Episódio 9: Cabelos de Barba Brancos
São 2 da manhã.
O relatório da aquisição está completo e a equipa foi toda para casa. Mr. A ficará satisfeito e eu levarei mais uma palmada nas costas. Regozijo.
Olho em volta o escritório. Folhas soltas, cadeiras vazias. Estou só eu e o som do sistema de ar condicionado. Ensurdecedor…!
Sirvo-me de um whisky velho, abro a janela... Sentado no parapeito interior fico a olhar a cidade pela qual troquei a que me viu nascer. Lisboa é como uma traição. É como uma mulher mais madura, mas cheia de classe e de saber estar. As marcas que o seu corpo carrega passam-nos ao lado e, de algum modo, preenche-nos a alma com algo que mais ninguém consegue. E com um savoire faire… Ah mon dieu!
O telefone vibra. Uma mensagem: Foi um prazer auxiliar-vos nesta aquisição. N'hésitez pas à me contacter pour toute une “aide supplémentaire”. Véronique.
Era óbvio que umas aspas numa mensagem às 2 da manhã de uma quinta-feira continham muito mais significado que o que era meramente representado pela grafia. “Brad, não sejas maluco!” Dizia a mim mesmo numa de parar de congeminar uma forma de, mais uma vez, fazer alguém sentir-se “a tal” e de repente esfumar-me, enquanto sofro de “desamor”.
Ao que isto chegara... Eu já nem queria... mesmo quando estava na cara.
Véronique Figard, ou Mademoiselle Figard, consultora da sociedade de advogados que colabora connosco nas aquisições. Habitualmente trabalhávamos com o seu primo e colega Thierry, mas este encontrava-se num congresso em Munique.
Recordo o dia em que conheci Véronique. O elevador abriu-se e surge uma silhueta esguia, bela, com uma classe La Bohème, e com notas de rubi nos cabelos. Toda ela era Paris.
-“Monsieur Brad?” perguntou com um sorriso de cortar a respiração...“Oh la la” Pensei.
-“Sim, sou eu.” respondi.
-“Véronique Figard.” retorquiu enquanto me esticava a mão para que a beijasse.
-“Enchanté!” disse, à medida que os meus lábios lhe tocavam a pele macia e floral.
O trabalho que fizemos juntos demorou-se por algumas semanas, e em cada reunião, cada cruzar de corredor, eu sentia aquele sorriso a penetrar-me o peito e a rasgar-me a pele.
E hoje, às 2 da manhã, depois de concluída a colaboração, a Mademoiselle sai-se com aquela mensagem... “Que vais fazer Brad?” perguntei a mim mesmo.
Desligo as luzes, dou mais um trago no whisky e olho novamente a cidade, a minha eterna confidente. Ouço um barulho de porta. “Será ela?” pensei. Era como se as fantasias que quis proibir se tornassem de repente realidade.
-“Dr. Carrieshaw, ainda está por cá? Vinha ver se estava tudo ok. Desculpe incomodar sim?” Era o segurança do edifício.
-“Sem problema Sr. Manel. Deixe estar que eu tranco.” Velhote simpático.
A luz que ele acendera revelara o meu reflexo no vidro da janela, agora fechada, e ocultara Lisboa.
Cabelos de barba brancos... “Estás velho Brad. Só vai piorar e depois já ninguém te vai pegar...” Os pensamentos pútridos de novo. Mas a verdade é que as chances de voltar a Amar não vão aumentar ao contrário dos cabelos brancos da barba.
Desligo as luzes. Afinal Lisboa ainda lá está a ouvir-me. Bebo de penalti o que resta no copo e pego no telefone... “Ela quer-te Brad. Responde!”
Vou pra casa, vou dormir.













