O furor em relação à insensibilidade alheia gerava a ânsia de tornar o sangue alheio apenas tinta À cobrir o chão de mármore em que pisavam. Considerava ignorância a desempatia demonstrada pelo homem de palavras frívolas. Ao invés de causar-lhe vergonha por conta de tentar ao menos mostrar-lhe o caminho da humanidade, do que é ter uma alma, sentia-se mais como água em ebulição do que a correnteza de um riacho, que geralmente o era. Borbulhava tal qual a necessidade de fazer o mesmo com as hemácias que compunham o tecido sanguíneo alheio. Qual era a necessidade de tamanha insensibilidade? Parecia que a maioria dos alunos naqueles corredores possuía o mesmo discurso enfadonho e egoísta: não se refere à mim, portanto, pouco me importo, que se danem todos. Isso incluía, professores da estirpe do loiro que jazia a sua frente. Os olhos castanho-avermelhados pareciam perder o marrom à luz artificial do corredor, a tonalidade carmesim de suas íris tomando maior intensidade do que as nuances em tons escuros. Os lábios cheios da indiana estavam fechados, a expressão determinava toda a cólera que faziam as mãos em punhos ao lado de seu corpo tremerem. Ela nunca experienciara tamanha ira, não sabia de onde vinha aquela energia vermelha, escarlate que pintava tudo ao seu redor na mesma tonalidade. Inclusive, o alvo que estava em sua frente parecia cada vez mais desprezível. Ela jazia em silêncio enquanto ele disparava palavras que ao invés de a atingirem, eram combustível para as bolhas que pareciam sair para a superfície de seus poros. Respirava o ódio e a intolerância, algo que jamais sentira. Talvez a mesma sensação que a deusa Kali sentia ao se deparar com arrogantes ignorantes, que se recusavam a sair da zona de conforto para prestar nem mesmo um mísero auxílio à outrém.
Arranhava-lhe o espírito a hostilidade que jamais ousava demonstrar, essa substituída por palavras e uma tácita tentativa de evitar estresses como aquele. Não que Lakshmibai evitasse discutir e expor seus pensamento, muito pelo contrário. Mas ela evitava desgastar-se em situações similares a que se encontrava, sendo que poderiam ser resolvidas por outros caminhos além do deselegante confronto. No entanto, parara de escutar Pyotr em dado momento, a voz masculina trocada pelos sussurros da patrona em seu ouvido, como o sussurrar de uma brisa. Incitava-lhe a punir o homem que em sua perspectiva, ostentava indigna ignorância. Deveria fazer como a deusa mãe do universo, decapitar a cabeça daqueles que ousavam proferir torpes palavras e vestí-las como um colar ao redor de seu pescoço, ornamento tão sublime. ❝ ─ A situação, senhor professor, não diz respeito unicamente aos mortos. Esses já encontraram o fim do ciclo e irão receber o karma por eles colhido, nos braços dos deuses que regem o término de tudo. Me refiro aos que estão aqui e são negligenciados, aos quais você demonstra desprezo e pouco se importa. Talvez não acredite, mas existem pessoas além de você e suas convicções e opiniões insensíveis. Essas pessoas merecem ajuda, não palavras tão… perniciosas. Você é cego, professor Zalachenko. Cego pela própria apatia, pela própria falta de humanidade. Teria você, uma alma ou seria apenas um vaso oco feito de nada mais do que pura ignorância? ─ ❞ E naquele momento, a herdeira já havia perdido completamente a noção e a razão em suas palavras, sendo tomada pelo ímpeto de dizimar e destruir da patrona que lhe escolhera como protegida. A respiração de Laksh era pesada, os pés se aproximavam do loiro sem nenhuma gota de temor. Lakshmibai Asha Boshale, a herdeira que evitava confrontos naquela estipe, que preferia resolver problemas com diplomacia e de maneira limpa, estava prestes a conspurcar a si própria com a ira.
