herschelconrad:
#004
Colocando sua mão sobre a de Lola, Conrad fechou os olhos por alguns segundos, apreciando a sensação de ser acolhido pela outra e acariciou a pele macia e ainda levemente morna após o banho. “Obrigada por isso, Lou…Da minha parte já foi perdoado. Acho que eu te perdoei no momento em que te vi no show. Fiquei tão nervoso que até errei a nota no baixo”, confessou, rindo baixinho, enquanto olhava nos olhos da mais nova e mantinha suas mãos sobre a dela. Suspirou, depois de mais uma vez sentir a leveza abraçar os dois naquela noite. “Eu também quero enterrar tudo isso, deixar para trás e seguir em frente, criar novas histórias, mas antes de fazer isso, preciso que você me escute uma última vez”. Ele estava sério, e escolheu retirar as mãos dela sobre o seu rosto, mantendo o aperto apesar de baixar os braços. Um respirar mais profundo pôde ser percebido pela outra, como se Conrad preparasse um difícil discurso. “Acho que não fui justo com você na nossa conversa no café. Eu fiquei pensando sobre isso depois. Estava tão imerso na minha própria dor que não me coloquei no seu ponto de vista. Talvez tenha até me colocado, eu entendia o que você dizia e os motivos, mas não parecia entender realmente…” Balançou a cabeça, recordando que ao invés de acolhê-la e se desculpar pelo próprio erro, chegara a apontar o fato de Lola ter se distanciado, alegando ainda que era um comportamento recorrente dela de fugir quando as situações se complicavam. “E eu sinto muito por isso. Sei que estou acumulando pedidos de desculpas, mas queria que você me ouvisse dizer isso uma última vez, desse jeito”, afirmou, soltando as mãos de Lola para poder segurar seu rosto com um misto de carinho e firmeza, enquanto se aproximava com toda a coragem que conseguira reunir. Olho no olho, sem qualquer distração ao redor. Era difícil para ele reconhecer os próprios erros e deixar de lado o seu ponto de vista.
Conrad costumava carregar um ar de certeza tão grande acerca de tudo que fazia, que admitir um erro era como reconhecer uma falha na sua capacidade de analisar, ponderar e se colocar em cada situação. “Me desculpe por ter chamado um detetive para buscar sobre o seu passado, por não ter te contato antes, pela minha própria impaciência e até pela forma que te tratei no café. Mesmo com todo o medo que eu estava sentindo de…”, de te perder, de você não querer mais olhar para mim, não querer compartilhar mais nenhum momento comigo, “de tudo que estava acontecendo…”, completou. “Mesmo com o vazio de mensagens, eu entendo o porquê de você ter precisado se afastar. Claro que eu queria que não tivesse acontecido da forma que aconteceu, claro que queria ter recebido uma mensagem, que eu não fosse a pessoa responsável por todo o afastamento…”, suspirou, percebendo que divagava. “Se pudesse, nada teria acontecido da forma como aconteceu. Mas preciso dizer que entendo você ter se afastado e concordo quando você diz que foi um mês para lidar com o trauma de uma vida inteira. Até se você tivesse se afastado por um ano inteiro seria justificável. Eu não faço a menor ideia de tudo o que você viveu e passou para chegar até aqui. Posso até ver as cicatrizes, mas não sei até que profundidade as feridas chegaram…Você é tão forte e eu te…”, a voz de Conrad quebrou, como se tivesse perdido a força, mas ele logo engoliu em seco, enquanto deixava o polegar acariciar o rosto pálido. “Eu te amo muito, Lola”, disse com firmeza apesar do baixo tom de voz, “e não sei o que seria de mim se você não tivesse me perdoado”, completou, a voz não passando de um sussurro, enquanto sustentava o olhar e deixava um sorriso tímido escapar, conseguindo sentir a vermelhidão do próprio rosto ao se deixar tão exposto para a outra.
Uma risadinha baixa fora a resposta da Casillas para aquela primeira sequência de palavras, mas a expressão logo abrandou-se, por sentir que as palavras de Conrad passavam a assumir um teor mais sério. Apertou os lábios em uma linha reta, afinal, apesar de já ter superado qualquer mágoa que podia ter guardado por conta daquela sucessão de fotos, o revirar daquela história ainda não lhe trazia os sentimentos mais agradáveis. Ainda assim, não fez nada para impedi-lo de continuar, porque sentia que ele precisava falar, e ela, de certa forma, precisava ouvir. Não apenas para ter um pedido de desculpas — este, na verdade, era o último dos motivos —, mas porque queria entender os sentimentos dele. Sentia-se engolida pelos olhos escuros do outro ao que teve o rosto apanhado por entre seus dígitos, experimentando o peso de cada palavra, mas nada do que viera até então poderia tê-la preparado para aquela breve sentença que fora expelida pelo mais velho. Eu te amo muito. Assim que elas atingiram seus ouvidos, um arrepio gelado percorreu toda a espinha de Dolores, que em separara os lábios alguns milímetros e deixara escapar em um sopro o que lhe restava de fôlego. Aquela simples frase reverberou nas lacunas de sua mente, e quase de forma instantânea, ela sentiu os olhos lacrimejarem.
“Conrad, eu...” Sussurrou, ainda desconcertada e tentando organizar os próprios pensamentos. No peito, o coração parecia prestes a explodir. “Eu não sei se você sabe o que isso significa pra mim.” A voz saía de forma rouca, motivada pelo esforço que ela fazia para não chorar. “Você é o primeiro. A primeira pessoa que me ama, durante a minha vida inteira... Ninguém nunca fez isso antes, Con. Ninguém.” Enfatizou, porque não era nada além da verdade. Metade de seus vinte e dois anos de vida foram passados em uma casa disfuncional e que nunca lhe forneceu um lar, enquanto a outra metade fora na cama de estranhos dispostos a pagar quantias absurdas para desfrutar da coisa mais ínfima que ela tinha, que era sua aparência. Ele, por sua vez, ia justamente no caminho contrário, conhecendo cada detalhe sombrio que constituía a existência de Lola e, ainda assim, ficando por tempo o suficiente para dizer aquelas palavras. Fora a vez dela de apanhar o rosto dele por entre as mãos, trazendo-o para si e colando a testa na dele, permitindo que o nariz roçasse contra o do mais alto enquanto ela fechava os olhos. “Eu te amo também, Herschel... Acho que já te amo há algum tempo. I’m yours. I’m all fucking yours.” Não tinha certeza a que altura daquela sentença as lágrimas haviam caído, mas sentiu algumas descendo quentes por seu rosto, mesmo que não tivessem espaço para Lola se importar com elas naquele momento. Selou os lábios aos dele, escorregando a direita até a nuca do rapaz para deixar que os dedos se emaranhassem contra os fios de seus cabelos.











