Os contadores de histórias
Desde antes de eu nascer, bem antes, já era proibido inventar histórias. Me lembro de, muito pequena, estar sentada aos pés de minha avó mexendo com minhas pequenas mãozinhas em seu vestido estampado. Ela encarava o vazio, com seus olhos azuis e opacos da cegueira, e eu implorava: “Vovó, conta uma história?” Ela sempre suspirava e mexia nas minhas tranças. Depois num tom amargurado dizia que poderia me contar todas as histórias de quando era uma garotinha como eu, as histórias de sua avó e ainda as histórias da avó da avó dela, mas não podia inventar uma história para me contar.
Porque histórias inventadas eram histórias de mentira, e era proibido mentir.
Eu sabia, mas pedia mesmo assim.
Sei que houve uma época em que histórias inventadas eram contadas desde o berço. Sei que eram chamadas de contos de fadas e sei que eram sobre magia, animais fantásticos, pessoas que voavam e falavam com pássaros, crianças que entravam na floresta e passavam pelas aventuras mais incríveis. Também sei que várias pessoas viviam de inventar histórias, muitas e muitas delas, e as escreviam em livros que eram vendidos no mundo todo. Hoje só temos livros biográficos, didáticos ou científicos. Podemos aprender coisas com os livros, mas isso é tudo. A ficção foi proibida.
Minha bisavó era escritora, muito tempo atrás. Minha família mantém um exemplar de cada livro dela. Alguns deveriam ser parte de uma coleção vendida sempre junta, mas o perigo da proibição nos fez preservar qualquer um que fosse possível, independente da edição, cor da capa ou tipo de papel. O que importava eram as letras guardadas lá dentro. Todos em casa falam sobre ela, por isso eu sei. Ela escrevia contos de fantasia e os publicava para que todas as pessoas do mundo lessem. Chegou a ficar famosa. Seu nome era citado em diversos trabalhos acadêmicos e usado como referência no mundo da literatura. Ela vivia de inventar histórias e contava todas elas para sua filha. A filha dela era minha avó, que hoje é velha e cega e não pode me contar essas mesmas histórias. Ela tem medo, eu sei, de que eu conte para minhas amigas e que as histórias corram até alguém denunciar. É proibido.
Eu sempre soube desses livros, mas nunca fui autorizada a lê-los. Não ainda. Só poderei abri-los quando completar quinze anos. É essa a regra. Sou a primeira que nasce na família depois da proibição da ficção, é preciso ter cautela. Minha avó e minha mãe podiam carregar os livros consigo pela rua sem medo, mas eu não posso nem ouvir histórias antes de dormir como dizem que se fazia antigamente com crianças pequenas; histórias de ninar.
Desde a proibição da ficção, muitos cinemas fecharam. Tem um abandonado bem na frente da minha escola. Minha mãe diz que no início não era proibido inventar histórias através da sétima arte, mas quando a literatura passou a ser controlada muitos escritores e poetas trocaram suas canetas por câmeras. Isso rendeu um boom de filmes que escondiam críticas à censura. O governo deu-se conta então de que absolutamente todo e qualquer tipo de ficção, não apenas a literária, era perigosa. Prenderam muitos escritores-roteiristas-diretores nessa época. Não tiveram o mesmo problema com os teatros; quando a lei entrou em vigor, a primeira coisa que fizeram foi fechar a maioria deles. Hoje só se pode dramatizar eventos históricos. Você não acreditaria na quantidade de peças sobre o Antigo Egito que já assisti.
Meu avô se matou nessa época. Não cheguei a conhecê-lo, minha mãe era menina ainda. Ele era dramaturgo e professor de teatro. Minha avó diz que ele não suportou a ideia de jamais encenar O Sonho de Uma Noite de Verão com seus alunos novamente.
Todo o passado que jamais vi flutua em volta de mim e nada posso fazer a não ser esperar para ler, em segredo, as histórias que realmente queria estar aprendendo.
Completo quinze anos amanhã. Terei acesso aos livros de minha bisavó e lerei cada letrinha de cada um deles, absorvendo todas aquelas histórias para sempre.
O que será feito de mim depois?
Vou me matar, como meu avô, num luto irrefreável pela morte da imaginação?
Vou me trancar na cegueira e na tristeza, como minha avó, chorando sempre porque não posso contar as histórias que guardo dentro de mim?
Vou tentar seguir a vida como minha mãe, tentando manter de pé essa família mutilada e mal vista aos olhos da lei, com um longo histórico de crimes?
Gostaria de ser como minha bisavó.
Gostaria de ser escritora.
Qual é a pior coisa que pode acontecer, afinal, se eu despretensiosamente encostar minha caneta no papel?
Talita Emrich, dezembro de 2018