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entre taças e silêncios
uma reflexão sobre ilusões passageiras, desejos ocultos e a busca pela própria essência em meio ao peso da existência.
sou como um vinho raro, suave ao paladar, um mistério em cada taça, um convite a pensar. quanto mais me descubro, mais fundo eu vou, entre sabores e silêncios, entre o que fui e o que sou.
cada gole revela um pedaço escondido, um fragmento do tempo, um sonho perdido. a dopamina sussurra promessas de luz, mostra caminhos secretos que a alma conduz.
por alguns instantes esqueço o peso do mundo, as dores profundas, o vazio mais fundo. sinto aquilo que escondo, aquilo que nego, as partes de mim que mantenho em segredo.
um sorriso discreto, uma paz passageira, uma fuga pequena da vida inteira. busco nas taças aquilo que não encontrei, uma resposta às perguntas que nunca revelei.
na segunda taça surge uma nova visão, um pouco de coragem, uma falsa redenção. parece que posso amar, tentar e vencer, como se o impossível pudesse acontecer.
acredito por um momento que posso moldar, que a vida é um caminho que posso transformar. seguro o telefone, penso em escrever, mas deixo o silêncio escolher o que dizer.
mesmo com o vinho correndo em minhas veias, não entrego ao impulso as minhas ideias. alguns precisam da bebida para se revelar, eu encontro minhas palavras quando escolho falar.
se um dia eu envio, não é por acaso, é depois da certeza, depois do compasso. minha voz não depende de um instante qualquer, eu digo o que sinto quando sei o que é.
mas quando a ilusão lentamente se desfaz, o vazio retorna, trazendo o que jaz. a taça se esvazia, o encanto se encerra, e a realidade novamente me espera.
um passado distante atravessa o presente, feito uma lembrança que insiste em estar ausente. ecos no peito, histórias sem fim, pedaços de alguém que ainda vivem em mim.
sou vinho e sou taça, sou tempo e memória, sou queda e recomeço, sou parte da história. sou a busca constante por algo real, um sentido perdido no caminho final.
e talvez a essência que tanto procuro, não esteja no vinho, nem no passado escuro. talvez esteja no instante em que eu percebo, que sou minha própria taça, meu próprio segredo.
O céu estava claro naquela tarde fresca de sábado. O sol brilhava no alto, aquecendo a qualquer um que estivesse ao seu alcance com um calor reconfortante, trazendo uma sensação de aconchego que só era reforçada pela brisa leve que surgia de vez em quando.
O parque naquele dia estava relativamente cheio, famílias de todas as formas aproveitaram o calor repentino no meio do frio de julho para curtir um pouco de ar livre. E, exatamente por isso, a mulher se encontrava sentada em um dos muitos bancos daquele lugar. Não aguentava mais ficar em casa, sentia que a qualquer momento poderia explodir, fosse de estresse ou tristeza, o que viesse primeiro.
Saiu tão repentinamente que sequer havia avisado alguém da família, mas não se arrependia. Caso tivesse comentado, certamente não lhe dariam a paz que tanto procurava, chamando-a a cada minuto por qualquer coisa diferente que fosse. Sentia-se exausta, desanimada com tudo ao seu redor, mas continuava seguindo em frente, pois tinha responsabilidades a cumprir.
Porém, seu coração doía ─ e provavelmente era o maior responsável por todo o desconforto que a mulher sentia ─ e ela não sabia o que fazer para que se distraísse e esquecesse o que sentia.
A dor da mentira estava esmagando o seu interior. Tinha dias que não dormia direito, rolando de um lado para o outro na cama, pensando incansavelmente, tentando entender o que estava acontecendo, como se deixara levar de novo por aquelas doces palavras que escorriam como veneno daqueles lábios que sempre lhe foram tão bonitos e graciosos. Havia dias que ela sequer tinha forças para se levantar da cama, sentindo tudo girar e girar e girar, sem pausa, sem pena. Nestes dias, era especialmente difícil não chorar. A dor lhe consumia de tal forma que até sua respiração era sofrida.
Mas, ao contrário do que as pessoas ao seu redor pensavam, ela não estava superando nem nada parecido. Muito pelo contrário, ela estava apenas se tornando cada vez mais anestesiada ─ a tal ponto que não tinha muita diferença entre o estupor e o vazio, tudo era igual e indiferente.
Sentada ali, naquele banco de parque, a dor da desilusão bateu de novo e ela não pôde reprimir seu choro silencioso ─ não haviam mais forças para soluçar alto ou emitir qualquer outro barulho, apenas deixar as lágrimas escorrerem era o suficiente para lhe drenar todas as suas energias.
A mulher ficou desse jeito por um longo tempo, sem se importar se alguém a notaria ou não ─ mesmo sabendo que, no máximo, olhariam pra ela de forma estranha e seguiriam com suas vidas. Mas sentiu-se surpresa quando uma pequena mãozinha lhe puxou a barra do vestido florido que usava, atraindo o olhar que antes era fixo nas árvores para baixo.
