Oxe, deixa! Deixa eu dizer O que penso dessa vida Preciso demais Desabafar
Creio que tudo é uma balança. Existe aquela dos aspectos “bons e ruins” e existe outra de estar “bom ou ruim” como um todo e tá muito longe de estar bem a nossa situação. A segunda balança é mera consequência da primeira, considerando que nunca vamos saber exatamente de tudo. Vivo no país em que grande parte do que eu vejo nas ruas enquanto pego um ônibus do meu bairro até o centro da cidade, me assusta. E traz um pesar enorme quando percebo que nada disso era pra ser assim. Por muitos fui taxada de “revoltada” e fico surpresa quando percebo que eles não são. Milhares de anos de vida no planeta e eu me pego questionando quando será que a raça humana se corrompeu como um todo? Desistiu, lavou suas mãos e deixou que a sistematização reinasse em nosso lugar. Quando a inocência dos adultos morreu? Quando perdemos a empatia semelhante que faz parte do instinto natural mais intrínseco do ser? De onde surgiu a prepotência de se elevar perante outros seres? De se colocar em poder de controle sob o que não nos pertence? Quando nos colocamos no direito de pré determinar valores baseado-se em aspectos naturais e irreversíveis do indivíduo? Quem foi que enxergou oportunismo na inocência? Por que transformamos a inteligência concedida em técnicas de tortura? Por que fomos capazes de acreditar que guerra traria conquista? Que mortes levariam à vitória e o consentimento resignado à lição? Quem deu número pro valor? Quem deu nome pro tempo? Quais eram as reais intenções e no que elas se transformaram? Quem transformou o conceito de poder em doutrinação? Porque desde que os líderes se tornaram senhores, foram erguidas as primeiras cercas desse curral. Cercas ingratas, injustas que consistem em aspectos internamente mentais. Mas talvez, arrisco dizer que esse é o Karma da nossa humanidade, como um Samsara universal de todos os seres componentes desse planeta que conhecemos como Terra. Talvez já esteja escrito o que apenas a percepção sensorial é capaz de compreender e a elevada inteligência humana não nos permite ler. Pois a lei da desconstrução aplicada em nós é a mesma verdade presente no todo. Talvez toda a sujeira faça parte do processo de descontaminação. Talvez seja nesse processo de desconstruir o que foi tido verdade absoluta para nos conhecermos criadores, que nos trará todas as percepções necessárias ainda não alcançadas. Por não serem possíveis, por não fazerem parte da demanda necessária do Universo que nos entorna. Talvez existirá um mundo onde não existam cercas. Talvez nesse mundo, as casas não sejam rodeadas por muros. Talvez se possa andar nas ruas sem temer, independente da hora. Talvez nem contem o tempo. Talvez não tenhamos que acordar todos os dias e deparar com a velha descoberta de se perceber inserido e aceitá-la. Aceitar que a percepção não muda o fato de que deixaremos nossos frutos dentro do mesmo perímetro desmerecido.
Ainda me pego questionando quando foi que a humanidade adormeceu. Como aconteceu todo esse processo de aceitar o que lhe é dado como verdade e quando enfim acorda, percebe que não tem mais saída. Talvez tenha sido quando aprisionaram os primeiros escravos. Ou talvez quando a inocência dos adultos morreu. Talvez tenha sido aí que nasceu o primeiro humano a entrar em estado automático. De tanta dor não morreu, mas adormeceu por dentro. Talvez este momento tenha sido a deixa necessária, a isca mordida que se transformaria no oportunismo de inocentes adormecidos. Então criaram muros para as cercas, novas bases de controle para os automatizados. Perceberam que pra controlar as marionetes, teriam que erradicar os Pinóquios. Perceberam que pra cordas funcionarem sozinhas, a ignorância é o melhor combustível. Daí inicia a ocultação de verdades, repressão de instintos, depredação de sensibilidades. A mente adormecida continuaria por obedecer ordens de bom grado, porque lhes é mor(t)almente imposto, porque não lhes contaram a verdade. A mente adormecida consegue obedecer resignada porque nunca procurou realmente por uma saída, por sequer acreditar que ela existiu um dia. Porque deixou de perceber que existia um conflito. Até que nos encontramos hoje em currais civilizados. Presos por perímetros, controlados, divididos, classificados, submetidos, viciados em distração. Felizes que não encontram na felicidade plenitude, vivos que dependem pra respirar.
Talvez consista nessa ascensão unificada o despertar pra nossa realidade natural. Pois eu percebo a existência de uma luz forte e imperceptível por trás da cena. Tal luz que com viseiras tentam ofuscar da nossa visão. A tal verdade que eles escondem, porque casa grande surta quando a senzala aprende a ler. Porque o que primordialmente nos falta, é nos realizarmos como seres aqui presentes, então percebendo o ser Todo à nossa volta, para que a empatia instintiva brote naturalmente. O respeito nasce do momento em que nos percebemos semelhantes, acima de todas as diversidades. Permanece na compreensão empática e se consolida em sua prática. Falta nosso despertar de cada dia. Falta sermos menos máquinas programadas controlando outras máquinas digitais. Falta olharmos pra cima e supor o céu, medindo as possibilidades pela infinidade do caminho desconhecido acima. Olhar mais pra dentro e menos pra futilidade da carcaça. Falta uma conscientização, uma ideia passada adiante, por mais sutil que seja. Falta trabalharmos nosso precioso conhecimento em prol da cura pra nossa casa que grita por socorro. Falta olhar pra si mesmo sentindo o mundo a sua volta e se realizar criador. Entender que não se classifica certo e errado, mas se respeita a verdade que cada um toma pra si. Falta enxergar todos os dias a realidade crua na qual nos encontramos e sair deste maldito automático que insiste em repetir que não temos saída! Pois eu digo que se não temos saída, criemos portas. Elas me levam a caminhos que dizem não ser possível mudar todo mundo, mas moldar o mundo à minha volta. A mudança tem poder no entorno, quando nasce em nós. A luz só precisa de uma centelha...