Byunghun’s office, Math building, Heojung Campus. Monday. 1pm.
Tudo aconteceu tão rápido que seu cérebro ainda tinha dificuldade de processar todas as informações. Não sabia que podia sair tanto sangue de um ferimento tão pequeno. Todo seu corpo tremia mas a arma continuava firme em sua mão. Não teve a intenção, certo? Foi rápido, no calor do momento, estava fora de si… Não importa. Ninguém vai acreditar. As pernas fraquejaram e logo estava no chão, sentando numa poça de sangue que saía do corpo do marido. Engoliu seco e usou uma das mãos, que estava cheia de sangue, para afastar o cabelo de seu rosto. Tinha os olhos fixos no rosto do homem. O mesmo olhar triste de quando ele a viu apontar-lhe a arma permanecia. Tocou seu rosto enquanto lágrimas embaçavam sua visão. Por que tinha feito aquilo? Não sabia. O que faria em seguida? Também não.
Nunca deveria ter encontrado aquela arma. Nunca deveria te-la colocado na bolsa. Nunca deveria ter achado que aquilo serviria de alguma maneira para sua proteção. Proteger-se de que afinal? Estava em meio a uma de suas crises já há alguns dias, sabia bem disso. Mas por que recorrer àquilo? Por que achar que era melhor se defender sozinha de um inimigo invisível? Por que não tomar seus remédios como sempre? Por que não o ouviu? Não sabe. Não importa. Não tem como mudar o ocorrido. Por alguns segundos pensou no que fazer. Ele era grande demais então nunca conseguiria esconder seu corpo, e nem queria fazer isso. O tiro provavelmente ecoou em boa parte do campus então logo alguém apareceria. Não tinha muitas saídas, o único jeito era juntar-se a ele.
Ouviu uma comoção do lado de fora da sala mas manteve-se calada. Afinal o que diria? Não tinha explicação. Agora só era questão de tempo até que entrassem no lugar. Verificou se ainda tinham balas no revólver e depois o apontou para sua cabeça. Não tinha outra solução, era agora ou nunca. Fechou os olhos e colocou o dedo no gatilho. Respirou fundo e no exato momento que tomou coragem a porta se abriu num estrondo. A arma caiu no susto e um grito agudo de alguém que via a cena veio logo em seguida. Encarou as pessoas na porta e não moveu mais nenhum músculo. Só saiu de sua posição quando a polícia chegou. Tentaram falar com ela mas nada respondia. Estava catatônica. Era como se não fizesse parte da movimentação a sua volta. Como se fosse mera espectadora da tragédia que tinha causado.
A tratavam muito bem para uma assassina. Em momento algum usaram a força. Pediam por favor, a algemaram com cuidado e a conduziram com calma para a viatura estacionada do lado de fora do prédio da matemática. Talvez por seu estado de choque. Talvez por seu corpo pequeno comparado ao do homem que estava no chão. Talvez por pensarem que alguém como ela só faria tal coisa em legítima defesa. Mas não. Não foi isso. Ele não levantou um dedo. Em momento algum ele mereceu. Apenas discutiram como de costume. Mas dessa vez ela perdeu o controle. Só queria que ele se calasse. Só queria que aquele inferno acabasse. Era tudo culpa dela. Não tinha como negar. Alunos e funcionários se aglomeravam na saída do prédio. Todos pareciam estar em choque e podia até ver algumas lágrimas escorrendo. Não abaixou a cabeça, mas também não olhava no rosto de ninguém. Sentou-se no banco detrás da viatura tentando não pensar muito no que fez. Até que por fim respirou fundo e sussurrou para si mesma. - Na prisão eu dou um jeito de me matar.
Byunghun nunca teve medo da morte. Não teve medo quando chegou próximo a uma overdose. Não teve medo quando foi detido pela polícia. Nem mesmo quando serviu o exército na linha de frente. Byunghun sempre viu a morte como algo inevitável, inexplicável e sempre soube que ela andava ali ao seu lado. Mas nos últimos dez anos a morte queria se fazer mais presente em sua vida.
Quando acordava junto a esposa em uma de suas crises ou quando tinha um sonho ruim ele sempre sabia que a morte estava ali ao seu lado. Ele esperava pela morte. Quando seus sonhos de morte o atormentavam ele não acordava triste por ter morrido, mas pelas circunstâncias em que morria. Mesmo com todas as brigas e desentendimentos sabia que no momento em que a esposa partisse ele não se aguentaria muito mais tempo vivo. Mas não conseguia deixar de imaginar sendo morto por ela.
O desfecho do sonho era sempre o mesmo, os dois brigravam, ela perdia o controle e ele acordava antes da bala lhe atingir o corpo ou antes da faca lhe perfurar alguma área sensível. Mas naquela noite não sonhou com morte, sonhou que estava feliz ao lado dela, que os dois tinham se entendido e estavam bem, como se tivessem viajado outra vez. Viveu aquele dia com uma enorme paz de espírito como já não vivia há muito tempo, pelo menos até a mulher chegar na sua sala.
Não soube dizer quando a briga começou e nem o porque. Não se assustou quando viu a arma e conseguiu pensar em tudo, todas as escolhas que fez. Quis pedir desculpas por tudo o que causou a ela. Quis dizer pela última vez o quanto a amava. Quis lhe dar um último beijo, mas já era tarde de mais. Se sentiu triste quando a bala atingiu o seu corpo.