"O que você tanto olha moça?" uma voz fininha e infantil se dirigiu à ela, que ficou atônita e procurou ao redor o responsável da criança, esperando encontrá-lo e se certificar de que a pergunta não havia sido para ela. Mas bastou um breve olhar para entender que era consigo que a pequena criança estava falando.
"Eu.... eu não sei... cadê seus pais?" a sua voz soou trêmula e triste aos ouvidos da pequena menina, que apenas ignorou a pergunta feita, como se isso não tivesse importância alguma, e se sentou ao lado da mulher.
"Sabe, meu pai sempre diz que aqui tem muitas borboletas moça, mas eu nunca vi. Você também ta procurando as borboletas?"
"Ahn eu não sabia que aqui tinham borboletas, desculpa" a mulher apenas se desculpou com a menina , buscando uma forma de encerrar a conversa que sequer era pra ter começado. A pequena apenas soltou um muxoxo, como quem estava desapontada com a resposta, pois esperava mais informações da mulher ao seu lado.
"Onde você acha que elas estão moça? Minha irmã falou que elas estão dentro da nossa barriga, mas eu não quero comer borboleta!" a expressão da menina era, de certa forma, engraçada para a mulher. Transmitia uma pureza que apenas crianças são capazes de ter.
"Eu não acho que a gente tem que comer a borboleta" a menina voltou a falar , mas com uma voz mais baixa "Se não ela morre... Eu só quero olhar pra ela...."
A mulher, no entanto, ficou em silêncio, sem saber o que dizer pra menina. Se haviam borboletas no estômago, todas as suas morreram fazia tempos.
"Sabe moça, eu acho que a borboleta só se cansou de ficar aqui, voando e voando sempre pras mesmas pessoas e foi embora, por isso eu nunca vi nenhumazinha!
"Porque você diz isso?" a voz da mulher soou casada, mesmo após um longo momento de silêncio.
"Não sei, eu só-"
De repente uma voz de mulher, mas dessa vez adulta, surgiu, cortando a fala da menininha "Violeta! Finalmente te achei! Eu e seu pai estamos te procurando tem um tempão! Onde você se meteu?" foi só então que a mãe da criança pareceu perceber a mulher sentada ali, "Ai desculpa o incômodo viu? Vem filha, vamos encontrar seu pai" e saiu puxando a menina pela mão, que acenou com a outra.
A mulher ainda ficou um bom tempo sentada no banco depois que a menininha foi embora, mas tudo estava estranhamente mais suportável. O que ela ouviu ficou dando voltas em sua cabeça, e até lhe trouxe um pouco de paz.
Ao partir, ela teve a certeza de que tudo ficaria bem, ela só precisava ter paciência pois, assim como as borboletas, ela não tinha morrido.
Mari.
Eram duas da manhã de um dia de semana qualquer. Tinham sido dias frios aqueles últimos. Congelantes, na verdade. A estação invernal estava encontrando o seu auge, então tudo o que a menina sabia sentir era frio, daqueles bem gelados, que queimam os lábios e ressecam a pele do rosto.
Se bem que havia muito tempo que a menina não sentia calor, a reflexão surgiu suavemente, no fundo dos seus pensamentos. Nos últimos meses, a sua vida tinha virado de cabeça para baixo, era como se um furacão tivesse passado por ela e levado absolutamente tudo o que ela acreditava ser firme pra bem longe. Ou um tsunami. O que for mais forte. A menina via graça quando as pessoas dizem que estão no olho do furacão quando a vida delas ta um caos porque, ela sabia, que o centro é justamente o lugar mais seguro para se estar. Todos dizem como se fosse algo ruim, mas, veja bem, se você está no lugar mais seguro, existe um momento para reflexão, para acolhimento, para cura, ainda que as coisas estejam girando descontroladamente ao seu redor. Mas você está em paz, existe o medo, claro. Mas você pode alcançar a estabilidade em buscar uma saída.
Falando no olho do furacão, a moça invejou aqueles que conseguiam alcançar esse lugar. Porque, ela mesma, se sentia girando e girando e girando sem parar. Aliás, não só ela, mas tudo o que ela acreditou, tudo o que ela amou e se esforçou pra construir. Tudo estava girando descontroladamente com o furacão que a sua vida tinha se tornado.
E, nos míseros segundos em que ela conseguia olhar pra fora, tentando enxergar ao redor de si, tudo o que ela via era um rastro de destruição e desolação. Não havia mais nada de pé. Não havia sequer uma sombra para se esconder quando, enfim, a chuva a alcançasse e o furacão fosse embora. Porque é sempre assim. Primeiro o furacão. Depois a chuva. E por último, raios de Sol.
