não apenas para ter um pedido de desculpas — este, na verdade, era o último dos motivos —, mas porque queria entender os sentimentos dele. Sentia-se engolida pelos olhos escuros do outro ao que teve o rosto apanhado por entre seus dígitos, experimentando o peso de cada palavra, mas nada do que viera até então poderia tê-la preparado para aquela breve sentença que fora expelida pelo mais velho. Eu te amo muito. Assim que elas atingiram seus ouvidos, um arrepio gelado percorreu toda a espinha de Dolores, que em separara os lábios alguns milímetros e deixara escapar em um sopro o que lhe restava de fôlego. Aquela simples frase reverberou nas lacunas de sua mente, e quase de forma instantânea, ela sentiu os olhos lacrimejarem.
“Conrad, eu...” Sussurrou, ainda desconcertada e tentando organizar os próprios pensamentos. No peito, o coração parecia prestes a explodir. “Eu não sei se você sabe o que isso significa pra mim.” A voz saía de forma rouca, motivada pelo esforço que ela fazia para não chorar. “Você é o primeiro. A primeira pessoa que me ama, durante a minha vida inteira... Ninguém nunca fez isso antes, Con. Ninguém.” Enfatizou, porque não era nada além da verdade. Metade de seus vinte e dois anos de vida foram passados em uma casa disfuncional e que nunca lhe forneceu um lar, enquanto a outra metade fora na cama de estranhos dispostos a pagar quantias absurdas para desfrutar da coisa mais ínfima que ela tinha, que era sua aparência. Ele, por sua vez, ia justamente no caminho contrário, conhecendo cada detalhe sombrio que constituía a existência de Lola e, ainda assim, ficando por tempo o suficiente para dizer aquelas palavras. Fora a vez dela de apanhar o rosto dele por entre as mãos, trazendo-o para si e colando a testa na dele, permitindo que o nariz roçasse contra o do mais alto enquanto ela fechava os olhos. “Eu te amo também, Herschel... Acho que já te amo há algum tempo. I’m yours. I’m all fucking yours.” Não tinha certeza a que altura daquela sentença as lágrimas haviam caído, mas sentiu algumas descendo quentes por seu rosto, mesmo que não tivessem espaço para Lola se importar com elas naquele momento. Selou os lábios aos dele, escorregando a direita até a nuca do rapaz para deixar que os dedos se emaranhassem contra os fios de seus cabelos.
Envolto pelos braços de Lola, Conrad recordou um diálogo que lera em um quadrinho e o marcara para sempre. Chegou a ser incluído em uma peça na escola durante o seu ensino médio e a repetição constante ao longo de todos os ensaios resultou no longo texto decorado de cor, como se tivesse impresso em seu peito. “Have you ever been in love? Horrible, isn’t it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and your heart and it means someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses. You build up this whole armor, for years, so nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...” O londrino temia qualquer aproximação mais cercada para evitar uma rachadura em sua barreira, porque uma vez que começasse a se alongar, não havia como evitar a consequente ruína. Agora, ele se tornara ruína. E o pior de tudo era que estava contente por isso.
Por isso, pela primeira vez em muito tempo, Conrad não tinha o que dizer ou talvez soubesse que nenhuma palavra seria suficiente para abarcar toda a mistura de sentimentos que haviam dentro de si. Após seu término com Astrid, o londrino tivera a certeza de que nunca mais bateria um coração dentro de seu peito. Uma vez concluído todos os estágios do luto, desde a raiva até a dor, ele havia caminhado como um cadáver ambulante, capaz de se empolgar com músicas, livros, shows e festas, mas nunca verdadeiramente implicado em nada romântico. Lola lhe mostrou partes dele que sequer sabia ainda existir. Com a calma que um escultor desenha os detalhes da veia no mármore, ela foi ganhando espaço em sua vida, até que, uma vez distante, ele conseguisse ver quão profundo e solitário era o vazio em seu peito. Lola o mostrara o quanto estava faminto por um desejo que nem sequer acreditava existir dentro de para si e, em meio a tornas as conturbações, somente ela seria capaz de aplacar a selvageria de um lobo há muito anos em isolamento. “I love you”, disse ele mais uma vez, enquanto se curvava para conseguir esconder o rosto na curva do pescoço de Lola, puxando a mais nova para perto de si.
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