A cabeça da indiana enxergava apenas o líquido escarlate que corria nos vasos sanguíneos alheios. Tum-dum. Tum-dum. A cada batida do músculo cardíaco de Pyotr, sangue era bombeado para suas veias, o ritmo das hemácias e do plasma a correr-lhe pelo corpo fazia-a salivar de boca fechada, uma sensação pela primeira vez sentia. Podia tê-lo sob seu controle, podia manipular o sangue alheio que lhe preenchia órgãos e tecidos para torná-lo seu fantoche. Mas ela também podia tentar outras coisas, é claro. A morena chacoalhou as mãos, um gesto graciosos, quase um movimento de dança. As pulseiras brancas com rubis cravejados ( pareciam feitas de ossos ) bateram umas nas outras, emitindo o suave som do ritmo enquanto liberaram energia. A intenção era controlar o fluxo sanguíneo alheio, parar a fluência do líquido que ia para os membros superiores e inferiores do homem, concentrando o sangue em seu cérebro e em seu tórax. Lakshmibai nunca fizera aquilo, não fazia ideia das consequências, mas apreciava de maneira inconsciente o poder sobre o outro. Aos poucos, podia ver uma pequena linha carmesim escorrer pelas fossas nasais e pelo canal lacrimal dos olhos de Pyotr, de maneira lânguida e aprazível. ❝ ─ Você pode sentir isso? A sua negligência, a sua letargia e ignorância devem ser cortadas pela raiz, senhor. Aap shuddh hona chaahie.* ─ ❞
Com lide, obstara hostis abstrações sequentes de transmutar em orações. Fatalidades sucediam, em impressionante frequência, afinal. Já vulgares, ao fim das contas, desafortunadas situações tais em hodiernas circunstâncias, a provocar o desequilíbrio de mais comedidas criaturas. Contanto, ainda ante ciência de tal veras, era-lhe labiríntico ato o de sofrear zanga parcialmente deslindada. Eiva, afinal, não jazia plenamente em outrem por irreflexão de sentenças liberadas em pesar mas, também, em médula do ucraniano por todo explicitado dissabor. Inflamada têmpera, afinal, haveria de cargá-lo a distinguir tão diminuta afronta como quimera a exibir-lhe garras. E então, ante emissão de sentenças por alheios lábios, não tardara a reconhecer senhoria de voz e outorgar prenome àquela: a cega cólera.
Familiar compleição, aparentava demasiada cercania. E, certamente, jamais expectada ou ansiada. Ou de fato cógnita. Com suaves movimentos, como em despreocupado baile, Lakshmibai, em todo seu demoníaco esplendor. Deslumbrante, tal qual o chamas hão de ser: observáveis, idolatráveis, porém, desde distância, visto que mínimo contato há de desatar catástrofe e dolor. Confuso. Subitamente, ruídos dos objetos entrechocados a preencher atmosfera soaram-lhe demasiado estridentes, demasiado invasivos, como se próprio oxigênio terminasse cambiado por vias de proceder aquele. Ansiava por um cigarro, ansiava por efêmera calmaria outorgada por tal. Houvera, porém, de contentar-se com incessante profunda inspiração, o cargado ar a preencher-lhe pulmões e apaziguar abrasantes modos. E, então, o rubro plasma a macular epiderme, não vago em azáfama ao deixar seu traço. Ominoso. E o dolor, não frágil... Ainda que não equiparável à intensidade de voracidade a acometer-lhe médula perpetuamente, isenta a presente física injúria da ferocidade daquela já feita à usança. Certamente, haveria de ver-se envolto por terror não calculável, próprio vital elixir a ver-se verter por influência de outrem, contra gana de próprias estruturas. Contudo, sorrira. Tola, parva garota. Inepta. A catenária contorcera lábios, a crudez de insano sorriso, todo um rostro a ver-se primorosamente esculpido em aprazível desdém, cada traço, porém, ensombrecido por anseio, sede. E tragara risota de virgem escárnio, o ápice do dissabor nutrido por outrem vendo-se oprimido em fauces, jamais logrando o desertar de entranhas. Não era a primeira vez, afinal, que Pyotr Zalachenko vertia lágrimas de próprio sangue. ❝Bela prédica. Tão vaga, porém, quanto tua intragável moralidade. Vocábulos jamais hão de ser úteis. Sentenças não hão de outorgar real amparo aos vivos, cuja dor há de provar-se sufocante, cargando-os à intolerância de tua escusável e plástica piedade. Me tratas com dissabor, condenas minha apatia, teu julgamento tão agressivo ao analisar-me e rotular-me desumano. Saiba, pois, que dentre animais, os políticos, os humanos... Estes hão de ser os piores. E vos digo, também, que tua arbitragem me enoja. Não me conheces. E garanto-lhe, que bem compreendo o que é o passamento, alteza. Bem compreendo o dolor, a perda. E por isto, prefiro evitá-los quando à mim não incumbem. Porém, hei de ceder: em algo acertaste, ainda que atrelada sejas a tão estulta visão. Daquilo que convém à alma, isento sou.❞
E então, sombra aquela a cernir-se por sobre o ucraniano. Abraçando-o, velando-o. Tomando para si toda compleição, todo âmago, todo ser. Tudo abscôndito sobre aquele, abraçado. Percebia cada primal tenção a correr-lhe por psique, cada traço de brutal gana. E percebia sua não-alma, a negra criatura de orbes tão escuros quanto pelagem, por fim, a reagir, silenciosa. A retesar musculatura, a mostrar presas em ameaça. A exibir tão rubras lágrimas quanto as de humana contraparte. Único ente, dois corpos. E ambos a esquadrinhar a indiana. Vê-la, ali, insolente, sobreposta por breu de ira, a outorgar-lhe escarnoso encaro, o jocoso perpetrar nítido dissabor e vaga moralidade. Como se o tomasse por chiste. Ambos punhos cerrados em fúria, gatázios a romper carne e tomar dali, também o sangue. Grunhido, animalesco, enfuriado a brotar-lhe de fauces. Como possuía atrevimento tal? Quem diabos era aquela, afinal, para plantar-lhe veredicto? Para outorgar-lhe asqueado encaro, como se isenta de eivas, banhada pelo orgulho dos cegos em vítreo pedestal? Hás de cair, deusa de pedra.