Foram poucos os momentos de Sol ao longo de sua vida, mas a menina é teimosa e corre todos os dias, tentando alcançar esses mesmos fugazes raios solares. Mas, mais que o Sol, o brilho lunar - seja o radiante durante a noite ou o discreto durante o dia - sempre foi o objeto de admiração da menina. Contraditório não? Veja bem, caro leitor, todos os dias a nossa menina levanta, tentando encontrar raios solares. Pode-se dizer que é quase uma obsessão. Mas, por muito tempo - uma quantidade bem maior do que o esperado ou recomendado - tudo o que houve como resposta era a escuridão noturna e, veja só, o único corpo celeste que ilumina, de alguma forma, é a Lua. Então, por muito tempo, tudo o que houve em sua vida para iluminar e guiar, foi a Lua - é compreensível então que este mesmo corpo celeste seja o objeto de fascínio da nossa protagonista, certo? Quando não havia nada, nem pessoas ou formas, ainda assim, o brilho lunar se fazia presente. A única constância no meio do desamparo eternamente noturno.
Mas quando se está girando e girando e girando e girando e girando e girando, não há Sol. Muito menos Lua.
Tudo o que existe é o grande enjoo que vem, a desilusão de acreditar que, em algum momento, esse ciclo vai acabar.
A dor de olhar ao redor e perceber que nem mesmo a Lua, sua eterna companhia, se safou da vertigem que o furacão trouxe dessa vez. Tudo fica tão tão confuso e bagunçado. Borrado.
Os limites de repente não fazem mais sentido e, tudo o que se era conhecido, se torna um grande breu, arrastando a menina para um grande vazio, onde tudo parece estar suspenso, parado no tempo e, mesmo assim, em constante mudança.
E então, tudo o que ela pode fazer é esperar.
Não sentada, porque não há lugar para sentar. Tampouco em pé, pois também não há chão para se apoiar. A espera acontece enquanto ela gira, tentando sobreviver a todo custo. Desejando o brilho lunar como consolo, já que o solar parece simplesmente inalcançável agora. Agarrando o restinho de fé que há em si, que há para acreditar na melhora, que esse mesmo brilho solar inalcançável, um dia, há de chegar para si também. Tudo o que resta é esperar. Ainda que girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando girando sem parar.
Mari.
CUIDADO: FRÁGIL
Poderia dizer mil coisas sobre tudo o que passa pela minha cabeça.
Poderia chorar por todas as situações que me atravessam. E, convenhamos, eu sou boa nisso. Chorar sempre foi um idioma que conheci bem.
Mas, ao mesmo tempo, gosto da ideia de seguir em frente carregando tudo comigo, como um jogador de futebol americano que corre segurando a bola contra o peito antes do touchdown.
Talvez porque ser "forte", mesmo sendo profundamente "frágil", tenha sido a única coisa que aprendi a fazer.
E a verdade da minha vida é essa:
Sou uma caixa de papelão com um enorme "CUIDADO: FRÁGIL" estampado por fora.
Mas como a embalagem parecia intacta, impecável até, todo mundo acreditou que o conteúdo também estava.
Não estava.
Só restaram cacos.
E quando eles se movem, cortam. Quando cortam, rasgam o peito.
Então eu grito.
Às vezes em uma folha qualquer.
Às vezes em uma página qualquer.
Às vezes em palavras que ninguém vai ler.
#Viih_Vilagelim#
Mas grito.
Porque é a única forma que encontrei de não me afogar em silêncio.
E, despida de todas as versões que inventei para sobreviver, essa sou eu:
Os cacos.
A fragilidade.
E a coragem de continuar carregando tudo isso mesmo assim.
Urgência crônica
Nunca soube onde as coisas começam.
Mas sempre soube direitinho onde ficava o fim.
Talvez seja por isso que tudo o que começa sem que eu perceba me faça correr atrás do desfecho. Incansavelmente.
Mesmo sabendo, em algum lugar dentro de mim, que eu deveria esperar a conclusão do percurso sem tentar apressá-lo.
Mas existe o medo.
Não um medo covarde.
É o medo de quem protege uma cicatriz porque ainda se lembra da dor da lesão.
Embora, pensando bem, não seja uma cicatriz.
Ainda é uma ferida recente.
E dói.
Dói mesmo.
Mas não é sobre isso.
Acho que estou cansada há tanto tempo que já nem sei dizer quando tudo começou. Só sei que esse fim é o que mais almejo.
E não, isso não é uma carta de despedida.
Também não é minha severa falta de vitaminas, apesar de eu gostar de brincar com essa possibilidade.
Não.
É sobre tudo o que me trouxe até aqui.
Sobre todas as minhas contradições orbitando o mesmo lugar.
Eu me arrependo de tudo o que poderia ter feito diferente, mas, ao mesmo tempo, não me arrependo.
Porque admiro a minha própria coragem de viver sem amarras.
Em contrapartida, colho os frutos amargos do que plantei nessa urgência crônica que habita em mim.
Talvez esse seja o preço da liberdade:
carregar, ao mesmo tempo, o orgulho das escolhas e o peso das consequências.
E talvez o mais cansativo não seja o peso.
Talvez seja continuar carregando tudo enquanto finjo que ainda não estou exausta.
#Viih_vilagelim#