m!a — to be in your shoes.
kevinbecil:
Kevin tinha que esquecer o pouco de rancor e e a tonelada de ciúmes ainda em seu âmago ao perceber que tinha algo muito errado com Zac, ele esperava que ele estivesse cego, afinal, eles realmente tinham trocado de corpos, mas Zac não dizia nada. E as palmas o tiraram de seu status quo, fazendo sua mente trabalhar como se nunca iria cansar. Zac não podia falar? Ele teve uma sensação fria em seus ossos, mesmo que estivesse vendo tudo, ele achava muito difícil aproveitar-se disso quando sua mente voltava ao amigo — mesmo que brigados.
Ele sentou do lado na cama, e não conseguiu não encarar um pouco o rosto, seu rosto, ouvia dizer que uma pessoa nunca veria seu próprio rosto como ela pode ver suas mãos e pés, e no entanto era aquilo, Kevin não podia ver no geral e lá estava ele vendo o próprio rosto. A última vez que se vira em um reflexo ele tinha dez anos e usava óculos fundo de garrafa que nunca o adiantaram de nada. Estava impressionado que ao invés de perder a gordura de bebê de seu rosto, ele havia a ganhado, mas isso dava para entender, ele tinha três refeições fartas com segurança todos os dias, e quase nunca voltava para a casa de sua mãe em Manchester, então nos últimos anos ele conhecia bem abundância nesse campo.
Suas preocupações o fizeram voltar para Zac, mesmo que ainda fosse difícil de compreender como a troca ocorreu, ele aceitara o fato bem, mas talvez isso devesse ao fato dele estar vendo pela primeira vez em mais de seis anos. Ele ainda não havia se beslicado para checar se não era um sonho. Seus sonhos também não tinham tantos detalhes assim. Ele segurou uma mão de Zac, movendo sua mão até, mostrando-o o que fazer, agora, se ele não falava, então ele tinha que achar uma forma para que Zac soubesse que Kevin o iria entender. Kevin sempre tinha um sentido a menos para depender, mas no momento Zacharias parecia ter dois. E esse era um dos maiores medos do garoto, estar tão alienado a tudo que ele só poderia existir e nada mais. Ele abriu sua palma e colocou o indicador de Zac — seu próprio indicador, na verdade, mas isso era complicado — em posição similar a quando ele e moon simplesmente não queriam usar palavras quaisquer para se comunicarem.
— Eu não sei o que aconteceu. — Ele começou, a voz quieta, como se ele não soubesse a usar, era estranho ouvir a voz de Zacharias da forma que ele ouviria dentro de sua cabeça — Nem comigo nem com você, mas eu estou aqui. E nós… — Ele se cortou, sem coragem de dizer que eles ficariam bem, não só pela incerteza de que as coisas voltariam ao seu estado anterior, mas eles não estavam bem antes, eles continuariam bem mesmo assim? — Isso tem que ser revertido.
Zacharias nunca fora uma pessoa claustrofóbica. Não tinha muitas fobias, só medos específicos, tipo de ser abandonado pelas pessoas que ele ama, ou lagostas. Estar completamente sozinho e incomunicável ali fez Zac sentir que ele fora abandonado. Por alguns minutos, ficou isolado na sua ilha de pavor, tentando conter suas mãos trêmulas. Zacharias também não chorava, ele não era muito de demonstrar emoções, e só chorava em situações extremas, como “naquele-dia-de-natal-que-não-se-deve-ser-nomeado”.
Era diferente sentir tudo no corpo de Kevin, era apavorante. Ele sempre soube que o amigo passava por situações incrivelmente difíceis sendo cego, e imaginava como é, mas até então nunca chegou a saber realmente, até agora. Saber que era aquilo que Kevin passava dia após dia fez Zacharias resignificar muita coisa em sua vida, e colocar muita coisa em perspectiva. Bom, tirando o fato de que Kevin podia falar, e falava muito. Kevin falava demais e Zacharias sempre queria prestar atenção em tudo o que saía da boca dele. Às vezes ele encarava descaradamente Kevin quando estavam conversando, se aproveitando do fato de que o outro não sabia que ele estava fazendo isso. Nunca tinha parado muito bem pra pensar no porquê, mas agora as coisas começavam a se encaixar nos seus lugares.
Sua voz, aos ouvidos de Kevin, eram uma espécie de sabor bittersweet. Sua voz parecia estranha para ele, não gostava muito de sua própria voz, mas as palavras que saíam eram de Kevin, e tudo parecia ficar melhor por isso. Quando sentiu as outras mãos tocarem nas mãos do corpo em que estava, se lembrou das cicatrizes que Kevin tinha nas mãos. Kevin não falava muito sobre aquilo, mas disse a Zac que eram fruto de tentativas vãs de cozinhar sozinho em seus primeiros dias como cego. Sentia também arranhões nos joelhos e pequenos cortes nos cotovelos. A falta de sua franja era estranha e latente, como se algo estivesse incompleto. Os seus dedos -- o corpo em que Kevin estava -- tocavam as mãos dele, e Zacharias conseguiu sentir os calos em seus dedos. Nunca achou que sentiria como era sua mão, pelo corpo de outra pessoa, mas agora conseguia. Suas mãos eram macias, mas os dedos eram ásperos por serem calejados. Por aprender a tocar violão, guitarra, a segurar penas de desenho por muito tempo. O punho era calejado por horas no luar se aperfeiçoando, tentando ser o melhor batedor que podia.
"A pena azul da minha mesa. Pergaminho.” Foi a única coisa que Zacharias disse, em código morse nas mãos de Kevin. Se tentasse falar o que queria em código morse, ficaria sem paciência ao longo do caminho, então era melhor tentar escrever. Sua sorte é que tinha uma pena autocorretora, ou seja, sua grafia ficaria legível ainda que ficasse horrenda por não conseguir ver o que escrevia.
Sentiu plumas suaves contra seus dedos um minuto depois de ouvir barulhos de coisas sendo remexidas. Contra sua outra mão estava um objeto grosso e liso, o pergaminho. Contou com a magia da pena, e começou a escrever.
“Você está no meu corpo e eu estou no seu, certo?” Não esperou uma resposta, e continuou escrevendo. “Eu não sei como ou porque isso aconteceu, mas eu não quero reverter isso ainda. Eu quero que você veja tudo o que Hogwarts pode te oferecer, eu quero que você entenda como ela é maravilhosa. Eu quero que você veja os rostos dos nossos amigos, dos nossos professores, e que você veja de perto quem você se tornou depois de anos. Eu quero que você tenha essa oportunidade única de ver, porque você nunca sabe quando você pode ter isso novamente. Eu não vou trocar de corpo com você ainda. Meu corpo não é o melhor de todos, e você pode ter alguns problemas pra andar por eu ter o dobro do seu tamanho (hehe), mas já é alguma coisa. Eu sinto muito por ter sido um imbecil com você.” A pena se arrastava furiosamente contra o pergaminho, mas ao mesmo tempo com o maior esforço possível para a letra sair legível.
Zacharias pensou em acrescentar algo no fim, uma barra lateral daria início a um “I” que nunca seria terminado, e depois se tornou uma mancha de tinta de uma pena que pousou muito tempo no mesmo lugar.