Podia ver-se. Distorcido próprio rostro, veia já pulsante em fronte à explicitar sanha. Ruído brutal, célere, a acolitar firmes passadas. Borraria-lhe catenária de face. Por eternidade. Fugaz, afinal. E gatázios por modo de armas guiadas àquela que jamais haveria considerado lastimar. Até então. Sonido fora abrandado por carne gazofilada. E o apartar de mãos desvelara-a em desgarro. Contudo, singular golpe não haveria de auferir suficiência. Lançara-se contra outrem como em fatal mergulho. Sestra a atrapar costelas, espaldas, estômago. Sequer outorgava precaução às frações, jamais atado a específico branco. Cada um dos gestos, vagos de maviosidade, omissos segundos pensamentos, ausente o pungimento. E a carne, lacerada. Não ansiava apenas por lastimar, ferir. Necessitava aquilo, o saciar de paisagem. E, ao assistir mulher a desfalecer, acometido por brutalidade, tampouco auferira controle. Haveria de honrar espólio, por vias de consumi-lo, plenamente. De modo ou outro, o faria. Tencionava descerrar-lhe peito, premer ainda pulsante coração. Esquadrinhá-la em tormento, extirpar-lhe lágrimas. E, por fim, observar olhos aqueles questionando: “como se sente, a noção de tua própria insignificância?”. Como livros de sangue, todos, afinal: vermelhos, quando abertos.Em concentração, atraíra o obscuro. E estavam, então, em desertado túnel onde, já há anos, uma lâmina adentra-lhe espadas, regalando-lhe larga cicatriz. Túnel já feito ao desuso por mortais, porém, atrelado à psique do homem. Túnel que convertera-se à interna paisagem. Interna paisagem faminta, ansiante por alma. Consumiria Lakshmibai. Alimentaria própria psique. Sanaria próprio corpo. Ante perspectiva tal, precatara-se do esvair de abstrações. Não a havia desgarrado. Não a havia cargado à paisagem. Ainda estava ali, defronte à alteza, estagnado e a padecer inefetiva tortura. Inspirara profundamente, esquadrinhando-a. Por fim, novamente, esboçando gelidez. ❝Estou a sentir, de fato. Contudo, não há em teu tão precioso teatro a real lição. Não há em minha cerne, pois, qualquer dos traços que alegas. Não sou, afinal, um simulacro, composto apenas por epiderme e vago âmago, uma cerne oca. Padecimento, portanto, não jaz na punição que perpetras, pois minhas eivas jamais cessam em ser expiadas. O que fazes agora, pois, é apenas adiantar-me o castigo de meu próprio corpo, que jamais cessa em acometer-me. Não tens mais vaga ideia do que acabas de desencadear, caríssima. Explane-me, por obséquio: o que há de suceder se por teu deslize, terminas por custar-me vida?❞ Interpelara, ágrio, ainda a ignorar aflição em vasos, o sangue a ver-se derramado por mera gana de outrem. Destra fora erigida ao rostro, cruzando tez e apartando o líquido vermelho de orbes, apenas para estudar o mesmo. Por primeira vez, o decair provocado. A fome, acelerada. A deterioração, com aquela. Quanto tempo, então, até que outro encontrasse findar por mãos aquelas, impassíveis de compor que não tragédias?